Na Breeza

Resistência de outros carnavais

O bloco “Segura a Coisa”, que sai às ruas pela legalização da maconha há 50 anos, inspirou dezenas de manifestações carnavalescas

Em 1975, pleno auge da Ditadura Militar, o Brasil vivia sob repressão e censura, mas o carnaval virou resistência cultural, e nesse contexto foi que surgiu o bloco “Segura a Coisa”, em plena folia de Olinda, uma manifestação irreverente que celebrava a descriminalização da maconha ao som do frevo. “Os foliões usavam a criatividade e o humor típicos dos pernambucanos para criticar o regime opressor também sob o ponto de vista da erva”, nos conta Okki das Olinda, um dos fundadores do bloco.

A origem do bloco foi marcada pelo improviso, durante a concentração do “Siri na Lata” (um outro bloco de Olinda) os foliões aguardavam a chegada da maconha, mas o atraso foi tanto que deu tempo até de criar um novo bloco, batizado de “Segura a Coisa Que Eu Chego Já”, e saíram pelas ruas tentando alcançar o grupo original. E nisso já se foram 50 carnavais.

Entre os fundadores estavam Xirumba Amorim, fotógrafo autor das imagens de arquivo do bloco, e Maria do Carmo Buarque de Holanda, conhecida como Pií e, como você já deve ter notado pelo sobrenome, é também irmã de Chico Buarque. A liderança do bloco foi assumida posteriormente por Aldifaz Santos, que comandou o grupo por décadas até seu falecimento, no início dos anos 2000. “Não visem lucros, caso contrário, serão implodidos pelos próprios pares”, alertava Aldifaz, que via o bloco como uma expressão genuína da cultura popular e não como uma ferramenta comercial.

A primeira aparição do “Segura a Coisa” nas ruas ocorreu em 12 de fevereiro de 1975. Os participantes, após finalmente receberem a maconha esperada, celebraram e correram pelas ruas, formando o novo bloco em meio à euforia e ao desejo de liberdade. “O Segura a Coisa é o povo, e o povo traz seus protestos, gritos de guerra, resistência e, principalmente, muita alegria”, diz Okki, figura pra lá de dedicada ao bloco, que com tanto cuidado e carinho acabou se tornando uma tornasse referência em Olinda.

CAIU NAS GRAÇAS

Ao longo de cinco décadas, o bloco passou por transformações significativas. Inicialmente anárquico e enfrentando repressão policial direta, os foliões frequentemente precisavam fugir dos cacetetes. “A polícia não usava bala de borracha, mas tinha muita correria para fugir dos cacetetes”, lembra Okki. 

Com o tempo, o “Segura a Coisa” foi ganhando aceitação popular, que reconheceu sua luta contra o racismo e a favor da descriminalização da maconha como pautas valiosas para o avanço da sociedade como um todo. Hoje, a ciência comprova o que os fundadores do bloco gritavam nas ladeiras de Olinda lá na década de 70.

A influência do “Segura a Coisa” no carnaval pernambucano é inegável, e embora não tenha nascido nas favelas, o bloco sempre esteve comprometido com educação, cultura, medicina ancestral, antirracismo, liberdade de expressão e justiça social. Utilizando o frevo como ritmo de conexão, o grupo promoveu debates sobre o autocultivo da cannabis e combateu a desinformação relacionada à planta em cada um dos 50 carnavais que levou à rua.

Vários outros blocos se inspiraram no “Segura a Coisa”, como o “Planta na Mente” e o “Kaya na Gandaia”, que saem, respectivamente, no Rio e em São Paulo e reúnem cada um em média 10 mil pessoas. Uma tradição que permanece desde a fundação é a confecção de um mega-baseado, consumido coletivamente antes do desfile. “A confecção de um mega-baseado continua sendo uma marca registrada”, confirma Okki. 

SÁBADO, 4E20

Para a edição especial de 50 anos, o “Segura a Coisa” promete novidades, a começar pelo local de saída do bloco, que foi transferido para a Praça do Fortim, na Cidade Baixa, proporcionando mais espaço e segurança aos foliões. “Transferimos a concentração porque as ruas estreitas já não comportavam tanta gente”, explica Okki. Além disso, o bloco espera que a criatividade popular traga novos protestos, gritos de guerra e manifestações culturais.

O tema escolhido para este ano é o combate ao racismo, destacando a relação nem sempre tão óbvia entre a desinformação sobre a maconha e o preconceito racial. “O Pito do Pango de 1830 confirma isso”, enfatiza, referindo-se ao contexto histórico em que a criminalização da erva foi direcionada às populações negras e marginalizadas. Ao levar esse debate para a folia, o bloco reforça que carnaval também é política.

Entre as figuras icônicas do bloco, destaca-se Aldifaz Santos, conhecido como Nego Aldifaz. Sempre sem camisa e descalço, ele desafiava o sistema e resistiu até o fim de sua vida. Sua presença era um símbolo de desafio, um lembrete constante de que a resistência é a essência do “Segura a Coisa”. 

Uma das histórias mais memoráveis envolve o resgate de Xirumba Amorim, outro fundador do bloco, de dentro de um camburão policial, uma história que o Okki só vai contar pra quem for pra junto do “Segura a Coisa” no próximo sábado, dia 22, com concentração, claro, às 16h20.

Anita Krepp