Por Anita Krepp

Thiago Campos não escolheu a quinta diretoria da Anvisa por causa da cannabis. Quando chegou à agência em setembro de 2025, chegou até a questionar os colegas se fazia sentido que ele, um homem negro de cabelo black power, fosse justamente quem tocasse a regulamentação da planta; justo ele, que desde a adolescência tinha a clareza de que o proibicionismo foi desenhado para prender gente preta e que, obviamente, não dissociaria um tema de outro. “E tive apoio de todos eles, de todos os atores do governo”, conta o diretor, que falou com exclusividade à Breeza diretamente de Ruanda, onde participa de uma missão do governo para estabelecer cooperação com agências reguladoras africanas.
A trajetória de Thiago passa longe da cannabis, mas atravessa o coração do SUS. Advogado de formação, entrou no sistema de saúde em 2009, virou consultor do Ministério da Saúde, fez mestrado na Unicamp em direito sanitário, coordenou uma câmara temática de saúde no Consórcio Nordeste durante a pandemia e foi chefe do jurídico da Ebserh (Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares) antes de receber o convite do ministro Alexandre Padilha, da Saúde, para a Anvisa.
Quando chegou à Anvisa, Thiago escolheu a quinta diretoria pelo conjunto das atribuições: vacinas, dispositivos médicos, tabaco, portos e aeroportos. Foi a gerência de produtos controlados que trouxe o pepino da cannabis. O prazo do STJ para regular o cultivo já tinha estourado e, mesmo assim, não pensou duas vezes em pedir prorrogação. “Eu acabava de chegar, precisava tomar pé, fazer o diálogo necessário para endereçar a melhor solução. E sabia que em sendo para fins medicinais e farmacêuticos, não teria como não endereçar a regulamentação para pesquisa”, conta.
Criado no movimento negro
Apoiado pela área técnica, inaugurou uma nova era na Anvisa. “É como se a investigação sobre cannabis tivesse sido bloqueada pelo governo anterior, mas a área técnica tinha clareza de que esse encaminhamento era correto.” O desafio maior, no entanto, era como incluir as associações. “Não posso negar a existência desses atores sociais, não posso simplesmente dizer quem está fora, tá fora.”
Thiago decidiu fazer uma norma programática, deixando detalhes para depois. Durante todo janeiro, o tema foi o centro da agência. “Voto bom é voto aprovado”, ensinou um ex-diretor, que sugeriu a ele conversar com os demais diretores, chegar a um meio-termo, ceder e assim construir a aprovação, nesse caso unânime, de suas propostas. “É melhor dar um passo seguro e poder avançar outros passos no futuro do que não dar passo nenhum e ficar parado onde o véu do estigma ainda limitava qualquer avanço”.
Sobrinho de Edson Cardoso e Regina Adami, fundadores do MNU (Movimento Negro Unificado), Thiago tem conexão com esse tema desde sempre. “Eu tenho a leitura sobre a vinculação do tema da cannabis com o racismo, mas eu também tenho uma leitura de que a gente precisa produzir elementos que possam garantir que essa planta de fato gere os resultados de saúde que se espera.”
Cannabis é uma força social
Thiago se define como esse complexo de visões: o sujeito homem negro com origem ancestral de África, mas também o homem da saúde coletiva que respeita a ciência. “Eu tô nessa posição que considera o lugar da negação e do estigma produzido pela institucionalidade contra a negritude, mas também no lugar que entende que é preciso produzir elementos e evidências“.
E é por isso que aposta todas as fichas na autorização para pesquisa científica, que não é necessariamente voltada para produção de medicamento. “Nós poderemos ter como objeto das pesquisas o cultivo dessa planta e produzir resultados científicos que possam induzir alterações regulatórias”. Para Thiago, esse é o ponto central que ninguém está discutindo: produzir evidências científicas que permitam à cannabis mostrar tudo o que pode fazer.
Capitão do maior avanço da regulamentação de cannabis até aqui, Thiago não acredita na criação de uma agência reguladora específica para a planta, mas na união de Saúde, Agricultura, Economia e Justiça para regular com celeridade uma matéria que até a sua chegada estava emperrada. “A Anvisa não tem se furtado às tarefas mais difíceis, enfrentou um presidente que defendia a negação da vacinação e se colocou como baluarte da ciência. Essa instituição precisa receber da sociedade o crédito por aquilo que fez”.
Para ele, o que garante que uma pauta esteja na agenda não é a estrutura institucional, mas a força dos atores sociais. “As mães dessas crianças foram as pontas de lança de enfrentar a institucionalidade, a opressão do Estado, para garantir que seus filhos pudessem ter acesso ao cuidado. Essas pessoas construíram um coletivo que se transformou num movimento. A cannabis se tornou uma força social que tem representatividade, que encontra eco na sociedade brasileira”.