Saindo da estufa

Afro-X: “Quem alimenta o tráfico é o playboy, é o nariz do playboy”

Crédito da foto: Rafael Berezinski
Crédito da foto: Rafael Berezinski

“Quem morre nessa guerra é pobre e preto | Bala perdida na favela tem endereço”. O refrão de “Bala Perdida”, música do novíssimo álbum de Afro-X, o “A Rua é o Palco”, infelizmente continua a traduzir a desigualdade social extrema que marca o Brasil desde que éramos colônia.

Na conversa com nossos editores, Filipe Vilicic e Anita Krepp, Cristian de Souza Augusto, o Afro-X, versa sobre injustiças. Revolta-se com a (quase?) imunidade dada para a elite brasileira – resgata o exemplo do ex-deputado federal Roberto Jefferson que, ao ser preso, atirou na Polícia Federal, que não se defendeu –, enquanto os pretos e pobres nas favelas do Rio têm suas casas invadidas e são mortos, mesmo quando se ajoelham e se rendem diante da PM.

O rapper ganhou fama na virada dos anos 90 para os 2000 com o duo 509-E, que formou ao lado de Dexter. O nome, 509-E, era o número de sua cela no presídio do Carandiru, palco de tantas atrocidades e injustiças que acabou simbolicamente fechado e demolido em 2002. Tanto ele quanto Dexter foram presos por assalto a mão armada e, na prisão, foi quando decidiu não mais viver do crime e se dedicar à sua arte.

Hoje em carreira solo, Afro-X, cuja alcunha é inspirada em Malcolm X,  enriqueceu, mora em bairro nobre e se banha nas correntes e relógios de ouro. Fruto de uma luta e de conquistas que começaram com seus primeiros hits, que antigamente tomavam a MTV e, hoje, se espalham por YouTube e Spotify. A melhora na vida, porém, não o distanciou em nada das responsabilidades sociais e históricas que ele compra pra si, como demonstra na entrevista a seguir, na qual passa por vários assuntos. Vamos do rap a temas cabulosos, como de que a maconha deveria ser incorporada nos presídios e a ameaça que a diamba pode representar aos negócios das drogarias.

(Filipe) Você e suas músicas representam muito pra cultura canábica. Hoje em dia, ao mesmo tempo em que temos um evento enorme como a ExpoCannabis, continua a Guerra às Drogas, as invasões a favelas como foi no Rio no fim do ano passado. Como vê essa situação da liberdade em relação à maconha, mudou mesmo algo nos últimos tempos?

Dentro desse tema, que acaba sendo sobre discriminação, e diante de fatores históricos do Brasil. O brasileiro muitas vezes não sabe da sua história, mas falando de tudo que está associado, o Brasil já produziu cannabis na época da colonização brasileira, o Brasil produzia cannabis. Mas, de certa forma, essa erva ancestral, com muito mais de 5 mil anos, vem de antes de Cristo, foi trazida por escravos. Dentro desse contexto da escravidão, os negros que consumiam a maconha. Isso até após a escravidão… tem a ver com as senzalas. Na escravidão tinha a senzala , pós-escravidão, as favelas. Chega dentro da pergunta que você me disse, que é o povo discriminado, marginalizado e criminalizado. Hoje, no Brasil, é uma vergonha, qualquer pessoa é presa por tá portando, fumando um baseado. Sendo que essa é uma discussão a nível mundial. Até teve um consenso, com o conceito do STF sobre o porte, que vai minimizar bastante essa questão.

Olha, são três pontos de vista sobre a barbárie que aconteceu no Rio de Janeiro (da Guerra às Drogas). Primeiro, o ponto de vista dos governantes que não estão aí. E a questão é social, é de classe social. Hoje, graças a Deus, eu vim da periferia e, diante do meu trabalho, da minha conquista, eu moro num bairro que pode ser considerado bairro nobre. A polícia chega lá pedindo licença, não chega invadindo. Agora, na favela…. isso aí, a gente tem que lembrar que desde a escravdião a polícia sempre foi o braço armado do estado. Os caras entram lá, sofrem lavagem cerebral, porque eles também vieram da periferia. Alguns moram na periferia, mas seguem ordem, do braço armado do estado. E o Estado não respeita o morador da favela.

Aí entra no segundo ponto de vista, o ponto de vista do morador da favela, de uma criança na favela. Qual é a consequência, qual é o trauma, que vai trazer praquela criança? E depois a sociedade quer o quê? Flores, Suflair, diante de um molque traumatizado, padecendo? E o Brasil, nossos governantes, se preocupam com as questões de fora, sendo que o Brasil teve centenas de anos de escravidão, falta uma reparação grande. Estou falando do ponto de vista histórico. Então, se o cara se envolveu na vida do crime é porque existe uma raiz. Qual é essa raiz? A desigualdade social. Nosso país é um país em que existe a maior desigualdade social do mundo, o rico é muito rico e o pobre é muito pobre. Na pandemia, piorou. Na pandemia, faltou educação, então no ranking mundial, o Brasil, e frente aos países que têm economia menor que a nossa, o Brasil decaiu. O Brasil: sem educação e histórico de desigualdade social.

Vou mais longe: falemos sobre Roberto Jefferson, uma autoridade. Inclusive, estou lançando agora um trabalho de músicas inéditas e minha esposa chegou falando que estava faltando uma última música do disco. Eu tava buscando essa última música do disco e tal, justamente veio diante do genocídio, do que aconteceu (a invasão às favelas do Rio no ano passado). Só que nosso país tem memória fraca, diante de tudo que vem acontecendo na política, tô falando de todos os lados… era pra ter acontecido alguma coisa.

Não vamos muito longe, você vai na França, que é um país desenvolvido, o povo não aceita certas situações. Aí voltando nessa situação, sobre o lançamento. Minha mulher: “Nossa… a gente ficou mal com a pessoa, que fala que é cidadão, não compadecer com um monte de morte, e fala que é bandido”. E o crime também! Bem sabe quem se envolve na vida do crime, tem as consequências. Lamentável, é assim que funciona. Se o cara trocou tiro, lamentável, eu também me envolvi na vida do crime. Mas teve um momento da minha vida que eu vi que queria viver. Aí, diante disso, a gente ficou mal, né? Vem tudo aquilo de morte, os moradores tendo que carregar os corpos. Cadê o papel do Estado? O estado que tá ganhando, quanto mais cidadão tiver, isso é o capitalismo – por isso essa cultura de fazer um monte de filho… quanto mais, cada nascimento de brasileiro, o governo ganha lá no FMI. Essa pessoa já tá fadada a pagar imposto! O Brasil é o que mais tem imposto, único da América Latina que temos de pagar Imposto de Renda, algo que nós conquistamos, acho totalmente equivocado… mas voltando nessa ideia, minha mulher falou “nossa, você tem de meter uma música”. Aí a música veio, vejo que é uma mensagem de Deus pra mim. Porque eu sou músico autodidata, eu consigo dirigir outros músicos, já dirigi uma orquestra sinfônica, fui primeiro rapper a fazer encontro com a música erudita com orquestra com 60 componentes, fomos no Serginho Groisman com esse projeto. Dentro dessa visão, veio uma reflexão, a primeira que veio foi o refrão da música:

Quem morre nessa guerra é pobre e preto | Bala perdida na favela tem endereço (repete mais uma vez o refrão)

E pior de tudo isso é que quem alimenta o tráfico é o playboy, é o nariz do playboy. E outra coisa, a questão é classe social, porque a partir do momento que o Roberto Jefferson (ex-deputado federal, hoje preso) deu um monte de tiro, meteu bala na PF, e os caras da PF botaram o rabinho entre as pernas, porque os caras deveriam ter rajado ele de bala. PF, polícia federal, os caras deveriam ter rajado ele na bala. Ele trocou bala com a polícia e o que aconteceu? Esperaram não sei quantos dias pra ele se render. Na favela, cê pode ver, teve um monte de execução, os caras entregaram tudo, tem vários indícios. A partir do momento que o cara tá no erro e o outro é policial, ele tem de cumprir o papel dele. E qual é o papel dele? Primeiro voz de prisão, se a pessoa reagir, ele tem de se defender. Mas se a pessoa não reagir, qual é o papel dele? Tem de levar o cara preso!

Pra finalizar essa questão, que é sobre o refrão da minha música (repete o refrão), e quem tá no endereço: os pretos, os nordestinos, e qualquer pobre hoje. A questão que eu tô falando não é só racial, é de classe social. Por isso que fizeram isso aí (a invasão às favelas no Rio), e os nossos governantes falaram que iam resolver, e o que resolveu? Não vai resolver o problema. Porque encontraram cocaína no avião da FAB… a pergunta tá respondida.

(Filipe) Falando em versos, o Planet Hemp fez o último show recentemente. Eles representaram, assim como o Dexter, você, o Emicida, representam, uma mensagem que fica na cabeça: a mensagem pela legalização, de alertar para a desigualdade social. “Legalize Já!”. Como você vê o papel que você e vocês têm com a música e essas mensagens na conversa pela legalização que está ocorrendo agora, para tornar a maconha mais acessível, seja como medicinal ou pro lazer?

A música é libertadora. A música é verbo. Tudo que a gente expressa vai ser jogado no universo. Eu vejo que há uma transformação muito grande através da cultura hip hop, eu parei com a vida do crime a partir do momento em que eu fui salvo pela cultura hip hop. Além disso, tem prova viva disso que a música liberta, porque a gente recebia cartas, né? A gente morava no xadrez 509-E, né? 509-E era o número da cela no Carandiru. E a gente recebia constantemente cartas de várias pessoas dando testemunho, falando que largaram a vida do crime em virtude de nossas letras. Assim como a palavra lá dentro me libertou, quando eu cheguei, não tive só hostilidade. Tive hostilidade por parte do Estado, que todo mundo que tá lá acaba estando no mesmo barco. Lá ouvi uma voz de uma pessoa , um cara, e sempre trocando ideias do rap com ele. E ele “Pô, você tem mó talento, aí. E seu irmão…”. Meu irmão tinha acabado de lançar pela gravadora dos Racionais. E ele falou “Seu irmão envolvido com os caras e tal. Por que você não segue nesse caminho?”. Porque no caminho do crime, a gente tá ligado, quando o cara se envolve na vida do crime, já tá ligado, não existe final feliz. Só na política, né? 

(Anita) Aí pode ser bandido.

Colarinho branco passa batido e fica tirando barato do brasileiro. De certa forma essa mensagem começou a chegar não só no Brasil. 509-E rendeu matéria pra Newsweek americana, The Source, jornais como o Clarín da Argentina, El Mundo da Espanha, outros veículos renomados. 509-E mostrou a possibilidade da transformação do ser humano. Imagine nós no maior presídio da América Latina, o Carandiru, 7500 homens, foi uma luta espiritual primeiro, a transformação. O resgate da autoestima, quando resgatei minha autoestima falei “nossa, vou fazer mais pelo meu povo do que estando na vida do crime.”

Fora as leituras, né? Eu venho de um tempo, hoje existem batalhas, no meu tempo existiam as posses, eram reuniões da cultura hip hop. Sou de São Bernardo do Campo, a gente se reunia na pista de skate, trocava várias ideias, um trazia um livro, os caras iam correr campeonato de skate fora do país e traziam um vinil. Aí conheci Malcolm X, por isso que o meu vulgo é Afro-X. Afro por ser afrodescendente e o X em homenagem a Malcolm X. Então tudo isso foi fortalecendo, e aí, de vez em quando, a gente faz projeto social, não divulgo muito isso, mas a gente faz o lado social, e tem umas pessoas, uns alunos que a gente lançou, 72 grupos, fomos premiados pela Petrobras, Ministério da Cultura… e aí vira e mexe o pessoal fala “Oh, professor, hoje tô fazendo faculdade, hoje sou um jornalista, um advogado”. A gente vê que tudo valeu a pena, o sacrifício foi tamanho. A gente tava dentro do sistema, sofremos as maiores infrações contra o ser humano. Cheguei em 1994 em Presidente Bernardes, não tinha esse papo de direitos humanos,  não. Direitos humanos era taco de baseball. Então, eu vejo a música, os versos, isso refletido nos versos. Refletiu pra mim a socialização, pra dar voz a essas pessoas. E pra finalizar, dentro da nossa história, pra contribuir. A música marca, fica registrada, traz memória afetiva, dados históricos. Quem sabe futuramente todos nós, os seres humanos, começamos a pensar e refletir em vários aspectos, do que hoje ainda é tabu, como na causa das mulheres, dos indígenas. (a música) Começa a deixar registrado pro futuro! E o rap é isso aí. O rap é um livro de geografia, de comportamento; é um pai pros moleques que falam “não tenho um pai”, e o rap trocou uma ideia no momento que o moleque tava sem esperança. 

(Anita) Qual foi o papel da maconha nesse tempo que você esteve preso? Não sei se todo mundo sabe, carcerários até facilitam a entrada da maconha porque sabem que a maconha ajuda na paz lá dentro.

Mais ou menos assim. Deveriam ter mais políticas públicas, porque de certa forma… e são exemplos simples… vai num evento de maconheiro, entre aspas, é um evento de paz, a pessoa pisa no seu pé e pede desculpa,  é good vibes. No estúdio, (a maconha) é memória criativa, flui muito. Medicinalmente, na saúde. Aí se chegasse nos presíduos, poderia, não só isso… mas certamente e legalmente, de forma legal ou ilegal, a diretoria sabe, quando tem maconha na cadeia, não tem treta, não tem rebelião. Então é isso aí, deveria, pelo menos o óleo canabidiol deveria ser usado como tratamento pra depressão, pra outras doenças, pra fome. Se você come um alimento que eles dão pros presos, a sociedade paga. Eu tô pagando, todo mundo tá pagando, você abre o olho, já tá pagando imposto. O maior investimento que temos é na segurança pública, então porque não resolve? A gente anda na rua, por mais que coloquem polícia, é o caos na sociedade. Roubalheira de celular, rouba carro,  moto, o trabalhador. Aí o maior investimento é na segurança pública. A engrenagem tá equivocada. Se investissem na prevenção, custaria menos pro Estado e pro nosso bolso. Se investissem mais em escola, se tivesse mais escolas, mais lazer, mais cultura pra juventude, que infelizmente tem de fazer o baile funk na rua… Por quê? Porque não tem o espaço. Não tem um ginásio, um espaço pra comunidade, aí tem de fazer na rua, infelizmente, e acaba afetando os outros, infelizmente. A desordem está no Estado, que deveria zelar pelas políticas públicas porque aqui deveria ter o governo, um olhar (do governo) para estar participando de um evento como esse, haja visto a evolução que a gente tá falando a nível mundial. Não é balela, a ciência está comprovando. A questão também vai além, a cannabis pode ser usada na indústria têxtil. Quantas pessoas estão trabalhando no dia de hoje com o mercado da cannabis? É uma economia que gera. Só que o governo precisa arrumar um culpado, um bode expiatório. Voltando ao raciocínio, quem dera a gente tivesse um governo que liberasse ao menos o óleo canabidiol pra dentro dos presídios. Acho que ia ser legal, bastante. Primeiro, pra sociedade. O preso poderia contribuir, pois tá lá ocioso, no plantio, em algum aspecto da indústria. Ia gerar um emprego e mandar pra família dele, não ia voltar pra vida do crime. Ia girar!

(Filipe) E como é a maconha na sua vida e as outras drogas, também? Como você foi apresentado a ela, como é no rap, hoje na sua vida

As drogas estão presentes, né? Só sair da sua casa e dar 500 passos e vai ver uma drogaria. Drogaria, cê é louco, vicia as pessoas, mano. A indústria farmacêutica deve estar revoltada com vocês. É verdade! Vai parar de vender remédio pra dor de cabeça, vai falir os caras, você entende? Acho que o olhar é um olhar bem mais além, as drogas estão presentes, existem as drogas liberadas, como o álcool, que destrói milhares de famílias. As consequências do álcool… já tive familiares com problema de alcoolismo, meu Deus, uma pessoa que você olha e é gente boníssima. Mas é só beber um copo de cerveja e se transforma, é o problema do alcoolismo, acaba com muitas vidas, com a família. E até pra você morrer hoje, o enterro é 10 mil reais. Aí busca quem causou isso, quem causou o câncer, que é a indústria do álcool e tá imune. Vira até luxo, tem bebidas que são luxo, igual o uísque. Vou falar pra vocês que eu também, eu tomo meu gorozinho. Agora não posso, tô com problema de azia… mas, moderadamente, tomo. Mas maconha, falando da maconha, vem aí desde a minha infância, e eu tinha umas maconha boa, meu. Quando eu comecei a fumar maconha tinha não, sei oq que tinha acontecido, tinha um navio que naufragou, a maconha da lata, mano.

(Filipe) O veneno da lata (risadas)

Aí, meu , maconha boa. Aí depois a qualidade foi se perdendo. Então, o cidadão tem de ter o seu direito de ter o seu plantio. Graças a Deus, foi sancionado que todos tem o seu direito, mas é (faz sinal de aspas) uma ação, você vai pra delegacia, responder a advertência, e coitada das planilhas. É uma vida, é uma vida, é linda, é ancestral. Vejo essa questão: existe uma pirâmide aí que tá ganhando com narcotraficante. A matéria-prima das principais drogas não tá no Brasil, como da cocaína. E os países sabem de onde sai a matéria-prima, quais são as rotas, e aí o governo tá junto, a realidade é só essa. A cocaína, eu vejo assim, historicamente foi liberada, é um remédio, assim como anfetamina. A gente fala de droga, eu não considero a maconha como droga , eu vejo a questão da cannabis com um outro olhar, eu vejo ela como uma planta que está nos ajudando, que está aí para nos ajudar, ajudar a humanidade, vejo que a cannabis é benéfica. A questão do uso recreativo-adulto, tem de ter cautela. Se ficar fumando aí, estourando, é óbvio que vai ficar preguiçoso.  Cada um sabe do seu organismo, eu mesmo, vou treinar de manhã, não vou ficar usando. A pessoa tem de ter maturidade. O governo tem de entender que vai gerar muito dinheiro, vai ajudar a minimizar (o problema da) segurança publica, a desafogar as cadeias. Porque a maior questão hoje dos jovens presos, e a maioria dos que estão na cadeia é jovem, é pela questão do 12, o artigo das drogas. Aí eles tão criminalizando mais, eles querem, daqui a pouco, até baixar a maioridade penal. Pra finalizar isso, quem fez o código penal, já pensou lá na República… historicamente, quando a colônia portuguesa roubou todo nosso dinheiro… era colônia portuguesa, quando molhou pro rei, “vou voltar pra Portugal”, ele falou: “Aí, o seguinte, limpou os cofres, o que o Brasil já tinha”. Quando veio a proclamação da República, falou assim “Vamos criar as leis pra nós, cê é loko, tiozão?”. Aí sabe o que eles fizeram? Liberaram a escravidão, teoricamente, a Lei Áurea, tudo bonitinha. Mas de certa forma, a desvantagens, 500 anos de ecsravidão, morreu mais de 2 milhões de negros na travessia da África pro Brasil. A gente fala do Holocasuto, dos judeus, mas esquece da história sangrenta que foi o Brasil. Os caras construíram ali. Os pretos, que trouxeram a semente da maconha no Brasil, começaram a plantar, fumavam um baseado. Quando liberou (a escravidão), aí os caras: “Essa droga é coisa de preto”. Só que eles (os brancos) usavam. Todo o Império, o clero, todas as classes já usavam a maconha, era liberado o plantio. Era liberado o plantio! Mas aí o que os caras criaram? A lei da vadiagem. Os caras criaram as favelas, as senzalas viraram as favelas, e criaram a lei da vadiagem . A vadiagem afetava quem? O cara preto, andando na rua, aí chamavam pra ser preso. Ali já começóu o código penal, diante das drogas, diante do que o negro usava. A criminalização só afeta, e faz virar um caos o sistema prisional e a sociedade.

(Anita) Falando de semente e fundamento, conta pra gente, você já plantou?

Ainda não, mas visitei algumas associações, tenho amigos que já têm autorização. E aí o tratamento é gradativo, ele começa com o uso do canabidiol, tô há um tempo fazendo esse tratamento. Aí tenho a receita e agora vou atrás dessa possibilidade de fazer meu plantio para deixar tudo Ok. Porque, você sabe, né? Eu não posso errar. Se eu fizer qualquer coisa, aí tenho certeza! Tem cara que não dá nada na música, os caras aparecem com uns de skunk. Eu queria, vai chegar meu momento, de aparecer com meu saco de skunk, das californianas, as da hora. Mas eu ainda estou dentro desse processo, e vou chegar lá. E aconselho que todo mundo vá pela legalidade.

(Anita) Antes de finalizar, a gente quer conhecer quais são suas práticas de uso adulto hoje em dia, principalmente pelo viés da redução de danos, um tema que muito interessa a Breeza, pois produzimos o Guia da Boa Breeza, que vamos te dar de presente.

Eu vejo que a redução de danos é muito ampla, dentro do meu aspecto, vejo que a partir do momento que cultiva na sua casa, vai evitar um monte de coisa, como de a polícia te parar. Se vai numa loja, pode causar um dano muito grande. Então, produzindo na sua casa, já vai minimizar bastante essa questão da segurança e do dano pra sociedade. Meio ambiente, também acho muito importante, a partir que começa a usar cannabis na indústria têxtil. Não só têxtil, minha esposa é arquiteta, pode usar na arquitetura, na construção civil, a resistência do tecido, da fibra da cannabis, o cânhamo, é muito resistente. Eu vejo que vai ser um grande ganho pra toda a sociedade. E saúde, também, a partir do momento que eu visitei algumas associações, vejo que se consegue saber a origem do que está consumindo. Agora, numa loja ou quando alguém te vende, você não sabe quanto tem de THC, quanto tem de CBD. Então, vai conseguir ter uma origem, um lastro. Mesma coisa com a bebida, não vê o que aconteceu com o metanol? A pessoa tá consumindo, as pessoas adulteram. Mas a bebida, se for rastrear, se for de uma indústria séria, vai seguir todas normas. Você produzindo, saindo da clandestinidade, toda a sociedade ganha, a economia também ganha. Você vê em Amsterdã! E acho que tem de ter um respeito com toda a sociedade, os que não fumam, tem de ter um proceder igual nas antigas. Você tá fumando e chega uma criança… ninguém fica fumando e soltando fumaça na criança. Dá o breque e tal. Mesma coisa: vê autoridade e polícia, não vou ficar fumando e jogando fumaça na cara de um policial. Tem de ter um proceder. Minha visão é muito ampla nesse aspecto, esse esclarecimento é muito importante. 

(Filipe) Se quiser se despedir e dar uns versos.

Como eu disse aqui, a questão social já ficou pra trás, já vieram outras discussões,. Brasil é assim mesmo, vai aparecer outro fato. Quando vem um negócio muito extremo, pode vê, a grande imprensa já joga cortina de fumaça pra chamar atenção pra outra coisa. Então, mas a periferia ainda continua clamando por Justiça, igualdade, respeito, menos criminalização. Isso também vai pro aspecto da pessoa que fuma um baseado, que faz o uso do óleo canabidiol. Até pelo uso pelos animais! Pra nossa economia, pra nossa natureza, é essa satisfação.