Reportagens

A união das ligas canábicas

Nos últimos cinco anos eclodiram grupos universitários que estudam a erva. Breeza conversa com cientistas envolvidos e explica a importância de dar força para esse movimento
23|01|25

Lorrany Teixeira começou a se interessar pela ciência dos psicodélicos aos 15 anos de idade, após ingressar em uma comunidade de Facebook que abordava os cogumelos mágicos e seus similares, “de ayahuasca a mescalina”, segundo ela lembra. Tinha então preconceito com maconha, pois “sou da Baixada Fluminense, perdi muitos amigos pra isso, pessoas que sofreram violência policial”. Conforme foi se aproximando da planta e coletando mais informações, seus conceitos mudaram e, após ingressar em química na universidade, logo se dedicou a pesquisar o assunto. Ao entrar no mestrado, em 2022, na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), sua primeira intenção era estudar cannabis, porém sofreu resistência do orientador e optou por focar em uma planta ainda pouco conhecida do Pantanal. Isso não quer dizer que desistiu da ganja, pelo contrário, procurou alternativas para suas curiosidades emaconhadas e assim descobriu seu caminho na Liga da Cannabis.

A Liga Acadêmica de Cannabis Medicinal da UFRRJ, da qual hoje é vice-presidente, teve início em 2020, a partir da iniciativa de uma aluna da medicina veterinária que usava a ganja para tratar de problemas de saúde. O projeto foi encampado primeiro por professores da veterinária, com protagonismo de Magda Medeiros, que em suas aulas introduzia os alunos aos benefícios do sistema endocanabinoide. Quando surgiu, consagrou-se como a primeira liga acadêmica brasileira com “cannabis” no nome e hoje conta com 36 integrantes.

A partir desse movimento pioneiro, eclodiram dezenas de outras ligas canábicas em universidades do país, nas quais pesquisadores e educadores interessados em mergulhar na ciência sobre a erva se atraem, se reúnem e se fortificam. Não se sabe ao certo quantas dessas organizações brotaram em cinco anos, pois nenhum levantamento do gênero foi feito até agora, mas é possível encontrar  algumas dezenas delas espalhadas em perfis pelo Instagram.

“Em 2025 pensamos em reformulações para trazer outros pesquisadores para somar e um dos objetivos é esse (levantar dados sobre as novas ligas canábicas que se disseminam)”, compartilha a química Lorrany Teixeira. Na ExpoCannabis Brasil do ano passado, em São Paulo, ela esteve como uma das representantes da Liga da UFRRJ, que levou educação científica e sobre insumos do cânhamo para o evento. “Lá vi como tinham muitas ligas que eu ainda não conhecia, é muita gente”.

RESISTÊNCIA

Não é fácil comunicar, educar ou pesquisar sobre cannabis e psicodélicos dentro da estrutura conservadora e ultra burocrática da Academia brasileira, o que é bem notável nos ambientes das universidades públicas, sejam estaduais ou federais. Em uma reportagem recente contamos a saga kafkiana de cientistas brasileiros em busca de fazer seus trabalhos no campo. Sim, o cenário melhorou nos últimos anos, mas está longe de ficar mesmo que próximo do aceitável. Piora também o vaivém do contexto, como o legislativo e político, conforme é alinhado ao vaivém da ideologia do governo da vez.

A onda cada vez mais forte das ligas canábicas, e esperamos que perdure e cresça, vem como um bom alívio para os que, como nós breezers, temos esperança de que a sociedade vença retrocessos, hipocrisias e preconceitos em favor de uma abordagem mais saudável, inteligente, sensata, justa e honesta da questão das drogas, e dos temas e interesses (sociais, culturais, políticos, mercadológicos…) em torna dela. Em especial nos ambientes acadêmicos, de inovação e médicos, onde essa liberdade de pensamento é essencial para garantir avanços essenciais para qualquer nação que não quer se perder ainda mais na cena complexa e conturbada destes anos 2020.

Entretanto, é uma onda que teve seus momentos de bad. Como falamos, não é fácil, não mesmo, abordar o assunto. 

Veja, por exemplo, pelo o que tiveram de passar os cientistas e professores universitários do Núcleo de Estudos Interdisciplinares em Cannabis (NEICANN) da Unesp de Botucatu (SP). Desde que abriu as portas, em 2022, a liga tem tanto apoios essenciais quanto resistências dentro do campus.

“Em 2023, um curso nosso ganhou uma votação pública e deveria ocorrer, mas foi impedido de acontecer”, nos conta o veterinário Pedro Domingues, mestrando da Unesp e membro-fundador do NEICANN. Para justificar a desqualificação do curso, a universidade alegou que ele seria ilegal por ferir a Lei de Drogas, ou seja, basicamente disseram que os cientistas seriam criminosos simplesmente por realizar seus estudos. “Perdemos os recursos do curso, dentre várias outras coisas”.

Em sua visão, o status de “liga acadêmica” que o grupo ganhou oficialmente, pouco depois no mesmo ano de 2023, ajudou a dar maior reconhecimento do núcleo, como perante à burocracia e aos tomadores de decisões mais conservadores. “Tem um significado maior, principalmente pela interdisciplinaridade e porque hoje podemos ter cursos, projetos de educação e de pesquisa, dentro de nosso próprio grupo”, avalia o veterinário.

GERMINANDO

As sementes dessas iniciativas são normalmente estudantes jovens, na casa dos 20 anos, início dos 30, e que vieram de gerações que já estão acostumadas a marchar pela maconha. Uma juventude que vê a normalização da diamba em filmes e séries, ri com comédias stoners, observa a consolidação da ciência e medicina canábica e psicodélica e resgata o antiproibicionismo como forma de progresso para a sociedade.

“Antes de ser pesquisadora na área, já conhecia as potencialidades das fibras da cannabis por participar do coletivo antiproibicionista Mente Sativa, que atua em Goiânia desde 2011 na organização da Marcha da Maconha e de eventos de conscientização sobre a importância da legalização das drogas”, comenta a arquiteta e urbanista Luanna Lourenço Morais. Ela é mestranda na Universidade Federal de Goiás (UFG), onde integra o Núcleo de Pesquisa em Cultivo de Cannabis Sativa (NUPECC). “Mas, devido à proibição, nunca imaginei que seria possível pesquisar dentro da universidade sobre cannabis”.

Ainda bem que os ventos estão mudando, né? Mesmo que ainda existam vários obstáculos a serem transpostos. “Nossos encontros atraem participantes de diferentes instituições e da sociedade, mas ainda mantemos as atividades restritas, garantindo maior segurança jurídica e reduzindo possíveis conflitos”, comenta ela. A arquiteta pesquisa sobre o uso do cânhamo em materiais de construção (o “concreto de cânhamo”) e na sua liga há dezoito membros, entre professores, técnicos de laboratório e alunos de graduação e pós, de campos variadíssimos, como agronomia, química, biologia e farmácia.

A interdisciplinaridade é uma das características mais fortes dessas instituições acadêmicas. As ligas emergentes se dedicam à pesquisa, ao ensino, a disseminar informações e conhecimento científico para dentro e fora do ambiente universitário, à realização de encontros e simpósios. 

“O ativismo dentro da universidade mostra para todos que maconheiros também são cientistas e que podemos ocupar esse lugar”, defende a bióloga e fitoterapeuta Catherine Eleanor Rose, que é mestranda da UFSC, onde integra o Polo de Desenvolvimento e Inovação em Cannabis (PODICAN), criado em 2023 e no qual hoje se reúnem cerca de vinte pesquisadores multidisciplinares, que estudam de cultivo a medicina em animais, ou até mesmo um aluno com um trabalho sobre hidromel de cannabis. “A liga acadêmica é nossa segurança e respaldo para trabalhar com segurança e unir pessoas que querem pesquisar o tema sem medo de retaliações”, completa ela.

O campo da cannabis é pioneiro, revolucionário e tem potenciais incríveis em diversas camadas da sociedade, da ciência às aplicações industriais e à movimentação de um mercado multibilionário. Contudo, gira em torna da cultura canábica um turbilhão de preconceitos e mentiras que impedem esse progresso. É com conhecimento, informação e educação que se pode mudar a percepção hoje em muito errada que se tem da maconha. As ligas acadêmicas da cannabis aparecem como ferramentas essenciais para essa transformação ao proporcionaram a união em torno desse esforço coletivo.

Filipe Vilicic