Na Breeza

O American Weed Dream

Thays Alves foi se aventurar na Califórnia para trabalhar nas lavouras de ganja, passou uns perrengues e hoje lidera um time de uma empresa de cannabis da Flórida

Ao atender a Breeza na chamada de vídeo, a paulistana Thays Alves está toda equipada, com roupa branca de trabalho, luvas, daquelas vestimentas que usam dentro de indústrias farmacêuticas e laboratórios. “Não pode nem anel, nada disso. E tem câmera em todo lugar aqui”, comenta ela. Na sequência, passa por ela um colega, que se despede com um “Thank you, see you on Monday”. A fala tem aquele certo tom de reverência que se mostra com chefias, ainda mais no ambiente de trabalho costumeiro dos EUA.

Thays lidera uma equipe de 40 funcionários da Goldflower, empresa de cannabis da Flórida. Como nesse estado dos EUA só a medicinal é liberada, a fábrica onde trabalha segue regras das mais rígidas. “Cai na mesma rede que as farmacêuticas”, comenta. “Se fosse 100% legal, seria escolha da empresa seguir ou não (para o produto ser vendido ou não como medicinal)”.

Ela é responsável por chefiar toda a pós-produção, cuidando dos drying rooms, da trimagem, da empacotagem, da logística, de tudo que vem após a colheita. Vive muito bem na área de Miami, realizando um sonho antigo de quem foi aos EUA em busca do America (Weed) Dream.

Antes, os perrengues

A paulistana chegou nas terras norte-americanas primeiro pela Califórnia, em 2016, quando então era lá liberado o medicinal, mas ainda não o recreativo. Na prática, sabemos que tudo já meio que podia no estado que hoje é o mais maconheiro do planeta, só que o processo de legalização era, bem, ainda um processo, não um fato.

Thays havia se formado em direito, faculdade que escolheu justamente pela vontade de atuar na área da cannabis. “Queria virar criminalista e lutar pela legalização”, comenta. Mas notou que criminalistas precisavam, ao menos antes de atuarem só com o que querem, “lidar com bandido, ir em presídio, delegacia, até chegar lá”. Ela desistiu desse caminho: “Nunca foi minha praia isso, sou bem bunda-mole”. 

Em São Paulo, recém-formada e com vontade de sair do país para ter outras experiências, um dia saiu com uma amiga que tinha acabado de voltar da França. “Me contou que estava trabalhando com maconha de forma totalmente legal”. Após uma pesquisa, Thays escolheu seu destino, a Califórnia.

Ao chegar, surpreendeu-se com a fartura de ganja. Sem ter consigo, foi perguntar a um grupo de rapazes onde conseguir. Eles mostraram um bolo de flores das melhores. Não só, a presentearam com umas, sem se importar com buds que caíram no chão.

Todavia, a sensação de abundância logo se foi. O início foi duro na lida da maconha. Então morando com um namorado brasileiro que imigrou com ela, foi viver em cidades ligadas ao comércio da cannabis, principalmente Humboldt, achando empregos em lavouras. 

“Morei no meu carro, na rua, dentro de uma barraca (…) aceitei todos os perrengues que vieram com muita cabeça aberta”. Diz que chegou a passar fome e frio. “Teve um emprego que arranjei, três meses ganhei, outros oito, não pagou. (onde ela morava) Não tinha banheiro, água quente. Teve um tempo que (para comer) só tinha galinha e ovo”. Contabiliza que chegou a tomar banho gelado ao longo de um ano. “Sempre em déficit de calorias, trabalhando todos os dias com a planta, dia inteiro”.

Ela começou a galgar postos e a vida passou a melhorar, logo chegou a cargos de gerência. Em paralelo, resolveu registrar seus dias no cultivo em um Instagram, o Fazenda Legalizada.  

Porém, nesse tempo veio a legalização, numa onda que pareceria que faria bem a quem trabalhava antes na zona cinzenta da lei da cannabis, só que foi o contrário. Ao mesmo tempo, seu perfil foi banido do Insta e, toda vez que tentava abrir outro e começava a crescer em seguidores, voltava a perder a conta. O Instagram fica no pé de quem faz conteúdo sobre a erva, como já falamos aqui, e Thays sempre estava rodeada por maconha em seus vídeos, o que logo alertava o olhar censor da rede social.

A brisa da Flórida

“Cheguei na Califórnia na troca do medicinal, da área cinzenta, para virar totalmente legal, legalizar fazendas. Hoje isso criou um problema“, lembra ela, que avalia que, por gana de regularizar logo, os empreendedores da área então aceitaram termos e normas que com o tempo os prejudicaram demais. “O mercado quebrou, sem grana para pagar as taxas. O ramo da maconha na Califórnia só existe para quem chegou após a legalização”. 

A cidade onde morava, Humboldt, começou a ficar deserta, por efeito das pessoas se mudando em busca de empregos em outros lugares. Empreendedores do ramo venderam suas propriedades e a esperança de antes se tornou angústia.

Thays considera que tinha chegado em seu limite e que lá não ia conseguir mais seguir seu sonho de crescer cada vez mais no ramo pelo qual é apaixonada, o da maconha. Para ela, é mais que negócios, sua fala transparece ser sobre ativismo e paixão. Também pudera, ela compartilha que faz uso desde a juventude e que, hoje em dia, consome maconha e haxixe em boas quantidades diárias.

“Sou a maior maconheira do mundo. Acordo fumando, fumo nos meus breaks, quando chego em casa”. Compartilha que a erva lhe ajuda a comer, pois “era bulímica quando nova”, além de a encarar o estresse, a relaxar após os dias pesados. Considera, por isso, que nunca está sozinha, mesmo em sua atual fase solteira. “Sou eu e Jah, sempre”. 

Como notava que outras pessoas ao redor começavam a abandonar a área da cannabis na Califórnia, pela decadência do sonho, começou a ter receio de se ver obrigada a fazer o mesmo. Foi então que começou a procurar por vagas no ramo no Linkedin e assim encontrou seu atual emprego na Flórida.

Nos diz estar realizada: “Sonhava em estar exatamente como estou hoje. Dentro do meu sonho, cheguei no topo”. Sim, mas suas ambições parecem só crescer. Além do trabalho na empresa floridense, tem investido em iniciativas da área, inclusive em relações com o mercado brasileiro, como em uma associação de plantio e em uma empresa de importação de produtos de cannabis. Tem nos planos abrir uma startup focada em facilitar a parte de sistemas de vendas no Brasil, além de se relançar nas redes sociais, como (novamente) no Instagram e no YouTube.

“Vou para onde a maconha me leva”.

Filipe Vilicic