Reportagens

Os pioneiros do 4e20 no Brasil

Antes das mega feiras e de podermos falar mais abertamente sobre, um pessoal encarou a repressão nos inícios dos anos 2010 para começar a espalhar pra valer os eventos 4e20 pelo Brasil. Falamos com quem tava lá nesse boom que nasceu da clandestinidade

Imagina entrar numa van sem saber o nome de quem está com você, nem para onde está indo. Todos se tratam por apelidos e zarpam com apenas uma certeza: possuem um interesse em comum, a maconha. Assim começavam eventos que cultuavam a ganja no fim dos anos 2000 e início dos de 2010, principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, mas não só. Uma época quando começaram a se popularizar os happenings 4e20 pelo Brasil afora, no que com o tempo culminaria no cenário de hoje, dominado pelas grandes feiras e no qual falar sobre o assunto não é mais um grande tabu, inclusive passamos a conversar sobre furar a bolha e ir além.

Foram muitas as sementes para a cena canábica brasileira. Nos anos de 1970 o bloco Segura a Coisa já ganhava as ruas, celebrando a cultura canábica e emulando o espírito 4e20 que despertava na Califórnia e se espalhava. Tem também, é claro, a história das marchas e das festas em torno dela. “Em 2010, a gente chamava as pessoas para aparecer e fumar um, um flashmob, pouco divulgado, só as pessoas que faziam ali sabiam da ação”, nos conta o biomédico Renato Filev, pesquisador da Unifesp e que está na organização das marchas desde 2007.

Filev também pegava as vans e os ônibus sem destino sabido que levavam os convidados para a Pot in Rio, em 2012. Enquanto de um lado germinavam os movimentos ativistas, em festas privadas se reuniam cultivadores, os mais sabidos do assunto, usuários privilegiados e formadores de opinião em torno de um esforço único, o da legalização. É desse momento de mudanças de rumos na narrativa sobre a maconha no Brasil que se trata nossa conversa.

No início dos anos 2010, ser convidado para uma dessas restritíssimas festas era uma regalia para poucos. Recebia-se um convite por email, às vezes com um PDF com algumas instruções. Não se revelavam muitas informações, como o endereço do evento ou o horário exato. As pessoas tinham de se reunir em um lugar público, como um supermercado, e de lá entravam em vans e ônibus. Apenas no meio do caminho o motorista era avisado de qual seria o destino final. 

“A gente se encontrou no shopping, entramos numa van, ninguém sabia o nome de ninguém, a gente se conhece por apelidos. Eram duas vans, umas 30 pessoas chegando juntas”, resgata o advogado Emilio Figueiredo, figura central na cena. Ele se lembra com carinho da Festa da Colheita, que celebrava o aniversário do Growroom, em 2008. Nela os adeptos dos hábitos canábicos se apresentavam com apelidos como Jahphael, Sano, Mr. Nice Guy, Ganja Lady. 

“Excesso de zelo para evitar colocar a galera em qualquer risco. O que era essa comunidade canábica naquela época? Pesquisadores, cultivadores, jornalistas”, comenta Filev. Tratavam-se de anos em que falar sobre a erva podia dar cadeia, alegando-se apologia ao crime.

Outros tempos

O jornalista Denis Russo, do livro “O fim da guerra – a maconha e a criação de um novo sistema para lidar com as drogas”, sentiu isso. “Uma coisa que as pessoas mais jovens não se dão conta é que há 20 anos atrás faltava liberdade e clima até para a conversa acontecer (sobre a maconha)”. Quando ele começou a escrever em revistas sobre o tema, sentiu resistência dentro da editora e também de fora, como numa vez em que a polícia chamou jornalistas para deporem (e deu em nada).

“Para nós, como jornalistas, essa era uma das regras não escritas: tínhamos o papel de advertir, só podia falar desse assunto se fosse advertir pro perigo, pros danos, para contar histórias de pessoas que ultrapassavam a barreira”. Mas jornalistas também sempre foram vistos como aqueles que podem romper com esses padrões e propor novas narrativas, um movimento do qual Russo participou.

Por isso repórteres, editores e outros profissionais da comunicação eram convidados para as vans que levavam para as festas ainda undergrounds. Denis Russo chegou a lançar seu livro na primeira Pot in Rio, na qual também palestrou, em 2012.

Uma das principais preocupações dos encontros era compartilhar conhecimento. Por isso eram frequentados por nomes que só cresceram desde então e que dispensam apresentações às nossas rodas, como Sidarta Ribeiro, Sérgio Vidal e Henrique Carneiro. “Um monte de gente tava lá porque queria experimentar variedades (da planta). Mas surgem também aquelas pessoas propondo, como políticas públicas e conversas da ciência, do direito, da medicina”, avalia Denis Russo.

E nos tempos de hoje

Sentia-se esse movimento acontecendo e se consolidando. Uma brisa, porém, que parece que não é mais a mesma.

“A galera querendo aparecer, acabou o amor, virou putaria, sacanagem, um monte de traficante querendo se esconder atrás de militante”, defende Ricardo Nemer, que era da organização das primeiras Pot in Rio com o apelido de Heart Brave, ao lado de nomes como Francesco Mandacaru e Pablo 021. Nos eventos de então, era proibido levar celular, para não expor as pessoas. “Numa das festas,  uma mina puxou um celular, os growers guardaram tudo e foram embora”.

Para Nemer, mais recentemente a “galera começou a fazer o bagulho descaradamente, sem nenhum pudor”. Segundo avalia, com o tempo, a ganância teria saído do controle, e por isso esses formatos de eventos, mais undergrounds, começaram a sumir, dando lugar a feiras maiores, expostas e de ampla divulgação. 

“Hoje em dia é mais democrático, para o bem e para o mal”, observa Filev. “Mas tinha uma galera ativista, amantes da planta mesmo. Hoje em dia, tem a galera amante da plata”, completa ele.

Anita Krepp (reportagem) e Filipe Vilicic (reportagem e texto)