Reportagens

A planta da tranquilidade

Novas pesquisas indicam que a erva pode fazer muito bem aos ansiosos, transtorno que se tornou um dos principais motivos de pacientes a buscarem como um lugar de alívio, concentração e relaxamento

Por Filipe Vilicic

“Tá ansioso? Dá uns pegas e relaxa”.

A situação é comum nas rodas, sejam aquelas que se chamam de medicinais ou as não. Mas será que funciona? Por muitas décadas a criminalização da maconha travou as pesquisas, ainda mais as específicas e as sobre efeitos positivos do uso, o que nos deixou sem respostas claras.

No empírico do dia a dia, quem é adepto sabe bem que dá certo… só que depende muito de quem usa. Tem aqueles que não se adequam, pode bater a bad trip, e nos aprofundamos aqui na Breeza nesse tema em outra reportagem. Com a maioria que bate bem, contudo, é perceptível como ajuda tanto em casos tidos como graves pela medicina, como em questões mais corriqueiras, como no controle da ansiedade e no bem-estar geral. O segredo está em usar com responsabilidade, sendo que um caminho moderno e saudável é o de ir atrás de informação, conhecimento e de abordagens como a da redução de danos.

Nos últimos anos, todavia, em especial com a força da onda de legalização pelos EUA na última década, ampliaram-se e se multiplicaram os estudos sobre a cannabis, virando um campo forte e em crescimento da ciência. Um levantamento realizado na Pensilvânia com usuários medicinais (lá a maconha só pode nessa roupagem), divulgado na semana passada, em 7 de julho, revelou que, antes de tudo, é real a percepção de que muitas pessoas buscam na ganja o alívio para crises de ansiedade, ou ainda mais para controlar a saúde mental e nem ter esses episódios de aperto.

O estudo, das universidades de Pittsburgh e Johns Hopkins, publicado na Annals of Internal Medicine, fez uma análise de quase 1,8 milhão de certificados de cannabis medicinal no estado da Pensilvânia desde novembro de 2017. O que ocorreu naquele mês e ano? Foi quando passou a haver permissão para receitar o medicamento para pacientes com ansiedade. 

Nos 39 estados onde a cannabis é permitida para fins medicinais – e lembrando sempre que a planta é a mesma da usada para fins por vezes não regulamentados, mas igualmente justificados –, historicamente os principais motivos indicados como médicos para as receitas são dores crônicas, em primeiro lugar, e transtorno de estresse pós-traumático (em muito associado a veteranos de guerra), em segundo. O porém: historicamente, a planta não é permitida para ansiedade.

“Descobrimos que adicionar ansiedade como uma condição qualificadora mudou fundamentalmente a composição do programa de cannabis medicinal da Pensilvânia”, comentou Coleman Drake, professor na Universidade de Pittsburgh, cientista especializado em administração, políticas e pesquisas de saúde pública e um dos autores do trabalho, na divulgação do estudo.   

A adição desse fator como justificativa permitida para as receitas médicas fez com que triplicaram as prescrições emitidas por mês. Antes disso, condições de dores crônicas lideravam a lista de maior razão para prescrições, correspondendo a 67%, seguido de transtorno de estresse pós-traumático, mas bem atrás, com 16%. Depois da adição de “ansiedade”, esse transtorno passou a ficar em primeiro lugar nas receitas, com 60%, seguido de dores crônicas, com 41%. Ah, calma, passa dos 100%? Isso mesmo, é que a maioria dos diagnósticos trazem mais de uma condição como motivo.

“Certamente existem evidências do potencial da cannabis como uma ferramenta para lidar com a ansiedade. Estas evidências são tanto observações clínicas quanto alguns dados experimentais”, comenta o biólogo André Vieira, em entrevista para esta Breeza. “Entretanto, é importante ponderar que os distúrbios que envolvem ansiedade são extremamente frequentes na população e tem apresentado grande crescimento, especialmente após a pandemia de covid-19. Assim existe uma grande demanda por qualquer tipo de intervenção contra a ansiedade”.

E funciona?

Professor de fisiologia humana e animal na Unicamp, Vieira está à frente de estudos que procuram compreender quais são os efeitos do cannabidiol no sistema nervoso. Ele traz alguns termos técnicos: “Os principais componentes da cannabis, o THC e o CBD, têm ações nos receptores CB1, que são receptores muito presentes no sistema nervoso e que fazem parte do sistema endocanabinoide. Além disso, estes componentes da cannabis provavelmente atuam nos sistemas serotoninérgicos e opioides, também no sistema nervoso”.

Contudo, ressalta como a literatura científica é conflitante em relação às consequências desses efeitos. Segundo explica, há pesquisas que apontam o THC, por exemplo, como responsável por aumentar a ansiedade; enquanto no caso do CBD, reduziria. 

Também neste mês de julho, no dia 5, foi publicado um experimento do National Institute on Drug Abuse (Instituto Nacional de Abuso de Drogas), dos EUA, que qualificou os efeitos do uso nos ansiosos, descobrindo, como escrevem os autores do trabalho, “diminuições significativas nos níveis de ansiedade e depressão relatados pelos indivíduos”. O estudo observacional acompanhou 33 adultos de Maryland com ansiedade e/ou depressão consideradas como “clinicamente significantes” por períodos de seis meses e, após isso, depois de um, três e seis meses. No primeiro semestre, sem a medicação; no segundo, com.

O resultado foi praticamente unânime entre as pessoas avaliadas, mostrando melhorias na saúde mental. Todavia, é preciso ressaltar que todas foram acompanhadas por médicos e tiveram receitas específicas a elas, com os remédios e as doses recomendadas. E vale destacar algumas curiosidades. Entre os voluntários, haviam aqueles que já tinham fumado maconha na vida, assim como quem nunca tinha dado um pega sequer – e fez bem a ambos os grupos. Além disso, a maioria preferiu os efeitos de produtos com maiores índices de THC, o que conflita com alguns estudos que defendem que essa molécula teria consequências opostas a essas.

Uma revisão crítica sistemática recente analisou a relação entre cannabis e ansiedade através de meta-análise, mostrando que existe uma correlação significativa”, analisa a médica Carolina Nocetti, referência brasileira no assunto, em conversa com a Breeza. “Esse crescimento expressivo no uso de cannabis para ansiedade se deve, em grande parte, à percepção de alívio rápido dos sintomas, à alta prevalência do transtorno e ao interesse por opções de tratamento naturais, especialmente entre pacientes que enfrentam efeitos adversos e dependência química com ansiolíticos convencionais”.

Um levantamento feito no ano passado revelou que onde a cannabis pode ser usada para tais fins nos EUA, registrou-se redução do uso de ansiolíticos, como aqueles à base de benzodiazepina. Mesmo que sejam recentes (pelo ponto de vista da historiografia da ciência) os estudos sobre o uso da cannabis com esse objetivo, há dados que indicam diminuição de quase 13% na necessidade desses medicamentos pesados.

É claro que isso não quer dizer que você deve ir logo fumar um para controlar sua ansiedade. Os tratamentos devem ser prescritos por médicos e os produtos usados precisam ser os ideais para cada pessoa. “O sistema endocanabinoide funciona como um sistema regulador buffer para respostas emocionais , com influência bidirecional na ansiedade, podendo produzir tanto respostas ansiolíticas quanto ansiogênicas”, esclarece Nocetti. “O buffer é um mecanismo interno do cérebro que funciona como um “amortecedor” entre o estímulo emocional e a reação. É como um “tempo extra” que o cérebro ganha para não reagir de forma automática ou impulsiva, permitindo respostas mais equilibradas e conscientes diante de emoções intensas”. Ou seja, pode fazer bem, mas também pode fazer mal para os ansiosos e/ou depressivos. Depende sempre da dose, do ambiente… da receita combinar com o paciente! (Isso, evidentemente, quando falamos do uso medicinal, em particular).

Efeitos, quando positivos, que beneficiam seres vivos em geral, humanos e outros animais, como nossos pets. Nos conta o biólogo André Vieira, da Unicamp: “No meu grupo de pesquisa possuímos uma linha de investigação dos efeitos do CBD em modelos animais. Estamos explorando as alterações induzidas pela administração de CBD no córtex pré frontal e no núcleo accumbens, que são estruturas criticamente envolvidas em distúrbios de ansiedade”. Nos últimos anos tem saído uma série de trabalhos científicos que mostram os benefícios do uso em animais como cachorros, para os quais chegam a ser receitados medicamentos com CBD para ansiedade, ou mesmo full spectrum para casos como tratamentos de cânceres.

Então quer dizer que é recomendado dar mesmo uns pegas para relaxar? Não é bem assim, não vai simplificar, breezer. Depende de vários fatores (isso se você sofrer mesmo de ansiedade e transtornos crônicos similares; se é no lazer, outra história…), como volta aqui para nos esclarecer a médica Nocetti: “A cannabis não é milagre. Somente usar, sem ajuste de dose contínua e sem mudança do estilo de vida, é correr o risco de um tratamento ineficiente, efeitos colaterais e investimento de tempo e dinheiro perdidos. A recomendação deve ser criteriosa e individualizada”. Se a sua é buscar a diamba pelas suas propriedades medicinais, e tudo a favor aqui se quiser procurar para outros fins, a nossa recomendação também é: procure antes um médico especializado.