Na Breeza

O livro que já nasce clássico

Por Anita Krepp

Pense num cara gente boa e agilizado, esse é o Thiago Pereira, doutor em Geografia e professor associado do Departamento de Turismo da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, a UERJ. Thiago estuda desde 2012 o fenômeno do turismo de drogas, com foco especial no turismo canábico. Em meio ao crescente interesse do público e à expansão acelerada da indústria, seu trabalho se tornou um dos raros pontos de encontro entre mercado da cannabis, ativismo antiproibicionista e academia. E ele faz essa costura com a maestria de quem circula com naturalidade entre todos esses mundos.

No último fim de semana, durante a 3ª edição da ExpoCannabis, o pesquisador lançou nada menos que o livro sobre maconha mais abrangente – e, por consequência, um dos mais relevantes – da cena nacional. Maconha no Brasil Contemporâneo – Vol. II reúne textos de autoras, autores e pensadores fundamentais do universo canábico em um volume repleto de informação acurada, atravessada tanto pela teoria quanto pela prática de quem vive e luta por um setor que, embora ainda mal regulado, pulsa com força no país.

O projeto do livro, conta Thiago, nasceu de um jeito despretensioso, como muitas das coisas realmente boas. Tudo começou no seminário de mesmo nome, organizado dentro da UERJ, que desde a primeira edição já transbordava diversidade de olhares, áreas e abordagens. “Queríamos registrar essa pluralidade toda de um jeito que não ficasse perdida nos corredores da universidade”, ele diz. No universo acadêmico, é comum publicar os famosos anais com textos dos participantes, mas Thiago e seu parceiro de empreitada, o jornalista Matias Maxx, acharam que aquilo era limitado demais para o tamanho da conversa. Em vez de empacotar ideias em PDF formalzão, pensaram maior, por que não um livro?

Um lugar de encontros

O primeiro passo foi convidar cada palestrante a transformar sua contribuição em texto, do jeito que quisesse. Sem limite de páginas, sem norma ABNT, sem aquela camisa de força acadêmica que faz a gente ter vontade de usar a monografia de travesseiro. “A gente não quis engessar ninguém”, explica Thiago. E não engessaram mesmo. O resultado é uma obra pulsante, com capítulos curtos, outros longos, alguns cheios de imagens, e todos com personalidade própria, orbitando a pergunta inevitável: o que a maconha significa no Brasil para além da medicina e da segurança pública?

A editora Vista Chinesa, capitaneada pelo jornalista Gregório Ventura, abraçou a ideia e mergulhou na editoração com o mesmo entusiasmo dos autores. A missão desde o início era democratizar o acesso por meio de ebook gratuito com download livre e uma linguagem acessível para quem chega pela universidade ou pela vida. O livro virou um repositório de debates urgentes entre mercado, turismo, cultura, história, reparação, redução de danos e tudo mais que o proibicionismo deixou fora das prateleiras por décadas. “Existem muitos livros sobre cannabis no Brasil, mas quase todos falam de nichos específicos. Faltava esse lugar de encontros”, conta Thiago.

Para fazer o livro acontecer de verdade, a curadoria luxuosa de Thiago e Matias deu forma ao projeto, mas era preciso logística, persistência e uma paciência bíblica para lidar com os prazos. Foram 43 convidados, 43 possíveis textos e uma dança de e-mails, lembretes, adiamentos e milagres editoriais. Depois das revisões e da diagramação, nasceu o ebook. 

Mas Thiago queria algo mais, queria que as pessoas tivessem o livro na mão, literalmente. Então vieram as parcerias, que entre o volume I e o volume II, tiveram o apoio de algumas marcas destacadas como Apepi, Flora Urbana, Seis Pés, Aleda, Nave Névoa, AbraRio, Kaya Mind, Squadafum e Cultlight. Todo mundo se juntou para viabilizar as 250 cópias impressas de cada edição. A distribuição gratuita na ExpoCannabis se deu por uma importante parceria institucional que faz a obra ocupar o espaço de destaque que lhe cabe.

Fazendo história, modéstia à parte

O sucesso foi tanto que o livro ganhou até palco na FLIP, e não tem como subestimar o que significa colocar a maconha circulando com naturalidade no maior festival literário do país. Cada volume traz novos autores, como eu própria (Anita Krepp, editora da Breeza, assino um dos textos), mas há figuras que retornam todos os anos, como André Barros, Dave Coutinho e Larissa Uchida. São pessoas que sustentam debates históricos e que agora têm um lugar formal para registrar suas ideias. “A gente possibilita que visões muito diferentes coexistam, e isso não existe em outra publicação no Brasil”, afirma Thiago, sem nenhuma soberba, apenas a consciência de que essa obra preenche um vazio real.

O livro virou um ritual anual: cada edição do seminário na UERJ, que acontece no meio do ano, abre portas para a edição seguinte da coletânea. E como a cena canábica cresce, o livro cresce junto. O volume 1 teve 23 capítulos; o volume 2, teve 35. Para o volume 3, Thiago prevê mais de 60 textos. A cena explode, o trabalho dobra, e o propósito permanece o mesmo: reunir saberes diversos que dificilmente se encontrariam em outro lugar. E ainda assim, tudo conversa, porque o fio condutor é a maconha em sua amplitude social, política, econômica e cultural.

Desde a concepção da ideia, a premissa era de que o acesso também fosse democrático. Primeiro, o download gratuito, depois, a versão impressa para distribuição na Expo e, por fim, uma nova tiragem para venda no site da Vista Chinesa para quem ainda prefere pegar o livro na mão e deixá-lo na prateleira, como referência. O volume 1 esgotou, o volume 2 chega em janeiro sem perder o pé no essencial, a criação de um espaço legítimo para falas e ideias que por muito tempo ficaram à margem. “Muita gente importante não tinha onde publicar. Agora, tem”, orgulha-se Thiago, com aquele brilho no olho de quem sabe que está fazendo história, mesmo que prefira narrar tudo com a modéstia de sempre.