
André Dahmer é conhecido pelas suas tirinhas ácidas que criticam a vida moderna, das tecnologias aos moralismos vários e chatos da sociedade brasileira. Surgiu com o hilário, e ao mesmo tempo de se fazer pensar, “Malvados”, primeiro viralizando na internet lá nos anos 2000, e aí se espalhando por jornais, revistas, no Twitter, no Instagram. Se nunca leu umas tirinhas do Malvados, tá perdendo.
Maconha e outras drogas são assuntos bem recorrentes nas charges, como as que hoje ele publica na Folha de S. Paulo, no O Globo, na revista Piauí. “Viajo porque preciso, volto porque te amo”. É a mensagem do desenho que tenho dele na parede aqui do escritório, que mostra um cara fumando um com essa frase na camiseta.
A conversa de André Dahmer comigo, Filipe Vilicic, editor da Breeza, fluiu super bem por sua simpatia, abertura e por esse humor bom de ler e ouvir que ele tem, típico de seus quadrinhos e que transparece no que fala. Numa entrevista que passa por experimentações na faculdade, do arrependimento de ter achado que a Marcha da Maconha era devaneio e coisa de maconheiro brincando, até ver o assunto como urgente e começar a usar do medicinal, assim como tem feito o seu pai.
No teu trabalho, Dahmer, e falo até como apreciador do seu trabalho, tem bastante a maconha presente. Nos “Malvados”, (na série de tirinhas) nos Quadrinhos dos Anos 10, aqui atrás tem um quadro teu…
Adoro ele…
Também adoro ele. É o “Viajo porque preciso e volto porque te amo”, ganhei de presente pelo maconheiro que sou, né?, um cara fumando, pra quem não consegue olhar. Por que essa escolha de colocar a maconha como pauta, falando de várias perspectivas dela?
Eu na verdade não fumo há muitos anos porque não batia legal. Até a faculdade ainda tentei, mas eu já tenho uma cabeça muito, já sou muito viajandão. Mas tive um reencontro com a cannabis recentemente, faz 3 anos, através da Apepi. Tomando medicinalmente e me fez muito bem. Ao meu pai também, ele tem 84 anos e sentia dor no corpo inteiro, foi muito bom pra ele. A mim, tem ajudado a dormir, sabe? Eu fui um cara que nunca militei. Me lembro que William e o Matias Maxx, quando começaram a fazer as primeiras marchas da maconha no Rio, eles me pediram um desenho e eu fui super ríspido. Porque na época eu achava que era uma coisa de, enfim, devaneio, e maconheiro brincando. Na verdade, eu só entendi que a legalização e o porte da droga é importantíssimo, inclusive pras pontas mais frágeis da sociedade… mas eu não tinha essa consciência na época. Isso tem muito tempo, tem 15, 20 anos. Assim eu acho que uma das primeiras (marchas)… Uma pena que acho que tá parada no Supremo (a pauta), mas acho que é uma das pautas mais importantes pra população que mais sofre com a violência armada, com o conflito armado.
“Quando começaram a fazer as primeiras marchas da maconha no Rio, eles me pediram um desenho e eu fui super ríspido (…) eu achava que era uma coisa de devaneio e maconheiro brincando (…) não tinha essa consciência na época (…) hoje eu me envergonho de não ter entendido isso há quinze, vinte anos, até porque fumei na época da faculdade”
Que o Estado tome pra si essa responsabilidade, sabe?, de vender droga na drogaria. Você ir lá com seu CPF e comprar. Ou você pode plantar em casa, melhor ainda do que comprar de uma indústria ou de um governo. Enfim, eu acho que não sei se é consenso isso, mas a grande luta é pra que você possa, em vez de transferir da clandestinidade pra Philip Morris, por exemplo, acho que a luta é pra que você possa plantar na sua casa, sem produto químico, sem agrotóxico, da maneira que você quiser. Então hoje eu me envergonho de não ter entendido isso há mais de 15, 20 anos, até porque fumei na época da faculdade. Inclusive deixei de fumar. Minha droga infelizmente são as que o mercado vende, que é álcool e tabaco. Inclusive eu odeio tabaco, mas, enfim, é a droga que eu uso. Mas eu vejo como de maior importância de todas que o controle da droga, assim, eu vou mais a frente, acho que não é só a maconha, não. Mas como primeiro passo para uma sociedade tão atrasada como a brasileira, assim, é de muita importância, vai salvar muita vida, poupar muito derramamento de sangue, sabe (a legalização)?
Como leitor das suas tirinhas, noto como elas se destacam muito pelo humor ácido e crítica à sociedade moderna. Critica internet, critica tudo, com um olhar que nos faz refletir sobre o mundo moderno. Como você coloca essas pautas e por que colocar a maconha no meio? Como escolhe as pautas, é intencional, não é?
Não trabalho muito com pautas fechadas. Não abro os jornais de manhã e falo “hoje eu vou falar sobre isso”. Estou até um pouco cansado disso, sabe? Tivemos anos duros durante o governo do Coiso (Bolsonaro) e eu fiquei meio cansado, um pouco. Na verdade, vai do dia a dia, assim, acordar de manhã e pensar “hoje sobre o que quero escrever, desenhar?” Não sei, sempre me perguntam, existe uma pergunta frequente sobre método e criação, é meio um fetiche as pessoas quererem entender. Mas na verdade não tenho nenhuma regra ou maneira de te explicar porque começo a fazer uma coisa. Claro que tem as coisas que você sente, as coisas que você tá passando, às vezes está passando por um momento difícil, de morte ou separação, ou de, enfim, alguma indignação cotidiana que seja. Mas eu não tenho uma linha de trabalho, não, eu deixo muito aberto, mesmo, sabe? Assim que funciona , sempre funcionou assim, então eu não quero mexer muito nisso, não gosto muito nem de pegar trabalho com pauta, sabe? Até costumo cobrar caro, a minha vontade é que não aceitem às vezes, falem “ah, não, muito caro , não podemos”. Não gosto muito de pauta, não. Eu gosto de trabalhar, às vezes até pra própria Piauí (revista)… eu já fiz o contrário, né?. Fiz uma linha de charges e cartoons e falei “vocês querem isso?”. E eles falaram “queremos, legal”. Mas sei também trabalhar com pauta. Uma coisa que a gente não pode abrir mão, enfim. Tenho três filhas e tenho de trabalhar.
Falando de psicodelia, não sei se é uma impressão minha, mas eu vejo muita psicodelia dentro de suas tirinhas, pode ser uma coisa involuntária. Me lembra, por associações, coisas como Freak Brothers, de raiz muito da maconha e dos psicodélicos. De onde vem a psicodelia no seu trabalho?
Eu não posso dizer que vem do uso de nada pois trabalho de manhã, 6 horas da manhã. Não bebo pra trabalhar, não fumo maconha, enfim. Eu morro de medo, na verdade, porque sou uma pessoa muito sensível. Hoje em dia, quando vejo amigos tomando ácido, cogumelo, qualquer coisa dessas, nem sei que drogas que têm hoje na verdade, quais são as drogas que estão tomando, eu não tomo de jeito nenhum, eu me sentiria muito mal. E não se trata de caretice, não, sabe? É meu estado sensível, mesmo. Acho que a alteração de consciência me gerava mais angústia, sabe? Do que propriamente liberdade. Não me dava liberdade pro trabalho. Ao contrário, assim. Eu já fui mais jovem, hoje tenho 50 anos. Comecei a trabalhar tarde, com 27, com quadrinhos, mas já com essa idade eu acho que não tomava nada pra fazer nada. Então, eu tenho uma cabeça muito caótica, sabe? Talvez venha daí a confusão. Mas muito me orgulha, porque eu tenho, assim, na questão dos psicodélicos e resgatada pelos… penso nos beatniks, assim, eu olho com uma simpatia enorme. Acho que aqueles que usam de alucinógenos, cogumelos ou qualquer coisa pra trabalhar, eu não faço nenhum tipo de restrição pra isso. Acho que cada um se encontra num lugar. Tem gente que corre pra render melhor na literatura. Murakami, né? Tem gente que precisa de exercício físico. Acho que, na verdade, não que eu seja muito velho, tenho consciência que não sou muito velho, mas já tô com bastante idade. Então busco mais o equilíbrio do bicho que tenho em mim com meu corpo e minha cabeça. Eu não estou mais num lugar de transgressão, do que eu sou, do que fui enquadrado. Tô querendo agora achar um lugar de conforto que não seja transgressor, nem muito menos apático, vamos dizer assim. Quero encontrar um lugar de conforto pra mim, que está mais ligado ao bem-estar, sabe? Conforto da cabeça, paz, acordar sem angústia, trabalhar sem angústia, isso me interessa mais agora.
“Morro de medo, na verdade, porque sou uma pessoa muito sensível. Hoje em dia, quando vejo amigos tomando ácido, cogumelo, qualquer coisa dessas, nem sei que drogas que têm hoje na verdade (…) eu não tomo de jeito nenhum“
Você falou muito da angústia, de que a alteração da consciência te leva a angústia. Teve muita bad? Como foi esse passado de experimentações? Quis ser transgressor no passado?
Desde moleque eu fui muito transgressor das normas. Repeti muitos anos, fui expulso de colégios. Até os 14 anos foi um inferno pros meus pais e tudo. Acho que tenho uma alma transgressora, desobediente. E isso não considero um defeito. Eu tenho uma filha desobediente também, e outra obediente. E uma que não sei, pois está muito nova ainda. A desobediência da Lola é boa, é um traço bom. Às vezes a obediência pode ser um defeito, entendeu? Na verdade eu me acho, sim, transgressor, sabe? Mas também minha mãe trabalhou no sistema prisional a vida inteira. No Desip (Departamento do Sistema Prisional), ela foi diretora do Desip do Rio. Ela é assistente social e viu muita coisa terrível por trás das grades, dentro dos presídios. E eu sempre tive muito medo de cadeia, né? Quase que, assim, eu acho que se fosse… se a maconha fosse tratada no Brasil como algo parecido com a cerveja, ou o tabaco, talvez eu tivesse seguido fumando, sabe? Mas sempre tive muito medo da polícia. Sempre fui muito cagão pra violência policial e cadeia. A raiz do meu incômodo, do meu sofrimento usando qualquer tipo de droga era a ilicitude, sabe? E não quero que os próximos que venham aí, minhas filhas, os mais jovens, passem por isso. Não tem necessidade nenhuma. A maconha, inclusive, é uma droga que deve fazer menos mal que açúcar, sabe? Pra quem, obviamente, não tem nenhuma predisposição à esquizofrenia ou algum problema que já vem com ela. Não só falando do fim da perseguição ao usuário, que deve usar até de maneira recreativa, tem uma questão muito maior que é alimentar, a violência, o tráfico de armas, a corrupção. Acho que o grande avanço que a sociedade brasileira vai ter com a legalização das drogas não é o usuário consumir maconha sem medo. Vai acabar com uma parte importante desse ambiente pobre de violência, e corrupção, e tráfico de armas, enfim.
Você, como comentou, tem filhas que estão neste mundo ao qual pertenceu e teve angústia em relação às drogas. Como reagiria em relação à uma filha que falasse “tô usando”? Como você espera, como pai, essa reação de relação transgressora? Você falou que tem uma filha mais transgressora…
Não sei exatamente como vou lidar porque minha (filha) mais velha tem 14 anos. Então é minha primeira vez enfrentando uma adolescente. Eu como adolescente, como te falei, dei muitos trabalho em todos os sentidos. Em rendimento escolar, brigas na rua, eu não desejo isso pra ninguém. Já pedi desculpas pros meus pais várias vezes, inclusive. Mas acho que tudo passa pelo diálogo, sabe? Primeiro entender que minha filha não corre os mesmos riscos, né? Sendo uma menina branca de classe média alta do Rio de Janeiro, né? Que ela não corre os mesmos riscos da população negra, enfim, por violência por uso de drogas, ou mesmo sem usar a droga. Isso já é terrível, ne? Saber que ela está, particularmente, já nasce mais protegida de toda a violência que a ilegalidade pode gerar. Mas também tenho de me preparar porque existe a questão da dependência química, né? Não da maconha, no caso, claro, mas do álcool e do tabaco. Só não queria que minhas filhas usassem cigarro e andassem de moto, eu sempre falo isso. Porque, assim, até eu acho, assim, que é muito mais difícil você se tornar adicto de cocaína, eu acho, não tenho certeza, não sou especialistas, mas acho que é mais provável você ter problema com álcool ou tabaco, principalmente, que é uma droga muito viciante. Então me preocupam também as drogas legalizadas. Agora, me preocupam de uma maneira progressista. Eu não quero que proíbam o cigarro, nem o jogo, nem o álcool, eu sei o que vai acontecer, vai nascer um mercado informal e clandestino, né? Mas eu quero uma discussão ampla nas escolas, na sociedade. Acho que os jovens estão bebendo menos hoje. Mas acho que moleques de 16, 17, 18 anos, não sei se estou falando bobagem, temos de olhar números, né? Mas considero, por exemplo, que o álcool, esse, sim, é uma droga muito perigosa, o cigarro é uma droga muito perigosa. Mas me parece que estão fumando menos, os moleques e as meninas. Acho que estão usando menos, né? Eu não tenho certeza também.
“Só não queria que minhas filhas usassem cigarro e andassem de moto, eu sempre falo isso (…) Então me preocupam também as drogas legalizadas“
Os números que a gente tem aqui, a gente fez uma reportagem sobre isso, e vimos que estão usando bem menos cigarro e álcool, e mais maconha. Pelo menos nos números dos EUA, no Brasil temos poucos números confiáveis. Mas também tende a indicar isso.
Você acabou de falar também que reencontrou a maconha há três anos pela função medicinal, o fim terapêutico. E que seu pai também depois encontrou. Como foi isso? Como você achou novamente, porque procurou, ainda está na sua vida?
Eu na verdade fui procurar ajuda porque não durmo bem desde os 15 anos de idade, sempre tive dificuldade pra dormir. Cabeça muito acesa. Fiz e faço uso corriqueiramente de álcool, vinho, né?. Não bebo uísque nem vodca, eu não gosto. Mas você beber meia garrafa de vinho numa noite, uma garrafa de vinho, pode danificar muito o organismo. Inclusive pela questão do açúcar. O vinho tem muito açúcar e depois você fica em repouso e dorme. Eu ainda tomo vinho à noite, mas queria achar uma solução por fora dos ansiolíticos, ou dos Clonazepam, sei lá o nome, tem vários remédios, inclusive que viciam muito, os para dormir. Então não quero tomar nada que me torne dependente. Aí comecei a ver a questão do CBD. Hoje em dia eu tomo CBD sem THC de dia, de manhã, pra baixar o facho. Pra começar o dia numa boa. Poderia tomar de tarde, mas nem tomo. Mas também tomo a noite, com THC. Tudo legalizado, sem traficante, motoqueiro, pela Apepi. Que é uma associação muito séria. Talvez a primeira organizada de plantio e venda de óleo medicinal. Então essas pessoas passaram muito tempo lutando para que os parentes pudessem usar o canabidiol com doenças muito mais sérias. pessoas que têm doenças realmente sérias, de convulsões, de 20, 30 convulsões por dia, e deixaram de ter. Pra mim foi ótimo, durmo melhor, sonho, tenho a noite o que a gente chama de sono completo, sabe?
“Queria achar uma solução por fora dos ansiolíticos, ou dos Clonazepam, sei lá o nome, tem vários remédios, inclusive que viciam muito, os para dormir (…) Aí comecei a ver a questão do CBD“
Ainda não resolvi tudo. Porque também eu sou péssimo com regras, enfim, tenho dificuldade para tomar remédio no horário certo, mas acho que é uma coisa que veio pra ficar mesmo. A indústria vai se valer disso e ganhar muito dinheiro. E a principal luta é para que o conhecimento… porque é só uma planta, na verdade, que cresce em qualquer lugar, uma praga como dizem os botânicos… pra que fique na mão das pessoas. Para que não aconteça a mesma coisa que aconteceu com o tabaco. Eu não sei falar com propriedade dessas coisas, mas você procura o Mathias, o William, eles vão falar com propriedade, né?, sobre qual é a luta mesmo. Eu na verdade sou um dos que me beneficiei e enxergo assim há muito tempo, enxergo a questão da proibição, especificamente da maconha, como uma injustiça, sabe?, mesmo para fim recreativo. Ela não tem a capacidade de dano, todo mundo sabe disso, (é só) perguntar para qualquer médico. A maconha em relação à vodca, por exemplo, ou mesmo se tomar cinco, sete latas de cerveja todo dia, os riscos que você tem pra saúde pública, pra sua saúde, pra saúde do outro, no trânsito, em brigas de bar… o álcool causa um monte de problemas de saúde, que não só pelo uso de álcool naquela pessoa, e mesmo assim ele é controlado pelo Estado. Eu acho certo que, mesmo sendo uma droga perigosa e que precisa estar na mão do estado, é óbvio, né?, senão isso será regulado com violência, uma pessoa vai tomar o ponto da outra. Ah, vamos invadir a fábrica da Brahma. A Heineken vai invadir a fábrica da Brahma e matar todo mundo. Isso não é civilizado. É isso. Eu acho que, assim, olho com simpatia, sempre olhei com simpatia, a maconha inclusive ajudou a fazer grandes pinturas, literatura, música nem se fala o quanto a maconha ajudou a produzir música. Tem de parar um pouco com, não sei se é um ranço, um puritanismo, sabe?, da noção, da capacidade que a gente tem de perder a consciência, de alterar a consciência e perder a consciência essa que a gente tá usufruindo agora, pelo menos eu, não sei você. A dos caretas, sabe? Eu gostaria muito de poder fumar, só não posso pois realmente já sou maluco. Então eu tô naquele grupo que não é bom fumar, sacou? Mas pra todo resto, para a pessoa normal, poxa, acho que faz bem. Se não tiver nenhum aspecto de compulsão e nenhum traço de doença mental anterior, esquizofrenia… não faz mal nenhum, eu acho.
“Tem de parar um pouco com, não sei se é um ranço, um puritanismo, sabe?, da noção, da capacidade que a gente tem de perder a consciência, de alterar a consciência (…) gostaria muito de poder fumar, só não posso pois realmente já sou maluco“
E seu pai? Você que apresentou pra ele? Como foi introduzir para um pai a cannabis? Se é que foi você que apresentou… ou ele descobriu sozinho?
A gente conversou várias vezes, ele topou, sentiu muita dor. Ele tem uma doença degenerativa. Aí sente dor em todo o corpo e melhorou muito. Como eu disse pra você, o meu problema, que é falta de sono, nem se compara aos benefícios de outras pessoas que estão usando o cannabidiol. As pessoas que são, ainda… não sei se existe alguém ainda contra o uso medicinal. Isso é um absurdo! Agora, mas a gente tem de falar do uso recreativo também, que hipocrisia é essa, né? O que é melhor, tratando-se de redução de danos, você deixar um garoto beber vodca todos os dias, ou fumar quarenta cigarros por dia? Eu nunca vi um moleque desses, os maconheiros, fumar 20 cigarros de maconha por dia, os tabagistas fumam. Então o dano pro pulmão é muito maior. E mesmo assim não quero que o tabaco seja proibido, continuo a defender também que seja regulado com pesquisas, com números, pra saber quantos fumam, quantos não fumam, o que pode ser feito para reduzir o número de tabagistas, o que pode ser feito para informar. Como a gente faz isso com cocaína se é proibido? Como você vai aferir a quantidade de dependentes químicos, ou de crack? Ou você está com o Estado presente com pesquisa e educação, pois presente com a polícia já viu que não dá certo. A gente perdeu essa guerra só com polícia, essa é a questão. O Rio de Janeiro tem uma verba gigantesca pra polícia, mas enorme, e a gente mata bandido todos os dias, o dia inteiro. Se matar bandido acabasse com o uso de drogas, com o tráfico de drogas, o Rio de Janeiro não teria mais uso de droga, tráfico de drogas, porque a nossa policia é muito letal. Até pros policiais eu falo isso, pra parar de combater algo que não se combate dessa maneira, matar e morrer por uma causa que não vale a pena. Não é assim que se combate uso de drogas. Uso de drogas se combate com educação, afeto, de pai e mãe, pai presente, mãe presente, oportunidade pras artes, pra estudar, pra fazer música, pra poder tocar um violino, fazer um esporte, poder jogar vôlei, tênis. A gente não tem isso pras pessoas, falta muita coisa.
“Se matar bandido acabasse com o uso de drogas, com o tráfico de drogas, o Rio de Janeiro não teria mais uso de droga, tráfico de drogas, porque a nossa policia é muito letal“
Dahmer, falando em polícia, me veio uma coisa na cabeça que é um assunto outro. Que quando assisti a série Dahmer na Netflix eu sempre lembrava de você, porque é a pessoa que lembrava com esse nome, e muita gente deve se lembrar. Você é um cara que viraliza na internet e surgiu muito da internet, com Malvados e tal. Então queria perguntar isso pra você: teve louco que achava que você tava homenageando um serial killer, e pra quem não sabe é uma série da Netflix sobre um serial killer?
Na época que aconteceram esses crimes, vi na televisão, eu era bem moleque. E falei “nossa tem o mesmo sobrenome que eu”. Mas eu esqueci disso, quando fiquei velho falei “vou assinar meu nome e o nome da minha mãe, que é Dahmer. Realmente, quando aconteceu essa série voltaram a falar desses crimes horrorosos. E eu fui acusado mais de uma vez de usar o nome de um serial killer para promover meu trabalho, né? (risos). Mas na verdade é o nome da minha mãezinha Foi feito com a melhor das… foi uma homenagem carinhosa. Mas tudo bem, assim. Os ruídos da informação. Nós vivemos na era do ruído de informação. Eu posso te mandar dois links (dizendo) que margarina faz menos mal que manteiga, e você pode me mandar dois links que manteiga faz menos mal que margarina. Porque hoje você sempre vai ter como mandar um link pra alguém pra dizer “olha aqui, ó, isso aqui prova que eu tô com a razão”. Então são tempos muito difíceis, mas eu acho que não mancha meu trabalho, não. Não é culpa minha, ele matou e comeu um monte de gente. Comeu mesmo, matou, carne e comeu. Desagradável… ele tem o mesmo sobrenome, mas aconteceu, tudo bem.