Reportagens

Para ler na brisa

Listamos 10 livros essenciais para saber mais sobre a nossa erva. Tem História, psicodelia, guias, defesas escritas de como é natural querermos acessar outros estados de consciência

Por Filipe Vilicic

Como conversei com Sérgio Rodrigues na nossa edição desta semana, a escrita e a leitura em profundidade são atividades cada vez mais raras nestes tempos de IA. Nos disse ele: “Acho que a própria capacidade de ler em profundidade, o que um romance exige, está com os dias contados. Não acho que vai acabar, mas que vai virar uma seita bastante pequena, a seita de produtores e consumidores de literatura”.

Para aqueles que não querem se render às informações superficiais, aos posts de Instagram ou ao que a IA entrega, ou seja, para quem quer mergulhar em conhecimento para valer e se diferenciar da multidão, selecionamos a seguir 10 livros essenciais para manjar mais sobre maconha e psicodélicos, por uma ótica bem brasileira. Não se trata de uma lista definitiva, pois isso só existe na visão de simplistas e das inteligências artificiais. Mas, sim, de uma escolha baseada em leitura de verdade – e, mais especificamente, na minha leitura; Filipe Vilicic aqui, publisher da Breeza.

Como não sou médico ou cientista, não me atrevi a elencar livros ultra técnicos. O foco foi apresentar aqueles que podem te ajudar a compreender melhor, e de maneira por vezes até divertida, a História, os efeitos, os preconceitos, as lutas de classes, as desigualdades, os benefícios… enfim, o que um maconheiro honrado precisa saber para não passar vergonha na roda e falar com propriedade da ganja.  

1. Diamba, de Daniel Paiva

Começamos com uma que é leitura rápida, mas importantíssima. Escrevi bem mais do que um parágrafo sobre a HQ de Daniel Paiva aqui na Breeza. Nela, o quadrinista relata a história da maconha e do proibicionismo no Brasil. Em sua obra, mostra como se construiu a falácia da Guerra às Drogas em nosso país como forma de perseguir o povo preto, descendente dos escravizados que fizeram brotar a cultura canábica brasileira. A HQ traz a história completa da erva no Brasil, desde que a ganja chegou pelas caravelas e, em particular para a construção de nossa cultura canábica, nos navios negreiros, até quase os dias atuais. Quase pois terá uma atualização da saga, Paiva promete para logo seu Diamba 2.

2. Cannabis: a ilegalização da maconha nos Estados Unidos, de Brian Box Brown

Essa é basicamente a versão dos EUA do livro de Daniel Paiva. Isso porque, foi nessa obra que o quadrinista brasileiro se inspirou para fazer a sua própria. Na HQ estadunidense, Brian Box Brown, com o qual tive o prazer de caminhar por São Paulo, referência artística e de ativista para os adeptos da planta, narra a cruel saga da Mary Jane em seu país, passando ainda por Índia e México. Lançada em 2019, a obra conta como os Estados Unidos montaram narrativas falsas para basear a Guerra às Drogas, em especial com movimentos políticos dentre os anos de 1930 e 1960, inclusive nas leis proibicionistas brasileiras. Assim como Paiva planeja fazer, Box Brown fez ainda uma sequência para sua obra: Legalization Nation (a Nação da Legalização), lançada no ano passado.

3. As Flores do Bem, de Sidarta Ribeiro

É, breezer, você irá ouvir bastante isso por aqui: também escrevemos sobre e entrevistamos Sidarta Ribeiro na Breeza. No livro, já famoso demais em nossa cena, o renomadíssimo neurocientista detalha sua história com a maconha, que envolve traumas familiares, descobertas em um mochilão pela América Latina e, claro, muito estudo e conhecimento.

4. A Maconha no Brasil Através da Imprensa, de Gustavo Maia

Resultado das pesquisas do historiador Gustavo Maia, compila notícias que saíram nos jornais e revistas do país entre os anos de 1808 e 1932. Ou seja, bem antes dessa nossa era da internet e de pencas de pessoas falando de tudo sobre maconha no Instagram. O resultado retrata o que já nos é óbvio: o preconceito arraigado em nossa sociedade e como ele se reflete no tratamento dado pela mídia à maconha e seus usuários. Sabe aquela infeliz (para dizer o mínimo) reportagem do Fantástico, da Globo, sobre o ice? Bem, vou te dizer que hoje é até menos comum, digamos assim, visões tão punitivistas e preconceituosos, em comparação a como era, por exemplo, no início do século passado. Gustavo Maia nos conta como, em sua palavras, ditas em reportagem recente aqui da Breeza, “o discurso desse período era carregado de proibicionismo, eugenia, dessa mentalidade do início da República, em que havia um esforço de embranquecimento da população, o que envolveu a demonização da planta”.

5. Fumo de Negro: A criminalização da maconha no pós-abolição, de Luísa Saad 

A obra traz as razões políticas e sociais que levaram à proibição da maconha no Brasil no século XX. Como escrevemos aqui na Breeza, o espírito da proibição encarna no preconceito de que a maconha, um hábito herdado de uma civilização tida pelas elites brasileiras como atrasada (a africana), poderia contaminar e degenerar os brancos. A historiadora Luísa Saad ainda comprova em suas pesquisas o papel atuante de médicos que inventaram o que fosse para justificar a perseguição e punição dos povos pretos: “O grande medo, ao menos retórico, destes doutores do início do século era o de que a maconha se tornaria um ´vício elegante´, de gente bem nascida”.

6. Drogas para Adultos, de Carl Hart

Professor de psicologia e de psiquiatria da Universidade de Columbia, Carl Hart certamente se tornou uma das maiores referências globais no assunto das drogas. Ele tem uma série de obras e pesquisas sobre o tema, mas destaco esse justamente por não só ser o que mais o projetou, como também o que melhor mostra como os perigos das substâncias que usamos, de maconha ao LSD, não está no uso, em si, mas nas consequências da criminalização. Ao nos convidar para uma abordagem mais racional e menos moralista do tema, desmistifica a ideia de que o uso de drogas leva inevitavelmente ao vício e à ruína, argumentando que a esmagadora maioria dos usuários de drogas, inclusive das consideradas “pesadas”, não se tornam dependentes químicos.

7. Drogas: a História do Proibicionismo, de Henrique Carneiro

Historiador, professor da USP e um dos precursores das marchas da maconha, Henrique Carneiro mostra em sua obra, assim como é com outras das listadas aqui, que o proibicionismo como onda global é um fenômeno recente, do século passado. Contudo, o grande diferencial do livro, a meu ver, está em mostrar como o Estado usa das leis para deter o controle das drogas, seja as proibindo ou as distribuindo, com exemplos que vão da Rússia dos bolcheviques a como é no Canadá nos dias de hoje.

8. The Emperor Wears No Clothes (O Imperador Não Veste Roupas), de Jack Herer

Esse é um clássico cujo versão física só tive em mãos uma vez, mas se pode também baixá-lo no Kindle, e que infelizmente nunca vi traduzido para o nosso português. Escrito nos anos 1980 e com atualizações recentes, trata-se de manifesto e, ao mesmo tempo, um compêndio recheado de informações que desafiam as narrativas oficiais sobre o cânhamo e a maconha, argumentando pela legalização. Indo além, Herer cria uma tese (para alguns, conspiratória; para outros, bem real; e aí vale ler para ver de qual lado você está) que aponta o dedo para as indústrias de madeira, celulose, petróleo, produtos farmacêuticos, têxteis sintéticos e outras. Para ele, foram esses industriais que também forçaram a proibição como forma de não perder seus mercados para alternativas melhores, mais baratas e mais práticas que vêm com os produtos de cânhamo e de maconha. O que você acha dessa teoria?

9. Cannabis: A Complete Guide, de Ernest Small

Outro que infelizmente não achei em sua versão em português. Aqui se trata também de um esforço em trazer para esta lista uma obra técnica, que ousa compilar o que se sabe sobre a cannabis pelo ponto de vista da ciência. Não, não a li inteira, mas também creio que esse guia não foi desenhado para tal. É possível passear pelas páginas em busca das informações mais pertinentes ao seu campo de curiosidade ou estudo, passando por botânica, química, genética, medicina, questões legais e bem mais. A ambição declarada do autor é resumir as principais referências, sejam as milenares ou as das pesquisas de hoje em dia, sobre as propriedades e usos da cannabis.

10. Psiconautas, do Marcelo Leite

Confesso que ainda não li esse inteiro, na época fui interrompido por outras leituras. Ao mesmo tempo sei o quão seria um equívoco deixar esse de fora desta lista. Em Psiconautas, Marcelo Leite mescla suas experiências pessoais com perfis de cientistas – e, em diversos momentos, com odes à ciência brasileira – para narrar a história das drogas psicodélicas e daqueles que procuram compreendê-las.