Por Anita Kreep

“Sempre tem aliados da pauta no Congresso tentando promover avanços na cannabis, mas nunca nenhum dos nossos, de fato”, explica Ítalo Coelho, militante de movimentos sociais e organizado em partidos políticos desde os 16 anos, ao comentar por que só agora, aos 40, decidiu disputar um cargo na política institucional. Há poucos dias, sua pré-candidatura a deputado federal pelo Ceará foi oficializada – um movimento que ele descreve como natural e coerente com uma trajetória de mais de duas décadas de ativismo pró-cannabis e de intensa militância no PT, PSTU e PSOL, partidos aos quais foi filiado.
Entre idas e vindas e trocas de partidos, Ítalo chegou a ficar afastado da política institucional por uns anos, mas do ativismo canábico, não arredou pé. “Sempre fui engajado na militância pela maconha e muito atento à necessidade de políticas públicas nessa área.” Tanto que participa ativamente de processos municipais e estaduais de regulamentação de cannabis para fins medicinais, inclusive foi ele quem redigiu o projeto de lei de cannabis pelo SUS do Ceará.
A candidatura de Ítalo e a proximidade das eleições de 2026 também convidam à reflexão sobre a dimensão institucional da militância canábica. Trata-se de um movimento que se formou justamente diante da ausência de políticas públicas voltadas à pauta da cannabis e que, nos últimos 15 anos, evoluiu de forma impressionante. Esse processo ajudou a abrir caminho para a atuação das mães atípicas, que passaram a capitanear mudanças profundas no paradigma social em torno do uso medicinal da cannabis – hoje aceito por quase 80% da população brasileira, segundo o último levantamento do Datafolha sobre o tema.
“Além de eu estar na rua, na Marcha da Maconha, podendo fumar meu baseado e falar sobre isso, aprendi que também há um debate institucional sendo feito e que precisa ser encampado”, conta. Sobretudo pela esquerda, que tem se furtado a defender a pauta da cannabis e fortalecer uma política de drogas efetiva. “Muitas vezes a esquerda é careta, como ocorre aqui no Ceará, onde estamos enfrentando caretice preventiva do governo do estado com medo de pautar na Assembleia um projeto de lei para a direita não cair em cima, enquanto muitas vezes deputados de direita se mostram favoráveis à pauta e já estão até fazendo uso de produtos de cannabis.”
Cannabis é suprapartidária
Mesmo sem ter os números exatos, é possível afirmar com total tranquilidade que a maioria das iniciativas municipais e estaduais de cannabis no Brasil são de políticos de direita, como por exemplo a clínica de atenção a pacientes de cannabis de Ribeirão Pires, onde o prefeito Guto Volpi criou uma iniciativa inédita no mundo em parceria com a Associação Flor da Vida. Juntos, disponibilizam atendimento e medicamentos a base de cannabis para até 50 novos pacientes todos os meses. E veja você, Guto é filiado ao PL, partido do ex-presidente e detrator da erva, Jair Bolsonaro, e extrema-direita.
Uma outra iniciativa pró-cannabis partindo da direita é o financiamento público inédito à pesquisa com cannabis oferecido pelo governo do estado do Paraná, dirigido por Ratinho Junior, um político sabidamente de direita e que ainda assim reconhece a cannabis como tema prioritário para ser investigado, concedendo financiamento milionário para que a Unila (Universidade da Integração Latinoamericana) promova ações de pesquisa ao longo de quatro anos sob a coordenação do professor Francisney Nascimento, expoente da área.
“Apesar de estarmos num governo de direita com muitas pautas conservadoras, conseguimos aprovar também a Lei Pétala na assembleia, que está garantindo acesso pelo SUS aos produtos de cannabis”, lembra, analisando, Goura, deputado estadual pelo Paraná e autor da Lei que entende ter faltado coragem do governo federal para defender a maconha na perspectiva da medicina e da agricultura. Prova disso é que a regulamentação imperfeita da Anvisa poderia ter acontecido no 1º ano do governo e só está saindo agora, no último.
Goura percebe que são poucos os políticos que estão tratando da cannabis nas instâncias legislativas. “Precisamos de mais engajamento de pessoas que tenham papel de influenciar socialmente a coletividade para que a gente possa avançar.” E tanto melhor que sejam pessoas vinculadas ao campo progressista, assim, trarão consigo a necessidade de reparação histórica no contexto brasileiro.
Senão nós, quem vai defender nosso sonho?
Foi com essa perspectiva de reparação em mente que Ítalo vinha, há algum tempo, considerando dar o passo rumo à política institucional. “Achei que agora é a hora de a maconha estar pautada dentro do Congresso”, afirma. Convencido disso, reaproximou-se do PT por intermédio da amiga e deputada federal Larissa Gaspar e da vereadora Mari Lacerda, que o incentivaram a lançar sua candidatura. A iniciativa também recebeu apoio do sempre bem-disposto e inspirador Eduardo Suplicy.
“Em breve teremos uma renovação do Legislativo federal e é possível que candidaturas que apoiam a regulamentação da cannabis surjam em maior número. Há uma chance real de ampliar a participação desse setor na formulação de propostas legislativas”, anima-se Suplicy.
Para ele, quem pretende atuar com a pauta da cannabis na política precisa reunir paciência, serenidade e seriedade. “É necessário debater com simplicidade para quebrar mitos que foram incutidos na cabeça de grande parte da população e que, ao longo de décadas, sedimentaram a demonização da planta no senso comum. Com essa parcela da sociedade será preciso enfrentar estigmas e preconceitos. Ao mesmo tempo, é fundamental discutir o flagelo que a atual política de drogas impõe e mostrar que um novo caminho é possível para transformar essa realidade.”
Como se sabe, grande parte dos avanços da pauta canábica no Brasil tem sido construída fora do campo político. Muitas das iniciativas que ampliam o acesso à cannabis medicinal surgem justamente da ausência de apoio institucional e da lentidão das instâncias legislativas.
Um exemplo recente dessa dinâmica veio da AbecMed (Associação Brasileira de Estudos Canábicos), que organizou uma ação em Fernando de Noronha voltada a mães atípicas e pescadores em situação de isolamento. Entre os dias 24 e 27 de fevereiro, um mutirão levou atendimento médico e a possibilidade de tratamento com cannabis medicinal a pessoas que, de outra forma, dificilmente teriam acesso a esse tipo de cuidado. Essa iniciativa evidencia como uma parcela significativa dos avanços da pauta no país continua sendo impulsionada por organizações da sociedade civil, frequentemente atuando onde o apoio político ainda não chegou. Mas e se o mesmo ativismo que historicamente pressionou as instituições passasse a agir também de dentro delas?
Na Espanha, o Partido Luz Verde surgiu justamente a partir dessa premissa: transformar mobilização social em representação política. Seria ousadia demais imaginar algo semelhante no Brasil, um partido dedicado a defender os avanços da cannabis? Enquanto essa possibilidade ainda parece distante, o ativismo pode e deve seguir operando com as ferramentas que tem à disposição, transformando debate em ação concreta e tirando a pauta do campo das ideias para colocá-la, pouco a pouco, em prática.