
Tem uma piada que já virou clichê nas rodas breezadas:
– Por que a polícia parou teu carro?
– Ah, se foi por estar acelerando demais, é porque bebi. Agora, se é porque eu tava indo muito devagar, foi porque fumei um.
Quem já tem toda uma vida de experiências canábicas sabe o quanto quem fuma costuma diminuir o risco de dirigir sob efeito, quando perguntam sobre isso. Um estudo feito por cientistas de departamentos de psiquiatria e de outras áreas da medicina da Universidade de San Diego (onde é legalizado) constatou que isso pode ser mesmo verdade.
Os cientistas testaram 191 usuários (que consomem ao menos dezesseis vezes ao mês), dessa forma: para alguns, deram baseados, pra outros, placebos que em tudo se pareciam com uns fininhos. Aí instruíram “podem chapar à vontade por 10 minutos, a única regra é que precisam dar ao menos quatro tapas”. Trinta minutos depois, perguntaram a todos: “Estão bem pra dirigir?”. Metade dos que fumaram a ganja verdadeira disseram que “sim”. E aí foram realizadas simulações ao volante. Ao longo do dia, os pesquisadores voltavam aos voluntários para perguntar novamente, em outros momentos: “Tá Ok pra dirigir?”. E as simulações eram repetidas.
Após uma hora e meia, 70% daqueles que fumaram um se julgaram aptos para dirigir. Sabe qual é o problema? O desempenho real deles nos testes de simulações ao volante sempre foram piores do que aqueles que fumaram o placebo, em todas as situações, e aqueles que falaram que estavam melhores depois de 90 minutos, desempenharam tão ruim quanto após 30 minutos.
Um estudo realizado no Brasil com 381 universitários de 18 a 29 anos de certa forma corroborou esse achado. A pesquisa, tema do doutorado da psicóloga Olga Maria Pimentel Jacobina, que hoje trabalha no atendimento a pessoas vulneráveis em programas como o CRAS (Centro de Referência da Assistência Social), traz uma série de achados, sendo que se destacam dois para o argumento desta reportagem.
A grande maioria dos estudantes observaram menores riscos de estarem em um carro com alguém fumado, em comparação com alguém alcoolizado. Quando se trata de bebida, consideram de 80,7% a chance de o motorista ser detectado sob efeito, de 81,2% a de que ele receba algum tipo de sanção e de 96,1% de que possa sofrer danos. Em relação ao uso da maconha, as porcentagens foram bem menores, de respectivamente 21,9%, 27,2% e 44,6%.
Além disso, descobriu-se que há também bem maior chance de uma pessoa se sentir segura pedindo carona para quem está sob efeito de cannabis, em comparação com se o motorista bebeu. Quando se somam os resultados, chega-se a uma conclusão, como escrito no estudo: “Quanto menor a percepção de risco, maior a possibilidade de pegar carona com quem tenha feito uso de maconha, ou seja, há uma forte associação entre pegar carona com alguém que tenha dirigido sob efeito de maconha e a percepção de risco de ser detectado, receber sanção ou sofrer algum dano”.
Avalia Olga Jacobina, a autora da pesquisa, em entrevista à Breeza: “Com o CBD, considerando que tem o uso isolado e controlado, sinceramente não vejo problema. Conheço várias pessoas que fazem uso e se sentem bem pra qualquer atividade. Da maconha para uso recreativo, aí é como substâncias como álcool, e ainda no geral o uso recreativo não tem controle da procedência, não se sabe da concentração e da pureza, e não se segue dosagem. É como qualquer outra substância de alteração da consciência, como ayahuasca, que é um perigo tomar e dirigir”.
Isso quer dizer que não posso dirigir depois de fumar um? Antes de tudo: não, não é recomendado, além de ser contra a lei (mas quem aqui na Breeza não é aberto a debater leis, né?). Porém, para a ciência a resposta não é tão simples assim, e é nisso que mergulharemos.
FUMOU, CIDADÃO?
A onda de descriminalização, regularização e legalização que se espalha pelo planeta tem permitido o que sempre deveria ter sido bom-senso liberar: pesquisar sobre a planta. Todavia, ao mesmo tempo em que se multiplicaram os estudos sobre a cannabis e tudo que há dentro e ao redor dela, sempre vale ressaltar que as pesquisas são recentes e por vezes aparentam trazer mais e novas perguntas.
Quando pensamos no álcool, são fartos os estudos que acabaram apontando para um consenso: se beber, não dirija. Há bafômetros confiáveis, penalizações adequadas e muitas iniciativas para prevenção e redução de danos. Não existe o mesmo para a cannabis, ao menos não com essa amplitude e confiabilidade.
“‘Desenvolver um bafômetro para cannabis é muito mais difícil do que para o álcool, pois o THC é exalado em pequenas partículas de aerossol, dificultando a medição precisa. Então, atualmente, não tem um método padrão”, nos escreveu, em trocas de e-mails, a psicóloga brasileira Luiza Rosa, doutorando na Universidade do Colorado (EUA), onde faz estudos sobre cannabis.
Ela conta de um experimento ativo no departamento no qual ambiciona criar uma ferramenta que visa detectar que está sob efeito. Em desenvolvimento, a pesquisa irá testar a detecção pelo hálito das pessoas, em busca de achar uma forma confiável de apontar o uso abusivo. “Estamos utilizando instrumentos de laboratório para medir a quantidade de THC na respiração, visando desenvolver um protocolo com resultados reproduzíveis, essencial para um método confiável em campo”, diz Luiza Rosa.
DEPENDE DO QUE USOU
Há muitos desafios para se chegar a um consenso de quanto é fumar em excesso em relação a dirigir. Para começar, tudo depende muito do quê e de como se usou.
Obviamente, produtos com concentrações elevadas de THC são mais potentes e podem dar ruim para alguns. Já medicamentos à base de CBD isolado, ao que tudo indica parecem afetar pouco ao volante. E para pacientes que tomam óleo full spectrum? Aí tudo complica e, na prática, ainda não existe resposta muito confiável e que vá além de um “seja responsável”.
Se você fumar um fininho ou der uns hits num bong, o barato chega após alguns minutos e se retorna ao normal em cerca de três horas (isso para os usuários que não são heavy users, e logo trataremos disso). Já um comestível, como um brownie ou uma gummy, demora bem, bem mais para bater, já que a maconha terá de ser absorvida no seu intestino e metabolizada pelo fígado.
No Colorado, estado dos EUA onde a discussão sobre o assunto está mais avançada, as autoridades criaram até um guia online com instruções sobre esse aspecto, com regras como essas:
* Espere ao menos seis horas se fumar até 35 miligramas de THC para dirigir, pedalar ou realizar atividades afins. Se a dosagem for maior, aí se recomenda “esperar mais”, sem apontar um tempo certo.
* Agora, se for comestível ou uma bebida com maconha, com até 18 miligramas de THC, pede-se para aguardar ao menos oito horas.
Há ainda a indicação de que existem produtos ilegais, que batem mais pesados e que exigem mais de doze horas de espera. Assim como um cálculo do que representaria um beque californiano: algo como 0,5 grama de maconha, com entre 60 e 115 miligramas de THC. Já uma gummy vem com entre cinco e dez miligramas.
MENOS ARRISCADO QUE BEBER?
Sim, é verdade. Mas ainda assim é arriscado.
Um estudo realizado na França em 2017 com mais de 4 mil motoristas, com base em banco de dados da polícia federal, chegou à conclusão de quem bebe tem uma chance quase vinte vezes maior de se envolver em um acidente, enquanto que para quem usa maconha, a chance é bem menor do que duas vezes, ou seja, menor que o dobro. E há uma série de pesquisas, em especial nos Estados Unidos, que chegaram a números e comparações parecidas.
Entretanto, com o movimento de legalização nos EUA, registraram-se mais acidentes nos quais os motoristas haviam usado cannabis, em algumas situações em somatória com álcool. Entre 2000 e 2018, a porcentagem de casos com fatalidades nas quais o condutor estava sob efeito de maconha aumentou 22%.
Em usuários não frequentes ou que não tenham qualquer costume com o consumo, o risco é ainda maior. Vale lembrar que há registros de pessoas para as quais a cannabis não faz bem, inclusive incentivando crises de ansiedade e de paranoias.
E OS HEAVY USERS
Chegamos então à situação de quem usa todo dia, seja com recomendação médica ou não. Pesquisadores da Colorado School of Public Health, da Universidade do Colorado, publicaram recentemente um estudo no qual compararam habilidades ao volante de quem não usa, com que usou e com quem usou, mas é heavy user.
Realizado com 86 indivíduos saudáveis com entre 25 e 55 anos, a pesquisa dividiu esse grupo em três: os que não usam, os que consomem ocasionalmente e os que adotaram no dia a dia. Os participantes que são adeptos então fumaram um, comeram umas balinhas, ficaram breezados da forma que fazem costumeiramente. Já os sóbrios, continuaram sóbrios.
Logo após, todos testaram suas habilidades ao volante, mas em um simulador no iPad. Sem impressionar qualquer um, aqueles que só fumam às vezes e usaram viram suas capacidades motoras caírem. Só que houve outra descoberta: os heavy users não demonstraram qualquer diferença de reflexos em comparação com os 100% sóbrios.
“Como os heavy users podem desenvolver tolerância aos efeitos psicoativos da cannabis, o uso recente, por si só, não necessariamente implica que a pessoa tenha algum prejuízo (em suas habilidades, como ao volante)”, comenta o médico e pesquisador Michael J. Kosnett, especializado em toxicologia e também professor da Colorado School of Public Health.
Ele conta à Breeza que tem desenvolvido métodos experimentais de detecção que já conseguem apontar o consumo de cannabis nos últimos trinta minutos com 98% de precisão. Um desafio imenso, já que nos testes convencionais de hoje em dia se aponta o consumo nos últimos dias; logo, a pessoa pode estar ao volante dias depois de ter usado, muito após já ter passado o barato.
E isso quer dizer que se você é heavy user, medicinal ou não, pode dirigir? Também não.
Antes de tudo, na prática, é contra a lei dirigir sob efeito. Agora, todos os especialistas ouvidos e os estudos lidos pela reportagem da Breeza chegaram a uma mesma conclusão: em caso de pacientes que usam com frequência, perguntem ao seu médico, mas é muito provável que poderá dirigir, se com a dosagem adequada; no caso daqueles que fumam sem acompanhamento médico, não se pode recomendar nada além de um “não dirija”, ou ainda um “tenha bom senso”.
Filipe Vilicic
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