Por Caio Bayma

A Erva Transatlântica
A história da Cannabis sativa no Brasil não pode ser dissociada da diáspora africana e do encontro colonial. Longe de ser uma substância introduzida por capricho recreativo, a maconha — ou o “fumo de Angola”, o “pito do pango”, a “diamba” — atravessou o Atlântico como uma tecnologia de sobrevivência, um bálsamo para o corpo exaurido e um elo com o sagrado.
A Breeza antecipa aqui esse capítulo do Volume III do livro Maconha no Brasil Contemporâneo, que já se consagrou como um referencial do assunto, e fruto do Seminário sobre Maconha no Brasil Contemporâneo, já tradicional espaço de conversas e encontros de nomes centrais da cena, na UERJ, no Rio. No texto, Caio Bayma, pesquisador, produtor cultural e Pai de Santo, analisa como a criminalização da erva foi, em sua essência, uma ferramenta de controle social e racial destinada a desestruturar a cultura e a religiosidade afro-indígena, enquanto o próprio colonizador se beneficiava industrialmente da planta.
A cannabis como tecnologia de sobrevivência
Para o africano escravizado, a jornada de trabalho forçado nas lavouras e engenhos representava uma agressão contínua à integridade física e psíquica. A maconha surge, nesse cenário, como um agente farmacológico e espiritual de resistência.
- O Bálsamo da Labuta: a planta era utilizada para mitigar dores musculares, inflamações e o cansaço crônico. Segundo Gilberto Freyre, em Casa-Grande & Senzala, o uso da erva era difundido entre os negros da lavoura, funcionando como um anestésico para o rigor da escravidão.
- O Pito do Pango: o ato de fumar o “pango” não era apenas um vício, mas um rito de sociabilidade e recuperação. Era o momento em que o corpo deixava de ser uma ferramenta de lucro do senhor para voltar a pertencer ao indivíduo.
Como aponta Robert Nelson no clássico A History of Cannabis in Brazil, o uso da planta era uma das poucas formas de autonomia terapêutica permitidas — ou toleradas — nos espaços de convivência das senzalas e quilombos.
O Sagrado Afro-Indígena e a Demonização Colonial
A relação com a planta transcendia o físico. No encontro entre os conhecimentos botânicos dos povos originários e as tradições medicinais e espirituais trazidas da África (especialmente da atual região de Angola e do Congo), a maconha consolidou-se como uma erva fundamental.
- Uso Cerimonial: Em contextos rituais, a fumaça era vista como um veículo de comunicação com o invisível, facilitando estados de transe ou introspecção necessários para a cura espiritual.
- A demonização do outro: para o colonizador e a Igreja, qualquer prática que não passasse pelo crivo do catolicismo era rotulada como feitiçaria. Ao “demonizar” a erva, o Estado colonial não atacava a planta em si, mas o sistema de crenças que ela sustentava.
A criminalização, portanto, nasce de um racismo religioso. Conforme argumenta Henrique Carneiro em A Carne de Deus, a repressão às substâncias psicoativas na América Latina sempre esteve ligada à necessidade de suprimir as formas de consciência e resistência das populações submetidas.
A prática de utilizar a Cannabis sativa em contextos rituais no Brasil resulta de uma sofisticada síntese de saberes botânicos e espirituais. Para as comunidades afro-indígenas, a planta nunca foi um “entorpecente” isolado, mas uma planta-mestra inserida em um sistema de cura e conexão com o invisível.
O uso ritualístico desdobrava-se em três vias principais, cada uma com uma função específica na cosmologia desses povos:
A defumação
Nas tradições de matriz africana e nos catimbós indígenas, a defumação (o ato de queimar ervas secas sobre brasa) serve para limpar a atmosfera fluídica e preparar o ambiente para a recepção de entidades ou divindades.
- O mecanismo: a maconha, muitas vezes misturada a outras ervas, como aroeira ou guiné, era lançada ao braseiro.
- A função: acreditava-se que o aroma e a fumaça densa tinham o poder de “cortar” energias densas e afastar espíritos perturbadores (eguns).
- O simbolismo: a fumaça ascendente representa a prece que sobe ao Orum (céu ou mundo espiritual). Ao contrário do fumo individual, a defumação é um rito coletivo de harmonização do território.
Chá e Infusões: a Medicina do Corpo e da Alma
O uso oral, por meio de decocções ou infusões, era a forma mais comum de aplicação terapêutico-espiritual, muitas vezes administrada por benzedeiras e pretos-velhos.
- Preparação: as folhas e sementes eram fervidas ou deixadas em infusão em água ou “quartinhas” com aguardente.
- Uso ritual: antes de grandes cerimônias ou após jornadas exaustivas, o chá era servido para “assentar o corpo”. Funcionava como um relaxante, preparando o iniciado para o transe ao baixar a resistência física e mental.
- Cura: era utilizada para tratar “dores do peito”, inflamações e o que se chamava de “quebranto” ou “mal olhado”, unindo a farmacologia da planta à força da reza.
O fumo: o veículo do transe e da vidência
O “pito” (cachimbo) é talvez o elemento mais icônico do sincretismo afro-indígena no Brasil. É aqui que a maconha recebe o nome de Pito do Pango ou Diamba.
- O cachimbo como altar: para o indígena e o africano, o cachimbo é um objeto sagrado. O ato de fumar não era recreativo; era uma forma de “soprar a cura”.
- O Transe: o fumo da cannabis facilita o estado de consciência expandida. No contexto ritual, isso permitia ao oficiante uma comunicação mais fluida com os ancestrais e guias.
- A comunhão: em muitas comunidades quilombolas e aldeias, o “pito” era compartilhado em roda, selando pactos de confiança e resistência contra o opressor colonial.
Essa tríade de usos (defumação, chá e fumo) foi o que mais aterrorizou o colonizador. Ao ver o escravizado em estado de êxtase ou cura autônoma, o senhor de engenho perdia o controle sobre a mente daquele corpo.
A perseguição inquisitorial rotulou essas práticas como “pacto com o demônio”, ignorando que se tratava de uma farmacopeia ancestral. O que era sagrado para o oprimido — uma planta que trazia paz, aliviava a dor e conectava com os antepassados — tornou-se “profano” e “criminoso” para o Estado, não por questões de saúde, mas para desarticular a força espiritual das comunidades resistentes.
A hipocrisia da expansão marítima
Enquanto o “fumo de Angola” era perseguido nas mãos dos pretos, o cânhamo (a fibra da mesma planta) impulsionava a expansão marítima europeia. Há uma contradição histórica profunda e hipócrita na fundação do Brasil:
- A força do Império: as caravelas portuguesas que trouxeram os colonizadores e os escravizados moviam-se graças a velas e cordas feitas de fibra de maconha.
- A Memória Escrita: Ironicamente, muitos dos decretos, tratados e leis que condenavam as práticas africanas foram lavrados em papel de cânhamo, devido à sua durabilidade superior.
- A Real Feitoria do Linho Cânhamo: Em 1783, a Coroa Portuguesa estabeleceu a Real Feitoria no Rio Grande do Sul com o objetivo de incentivar o plantio industrial da cannabis para fins navais, demonstrando que a planta só era “maligna” quando não gerava impostos para a metrópole ou quando servia à subjetividade do oprimido.
- “É uma ironia da história que as mesmas mãos que lavravam decretos contra o uso da diamba o fizessem sobre papel de cânhamo, e que as velas das naus que sustentavam o Império fossem tecidas da mesma fibra que o Estado passou a perseguir nas mãos dos pretos.” (MOREIRA, Julião. A Maconha no Brasil. In: Arquivos da Assistência a Psicopatas de São Paulo, 1939). (Nota: Julião Moreira foi um pioneiro na psiquiatria brasileira que analisou a planta sob o viés histórico).
Criminalização como controle racial
A transição do século XIX para o XX marca o endurecimento legal. A primeira lei proibitiva conhecida no Brasil é a postura municipal da Câmara do Rio de Janeiro de 1830, que punia o “Pito do Pango”. O alvo era explícito: os “escravos e outras pessoas” que faziam uso da erva.
A proibição não se baseou em critérios de saúde pública — pois a ciência da época pouco sabia sobre os efeitos moleculares da planta —, mas em critérios de higiene social. O objetivo era desarticular as “comunidades afro-indígenas” que compartilhavam tecnologias de sobrevivência e espaços de culto. Como bem descreve o antropólogo Edward MacRae, a perseguição à maconha no Brasil foi o ensaio para a perseguição ao samba, à capoeira e às religiões de matriz africana.
O Exílio da Diamba
Um dos pontos mais sensíveis da história contemporânea das religiões de matriz africana (Candomblé e Umbanda) é o desaparecimento da folha de maconha de seus jardins e ritos.
- A Estratégia de Preservação: Nossos mais velhos, em um gesto de sobrevivência e inteligência política, optaram por retirar a planta dos terreiros. Num contexto de intensa repressão policial e invasões de casas de culto, a presença da “erva proibida” seria o pretexto perfeito para a destruição de todo um território sagrado e o encarceramento de sacerdotes.
- O Sincretismo da Perda: assim como a imagem de santos católicos entrou pela “porta da frente” para camuflar os Orixás, muitas ervas fundamentais e saberes botânicos “saíram pela porta dos fundos”.
Essa “ausência” é, na verdade, uma cicatriz do proibicionismo. A perda de fundamentos relacionados ao uso da planta é um dano colateral do racismo estrutural, que obrigou o povo de santo a se “higienizar” aos olhos do Estado para poder continuar existindo.
A influência desse uso ritualístico — do chá, da defumação e do pito — foi o alicerce silencioso de cultos que fundiram o saber botânico das florestas com a espiritualidade vinda de África. No Catimbó-Jurema e na Umbanda primitiva, a maconha não era um elemento estranho, mas uma “erva de poder” que mediava a relação entre o mundo físico e o espiritual.
Catimbó-Jurema: a aliança das plantas mestras
No Nordeste, o encontro entre os “mestres” do Catimbó e a tradição africana criou um sistema de cura baseado na flora local.
- A “Jurema e o Pango”: enquanto a Jurema (Mimosa tenuiflora) era a árvore sagrada que fornecia a bebida para o transe, a maconha (o pango) era frequentemente utilizada no cachimbo para “abrir os trabalhos”.
- O Mestre no Cachimbo: A figura do “Mestre” no Catimbó é indissociável do uso do fumo. A fumaça da maconha era considerada o “veículo” que trazia a ciência dos mestres do além. Ela limpava o “campo de força” do juremeiro, permitindo que ele visualizasse doenças e feitiços ocultos no corpo do consulente.
Dentro da cosmologia do Catimbó, o fumo é compreendido como o veículo da “ciência” espiritual, permitindo que o juremeiro utilize o cachimbo para fins de limpeza e diagnóstico metafísico. Nesse contexto, plantas de poder como a maconha serviam historicamente como o elo de transição entre o mundo dos vivos e as cidades da Jurema.
Umbanda Primitiva: o Axé das Folhas
Antes da “higienização” que a Umbanda sofreu em meados do século XX — que buscou embranquecer o culto para torná-lo aceitável à classe média — o uso de ervas fortes era a norma.
- A Defumação de Limpeza: Em terreiros mais antigos, a maconha era uma das sete ervas fundamentais para a “defumação de descarrego”. Sua fumaça era considerada uma das poucas capazes de dissipar vibrações de sofrimento extremo (eguns de vício ou dor), justamente por sua natureza de acolhimento e alívio.
- A Linha dos Pretos-Velhos: A imagem do Preto-Velho com seu cachimbo e sua caneca de café é um símbolo de resistência. Originalmente, o que ia naquele cachimbo muitas vezes era o “fumo de angola”. O uso tinha caráter pedagógico: o Preto-Velho fumava para “puxar para si” a carga negativa do consulente e transmutá-la através da queima da erva.
O “Golpe” da Moralidade e o Êxodo para os Fundos
A transição para o que se chamou de “as ervas saindo pelas portas dos fundos” ocorreu por uma pressão externa avassaladora:
- A Vigilância Sanitária e a Polícia: No início do século XX, delegacias de “Costumes e Diversões” invadiam terreiros em busca de “substâncias entorpecentes”. Para salvar o território, os zeladores de santo precisaram esconder o fundamento.
- Substituição Simbólica: Aos poucos, a maconha foi substituída pelo tabaco comum ou por misturas de ervas aromáticas (como alecrim e alfazema). O “santo” continuava ali, mas o princípio ativo que facilitava o transe e a cura física foi retirado do rito público.
- A perda do saber botânico: com o passar das gerações, o segredo de como preparar o “chá de pango” para fins rituais ou de dosar a defumação foi se perdendo, restando apenas o tabaco, que foi a erva que “entrou pela porta da frente” por ser legalizada e comercialmente aceita.
Sabedoria e resistência
Hoje, ao olharmos para a ausência da folha de maconha nos terreiros, percebemos um mecanismo de defesa. Nossos ancestrais sacrificaram a presença da planta para garantir que o tambor continuasse batendo. Eles compreenderam que, em um país que criminaliza o corpo negro e o saber indígena, portar o “sagrado” aos olhos da lei era uma sentença de morte para a comunidade.
A maconha permanece, portanto, como uma ancestral exilada das nossas práticas, aguardando o momento em que a história reconheça que ela nunca foi o veneno, mas sim o remédio e o incenso das nossas primeiras resistências.
Conforme aponta Nei Lopes em sua Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana, o afastamento da maconha dos espaços públicos de culto foi uma decisão estratégica das lideranças religiosas. Diante da ameaça de prisão e da invasão de seus territórios sagrados, os praticantes optaram por uma adaptação estética e ritualística, ocultando ervas de fundamento para garantir a sobrevivência física e espiritual da comunidade.
Revolução canábica e a cortina de fumaça
O debate sobre a maconha no Brasil não pode ser reduzido a uma questão de tráfico ou saúde. É uma discussão sobre reparação histórica. Reconhecer o papel da planta na resistência física e espiritual dos negros e indígenas é desmascarar a hipocrisia de um sistema que usou a fibra para navegar e o papel para legislar, enquanto usava a proibição para encancerar e silenciar culturas inteiras. A discussão sobre a maconha no Brasil deve focar na reparação histórica e no papel da planta na resistência dos negros e indígenas.
A fumaça do pango, que um dia aliviou as dores do açoite, hoje clama por uma justiça que entenda que o sagrado não pode ser definido pela caneta do colonizador.
Referências Bibliográficas:
BAYMA, Caio. Umbanda: de Luanda à Pedra do Sal. Rio de Janeiro. Bantu, 2025.
CARNEIRO, Henrique. A Carne de Deus: Substâncias Psicoativas e Religião. Rio de Janeiro: Record, 2005.
CASCUDO, Luís da Câmara. Meleagro: Depoimento e Pesquisa sobre a Magia Branca no Brasil. Rio de Janeiro: Agir, 1951.
FREYRE, Gilberto. Casa-Grande & Senzala. Rio de Janeiro: Maia & Schmidt, 1933.
LOPES, Nei. Enciclopédia Brasileira da Diáspora Africana. São Paulo: Selo Negro, 2004.
MACRAE, Edward. A caminho de uma ecologia da mente: o uso ritual da ayahuasca e da maconha. São Paulo: Terceiro Nome, 1992.
NELSON, Robert. A History of Cannabis in Brazil. In: Marijuana: The New Prohibition. New York: 1944.
RODRIGUES, Raymundo Nina. Os Africanos no Brasil. Brasília: Editora UnB, 1932 (Para análise crítica da visão médica do século XIX).
VALOIS, Orlando. A Guerra às Drogas e seus Reflexos no Sistema Prisional. Rio de Janeiro: Revan, 2016.