Saindo da estufa

Isma: “Para as pessoas LGBTs, negras, periféricas, vira um escape para fugir da realidade”

“Tomei a substância e fiquei muito loca (…) Eu vou baforar lança, eu vou dançar pelada (…) Eu vou fumar maconha, eu vou ficar chapada, porque eu não tenho vergonha”. Isma Almeida, ou simplesmente Isma, se consagrou com seus hinos de putaria e drogas, que embalam as pistas mais diversas de nosso país. Na entrevista para nossos editores Anita Krepp e Filipe Vilicic, não se esquiva de perguntas, revela tudo, em atitude que, por si só, é um combate às hipocrisias e preconceitos que se espalham pelo Brasil como jabuticabas fora do ponto e nada doces.

De músicas solo como “Travesti Maconheira” a hits do duo “Irmãs de Pau”, como o “Queimando Ice”, ela reflete a real do que acontece no fervo. Mas Isma é consciente e entende que assim como as drogas são válvula de escape para LGBTs, periféricas e negras (como ela), é preciso usar com consciência e responsabilidade com si e com os outros. Não à toa, lançou também no seu último disco, o ótimo “Made In COHAB”, uma faixa que joga a direta: “Para de usar cocaína”.

Com a Breeza, o papo é reto. Filha de pastor, Isma compartilha como se distanciou do cristianismo e fumou em papel de Bíblia, para depois se encontrar no candomblé e em sua espiritualidade. Revela também que na faculdade, para custear a vida em Uberlândia, vendeu brigadeiros e palha italiana de maconha – e deu vontade de experimentar, viu?

Quer saber mais dessa diva? Segue na entrevista, que tá uma delícia, pois Isma maceta, bota a cara no Sol e serve o fecho.

Filipe: Isma, você canta sobre drogas, tem “ice, ice”, sobre substâncias, fala para as pessoas que usam. Como vê a importância da cultura das drogas para culturas como a LGBTQ+? A Breeza já esteve em evento da Parada, falando de redução de danos, pois é um público que tem as drogas como centro de sua cultura.

Faz totalmente parte da cultura do país, da quebrada, sobretudo das pessoas LGBTs. Nas festas, ambientes LGBT que participo desde pequena, sempre teve uso de substâncias. Curiosidade é que eu não fumo maconha. Fumei durante uns 6 anos, foi uma delícia, maravilhoso, brisei muito, mas hoje ainda acho importante falar sobre isso porque os meus estão nesse universo. Eu, que tenho voz ativa, poder na mídia… é importante entrar no universo das pessoas e levar informação. Como eu sou cantora, da música, do funk, da putaria, tem uma dificuldade das letras em si trazerem a conscientização. Eu tô fazendo ali pra noite, hora do baile, pra não ser chato na hora da galera usar, ser lúdico, divertido. O que tento me preocupar é: minha carreira, bem, é uma carreira, não é só uma música que eu lanço. Olha, eu tô aqui agora, falando, é importante eu destinar tempo pra espaços como esse, para servir. Tô cantando sobre maconha, tô, mas tô nas redes sociais divulgando a Breeza, outros projetos, sempre que posso falo sobre redução de danos. Na hora do show, falo “galera, toma água, cuidado quando for voltar pra casa”. Possíveis fórmulas e estratégias que vêm surgindo, sendo compartilhadas, sendo criadas, tecnologias para reduzir os danos e os riscos. Pra galera ter acesso e usar de forma minimamente saudável.

Anita: Fiquei curiosíssima sobre o que te fez abandonar a maconha.

Olha, muita gente pergunta sobre isso, né? Continuo falando sobre maconha, é importante usar a minha voz pra isso. Pensei: vou pra lá (conversar com a Breeza)? Vou! Justamente como exemplo de que nem só quem fuma que pode falar e ajudar a galera que tá fumando, entendeu? Hoje em dia a galera criou uma noção de lugar de fala que é radical a problemática, afasta pessoas e possíveis aliados. Estou há quatro anos sem fumar, mas tenho voz que pode ajudar na luta. Eu parei porque sempre fui muito online, muito ativa. Mas na época que eu fumava, não me atrapalhou em nada, foi quando fiz faculdade, que eu fiz o curso, só notão, sempre aluna nota 10. Fumando maconha, fumava antes de entrar na aula, depois. Sempre dei conta de tudo. Falo já pra quebrar esse estereótipo de que maconheiro é preguiçoso, que não faz, não acontece, que paralisa. Não, não paralisa, eu fiz muita coisa, boa parte da minha carreira fumando maconha. A segunda música lançada no início da minha carreira chamava “Travesti Maconheira”. A maconha me ajudou muito no processo de criatividade, na transição, como pessoa trans, de me entender, de me empoderar.

Aí tive que parar na pandemia porque, nunca me fez mal a maconha, mas na pandemia… como sempre fui muito online, dos projetos, fazia faculdade, ao mesmo tempo tocava meu baile, comecei a lançar; muito, muito elétrica e a maconha me ajudava a acalmar. Mas aí veio a pandemia e teve de parar tudo: a faculdade, o baile, a música. Fiquei presa dentro de casa, fumava e me dava ansiedade. Coloquei como meta, estava com cinco, quatro meses de pandemia, e coloquei como meta parar de usar maconha. E também por dinheiro, porque parei de fazer dinheiro. Peraí, não tá dando! Botei como meta e parei, ajudou muito porque a ansiedade estava me fazendo mal. Mas fiquei muito aliviada de conseguir parar, apesar de ter sido desafiador nos primeiros dez dias. Muita gente me falou “segura dez dias”. Eu contava nos dedos, as horas não passavam. Mas passaram esses dez dias e fiquei tranquila, não fumei mais, só vez ou outra. Fiquei muito orgulhosa! Mas continuei apoiando, falando nas músicas, sobre meu apoio à descriminalização e aos usos conscientes e de redução de danos na maconha.

Filipe: Como era pra você a maconha? Ajudava a criar? Nas suas músicas, usava drogas, era um caminho pra fazer música?

Era pra tudo! As primeiras músicas que eu compus, era tudo chapada. Tanto que quando parei foi um medo, “Será que eu vou conseguir compor dessa forma?”. Será? Porque eu me sentia refém nessa época, mas hoje eu consigo tranquilamente. No início foi difícil, porque a maconha me ajudava muito. Eu fumava um beque e conseguia escrever, assim, três músicas, tranquila. Então a maconha ajudou muito, foi muito legal, eu tive esse processo de desafio de atiçar o lado artístico sem ela. Mas aprendi!

Filipe: Ainda tem alguma droga que te ajuda no processo de criação?

Cachaça, eu adoro. Tava mais intensa minha relação com cachaça, mas por conta da religião dei uma segurada. Não parei, mas tô tentando não me embriagar mais, não ficar bêbada, vou até certo limite . Inclusive, nesses tempos descobri uma bebida que é o enérgico de maconha. Conhecem?

Filipe: Nunca provei.

Famoso, tem nas adegas tudo na minha quebrada. Tomei, maravilhoso. É uma mistura. Olha, eu lembrei do gostinho da maconha e foi a brisa de energético mesmo, mas energético mais tranquilo. Eu não gosto de energético, me deixa muito acelerada . Mas o energético de maconha, me deu uma energia, mas uma energia mais gostosa, mais fácil de levar. E, assim, eu parei, mas vez ou outra experimento coisas que valem a pena. Não fumo mais beque ali (com frequência), mas fiz uma eurotour no ano passado, e lá tinha sorvete de maconha, que uma marca levou pra mim. Lógico que vou provar! Fiquei chapada e de lá levei um pouco pro hotel e tal, dia seguinte comi de manhãzinha, fui pro aeroporto, mas tava muito chapada no aeroporto, cara. Fui entrar no aeroporto e me senti o Chaves em Acapulco na porta rolante (faz gesto com as mãos, de rodando). “Nossa, eu tô muito doida!”. Como eu parei, quando experimento qualquer coisa hoje, vem muito forte. Quando eu fumava muito, que estava viciada, eu tinha de fumar muito pra sentir . Puxando o negócio pra vir e bater uma coisa, pois o corpo se acostumou mesmo. Agora, qualquer coisinha que eu provo… adoro culinária, qualquer coisa de culinária que tem maconha, eu provo. Aí bate muito forte, eu adoro, lembro de uma forma muito intensa e gostosa. 

Anita: Você já cozinhou com maconha?

Já. Ah, inclusive, uma coisa muito legal que me fez lembrar. Na faculdade, pra me bancar…. eu sou uma pessoa periférica e fui aprovada na faculdade federal de Uberlândia (MG). Fui pra lá, consegui bolsa lá, mas tinha de me bancar. Durante dois anos, pra me bancar, eu vendia brigadeiro de maconha na faculdade. Maconha me ajudou a custear minha formação acadêmica. 

Filipe: Dava bom dinheiro?

Dava, a galera gostava. Eu fazia brigadeiro e palha italiana e saia vendendo nas festas da faculdade, no fim de semana. Era uma delícia, eu comia. Aí eu fritava a maconha ali na manteiga, pegava o THC, montava e fazia. Uma delícia, me ajudou muito, muito na minha vida, financeiramente, psicologicamente, artisticamente. 

Filipe: Você parece experimentadora. Você teve relação com psicodélicos, também? E pra pessoas que querem experimentar, quais são suas dicas?

Olha, pra mim, é válido experimentar de tudo , eu experimentei de tudo. Gosto de matar curiosidade, de aprender na prática, tem o teórico, mas gosto de ir lá, sentir e viver, pra sentir o babado. Provei o LSD, amei, gostei muito, e na época eu fumava a maconha também. Era perfeito o LSD com a maconha, nossa, eu via ET, eu ia longe. Mas eu sempre alerto: saiba os limites. Cuidado com a dose, cuidado com o exagero, com o momento, com o lugar que você tá, com as pessoas, porque isso faz total diferença. Sobretudo com LSD, é tudo mais intenso, tem de tomar muito cuidado. Maior dica que eu dou: lugar e pessoas. Tem de ser no lugar e com pessoas que gostam muito (de você).

Anita: Rolou microdose de psilocibina?

Não, isso, não. 

Anita: LSD foi o único psicodélico.

Cogumelo, cogumelo, amei. Cogumelo é bem legal e já foi depois que eu tinha parado com a maconha e parado com LSD. Dei uma pausa com LSD porque tive bad vibe uma vez e fiquei com medo. Parei com os dois ao mesmo tempo: “tô ansiosa, tô com saudade dos bailes, tô com saudade dos roles, vou parar; quando voltar as coisas, eu volto”. Acabou que quando voltou, eu não quis voltar, eu tava bem estabilizada, e minha carreira foi acontecendo e me pedindo muita coisa, muita demanda, muita entrega, e eu decidi ficar tranquila e provar esporadicamente. Como falei, vem um sorvetinho, um bolinho, vem um beck lá de não sei onde, outro país, aí provo. Ai, me perdi na pergunta..

Anita: Cogumelo…

Foi na virada do ano, achei maravilhoso. Achei parecido com LSD, mas mais leve e controlável, mais orgânico. Argyreia, conhecem? Uma sementinha que tinha em Uberlândia e usavam. Parecia LSD, chegava perto. Bem leve, bem tranquilo, provei na cachoeira, tinha uns visuais. Totalmente natural, de uma planta.

Anita: Tenho sentido você muito conectada com você mesma. No sentido de saber quando parar, de se entender. Não vejo uma coisa de “ai, preciso disso”. Queria muito conhecer essas suas técnicas de redução de danos (RD), seja maconha na época da maconha. A gente gosta de falar de RD, a gente acredita. A gente fala da maravilha que é tudo, mas também de como fazer o melhor uso possível no caso de cada pessoa. A gente fez aqui o Guia da Boa Breeza e quero te dar de presente. Adoraria conhecer as suas técnicas de RD.

Obrigada, amei, é o que eu tô precisando! Eu não conheço muitas técnicas, ainda mais que, pelos quatro anos que parei de fumar maconha, me distanciei do universo, mesmo. Por não estar fumando no dia a dia, me distanciei das técnicas. Mas lembro que na época que comecei a fumar… eu já fumei em papel de Bíblia. E é de se evitar, não faz bem pro pulmão. Envolve a questão econômica, mas hoje tá acessível, uma sedinha. Seda é muito importante, e sempre me dei ao trabalho de cortar a seda também, reduzir ainda mais o papel. Piteira, às vezes dá preguicinha, mas faz total diferença. Realmente, com um filtro, a fumaça não vem diretamente.

Tinha uma prática que eu fazia, que me falaram que não é boa, que é o cemitério de pontas. Não é recomendado, mas é bom demais. Ficava ansiosa pelo cemitério de pontas. Acho que pra além da RD, a saúde do corpo em si, a questão da maconha é social, política, econômica, raça, gênero, também. Sempre falava com minhas amigas negras da quebrada: “Não anda com muito!” Por que aqui em São Paulo tem muito das biqueirinhas que compra de pouquinho, mas em Uberlândia, é mais os contatos, compra 25g, 50g. A gente compartilhava isso: “Toma cuidado, se a polícia te pegar com essa quantidade”. E é redução de danos, de alguma maneira: proteger sua vida, seu sonho, sua carreira. Legal de se falar também: não anda com grande quantidade. Polícia é traiçoeira, mesmo com pouca quantidade, colocam coisa. Sempre compartilhei com todo mundo: “Não anda com muita droga no bolso!” Até pra não perder, né? Vai que você perde! (risadas) Imagina perder 50g… chora!

Filipe: Isma, você tocou no assunto da religião. Falou “por causa da minha religião”… e você tem hinos sobre drogas, e falou que é religiosa. Como é sua relação com religião e dos religiosos com você e com seus hinos?

Eu sou filha de pastor, cresci na Assembléia de Deus, meu pai, pastor, ali, domingo a domingo na igreja, participando de tudo. Criei uma preguiça gigante da religião pela forçação, por ser trans, senti na adolescência isso. As piadinhas, a galera vinha fazer intensificação de oração pra tirar o demônio de mim. Não falavam diretamente disso, mas eu sentia isso. Pois eu era um corpo feminino, um menino afeminado, e isso causava preocupação neles. Aí quando me desvinculei da Igreja e comecei a fumar maconha, entrei numa fase muito porra louca, que é uma delícia, todo mundo entra. “Ah, vou fumar na Bíblia, a Bíblia da minha mãe… e fumei!”. Hoje, eu me encontrei em outra religião, tô frequentando o candomblé. Hoje não faria isso por respeito, não por acreditar , mas por respeito. Assim como gostaria que respeitassem minha religião, por respeito, assim como não gostaria que pegassem em minhas velas pra praticar qualquer outro uso de substâncias. Tem de respeitar o caráter religioso das coisas. Hoje eu não faria, mas foi muito gostoso passar por essa fase porra louca, pois eles me violentaram de alguma forma, também. A religião. A religião cristã, sabe? Hoje tenho maior respeito, inclusive na minha música, que tem referências do gospel, que me toca até hoje. Porque a infância cria o pilar do emocional ali, às vezes quando tô triste, querendo chorar, quando bate acúmulo hormonal – eu tomo hormônios, né? –, aí escuto gospel e me faz chorar, traz uma emoção. Faz parte do meu colar emocional e tenho maior respeito, consumo de alguma forma, mas não frequento e não acredito nessa filosofia. Pego o que acho bom, os mandamentos que eram bons, mas hoje pratico outra religião, e na minha religião já teve vezes que me recomendaram o não uso de algumas substâncias, devido à crença. E eu tô respeitando! Todas as pessoas são livres para ter suas religiões, cada uma no seu quadrado, respeitando o outro.

Anita: Você falou que as drogas são elementos muito comuns do dia a dia da comunidade LGBT, na vida das pessoas trans. Quero entender qual é o papel da droga nessas comunidades?

Olha, é uma frase muito usada quando se fala de drogas: fugir da realidade. Fugir da realidade! Acho que devido às questões sociais, as pessoas LGBTs, negras, e periféricas… Não sou só LGBT, sou negra e periférica. Devido a alguns desafios que a gente passa, é um escape pra fugir da realidade, é um lugar que a gente se conecta entre a gente. Lembro que no começo da minha transição, eu encontra minhas amigas, as bichas, trans, as lésbicas, e a gente comprava a maconha e ria muito, ria de tudo, era muito divertido. Causava uma socialização entre a gente ali e a maconha ajudava todo mundo a se soltar. Todo mundo vinha de casa muito travadinho, a família reprimia seu jeito, a Igreja reprimia seu jeito, seus desejos sexuais. Transar com maconha é uma delícia também, né? Aí acaba virando várias questões, né? Sou uma pessoa que tive bloqueios sexuais, foi uma questão delicada em minha vida. A maconha me ajudou a me soltar na cama, a entender o que eu gosto, a me entender, a sair um pouco do real, porque o real é muito dolorido. A preocupação é justamente essa: Não achar que a fuga da realidade é a nova realidade, seja com a maconha ou com outras drogas, a realidade é a mesma. A brisa passou… a transfobia, o racismo, a desigualdade social continuam existindo, a gente tem de saber fugir disso um pouco, mas saber voltar consciente e saber o que podemos fazer pra realidade mudar. É o objetivo de todo mundo.

Filipe: Você falou que não é só a brisa. Como era em casa, na sua transição, e tendo hinos sobre drogas, tendo um pai pastor?

Fica mais desafiador as coisas. Porque, assim, tenho cinco irmãos. Meu irmão bofe, hétero, sis padrão, fuma maconha. Mas foi tranquilo pra ele chegar e falar “eu fumo maconha”. Eu era travesti e fumava maconha, o que parece assim “porra, você é muito diferentona, não cansa, né?”. Pros meus pais, aceitar irmão fumar maconha, mais tranquilo que eu fumando maconha. “Nossa, já é travesti, artista…” Porque queriam que eu fosse engenheira, médica, porque eu tinha boas notas. Eu era promissora, vamos dizer, e queriam que eu fosse pras áreas mais técnicas, área financeira, sei lá. “Já era artista, virou maconheira e travesti. Puta que pariu, né?”. Meu irmão falava abertamente que fumava maconha, dentro de casa. Mas eu escondia que fumava maconha, estava fazendo aceitarem que eu era trans… já estavam encarando algo tão difícil. Quando você é LGBT, as coisas vão se somando. Já é difícil encarar o babado; quando é outro marcador, mais difícil ainda. Mas encarei e meti a louca, meu irmão continua (na maconha), mas não é fácil conversar com sua mãe, seu pai (sendo também LGBT). Minha mãe veio do Piauí, era negra, ela não tinha medo da substância. Ela via eu fumando na laje e que tava tudo muito bem, não mudava nada, só ficava como besta, só rindo. O medo era da polícia, de não voltar pra casa, ser presa, maltratada na rua, ser violentada. Medo do pai e da mãe era sempre esse, não da substância. Tenho uma foto com minha mãe, eu oferecendo um beque pra ela, na laje, assim “Mãe, pega, pega”. Via que dentro de casa, teve um momento que ela se tranquilizou muito. “Tá tudo bem, não causa efeito que deixa ela maluca”. Saía de casa, e ela ficava mandando mensagem.

Anita: E você já teve alguma situação com a polícia?

Já fui revistada. 

Anita: Encontraram alguma coisa?

Encontraram, mas era bem pouquinho. O que fudeu foi que eu tive crise de riso na frente da polícia, não conseguia parar de rir (risadas). Foi lá na Praça Pôr do Sol (tradicional point maconheiro em São Paulo). Foi horrível, me sinto muito mal com isso, isso que deixou eles (os policiais) bravos, ficaram putos, eu não conseguia parar de rir. Foi isso que levou eles a me levarem pra delegacia. Eu tava com minhas amigas, não conseguia parar de rir. Mas levaram pra delegacia e me liberaram. Não posso dizer que já passei por situações violentas com a polícia, porque eu não passei.