Por Anita Krepp

Se o melhor é evitar estrear substâncias no carnaval, tem certas drogas que é melhor mesmo nem experimentar. “Com Tina não existe protocolo de ‘uso seguro’, simplesmente não tem. O único jeito seguro é não usar nunca”, decreta Estêvão Delgado que, do alto de sua experiência dentro e fora da folia paulistana, vê meninos cada vez mais novos entrando na onda do chemsex – prática de usar drogas sintéticas pra intensificar sexo – e se perdendo na metanfetamina.
Stê, como é conhecido, foi um dos criadores do Ezatamentchy, em 2014. O movimento, que é muito mais do que um bloco de Carnaval, começou como um perfil que mistura memes, cultura pop e política com o olhar de quem é gay no Brasil. O nome, corruptela proposital de “exatamente”, com aquele “sotaque” bicha, virou marca registrada de um humor que diz o que muita gente pensa, mas guarda para si.
O início foi quase como uma brincadeira, postando observações ácidas sobre comportamento, hipocrisia e sobrevivência LGBTQ+. Cresceu rápido justamente por verbalizar o óbvio, mas que ninguém tinha coragem de falar. Durante o Carnaval, quando todo mundo performa liberdade, o trabalho dele ganha ainda mais sentido. A festa Ezatamentchy funciona como válvula de escape necessária, assim como as drogas.
No seu próprio bloquinho e pelo Carnaval afora, Stê bebe pouco e se mantém alerta. Ser quase uma pessoa pública exige esse cuidado. Mas nem sempre foi assim. “Ser LGBT é muito difícil, desde criança até adulto. As substâncias se tornam uma válvula de escape, assim como o Carnaval. Tem que extravasar para não surtar.”
Xô, larica!
Teve uma fase em que ele fumava bastante – ainda que a maconha só tenha entrado na vida dele depois dos 30, sempre no social, quando pintava no rolê. A coisa ganhou outro ritmo quando ele se envolveu com um namorado super maconheiro: tinha sempre ganja por perto e laricas monstruosas que, como não poderia deixar de ser, vieram acompanhadas de alguns quilos a mais.
Morando num prédio com mercadinho dentro, Stê trava batalha diária para dar conta do projeto muso fitness. E, para se manter firme no propósito, não teve jeito: a maconha foi escanteada. Ele ainda fuma de vez em quando, quando o ex, que virou amigo, aparece, sempre com uma florzinha guardada para o acaso. E tem também aqueles momentos em que algum boy manda um “curte F1?”, e a resposta do Stê, claro, é sempre sim.
A relação dele com as substâncias ganhou outras camadas quando veio o diagnóstico de TDAH. Stê faz tratamento com psiquiatra, toma Venvanse sob demanda e faz terapia comportamental. Mas o que realmente fez diferença no dia a dia foi combinar a maconha ocasional com microdosagem de psilocibina, que ajuda a acalmar a mente agitada e deixar tudo mais leve. “Compro em capsulinhas de 0,25 e tomo a cada 2 dias. É um tratamento alternativo para a minha hiperatividade. É vida! Ajuda a deixar o dia a dia mais feliz! Eu amo!”.
A técnica de redução de danos que Stê desenvolveu é danada e funciona: tomar nada durante a semana e nunca levar pra casa. O high fica pro fim de semana, quando ele toma umas cápsulas de cogumelo a mais aqui, e um MDezinho acolá, sempre em ambiente seguro. E o álcool está cada vez mais fora da jogada, afinal, ressaca não combina com beleza e juventude, e ele não abre mão de nenhuma das duas.
Estigmas do corpo livre
Se com maconha, cogumelo, MD e álcool, Stê construiu protocolos conscientes, com Tina (apelido da metanfetamina, droga sintética altamente viciante que virou epidemia na comunidade LGBT), ele não negocia. “A gente precisa falar mais sobre redução de danos, sem tabu. E não só sobre Tina, mas também sobre GHB, que é perigosíssima e muito comum na cena LGBT.”
Crescer LGBT no Brasil é aprender cedo a se policiar, esconder trejeito e mentir para não virar alvo, conforme testemunha esse agitador cultural. “E quando chega na fase adulta, isso vira um peso enorme… muita ansiedade, tristeza, sensação de não pertencer. As drogas acabam aparecendo como um ‘atalho’ pra aliviar essa dor, a ansiedade ou até pra conseguir socializar. E não acho que é fraqueza, muitas vezes é só reflexo de anos sem acolhimento e sem espaço pra ser quem você é.”
O estigma sobre drogas e o estigma sobre ser LGBT nascem do mesmo lugar: o controle moral. A sociedade estabelece um jeito “certo” de existir (hétero, discreto, produtivo, sóbrio) e tudo que escapa desse roteiro é um desvio. Mas a hipocrisia nunca falha, e como lembra Stê, o país que mais mata mulheres trans e travestis é também o que mais consome pornografia trans.
No carnaval, essa hipocrisia fica ainda mais evidente. A sensação de liberdade é real, mas provisória. Sempre tem alguém de olho, pronto pra julgar quem se diverte demais, transa demais, vive demais. Entre terapia e cogumelo, Stê segue cuidando da saúde mental, sobrevivendo com humor afiado e redução de danos num país que mata o que consome. Ezatamentchy assim.