Saindo da estufa
Negócios da Estufa

Dave Coutinho: “O que a ExpoCannabis faz: plantar, regar e ajudar o setor a florescer”

A ExpoCannabis Brasil chega à sua 3ª edição ainda maior e com novidades que ajudam a moldar o futuro da cena canábica no país. Para entender o que faz deste evento um marco para o setor e o que esperar neste ano, nossa editora Anita Krepp conversou com Dave Coutinho, diretor de comunicação da Expo.

Da ciência ao mercado, passando por cultura, inovação e experiências imersivas, a Expo 2025 promete ir além do que já vimos nas edições anteriores e reforça porquê novembro virou marco do calendário canábico brasileiro.

E claro: a Breeza estará lá com um estúdio ao vivo, com entrevistas, ativações e distribuição do nosso Guia da Boa Breeza, referência de redução de danos. Dias 14, 15 e 16 de novembro, nosso encontro tá marcado no Pavilhão Imigrantes, em SP.

Enquanto isso, vamos esquentando os motores com esse papo imperdível que te leva pra dentro dos bastidores da ExpoCannabis Brasil.

Dave, finalmente consegui te capturar! Sei que não é nada fácil conseguir um momento da tua atenção nas semanas que antecedem a Expo, quando o seu telefone não para e trabalha 20 horas por dia. Conta pra gente como é o processo de organização da Expo ao longo do ano? Imagino que seja tipo o Carnaval, que começa em março do ano anterior…

Você trouxe o ponto crucial: é tipo Carnaval, só que eu acho que no nosso caso é um pouquinho além do Carnaval, porque o Carnaval espera o último integrante sair da passarela, o destino das campeãs, pra começar a pensar no samba enredo e tudo mais do próximo ano, e a gente, não. Por exemplo, agora que a gente tá às vésperas do evento, tá num ritmo que pra 2026 o mapa já tá desenhado, a gente já tá pensando no tema… Eu até brinco, e acaba sendo a grande verdade, que a ExpoCannabis é pensada 370 dias ao ano, porque antes de começar uma edição, a gente já vem algum tempo antes começando na próxima e é a maior correria.

Quais são seus rituais pra não pirar? Qual é a base que garante o seu bem-estar no meio dessa loucura de produção da Expo?

Lembrando que eu sou um paciente com laudo e prescrição pra ansiedade (risos). Eu utilizo alguns artifícios que podem ser bem comuns para alguns, o primeiro que me ajuda muito, muito, muito neste momento é água, é me manter hidratado, porque eu acho que as coisas fluem melhor e a gente foge de uma maneira inegualável daquela enxaqueca. Outra coisa que me ajuda bastante é música, então naquele momento em que eu preciso ter um pouco mais de concentração, coloco os dois fones, uma música boa que eu curto e isso me ajuda muito. Água, música e, claro, um pouco de cannabis (risos).

Opa, e o que tem na sua playlist?

Minha playlist é bem curiosa. Você vai ver Caetano Veloso, Sidney Magal, Ney Matogrosso, Rael, Criolo, Projota. Eu curto muito MPB, então, seja aquela lá atrás, que a gente tá falando de décadas atrás, tipo Elis Regina, até um MPB mais recente. Música é o que me ajuda a controlar a ansiedade e me manter focado nas coisas que eu preciso.

Dave, como é pra você, que veio do setor de mídia, trabalhar agora no universo dos eventos, como sócio da ExpoCannabis? Você sente que conseguiu levar esse background da comunicação pra dentro do projeto ou teve que aprender tudo do zero pra colocar um evento desse porte de pé?

Eu considero que são as duas coisas. A gente ter esse background da comunicação, a gente saber, principalmente nós, que comunicamos sobre um nicho para a sociedade que muitas vezes ainda tem um certo tabu um certo preconceito, e isso eu garanto que agrega e muito na construção de todas as edições da ExpoCannabis, até porque o evento, como plataforma, não só comunica para o nosso universo, a nossa bolha canábica, mas a gente comunica muito também para a sociedade. Então eu acho que ter esse tipo de trabalho ao longo dos últimos 14, 15 anos traz uma facilidade. Agora, em relação ao evento, a gente sempre tá aprendendo coisas novas.

Trabalhar na Expo também é, de alguma maneira, trabalhar com todo o setor, porque tem ali toda uma organização que precisa acontecer num trabalho conjunto entre a equipe da feira e as equipes de cada marca expositora e isso, por si só, gera vários desafios relacionais e organizacionais. Então eu queria conhecer as suas estratégias e maneiras de lidar com esses desafios para evitar conflito, porque a gente sabe que onde tem relações humanas tem conflitos. Como é que vocês conseguem fazer funcionar com tanta gente e com tantos conflitos que naturalmente devem surgir?

É isso. Onde tem duas pessoas, já existe pelo menos 50% de chance de surgir alguma treta, algum desentendimento. Por isso, acho que a principal estratégia para evitar conflitos é manter sempre um canal aberto e uma comunicação constante — entre diretoria, equipe de produção, expositores, patrocinadores, enfim, todo o ecossistema que gira em torno da Expo. O mais importante é que essa comunicação seja clara e transparente. Eu costumo dizer isso para todos os prestadores de serviço e colaboradores. Sou o tipo de pessoa que, no final de cada conversa, sempre pergunta: ‘Ficou alguma dúvida?’ Isso faz diferença. Ter uma comunicação ativa e honesta é o principal caminho para evitar problemas. Claro que conflitos vão acontecer, faz parte das relações humanas. Mas quando há respeito e disposição para conversar, tudo se resolve. E se não ficou claro, não tem problema repetir dez, quinze, vinte vezes. O importante é garantir que todo mundo esteja na mesma página.

Eu vejo um desafio na Expo, talvez oculto para muita gente, que é justamente o de unir um setor que tem várias rachas… É ativista falando mal de farmacêutica, farmacêutica falando mal de importadora, o grower falando mal das associações e por aí vai. Qual é a visão da Expo e principalmente a estratégia de vocês para lidar com isso, atuar como uma promotora da união para os envolvidos nesse mercado.

Eu entendo que, seja o grower, a associação, a empresa, o influenciador, o médico, a clínica ou a marca de produtos, todos fazem parte do mesmo ecossistema. Conflitos sempre vão existir, mas como plataforma acreditamos que o setor precisa ser plural, com espaço para todos e, acima de tudo, que deve haver união entre os diferentes atores. Eu sempre digo que o meu inimigo não é o jornalista concorrente, não é o outro veículo de mídia, nem o evento da mesma área. O verdadeiro inimigo é o sistema, são as leis desatualizadas, a falta de regulamentação. No fim das contas, quando essas barreiras caírem, todo mundo vai se beneficiar. Por isso, acredito que a galera precisa deixar de lado as vaidades e disputas pequenas. Estou há 15 anos dentro desse universo canábico e, desde então, aplico esse mesmo pensamento: o de construir junto, somar forças e fazer o setor crescer de forma coletiva. Cara, problemas todo mundo vai ter e problema existe pra ser resolvido. Ficar alimentando intriga é perda de tempo. É energia gasta com coisa que não leva a lugar nenhum, enquanto a gente podia estar focando em quem realmente pode promover algum tipo de mudança. Não adianta ficar nessa rixa entre o cultivo associativo e o cultivador caseiro, ou entre uma empresa do tipo X e outra do tipo Y, ou ainda entre o pessoal do setor farmacêutico e o das empresas mais voltadas pra outro segmento. No fim das contas, tá todo mundo dentro do mesmo barco, tentando fazer o setor crescer e se consolidar. E aí entra também o lifestyle, o consumo de uso adulto. Porque no fim das contas, todas essas áreas têm potencial e precisam de mudanças urgentes. São mudanças que nós, como comunicadores, ativistas e profissionais do setor, já apontamos há décadas. O problema é que a gente acaba desperdiçando energia brigando entre nós, com pessoas que estão no mesmo barco. Meu conselho é simples: se o cara está no mesmo barco que você, mas pensa diferente, tudo bem, é direito dele. O importante é ter respeito. No fim, o que sustenta tudo isso é uma base sólida de diálogo, união e consciência de que estamos todos trabalhando pelo mesmo objetivo, que é fazer o setor evoluir. A ideia do respeito é central. Pense bem: no fim das contas, gastar energia com quem está do seu lado não muda nada e ainda desvia o foco dos pontos que realmente importam. Quando as leis e as mudanças finalmente acontecem, o tempo que você, como empresa, cultivador ou associação, deveria usar para defender o que te atende foi desperdiçado discutindo com o vizinho. O caminho é fazer o nosso, sempre pensando no todo. A Expo Cannabis, como plataforma, é plural, acolhe diferentes perfis, promove diálogo e trabalha para convergir esforços em prol do avanço do setor.

Em relação a isso, a gente divide o nosso ecossistema em três grandes áreas que a gente apelidou carinhosamente de Cannabis é Medicinal, Cannabis é Plural e Cannabis é Cultural. É dentro de um único evento como a Expo que conseguimos mostrar que, sim, é possível reunir todos esses setores em um mesmo espaço. O mais curioso, e que vale trazer aqui, é que além do setor empresarial e de mercado, a Expo também abre espaço para os movimentos sociais. A gente recebe a Marcha das Favelas e a Articulação Nacional das Marchas da Maconha. A ExpoCannabis é o primeiro evento no mundo, pelo menos que eu conheça, onde acontece uma marcha da maconha durante os três dias da feira. A Articulação Nacional se reúne lá, participa, mostra seu movimento e promove o diálogo direto com o público. Tem também o encontro de cultivadores e eu até brinco que vai desde a galera do prensado até o cara da flor de estação. Tem do curioso ao conservador, do engravatado ao despojado. Isso porque a gente entende que o nosso segmento é diverso e plural por natureza. Dentro dessa visão, a Expo sempre levanta a bandeira de que, no fim das contas, somos todos parte de um mesmo movimento, lutando pela mesma causa. A gente não tem porque arrumar intriga e confusão entre si.

A gente está indo agora para a 3ª edição da feira e tanto o público quanto as marcas têm evoluído, junto com o próprio evento, então eu queria que você fizesse um balanço dessa evolução ao longo dos últimos três anos.

Desde a primeira edição, a gente sempre procura trazer uma temática que converse com o momento do setor e com o cenário que estamos vivendo. A primeira edição teve o tema Plantando o Futuro, depois veio Normalizando os Múltiplos Usos da Planta, e agora chegamos em Cultivando para Florescer. Cada uma dessas escolhas reflete o contexto e a etapa de amadurecimento que o mercado e a sociedade estavam passando em cada momento. Coincidentemente, a primeira edição aconteceu em setembro, mas a partir da segunda fixamos o evento em novembro. A terceira também será em novembro, e já adianto que a quarta edição seguirá no mesmo mês. A ideia é manter essa data no calendário, quase como o último grande evento do ano no cenário canábico brasileiro, justamente para permitir esse diálogo entre todos os setores e interesses envolvidos. Quando a gente escolheu o tema Plantando o Futuro, a ideia era justamente mostrar que aquilo que muitos achavam que só veriam lá na frente já estava começando a acontecer.

Muita gente imaginava uma ExpoCannabis no Brasil apenas como algo distante, inspirada em modelos como a ExpoCannabis do Uruguai, que os brasileiros conhecem desde 2014. Então, o “plantar o futuro” simbolizava esse início, estávamos cultivando no presente o que parecia ser apenas um sonho distante. A primeira edição despertou curiosidade não só do público do setor, mas também de quem nunca tinha se aproximado desse universo. Afinal, era uma feira de cannabis dentro de um pavilhão tradicional, acostumado a receber grandes eventos de negócios e exposições renomadas. Isso atraiu muita gente que talvez não fosse a um evento de maconha em outro contexto, mas que se sentiu à vontade ali pela estrutura, pelo formato e pelo propósito. Na segunda edição, o tema foi Normalizando os Múltiplos Usos da Planta. Muita gente ainda não tinha noção de que a cannabis vai muito além do uso medicinal ou recreativo, que ela pode ser matéria-prima para uma série de produtos e soluções. Aquele momento foi importante para ampliar a visão do público sobre o potencial da planta. Agora chegamos ao tema Cultivar para Florescer, que reflete o tempo que estamos vivendo. Mesmo que com atraso, o Brasil está finalmente passando por um processo de mudança. E essa transformação começa com o diálogo, com o ato de abrir espaço para a discussão e torná-la cada vez mais ampla. É isso que a Expo faz a cada edição: plantar, regar e ajudar o setor a florescer.

Com a Expo já chegando à terceira edição, imagino que o desafio seja se reinventar e manter o interesse do público e da imprensa. No começo tudo é novidade, o que facilita a comunicação e o engajamento, mas com o passar do tempo isso muda. Como vocês fazem para continuar trazendo inovação, atualizando o formato e mantendo o evento relevante a cada ano? Existe algum tipo de processo interno, como reuniões ou brainstorms coletivos, para pensar essas novas ideias?

A gente passa mais de um ano pensando na próxima edição. Esse processo de brainstorming é constante e envolve não só a diretoria, mas também toda a equipe de comunicação e produção. Temos reuniões fixas duas vezes por semana, toda segunda e sexta, e isso já faz parte da rotina há três anos. É um espaço para trocar ideias, revisar o que funcionou e pensar em como se reinventar a cada edição. Como você comentou, a primeira edição tem naturalmente essa vantagem da novidade, que atrai e desperta curiosidade. Mas desde o começo a Expo chegou com um diferencial, não só pelo formato e pelo espaço inusitado para um evento desse tipo, mas também pela proposta de abraçar todo o setor e mostrar essa pluralidade. Na primeira edição, por exemplo, a gente apresentou uma exposição de plantas vivas de cannabis, algo inédito e que gerou muito interesse. Esse tipo de inovação vem dessas discussões contínuas. A mente fica sempre fervendo, não só a minha, que estou à frente da comunicação, mas também a do Celso, do marketing, da Larissa e de todos os diretores. A gente está sempre estudando, observando o cenário e aprendendo. Tudo isso para garantir que, a cada ano, o público tenha uma experiência nova e enriquecedora na feira.

Muito interessante você mencionar essa primeira edição com a exposição das plantas. Foi a primeira vez que o público brasileiro pôde ver uma planta de cannabis ao vivo dentro de um evento. E eu sei que isso vem evoluindo a cada ano. Qual é o plano para o viveiro de cannabis da próxima edição?

Esse ano o jardim vai ter uma grande novidade, agora terá visão 360 graus, então quem entrar na feira vai poder circular e ver o jardim de todos os lados. É um avanço importante e vai tornar a experiência ainda mais imersiva. Além disso, o jardim vai estar integrado ao espaço de oficinas e workshops, onde teremos atividades práticas. As pessoas vão poder tocar na planta e participar de forma mais direta, o que deixa tudo muito mais interessante. As cepas expostas são escolhidas com muito carinho pelo pessoal do Clube de Fitoterapia Canábica e a cada edição elas trazem novidades. No primeiro ano, por exemplo, o jardim refletiu um momento marcante: estávamos passando por uma onda de incêndios em São Paulo e algumas plantas da associação foram atingidas. Mesmo assim, elas se regeneraram, mostrando na prática a força e a capacidade de recuperação da cannabis. É isso que torna o jardim especial, que assim como a temática da feira, muda a cada edição. Mesmo quem já foi em anos anteriores sempre vai encontrar algo novo, porque cada evento é um momento único que a gente quer que o público viva intensamente.

Falando agora de algo que não é exatamente uma novidade, mas que eu acho muito interessante e que vocês fazem desde a primeira edição da Expo: a compensação de carbono em parceria com a Associação de Pacientes Cultive. Conta pra gente como surgiu essa iniciativa, porque não é algo óbvio, mas faz todo sentido dentro da proposta do evento. Como vocês estruturaram isso e o que exatamente significa essa compensação?

Desde antes da primeira edição, a gente sempre teve a ideia de que a ExpoCannabis deveria existir não só para movimentar e mostrar à sociedade o potencial do mercado canábico, mas também para devolver algo positivo à comunidade. Desde o início, temos uma grande preocupação com os resíduos que a feira produz. Fazemos compensação de carbono, separação e descarte inteligente de materiais. Eu costumo dizer que a gente não produz lixo, a gente gera matéria-prima para novos produtos. Itens como lonas e materiais de comunicação, por exemplo, são todos reutilizados. Outra forma que encontramos de levar essa pauta para outros espaços, inclusive para onde estão grandes empresas, foi por meio de relatórios enviados à Fundação Getúlio Vargas (FGV), que possui o Centro de Estudos em Sustentabilidade. Nesses relatórios, registramos as emissões de gases de efeito estufa geradas em cada edição do evento.

Pra você ter uma ideia, na primeira edição, em 2023, foram registradas 2,95 toneladas de emissões, e fizemos a compensação em 110%, neutralizando completamente o impacto. Essa compensação leva em conta o deslocamento de pessoas, empresas e todas as atividades do evento, e é feita com o cultivo de cannabis no Brasil, em parceria com a Cultive. Na segunda edição, o evento cresceu de 8 mil para 20 mil metros quadrados e as emissões subiram para 7,07 toneladas. Mesmo assim, compensamos 8,2 toneladas, cerca de 15% a mais do total emitido. Esses dados são públicos e estão disponíveis no site da FGV. Lá é possível ver o nome da ExpoCannabis ao lado de grandes empresas e laboratórios farmacêuticos, o que é uma conquista importante pra gente e, principalmente, para o meio ambiente. Desde a primeira edição, temos esse compromisso e vamos continuar assim enquanto estivermos à frente da ExpoCannabis Brasil: cuidando do meio ambiente e da sociedade, e retribuindo de forma responsável o que o evento representa.

Pra compensar 7 toneladas quantas plantas precisa?

Acredito que quem poderia responder com mais propriedade seria o nosso engenheiro ambiental. Mas puxando de memória os dados de 2023, que estão mais frescos para mim, nós tivemos uma emissão de cerca de 3 toneladas e realizamos uma compensação de 110%, o que deu algo em torno de pouco mais de 100 mudas plantadas. 

Super possível…

Exatamente. Além de ser totalmente possível, eu acho que isso precisa servir de incentivo para outras empresas do nosso mercado, principalmente as brasileiras, seguirem o mesmo caminho. Como eu comentei, hoje, se você entra no relatório público da FGV, só encontra a ExpoCannabis. Mas o meu desejo é ver todas as empresas, tanto as que participam da Expo quanto as que não participam, fazendo isso também. Porque é uma forma de avançarmos, de comunicarmos além do nosso próprio universo. É assim que a gente começa a marcar presença, a consolidar a nossa base num espaço onde antes estavam apenas grandes laboratórios, grandes farmacêuticas e grandes corporações. Mostrar que temos essa consciência faz parte da nossa essência desde o início da nossa trajetória e é assim que queremos continuar.

Muito se fala sobre a falta de profissionalismo na indústria da cannabis. Eu imagino que você, mais do que ninguém, sinta isso na prática. Então eu queria que você avaliasse como está o nível de profissionalismo das marcas hoje e aproveitasse para deixar algumas dicas de como elas podem melhorar nesse aspecto. Imagino que não seja nada tão complexo, não é uma ciência de foguetes, mas que pequenas atitudes já possam fazer bastante diferença, certo?

Boa, Anita. Quero começar justamente por essa parte. Não é uma ciência, não é uma fórmula química, não é um cálculo matemático elaborado. É muito mais como uma receita de bolo. Eu costumo dizer que uma das funções da Expo também é essa: educar e ajudar a profissionalizar cada vez mais o mercado. Na primeira edição, por exemplo, percebemos que muitas empresas sentiram o impacto das regras e exigências para ter um estande dentro de um pavilhão. É um processo cheio de burocracias, e acompanhar isso de perto me mostrou o quanto o mercado canábico vem evoluindo nesse sentido, se tornando cada vez mais profissional, e em ritmo acelerado.

Eu costumo brincar que não é uma receita de foguete, mas o próprio foguete decolando. Porque se olharmos para mercados mais tradicionais, como o de alimentos ou de serviços, essa profissionalização muitas vezes só acontece quando a empresa já está em crise e precisa se reinventar, contratando uma consultoria externa. No nosso segmento, essas mudanças acontecem junto com o crescimento das próprias empresas, ao longo de toda a jornada delas. A cada ano é possível perceber essa evolução, especialmente na forma como elas se relacionam com o público e participam de grandes eventos. Hoje as empresas estão mais preparadas, mais comprometidas, e as equipes à frente dos projetos mostram um nível de dedicação impressionante. Qualquer pessoa de fora do setor que olha de perto acaba se surpreendendo positivamente com esse profissionalismo. Por isso, eu já deixo aqui o meu reconhecimento a todas as empresas que seguem buscando se aperfeiçoar e se tornar cada vez mais profissionais.

É, porque tudo nasce muito da paixão. Mas depois a gente percebe que, opa, é como num casamento: o amor, sozinho, não é o suficiente para que dê certo, é preciso ter outras bases também.

Cara, é como um casamento. São pequenas atitudes que mantêm a relação viva, que mantêm aquela chama acesa. São coisas simples, nada difíceis, mas que muitas vezes acabam não sendo tratadas como prioridade. E é aí que mora o problema, porque lá na frente isso acaba impactando negativamente. Por isso, eu sempre digo: coloque como prioridade deixar o seu negócio, o seu produto ou o seu serviço cada vez mais profissional.

Neste ano vocês estão convidando várias personalidades para participar da feira, políticos, influenciadores, celebridades e tudo mais. Me conta um pouco sobre essa estratégia. Imagino que a ideia seja furar a bolha, mas quero te ouvir sobre isso.

Na verdade, não só nessa edição, mas em todas, a gente sempre trabalha com a ideia de trazer novos atores, novas pessoas para participarem, conhecerem e vivenciarem o evento. A gente acredita muito nesse trabalho de formiguinha. Quando alguém com certa influência dentro de um grupo social participa da feira, acaba conhecendo um novo universo que muitas vezes não fazia parte da realidade dela. Já tivemos vários casos curiosos ao longo das edições, e tenho certeza de que agora, na terceira, veremos outros exemplos interessantes. Esse movimento de trazer novas pessoas é quase um processo de abrir portas, de girar pequenas chaves na cabeça de cada um, ajudando a quebrar conceitos antigos e visões ultrapassadas. Além disso, é uma forma de preparar o terreno para o futuro. Quando o país estiver mais avançado nas questões de regulamentação, essas pessoas já vão estar informadas, familiarizadas com o tema, e não vão ser pegas de surpresa. Por isso, seguimos com essa proposta de trazer novos rostos e vozes, justamente para desmistificar o assunto e ampliar o diálogo em torno da cannabis.

Eu sinto que o legado da Expo é justamente apresentar esse universo para muita gente que ainda não conhecia. Você também tem essa percepção?

Sim, com certeza. Eu acho que o legado da Expo não é só o de apresentar esse universo. A ExpoCannabis, como plataforma, vai além disso. Ela também ajuda a desconstruir uma imagem negativa que ainda está muito presente na cabeça das pessoas. Quando alguém ouve a palavra ‘cannabis’, já pensa duas vezes. E quando escuta ‘maconha’, muitas vezes nem quer se aproximar. Então, acho que esse é um dos grandes papéis da Expo: mostrar um novo olhar, mais real, mais informado, e ajudar a mudar essa percepção. Isso é algo que me orgulha muito em relação à ExpoCannabis.

Pra fechar, eu queria que você contasse pra gente alguma história de bastidor que tenha te marcado, algo inusitado, engraçado…

Tem várias histórias que acabaram se repetindo nas duas edições e que provavelmente vão se repetir na terceira também. Uma das mais marcantes é a experiência inédita de muitas pessoas em ver a planta de perto pela primeira vez. Eu já vi jovens de 20 e poucos anos se emocionando com isso, e também pessoas de 60 ou 70 anos dizendo que achavam que morreriam sem nunca ver a planta fora de uma tela ou de um livro. Esses momentos são muito pessoais, por isso nem sempre a gente compartilha publicamente. Mas é comum ver gente chorando de emoção. E confesso que é difícil pra mim, porque sou meio manteiga derretida. Lembro de uma senhora em 2023, perguntei se ela estava passando mal e ela respondeu: ‘Não, estou emocionada. Achei que nunca fosse ver a planta de verdade.’ Aí pronto, eu abracei, chorei junto.

Esses momentos mostram o impacto que a Expo causa, cada um vive de um jeito muito único. Tem também histórias mais voltadas ao lado empreendedor. Um exemplo é o da Gloriosa Pimenta, da Camile. No segundo dia da feira, encontrei ela completamente desesperada porque o produto tinha esgotado. Eles tiveram que abrir a cozinha no fim de semana para repor o estoque. Mesmo com experiência em feiras, ela não esperava um sucesso tão grande. E não foi um caso isolado, outros expositores também contaram que precisaram buscar produtos em lojas de São Paulo, negociar com os lojistas e trazer de volta para o estande para não ficarem sem nada. Isso mostra a força da feira. As pessoas vão para ter contato direto com suas marcas favoritas, conversar com os fundadores, negociar, garantir um brinde. É uma experiência muito próxima e intensa. E tem ainda as curiosidades de bastidor. O próprio condomínio onde acontece a ExpoCannabis, por exemplo, sempre se surpreende com o nível de profissionalismo, a estrutura e o cuidado com a segurança. Tudo isso acaba se tornando um aprendizado e gera boas histórias para contar depois. Quem sabe mais pra frente eu não reúno todas e transformo em um guia de curiosidades sobre eventos?