Saindo da estufa

Evandro Mesquita: “Hoje em dia tá tudo tão louco que a grande loucura é você estar careta vendo”

Evandro Mesquita tem um espírito que parece sempre enérgico, jovem, pra cima. E essa alma de garotão fica evidente na conversa que tivemos com o ator e músico, ícone do rock nacional com a sua Blitz, na flor dos seus 72 anos de idade.

Neste episódio do Saindo da Estufa, o podcast da revista Breeza, trouxemos o Evandro pra nossa roda de conversa. Como voz principal da Blitz, virou também referência em psicodelia com esse grupo clássico que já teve dentre os integrantes nomes como Lobão e Fernanda Abreu. O roqueiro segue firme em shows lotados e com disco para sair em que interpreta Erasmo, Roberto, Gil e outros grandes nomes.

Carioca da gema, Evandro Mesquita teve um papo bem reto e brisado com Filipe Vilicic, aqui da Breeza. Ele lembra das blitz policiais que encarou, incluindo uma na qual o prenderam junto com Regina Casé e outros famosos. Recorda de quando fumou maconha com Bob Marley e com jogadores de futebol – e isso no sítio do Chico Buarque. E compartilha que hoje usa óleo de CBD com receita médica para aliviar dores e a insônia, assim como ficou admirado quando sua filha lhe mostrou suas músicas virando dancinhas no TikTok.

Vou começar com uma história que certeza que nosso público, nossa comunidade vai querer saber mais. Que é de quando você fumou um com o Bob Marley no sítio do Chico Buarque. É isso mesmo? Nos conta mais.

Isso foi em 70, 76, 77. A gravadora Ariola tava vindo pro brasil e o Bob Marley foi convidado pela gravadora pra inauguração desse evento. Tinha um evento também lá no Morro da Urca. E tinha uma pelada, eles adoram futebol, os jamaicanos, e foram todos jogar no campo do Chico Buarque. Eu sou peladeiro, sempre fui peladeiro, jogava com Paulo Cézar Caju, (Carlos Alberto) Pintinho, Geraldo Assoviador, Nei Conceição, Afonsinho (todos os citados foram jogadores profissionais), uma galera super refinada de futebol. Na praia e num campo aqui chamado Caxinguelê, aqui no Horto (Rio de Janeiro). E o PC (o Paulo Cézar Caju, campeão mundial pela seleção brasileira em 1970) estava na praia e me convidou pra jogar essa pelada lá com o Chico Buarque, que eu não conhecia pessoalmente na época. E que o Bob Marley estava lá. Eu tinha descoberto o reggae fazia pouco tempo, em Saquarema, assim, e fiquei fascinado com esse ritmo tão perto da gente, parece um xote, mas com uma pegada rock e um papo super legal. E o culto à erva, assim, de maneira religiosa. Isso tudo, pô, tava no momento. Nesse convite, eu tinha um ensaio poderoso com o Asdrúbal (Trouxe o Trombone, um grupo teatral pioneiro no país) e a gente levava a sério, era pra uma apresentação no Morro da Urca que a gente ia fazer. Aí falei pro pessoal “Pô, não dá pra recusar um convite do Paulo Cézar Caju, tricampeão mundial de futebol (somando outros títulos além do da Fifa), pra jogar uma pelada na casa do Chico Buarque, um dos meus ídolos, e com um ídolo recente e enorme, o Bob Marley”. Eu fui com um cara que era frequentador do sítio dos Novos Baianos. E lá no final da pelada, esse cara, o Paulinho Suprimento, apresentou um pro Bob Marley. Aí o Bob, a gente ficou num canto do campo, assim, Bob Marley tacou fogo, mas eles não passam a bola, os jamaicanos, cada um tem o seu. Aí o Paulinho Suprimento apresentou um, assim, da Mangueira, e foi um momento que tá tatuado na minha alma. Você ficar a 40 cm do Bob Marley, ele olhando pra você, e eu traduzia o que o Paulinho falava pro Bob Marley e ele pro Paulinho. Então foi um momento muito mágico. Antes da Blitz, eu ainda tava no Asdrúbal Trouxe o Trombone, grupo de teatro. Foi muito bacana.

Mas qual foi esse papo que você ficou traduzindo de um lado pro outro? Qual era o assunto que rolava?

O Paulinho falava assim “Você vai tocar lá no Morro da Urca? Vai ter um som?”. E o Bob Marley não cantou. Tinha uma cláusula com a gravadora que ele não podia se apresentar. E ficou todo mundo… (faz gesto de expectativa). Era o show de alguém, eu nem me lembro mais. Fiquei focado nele (Bob). E porra o que me impressionou mais foi a vibração dele. Tem histórias dele de que ele ia a Trenchtown, bairro onde ele nasceu na Jamaica, que é heavy, e ele ia de carro lá e ele não fechava os vidros pras pessoas não acharem que ele tava se defendo, que ele (acharia) que iria ser roubado. E tem essa coisa de ser um porta-voz de uma faixa da sociedade muito grande. E de gerações através dos tempos. Tive essa oportunidade de estar com esse ser humano maravilhoso. Um dos poucos momentos mais eternos.

Que privilégio

Realmente foi.

Eu tava aqui ouvindo o último disco da Blitz e tem uma música em que você fala que conheceu o Stevie Wonder. Aí pensei “Se ele conheceu o Bob, será que conheceu o Stevie também”? Quantos ícones maconheiros ele já conheceu?

Não, o Stevie não conheci, não, é ficção. “Juro que estive com Stevie” (ele canta o trecho da música). Não tive esse prazer.

Tava falando da gente. E do que seria nos anos 70. Era o bagulho, o ácido, tudo junto. E dentro de uma dramaturgia muito bacana, inteligente e inovadora

Com quem mais você já teve numa roda e seria tão marcante quanto o Bob?

Ah, eu acho que, pô, meus amigos, surfistas, músicos. Saquarema (point dos surfistas, alternativos, artistas e maconheiros no Rio de Janeiro) foi a gente descobrindo o mundo. E saindo da casa dos pais, alugando uma casa de pescador, num paraíso, num lugar de natureza muito forte. E, totalmente, uma cidade nossa. À noite nas fogueiras rolavam essas trocas de informações, de vidas, de tudo, rolava tudo. O bagulho (maconha), e foi um momento muito mágico de aprendizado com a galera, onde a música tava presente, as descobertas psicodélicas, isso tudo foi numa época que isso era sensacional.

“A maconha é sagrada, uma erva dos deuses (…) Atualmente é isso: tomo óleo, às vezes celebro com os amigos”

Hoje será que não é mais tão sensacional? Virou muito comum? Como é a maconha na tua vida hoje, continua?

Eu tomo óleo de CBD. Eu acho, cara, que hoje em dia tá tudo tão louco que a grande loucura é você estar careta vendo, pra poder desfrutar mesmo de tudo e absorver o que é legal e não se perder nessa, em nenhuma. Mas acho que a maconha é sagrada, uma erva dos deuses, os índios têm essa ligação também. Atualmente é isso: tomo óleo, às vezes celebro com os amigos. 

O óleo é pra que?

Óleo de CBD. Operei o menisco, numa época que era retirada total dos meniscos. Então tenho uma dor, é osso com osso, e me aliviou bastante (o óleo). Pra dar uma relaxada pra dormir, assim, é também muito bom. Toma umas gotas e você dorme tranquilo. Com receita médica, faço parte da associação Apepi, que tem uma plantação, que faz óleo e beneficia milhões de pessoas. O autismo, a epilepsia, uma cacetada de coisas (boas, no combate a doenças) que saem dessa erva sagrada, que as pessoas estão descobrindo também agora os outros poderes dela, né?

Voltando lá pro começo, começo mesmo, da história da Blitz. Blitz é um nome que dá um susto em maconheiro e parece que veio de você ser muito parado por blitz, no seu vaivém. Por que você era parado? De onde vem esse nome, blitz?

A gente ensaiava na casa do Lobão que era lá no Joá, chegava por São Conrado, uma ladeira pela mata, um caminho lindo. Mas naquela época era um caminho meio deserto, então tinha sempre uma joaninha da polícia e a gente entrava lá e éramos parados. Íamos no Fusca da minha tia com instrumentos, amplificador, cabeludos, era um prato cheio, assim, a gente era parado e a gente chegava na casa do Lobão na maior adrenalina. “Pô, os caras pararam, não pararam. Acharam, não acharam”. Super adrenalizado. Aí ligou a menina que era promotora do bar Caribe onde a gente ia fazer nosso primeiro show, o primeiro show da Blitz. E aí ela “Qual é o nome que eu coloco aqui no cartaz?”. E o Lobão sugeriu “Bota Blitz”. Por que o pessoal vai se assustar com nosso som, tava demais. Acostumado com os violões nas fogueiras, nas festinhas. E agora tava com bateria, saxofone, baixo, guitarra e as músicas ganharam um peso maravilhoso. Aí no primeiro show falei “A galera vai se assustar, então vamos meter Blitz”. A gente chegava com capacete de mineiro, com lanterna, e entrava pela plateia, tudo escuro. E a plateia se assustava, achava que era uma blitz. A gente assumia o palco e começava o show. E no dia seguinte, na praia, o papo era onde vai tocar de novo, onde vai ser. Senti que tinha uma música diferenciada que tava surgindo, do que tocava na rádio, na TV. Só tinha trilhas, né?, de filmes de surfe, de Super 8 que vinha. Que tinha um som mais maneiro. Mas sem ser os grandes sonhos aqui do Brasil. Foi esse o momento de batismo da Blitz.

E você nessas blitz da vida, que você falou “achou, não achou”, já rodou alguma vez? Já acharam?

O Asdrúbal Trouxe o Trombone, em (19)76, a gente era um grupo de teatro que parecia uma banda de música. Fomos pro Sul, Nordeste, a gente dava curso. A gente tinha duas kombis, com figurino, cenário, o cacete. E a gente foi pra Porto Alegre. Fizemos três dias em Porto Alegre, em teatro de 1200 lugares. E no primeiro dia tinha umas 300 pessoas. No segundo, 850 pessoas. No terceiro dia tinha gente (esperando) na porta. Muito engraçado, pois o público gaúcho tava lendo a peça de outro jeito, do que o público aqui no Rio. Foi o segundo lugar que a gente foi. A plateia tava em completo silêncio no primeiro ato. A gente nos bastidores “os caras tão detestando”, ninguém rindo de nada. No final da peça uma puta ovação, eles aplaudiram pra caralho. O público gaúcho tava lendo a peça de outra maneira. Era uma peça que falava de adolescentes chegando na vida adulta, o que vou ser quando crescer, aquelas coisas. Mas feitas de um jeito muito maneiro e novo. Era Regina Casé, Patricia Travesso, Luiz Fernando Guimarães, Perfeito Fortuna, eu, Nina de Pádua, Fábio Junqueira. Era um time do caralho. A gente ficou se achando os Beatles em Porto Alegre, e a gente ia pra Santa Maria, uma cidadezinha ali perto. Cê é da onde?

“Aí a censura falava ‘então faz só aquela cena do nu, quero ver se a gente pega algo nocivo’. Eles queriam ver as meninas e tal”

São Paulo, da capital.

Ah tá. Uma cidadezinha ali perto, então a gente foi com as kombis e tal. E nessa época tinha de ir até a polícia, até a censura, pra passar a peça. A peça tinha a cena meio disco voador, meio mágica, que era um vau, um flash. E a gente tava totalmente nu, assim, e va, pum. Era muito bonito, mágico e tinha a ver com tudo da época. Aí a censura falava “então faz só aquela cena do nu, quero ver se a gente pega algo nocivo”. Eles queriam ver as meninas e tal. E a gente foi na censura pegar a autorização, que era numa delegacia. E saindo de Porto Alegre, todo mundo cabeludo e tal. E os caras ficaram meio cabreiros. Aí no final da tarde eles foram no hotel, deram uma dura e prenderam a gente. Era 7 de setembro, acharam o bagulho e teve todo um processo. Era 7 de setembro, Ditadura, a gente foi guerrilheiro de levar a arte que a gente tava fazendo. Não tava mais Shakespeare e outros grandes autores. Tava falando da gente. E do que seria nos anos 70. Era o bagulho, o ácido, tudo junto. E dentro de uma dramaturgia muito bacana, inteligente e inovadora.

E como se livraram depois? Teve alguma interferência de alguém?

Tiveram umas coisas. O pai da Patrícia era ex-combatente, conhecia o general, não sei o quê. O advogado que se prontificou a defender a gente também tinha uma ligação com a Regina (Casé). Com a família da Regina. O coronelzão lá era amigo, ou sei lá, serviu com o pai de alguém da Patricia. Foi um lance e absolveram a gente depois de uns dias lá de cana. 

Como você vê hoje o processo de descriminalização no Brasil, da legalização do medicinal e, se seguir o quase natural, se for pelo progresso, de legalização? Como você vê como está sendo feito? Acha que tá beneficiando todo mundo? É um processo que agrada quem era daquela época, que tem toda essa bagagem de enfrentamento, de rock’n’roll?

Acho que a gente tem de ouvir os cientistas, os sociólogos, porque a população pobre e preta acaba pagando a culpa e entrando como criminosos. Essa discriminação, né?, a entrada forte na favela. De um jeito ruim. O Estado tinha de entrar com creche, com escola, com teatro, cinema, sei lá. Entrar com cultura também, levando essas informações. Mais do que ficar nessa coisa. Claro que a cocaína, todas as outras drogas, pô. Mas os cientistas já falaram bem da cannabis e é uma coisa cultural aqui desde a escravidão. Tem de desmistificar, tirar esse monstro todo, e tratar como um assunto normal. O óleo, porra, é muito poderoso pra várias doenças.

“Os cientistas já falaram bem da cannabis e é uma coisa cultural aqui desde a escravidão. Tem de desmistificar, tirar esse monstro todo, e tratar como um assunto normal. O óleo, porra, é muito poderoso”

Quando eu penso na música, com a Blitz também, tem aí um papel definidor pra mudar e solidificar essa cultura canábica e a aceitação do nosso jeito. Fico pensando nos clássicos da Blitz. “Estou a dois passos do Paraíso”. Pra você qual é a música mais brisada da Blitz? E tem alguma sobre a erva ou de psicodélicos?

Cara, as músicas (mais famosas) da Blitz foram feitas nessa época que a gente falava nas entrelinhas. A capa do segundo disco tem uma flor explícita, a gente queria falar praquela galera mesmo, que tava sendo marginalizada. Os surfistas quando, davam entrevistas, era grifado (pela censura) o que ele falava. E na praia tava surgindo uma política maneira, alternativa. O pessoal fazia prancha, calção, parafina. Eu desenhei o rótulo da primeira marca de parafina do Brasil. Então tinha toda uma cultura no underground, ali no píer, no Arpoador, na Praia do Pepino, em pontos onde a liberdade, a arte e o esporte conviviam muito bem. E essa troca de informações aumentou a gente pra caramba e desmistificava todo esse monstro.

Dessas histórias clássicas dos maconheiros do Brasil teve uma que você presenciou de perto que foi a do “veneno da lata”, da chegada das latas de maconha no Rio de Janeiro. Como foi esse momento, chegou a experimentar o veneno da lata? Nunca falei disso numa entrevista, queria perguntar pra alguém que tava lá.

Eu também nunca falei. Mas, cara, era minha praia, né? Tinha muito isso. Eu nunca achei, mas já vi. A primeira vez que eu vi foi com um amigo meu que pegou, tinha pego umas três latas e era maravilhoso. Era diferente, muito mais puro. Totalmente afastado do prensado que rolava. Era sensacional. Foi o verão da lata!

Você tem uma transição entre dois mundos que é o rock’n’roll, a música, e a atuação, que se mesclam. Pra mim, na minha idade, seu rosto é muito de “A Grande Família”. Agora aí com “Justiça” (série da Globo). Muitos falam que o ambiente da TV não é como o da música, não é tão liberto como o rock’n’roll. Como foi transitar entre esses dois ambientes?

Cara, a arte e a música que eu fiz, eu não queria falar só pro meu gueto, minha turma. Primeiramente era pra eles, o julgamento deles, muito importante. Mas eu sempre falava isso com o Asdrúbal, a gente tem de fazer esquete no Chacrinha pra quando chegar em Belém as pessoas “vocês são aquele grupo?”. O teatro é uma coisa muito ritualística, para aquelas 300, 100 pessoas. Acontece ali. A música tem essa velocidade maior de rádio, de gravadora, de levar o artista pra casa. E o teatro que eu fiz, as pessoas falavam “adorei o show de vocês”. Tinha uma energia pop, musical. E a música que eu comecei a fazer tinha uma coisa teatral muito forte, das meninas irem pra frente, da possibilidade de diálogo e crônicas musicadas. Da gente contar histórias, como uma tradição também, nunca me esqueço da primeira vez que ouvi Moreira da Silva cantando Rei do Gatilho. Uma história super engraçada, super malandriada, então essas coisas pra mim, eu transito organicamente. Fiz uns cursos de teatro, com meus mestres. Minha primeira peça foi “Hoje é dia de rock”. Dos meus grandes mestres, o Rubens Corrêa, o Ivan de Albuquerque, Klauss Vianna, isso na época dos anos 70. Viagens muito legais, teatrais e de vida. Então o teatro que a gente fazia tinha essa batida mesmo de música. Tinha Stones. Asdrúbal abria com Frank Zappa, porra. Então era essa época. Era quando o disco, aquela bolacha do Pink Floyd, saiu, não sei quem pagou, não sei quanto, vamos ouvir. Era tudo muito como vou dizer, era tudo muito mágico e libertador. E fascinante. Não uma loucura pela loucura, que eu nunca gostei. Que eu via também pessoas ou amigos assim, doidão, e eu “‘porra, bicho, sai fora”. Não é essa. É uma canalizada pra arte, pra vida, pra espiritualidade, pra natureza, de contemplação, essa é a onda boa. Não é a onda bêbada, onde eu sou doidão, que legal, vai liberar. Foda-se, não é essa. É sagrado a parada, Jah, Rastafári. Isso que é a minha, e de uma galera que eu admiro e ando também.

“Era tudo muito mágico e libertador. E fascinante. Não uma loucura pela loucura, que eu nunca gostei (…) É uma canalizada pra arte, pra vida, pra espiritualidade, pra natureza, de contemplação, essa é a onda boa”

Você foi dessa época que era difícil pegar o vinil, era caro pra trazer, e hoje antes da gente começar a entrevista você falou que não manja de tecnologia. Mas você é super presente no Instagram, a banda também. Como é isso?

O Instagram é meu brinquedinho favorito. O resto, eu perdi a senha do Facebook, não entro há uma porrada de tempo. TikTok, minha filha me apresentou e mostrou mais de 400 adolescentes dublando “você não soube me amar” e fazendo teatrinho no TikTok e achei maneiro. Só Instagram que eu gosto, se bem que agora tá ficando chato pra caralho. Uma patrulhada, assim, comentários escrotérrimos de direita, escrotos. Às vezes eu perco o tesão. No começo eu garimpava vídeos, muito legais. E as pessoas “seus vídeos são do caralho”. Sobre tudo, música. O que fosse bacana, me emocionava, eu postava. Mas sou meio anta virtual, mesmo. Não manjo muito, como gostaria.

Uma coisa que é notável falando com você é o tamanho de sua energia, tá em turnê, rock’n’roll, gravando. Qual é o segredo pra essa força toda na casa dos 70 (anos)? Pergunto até como uma pessoa que quer chegar assim.

Quero chegar aos três dígitos. O lance, cara, eu sempre tive uma vida saudável, assim, meu pai fazia ioga, judô, era vegetariano. Minha mãe não (era vegetariana). Professora maravilhosa, árabe, tinha uma mistura de rango em casa. Convivia com a galera lá do píer e o pessoal de Saquarema, também, era muito da natureza. Os Gracie (família de lutadores de jiu-jítsu) também, a alimentação dos Gracie. Os sucos dos Gracie. A gente era duro (de dinheiro) pra ficar na praia o dia inteiro. Três horas (da tarde) e  íamos até a primeira loja de suco que tinha aqui, o Polis Suco, na General Osório, e passava num pegue e pague antes e comprava um pouco de requeijão. Era uma receita dos Gracie. E aí pedia pros caras baterem com dois sucos de goiaba. Aí ficava, porra, é gostoso pra caramba, goiaba, requeijão e mel. Dava aquela enchida e voltava pra praia no pôr do sol, e tava alimentado com requeijão e um suco. E eu tenho essa alimentação assim, não radical, mas faço minhas escolhas de maneira saudável porque sempre fui assim. Sempre fiz muito esporte e, agora que o joelho não tá deixando tanto, tenho dado umas malhadas que vejo que isso me deixa melhor no palco. Tô na turnê, tô muito contente com o momento da Blitz agora, o time que a gente formou, tem três da antiga. A gente gravou cinco discos na pandemia. Regravamos os hits com qualidade de hoje. Dois, volume 1 e volume 2, lado B, de músicas que a gente curtia pra caramba. Outro (disco) chama Supernova, que tá no Spotify, de inéditas. Fiz com o João Suplicy em São Paulo, na pandemia. E um que vai lançar agora pela Biscoito Fino chama-se “Blitz No dos Outros”, com interpretações Blitz de Roberto e Erasmo, Zé Keti, Moreira da Silva, Gil, Belchior, Paulo Diniz. Tem umas coisas inusitadas com uma pegada Blitz. A gente tá adorando esse momento de tá na estrada com essa turnê, a Turnê Sem Fim, como a gente batizou. E chegando em grandes shows, isso é muito legal. Ver o caminho das pessoas que acompanharam na época, trazendo pessoas novas e conseguindo conexões com novas gerações. Isso é o poder da música.