
Por Filipe Vilicic
Um dos grandes perigos de fumar um prensado é não saber o que tem nele e há motivos para esse receio. Por exemplo, ao analisar sete quilos de prensado, um estudo da Universidade de Brasília constatou 52 fragmentos de inseto. Com flores ilegais, todavia, é o mesmo: como ter certeza do que se está consumindo se não há fiscalização, controle de qualidade… se não é legalizado? Mas então isso quer dizer que se eu comprar um produto de cannabis medicinal, ou qualquer tipo de maconha em estados dos EUA onde se liberou, aí saberei bem o que estou consumindo? Entrar em um dispensário legal parece mesmo dar esse alívio, afinal nas embalagens de gummies, flores, óleos e todos os outros derivados, está lá a porcentagem de THC, de CBD e de tudo mais na fórmula daquela planta específica. Agora vem a notícia ruim: um estudo norte-americano acaba de constatar que nem quando é legalizado podemos confiar tanto assim.
Quando se pega da prateleira um saquinho de gomas canábicas na Califórnia, constará algo como “70% de THC”. Numa flor, o mesmo, girando aí nos 20% no mercado legalizado dos EUA. Entretanto, uma pesquisa publicada em julho pela Universidade do Colorado em Boulder sugere, primeiro, que raramente será 100% preciso o que está na embalagem, e por isso os estados legalizados dos EUA costumam colocar aí um limite de variação de até 15%. Mas mesmo com essa gordurinha no cálculo, boa parte das flores e alguns dos concentrados não cumprem a regra.
Para o experimento, os cientistas contaram com o trabalho de uma empresa que faz essas medições, a MedPharm. Ao todo foram analisados 277 produtos de 52 lojas do Colorado, estado conhecido como um dos que melhor fazem esse tipo de controle. Na amostra havia 178 flores (aqui valem as soltas ou já vendidas em baseados pré-bolados) e 99 concentrados, incluindo de tudo, de hash marroquino a líquidos e balinhas de açúcar (com ganja, claro).
Os resultados trouxeram preocupações. Com os concentrados, o erro é até ok, pois quase todos, 96%, eram certeiros ou estavam dentro do limite de 15% de erro. Mesmo assim, quer dizer que 4% enganam os consumidores, o que não é pouco em um mercado, como o dos EUA, que gira em torno de 10 bilhões de dólares desses produtos ao ano – ou seja, são algo como 500 milhões de dólares em itens vendidos com a informação incorreta no rótulo. Agora, quando falamos em flores, o cenário piora.
Algo como metade das flores soltas ou pré-boladas falharam em corresponder às expectativas da embalagem. Dos 178 materiais do tipo analisado, 54 continham menos THC do que era esperado, enquanto outros 23 vinham com mais do que comercializavam oficialmente.
Erram ou mentem na embalagem?
O estudo apresenta os fatos, só que não estipula as razões. Mas o psicólogo Jonny Lisano, um dos autores do estudo e professor na universidade de Boulder, nos ajuda a entender: “Atualmente, o principal impulsionador das vendas de cannabis são os produtos com altas concentrações de THC. Quanto maior o teor de THC, maior a demanda dos consumidores e mais eles estão dispostos a pagar. Em suma: Mais THC = Mais lucro”.
Segundo nos conta o cientista, as imprecisões podem ter alguns motivos. Começa tudo na lavoura, onde se desconfia que são selecionados os buds das porções mais altas da planta para o envio para os testes de laboratório. Qual é o problema? Esses buds costumam conter mais THC do que o restante da flor, sendo assim, não representam o que você encontrará nas gôndolas. E tem mais nessa malandragem, pois há laboratórios com reputação de relatarem resultados de THC altos, em comparação com outros (e isso quando analisam o mesmo exemplar). “Cultivadores que buscam inflacionar a potência de seu THC chegam a enviar suas amostras para esses laboratórios para obterem resultados ‘melhores’”, avalia Lisano. Por “melhores” entenda também “mais lucrativos”.
São indícios claros de que há manipulação do mercado para fazer os consumidores comprarem mais. O problema? Gostosa ou não, maconha é uma droga, usada tanto de forma recreativa e ritualística, como para fins medicinais. Então, imagine duas situações.
A primeira delas é você e seus amigos e amigas comprando uns becks para relaxar e se divertir, e aí podem ser sorteados com uns cujas etiquetas não correspondem ao que trazem consigo. Num caso, pode ser que o nível de THC seja menor do que o esperado, o que seria, nesse caso, um baita de um desrespeito (para dizer o mínimo) com o consumidor em busca de sua brisa perfeita. Agora, há outra alternativa, constatada em 13% das flores: que bata mais forte do que o esperado.
“Aqueles que buscam o uso recreativo podem ficar super intoxicados e ter uma má experiência com o produto rotulado incorretamente”, comenta o psicólogo. “E se uma pessoa usa um produto com um teor de THC maior do que imaginava, isso pode significar uma maior probabilidade de desenvolver maus hábitos ou se tornar dependente da cannabis”.
O cenário se agrava quando se constata que a potência da maconha vem aumentando constantemente desde 1975. O governo norte-americano conduz um programa que todos os anos colhe flores de maconha pelo país, seja qual for a origem, e avalia quimicamente, com o auxílio de pesquisadores da Universidade do Mississippi, o quão forte é cada exemplar. Enquanto em 1975 se fumava uma ganja com algo entre 1% e 2% de THC, hoje em dia a média passa dos 15%. Já falamos aqui na Breeza dos riscos das altas doses de THC, assim como de como pode bater bem ruim para algumas pessoas.
O problema da desinformação nas embalagens se agrava ainda mais quando o fim do uso não é o lazer ou relaxamento, mas, sim, o medicinal. Imagine-se agora como alguém que sofre de ansiedade crônica e para o qual foi receitado um nível baixo de THC e alto de CBD, entretanto, o medicamento comprado no dispensário não corresponde à prescrição e, logo, traz efeitos inesperados. “Muitos consumidores dependem da cannabis como um remédio natural para coisas como ansiedade, dor ou outras condições. Consumir produtos que estão mal rotulados pode fazer com que esses indivíduos usem uma dose muito pequena ou muito grande, e leve ao manejo inadequado dos seus sintomas”, acrescenta o psicólogo Jonny Lisano.
Há solução? Sim, claro, e passa por alguns caminhos. Para aqueles cultivadores e aqueles laboratórios que forjam ou forçam os resultados, como há indícios de que ocorre, é preciso fiscalizar. Já praqueles que erram sem querer, é preciso aprimorar as técnicas de testagem.
Conclui Lisano: “Podemos usar essas informações para aprimorar os padrões de rotulagem, protegendo os consumidores e construindo confiança. Isso também sugere a necessidade de estabelecer normas regulatórias que avaliem periodicamente a exatidão dos rótulos dos produtos vendidos em dispensários recreativos e medicinais, com a aplicação de possíveis sanções para lojas que comercializem itens que não correspondam às suas descrições”.
Ah, mas a gente tá no Brasil, o que tenho a ver com isso? Lembre-se que hoje a cannabis legalizada aqui em nosso país, quando não plantada por associações ou cultivadores com habeas corpus, é importada. Além disso, se o cenário tá caótico assim em um país (quase todo) legalizado e com tradição de um mercado canábico, como os EUA, imagina como será no Brasil quando for totalmente liberado e regularizado?