Por Filipe Vilicic

Até a Coca-Cola quer entrar nessa! A maré das bebidas canábicas está se espalhando pelas praias de maconheiros e pacientes canábicos.
A maconha é uma planta ancestral, consumida há mais de 10 mil anos, e que pode ser fumada, virar comestível, tornar-se óleo, vaporizada, são muitas formas de aproveitá-la. Com a onda de regularização e legalização, seja de forma mais ampla como nos Estados Unidos e em diversos outros países, ou restrita como no Brasil, veio junto um processo de industrialização que visa aumentar as formas de uso, diversificando as opções para usuários, sejam eles pacientes ou não.
Assim surgiram salgadinhos, chocolates, vapores, azeites e, meio que numa esteira do que seria natural, as bebidas canábicas. Essas últimas têm tomado os holofotes nos últimos tempos, especialmente por estarem se mostrando alternativas bem mais seguras ao papel do álcool na sociedade. Segundo um estudo da consultoria Fortune Business Insights, o mercado de bebidas de maconha movimentou quase 5 bilhões de dólares em 2025, deve chegar à casa dos 7,4 bilhões em 2026 e se espera que possa atingir impressionantes 240 bilhões na década de 2030. A taxa de crescimento anual é uma das mais altas no setor de bens de consumo, de quase 55%.
Enquanto isso, como já mostramos aqui na Breeza, o álcool vem numa constante redução de consumo, especialmente entre jovens-adultos (os adultos que acabaram de chegar à maioridade). Se em torno de 70% desse grupo tomava umas brejas, uísques e vinhos na década passada, agora a porcentagem já baixou para menos da metade. O motivo principal apontado por estudos científicos sobre os quais já escrevemos aqui neste espaço: estão trocando o litrão pelo beck.
“O uso de cannabis de fato apresenta riscos, mas especialistas concordam que é mais seguro que o álcool e possui impactos adversos menores tanto para o indivíduo quanto para a sociedade. Portanto, utilizar cannabis para diminuir o consumo de álcool, ou usá-la em substituição ao álcool, é redução de danos”, nos diz o psicólogo Daniel J. Kruger, pesquisador da Universidade de Buffalo (EUA) e especialistas em estudos sobre psicodélicos e maconha.
Ao lado de outros dois colegas, ele acaba de publicar um artigo científico que virou um divisor de águas canábicas. Em “The Exploration of Cannabis Beverage Substitution for Alcohol: A Novel Harm Reduction Strategy” (A Exploração da Substituição do Álcool por Bebidas de Cannabis: Uma Nova Estratégia de Redução de Danos), que saiu no Journal of Psychoactive Drugs no mês passado, apresenta uma pesquisa inédita que mostrou como bebidas infusionadas com cannabis podem reduzir o consumo de álcool.
Em seu estudo, ouviu quase 500 usuários de maconha para compreender tanto hábitos relacionados à ganja quanto ao consumo de bebidas alcóolicas. A descoberta central é a de que foi relatada uma diminuição significativa no álcool após as pessoas começarem a experimentar a diamba. Depois de começarem com os infusionados de cannabis, o hábito alcoolista diminuiu em 50%, com queda similar também no costume de binge drinking, o termo em inglês para quando se bebe muitos drinques em um curtíssimo espaço de tempo.
Sim, maconha é droga (assim como remédios, cerveja e tabaco), só que é uma que oferece bem, bem menos riscos, e inclusive vários benefícios, principalmente quando se pensa no âmbito do uso medicinal, recomendado por médicos para males diversos. Nos explica o psicólogo Kruger, primeiro versando dos efeitos da diamba: “A longo prazo, o uso pesado de cannabis pode levar à Síndrome de Hiperêmese Canabinoide em algumas pessoas, o que causa crises recorrentes de náusea, vômitos e dor abdominal. Quem tem histórico familiar de esquizofrenia pode ter um risco maior de psicose ao usar cannabis. Também se deve ter cuidado com a quantidade que se consome, especialmente ao ingerir (comestíveis, bebidas, tinturas). Os efeitos demoram mais do que com o vaporizador ou o fumo e, portanto, aguarde pelo menos uma hora antes de consumir mais”.
Agora Kruger compara com o álcool, para você, caro breezer, compreender o quanto este é mais perigoso: “Por outro lado, o consumo de álcool é uma das principais causas evitáveis de doenças crônicas, lesões e morte. Pesquisas sugerem que não existe um nível ‘seguro’ de ingestão de álcool, pois mesmo o consumo moderado acarreta algum risco. Quanto menos álcool você consumir, menor será o risco de efeitos adversos, como intoxicação alcoólica, pressão alta, câncer, doenças cardíacas, derrame, cirrose hepática e sistema imunológico enfraquecido”.
Ou seja, enquanto a maconha é um risco para algumas pessoas específicas e nunca leva à morte, o álcool mata, sendo a terceira principal causa de cânceres nos EUA. É por isso que o psicólogo mostra esperança de ver as bebidas canábicas sendo usadas em estratégias de redução de danos, tema que é preciosíssimo aqui na Breeza e ao qual nos dedicamos integralmente em nosso Guia da Boa Breeza.
Conclui Kruger: “As bebidas também podem ser uma forma mais segura de consumir cannabis do que fumar ou vaporizar. Integrar bebidas de cannabis em clínicas de reabilitação seria uma mudança substancial de perspectiva para essas instituições, e poderia ser benéfico. Recomendamos começar com bebidas de baixo teor de THC (0 a 5mg) e que também contenham, pelo menos, a mesma quantidade de CBD”.
É a economia, caro breezer
Um mercado que cresce quase 55% ao ano, com valor de mais de 7 bilhões de dólares e com projeções de centenas de bilhões de dólares, é evidente que vai atrair investimentos e empreendedores. Acrescente que as bebidas canábicas estão ainda muito restritas à América do Norte, pelas andanças dos processos de legalização pelo mundo, com 90% das vendas concentradas lá, e que se espera um boom em breve na Europa e na nossa América Latina. Ou seja, caros breezers dos negócios, é preciso ficar de olho.
“Quando a gente luta por essa regularização e legalização, mais do que voltar a ter acesso, que é primeira coisa, se trata também de uma evolução em conhecimento e tecnologia para trazer o maior valor agregado e os avanços”, nos fala Ana Júlia Kiss, CEO e fundadora da Humora. Com negócios que ficam entre EUA e Brasil, sua marca é uma das que acordou para a oportunidade.
Na ExpoCannabis do ano passado, a Humora destacava pelos corredores seu novo produto, um líquido full-spectrum, ou seja, com THC nos limites do permitido, que pode ser adicionado a qualquer bebida e transformá-la em canábica. A empresa chamou a invenção de um booster, algo como um “intensificador”.
Pelos limites das leis ultrapassadas de nosso país, só é possível comprá-lo com indicação médica (e respeitando todas as normas de importação, pois a produção em solo nacional ainda é proibida). “Novas tecnologias como essa aumentam a precisão da dose e a velocidade do efeito (se comparado, por exemplo, a comestíveis ou óleos), com benefícios a quem está buscando, por exemplo, redução da dor ou da ansiedade”, comenta Ana Júlia.
A Humora também observa o uso na substituição do álcool, tanto para fins de redução de danos quanto como forma de se esquivar de outros efeitos de cervejas e uísques, como o alto teor calórico. Faz total sentido pensar na troca de um pelo outro, pois a bebida canábica substitui o litrão não só em sua função de, digamos assim, lazer, mas como costume social – ter um copo em mãos, alívio psicológico para se aproximar de outras pessoas numa festa, ou mesmo para participar do brinde da galera.
Com a regulamentação do cultivo e o afrouxamento dos métodos de uso para pacientes pela Anvisa, o que deve em breve se tornar efetivo e prático, pode-se cogitar mais produtos nessa linha no mercado. Claro que até gigantes acordaram para o assunto, tanto que ao menos desde 2018 a Coca-Cola vem pesquisando uma forma de infusionar seu clássico refrigerante com CBD, o que a levou a se aproximar de uma marca do setor com a qual em breve pode anunciar uma parceria.
A ilegalidade só prejudica toda a sociedade. Hoje podem ser encontradas bebidas terpenadas no mercado brasileiro, e super apoiamos quem as faz, viva a liberdade. Contudo, também se tornou comum isso gerar confusão no consumidor, que muitas vezes acredita se tratar de infusionados de maconha (do que se trata este texto). O que leva a tomarem cervejas e energéticos achando que estão ingerindo cannabis, quando na verdade são apenas as mesmas bebidas usuais, somente com aroma e gosto que lembram a ganja. Confundir a breja com maconha e vice-versa leva ao uso não-consciente e a riscos maiores do que a pessoa talvez queira tomar.
Aderir ao bom-senso global e abrir nossas geladeiras, baladas, festas para os drinks canábicos (sem álcool, recomendamos, pois se trataria de uma mistura perigosa) é progresso social, mercadológico e bom caminho para quem compreende a redução de danos como a forma sensata de encarar o consumo de substâncias. O que desejamos: um brinde com nossos copos emaconhados!