
Flavio Câmara, o Chinaina das bandas Del Rey e Sheik Tosado, não tem problema em dizer que quase todas as músicas que compôs nasceram depois de dar “dois peguinhas num baseado”. Fala isso sem pose de artista transgressor e sem vender a ilusão de que a maconha é essencial para criar, ainda que fumar maconha, pra ele, só faz sentido se for para trabalhar, gravar, estudar ou tocar guitarra. “De bobeira, não rola.”
Nesta conversa com Anita Krepp, editora da Breeza, o músico e apresentador de TV – que você provavelmente conheceu na época da MTV, reencontrou na época de A Liga, e hoje em dia costuma ver apresentando festivais pela Multishow –, também fala sobre como criar filhos com a cabeça aberta em um país que criminaliza quase tudo.
Conta que fumou o primeiro baseado com o filho em casa, para que ele não aprendesse sobre drogas na rua ou com a polícia, mas sabendo o que estava fazendo. Para ele, o principal é ter propósito, responsabilidade e não romantizar o consumo.
Chinaina ainda tem tempo de gravar dois discos ao mesmo tempo. Um é o Carnaval da Vingança Vol. 2, onde junta frevo com hardcore. O outro é Ócio Criativo, que começou como um projeto de versões de músicas que ele gosta, feitas no estúdio sem compromisso, mas que acabou virando um disco autoral. Chinaina não tem pressa para lançar, mas garante que os dois saem em breve.
Por onde anda você, Chinaina?
Olha, eu ando trabalhando bastante, ando fazendo bastante coisa, né? Tipo, eu estou fazendo um disco novo de frevo, Carnaval da Vingança Vol. 2. Então, tenho ficado no estúdio direto. Na verdade, estou com dois discos engatilhados para sair. E o problema é bom, né? Tem um outro chamado Ócio Criativo, que é um… Há muitos anos eu comecei a estudar mais áudio e tal, a ficar mais no estúdio, e aí comecei a fazer um monte de versão, de brincadeira, de músicas que eu gosto. Só que eu comecei a curtir muito essas versões, e aí uma hora pensei: “Ah, vou lançar isso aí.” Então, esse disco está no caminho para sair. E este ano também sai o Carnaval da Vingança Vol. 2, que é o disco que eu faço com a orquestra de frevo. Então, é um tremendo trampo. São 15 músicos, é uma doideira, mas vai sair o volume 2. Bom, fora isso, tem os trabalhos de TV, né? Tipo, sempre no Multishow e Canal Bis, apresentando os festivais e tal. Tem o Caça a Joia também, que é o meu programa no Canal Futura, para revelar novos artistas. Está no Canal Futura e no Globoplay também. Ou seja, tenho trabalhado um bocado.
Mas o Carnaval da Vingança, no primeiro álbum, você mistura frevo e hardcore, não é isso?
Também. Tem muita coisa de orquestra. Porque é o seguinte: eu consegui convencer o maestro a acelerar o frevo, como… É a minha visão do frevo. Eu vejo o frevo muito como um hardcore. O Sheik Tosado nasceu nessa onda, assim, né? Então, convenci o maestro a acelerar o frevo. Ele queria me matar no início, mas depois entendeu qual era a proposta. E a gente foi acelerando essas coisas de orquestra. Chegamos a fazer frevo de 180 BPM, é muito rápido. Mas ao mesmo tempo, eles tocam nessa velocidade quando estão na rua, quando as orquestras estão na rua. Acaba ficando rápido mesmo, e era essa a intenção que eu queria passar. E aí, no Carnaval da Vingança, volume 1, ainda tem um pouco de hardcore com o frevo, como eu já faço desde a época do Sheik Tosado e tal, mas também essa brincadeira de acelerar as orquestras e fazer de uma orquestra uma banda de hardcore. É basicamente isso.
E aí, para esse segundo volume, você vai trazer alguma coisa assim também, totalmente fora da caixa?
Tem umas coisas diferentonas. Porque, por exemplo, no Carnaval da Vingança, eu sempre penso em… Tem músicas autorais, mas também tem músicas de outros artistas que eu acho que têm a ver com o frevo. Por exemplo, nesse próximo Carnaval da Vingança, além de música autoral, tem uma versão de “LSD”, do Fellini, que é uma banda que eu sempre gostei muito, e eu acho que a letra de “LSD” tem tudo a ver com o carnaval. Então, fizemos arranjos e tal, e vai sair em ritmo de frevo. Estava até falando com o Cadão Volpato, que é o vocalista do Fellini… E ele: “Cara, estou muito curioso para ver isso, não consigo nem imaginar.” Entendeu? Ao mesmo tempo, tem uma versão frevo-hardcore de “Rato na Roda”, da Pitty, que também é uma música que eu gosto muito. Eu achava que tinha tudo a ver aquilo ali com o frevo. Então, tem umas coisinhas assim, além das músicas autorais.
Me conta um pouquinho o porquê da escolha dessa música, como é que você se sente com ela?
Ah, eu me sinto ótimo, né? Em casa (risos). Eu acho que é uma música muito interessante. A versão original do Fellini, eu acho muito interessante, e acho que o carnaval tem um pouco disso tudo, né? O carnaval é meio droga e salada, né? Mais droga do que salada. Total. Mas é um momento de você expandir mesmo. Eu vejo o carnaval como, tipo, comparando, uma das melhores drogas que existem. É um momento de você expandir sua alma, sua mente, seu corpo. Você está entregue a um estado catártico de folia durante alguns dias. É libertador aquilo ali, do mesmo jeito que eu acho que o uso de alguns tipos de substâncias também é libertador, sabendo dosar e sabendo controlar. É claro que a gente sabe, né? Existe uma dose entre o que é veneno e o que é remédio. Mas acho que, dependendo da circunstância, do quanto se usa e do porquê se usa, em vários momentos é muito libertador, e sua cabeça expande para muitos lugares.
“Vejo o Carnaval como uma das melhores drogas. É um momento de expandir sua alma, sua mente, seu corpo. Você está entregue a um estado catártico de folia. É libertador, do mesmo jeito que acho que o uso de alguns tipos de substâncias também é libertador, sabendo dosar e controlar”
E o que você mais curte usar dessas substâncias no Carnaval? Qual tem mais a ver com você e com o momento Carnaval?
Faz muitos anos que eu só trabalho no Carnaval, né? (risos) Quando eu era mais jovem, eu era mais afoito. Agora, nessa idade, é muito esse rolê de fazer um show, descansar pra fazer outro show. Mas, tipo, contando minhas experiências no Carnaval como folião, já experimentei de tudo, desde loló até um tequinho de LSD e coisas desse tipo, tá ligado? Cocaína, por exemplo, é uma coisa que eu nunca gostei. Nunca curti. Sempre achei uma energia muito estranha. Muito estranha. Eu também não gosto nem de estar perto de gente que está usando cocaína. Pra mim, sei lá, é uma droga meio merda, assim, porque, se é uma droga pra te deixar ligado, porra, eu já vivo ligado, velho. Faço coisa pra caralho. Então essa aí eu passo, tô de boa. Mas, com prudência, um pedacinho de ácido, tá ligado? Um lolózinho, isso já rolou muito, né, velho?
Mas como é que você consegue? Porque, assim, na sua juventude, imagino que o seu Carnaval era em Recife.
Olinda.
Isso, Olinda. Porra, Olinda é meio multidão, né? Você meio que não tem muito controle do que vai acontecer. Aí você toma um negocinho, fica mais sensível. Como é que você lidava com essas sensações, às vezes, meio sufocantes?
Aí é aquilo que eu falo, depende do tanto que você usa, do porquê você usa e de onde você usa. Sempre foi em lugares muito seguros. Eu nunca tomei ácido pra me jogar no meio dos Quatro Cantos de Olinda. Deus me defenda! Eu acho que nem voltava, entendeu? Mas é tudo com muita prudência e muito cuidado, porque, porra, de que adianta tomar algum tipo de droga se você vai ficar mal? Se você vai ficar triste ou agoniado? Por exemplo, a maconha, faz muitos anos que eu não fumo. E eu era bom, viu? Era bom nisso. (risos) Mas, faz muito tempo que não uso porque dei uma enjoada, e as últimas vezes que fumei nem foram tão interessantes assim. Então, hoje em dia, eu fumo raramente, em casa, e tem me feito bem, se amanhã for o caso de voltar a ser maconheiro de carteirinha, também tá tudo bem. Eu acho que o lance do consumo de droga, que é uma coisa muito difícil… E eu falo de um lugar de privilégio, no sentido de que eu sempre tive muito medo, sempre fui muito prudente, muito cuidadoso. Nunca fui porra-louca de “vamos aí tomar um ácido inteiro”. Eu nem sei o que é tomar um ácido inteiro, sempre fui cagão, fui muito devagar com essas coisas. Então, ter esse privilégio do medo, vamos falar assim… Isso sempre me fez usar qualquer substância em um lugar muito seguro e tranquilo, onde eu não fosse dar trabalho pra ninguém e, principalmente, não fosse dar trabalho pra mim mesmo.
Como você achou os seus limites ali? Teve algum dia em que você meio que perdeu a mão e pensou “putz, aqui eu fui pra bad” ou, de repente, nem foi pra bad, mas passou muito do que era a ideia original?
Tem gente que não consegue, e é uma pena, né? Tenho amigos que acabaram em clínica de reabilitação por causa de droga ou álcool mesmo. Então, ter esse autocontrole é muito importante quando se fala em usar substâncias, seja ela qual for.
“Tudo com muita prudência e muito cuidado, porque, porra, de que adianta tomar algum tipo de droga se você vai ficar mal? Se você vai ficar triste ou agoniado? Por exemplo, a maconha, faz muitos anos que eu não fumo. E eu era bom, viu?”
E é uma hipocrisia gigante que existe, porque o álcool está aí, super liberado, todo mundo consumindo facilmente, enquanto os psicodélicos ainda são vistos como drogas pesadas. Como é que você vê isso?
Eu acho uma discriminação absurda. A gente sabe que a proibição da maconha e de outras substâncias psicodélicas vem de duas coisas: ignorância e controle. Controle do povo por meio desse tipo de regime, desse tipo de lei. É só pegar qualquer pessoa e mostrar a história de como a maconha foi criminalizada. Foi em cima de preto, de latino, entendeu? Foi assim que o governo entendeu que conseguiria controlar a população. Mas não para por aí, pega a própria epidemia do crack que aconteceu nos Estados Unidos no final dos anos 70… E faz o mesmo, tipo, existem vários fatores que dão indício de que o próprio governo deixou aquilo correr até tomar uma precaução. Por quê? Porque tava atingindo classes mais baixas, e isso atingir classes mais baixas, pra qualquer governo, é uma delícia, então, pra você entender o que acontece hoje, você tem que ter esse olhar pra história, esse olhar pro passado. Não adianta você só dizer pra mim, “não toma cogumelo que você vai ficar muito louco”. Cara, eu já tomei. Eu tinha muito medo de tomar cogumelo, e quando eu tomei, foi muito legal. Eu tomei uma dose bem pequenininha, que não me alterou o estado, sabe? O próprio LSD mesmo, já tomando em doses pequenas, a sua criatividade vai a mil, entendeu? E hoje já tem milhões de estudos comprovando isso. Eu acho que é uma questão de tempo a gente fazer o uso disso. Na Europa, você pode comprar em qualquer farmácia a microdose de cogumelo.
Por que você tinha esse medo específico do cogumelo?
Exatamente por causa dessa história do povo todo, de que cogumelo “você não volta nunca mais”, que “você vai ficar doidão pra sempre”, e como eu te falei, eu sempre fui muito cagão e muito cuidadoso (risos). Então demorou um tempo pra eu chegar no cogumelo. Demorou mesmo. Eu fui tomar cogumelo depois de adulto, já adulto mesmo, pagando minhas contas, e foi uma experiência muito gostosa. Muito relaxamento, eu sou uma pessoa que minha cabeça não para. Pra eu dormir é um inferno de vida, porque minha cabeça não para, tô sempre pensando coisas, tô sempre fazendo coisas, então, chegar nesse estado de relaxamento, e ao mesmo tempo num estado de criatividade… Quando eu me tranco no estúdio, eu adoro dar dois peguinhas num baseado. Ali é o meu lugar seguro. Hoje em dia eu já não fumo mais na rua, não fumo o dia inteiro, mas quando eu entro no estúdio e dou dois peguinhas, minha cabeça abre, assim, pra eu enxergar a música, pra trabalhar com criatividade. É tão legal, velho, tão gostoso. Obviamente, não vou mentir pra você, tem processos que, se eu estivesse de cara, eu demoraria 15 minutos, e chapadinho eu demoro umas 3 horas. Mas o quê? São 3 horas que eu tô ali, empenhado, fazendo a coisa.
(risos) E curtindo o processo.
Muito, sabe? E seguro, seguro. Eu acho que o grande lance, na minha cabeça, sobre drogas, é você ter essa segurança, esse controle de ir muito devagar, e quando a gente é adolescente, a gente vai com tudo, porque a gente tem o estímulo dos amigos, não quer ficar pra trás. Eu já passei por isso, todo mundo já passou por isso. E você vai crescendo e vai ficando esperto. Agora, claro, esse discurso que eu tô dando aqui de autocontrole, tem gente que não consegue. Tem gente que realmente não consegue. Como eu te falei, já tive amigos internados em clínicas, e foi muito triste ter que visitar eles, ver o que essa galera tava passando. Mas aí você tem que entender uma série de fatores que levou esse cara a isso, você tem que ver a estrutura familiar desse cara, a estrutura que ele teve na vida toda, se ele tá naquele lugar ou não. Não é só simplesmente “ah, esse é um doidão, se chapou pra caralho”.
“Agora, claro, esse discurso que eu tô dando aqui de autocontrole, tem gente que não consegue. Tem gente que realmente não consegue. Como eu te falei, já tive amigos internados em clínicas, e foi muito triste ter que visitar eles”
Tem muito mais coisa escondida e a gente sabe que a droga também leva a gente pra ambientes… a droga no todo, como o álcool, qualquer droga pode levar esse cara pra lugares de fuga, então é sempre muito importante prestar atenção no que tá motivando o seu uso. Eu converso muito isso com meus filhos, tipo, velho, eu sei que experimentar vocês vão experimentar tudo. Só vão com muito cuidado, muita calma, e vão sempre conversando sobre o assunto. Porque, velho, é meio idiota você dizer pra alguém “você não vai tomar um ácido”, entendeu? Mas eles já passaram dessa fase, já experimentaram o que tinham que experimentar, e tá tudo bem, porque isso foi conversado dentro de casa, porque existia uma estrutura familiar pra falar sobre isso, não era simplesmente “ah, fica aí doidão” ou “vou te botar de castigo porque achei um baseado”. Não. É tipo: senta, vamos conversar, o que tá acontecendo, por que a gente chegou nesse lugar aqui, qual a tua vontade? Eu lembro que o meu mais velho, quando quis experimentar, uma história muito engraçada: ele tinha uns 15, eu acho, ele me falou que queria experimentar maconha e eu perguntei o por quê, e ele não soube me responder, me deu um monte de argumento vago. Eu falei pra ele, veja só, na vida tem que ter propósito, acha um propósito e depois a gente conversa. (risos) Aí demorou um tempão pra ele voltar com um propósito. Ao mesmo tempo eu explicava muito pra ele que eu fiz um uso muito errado. Durante muito tempo eu fumava um pra ficar de bobeira, ficar de bobeira na praça, perdendo tempo. Isso só me fez mal, só me atrasou. Se você quer fumar um e tal, beleza, acho que é uma experiência importante de passar. Mas vai fumar um e vai criar, vai fazer coisa, vai tocar guitarra, vai estudar, vai fazer o que for, de bobeira não vai ficar. Aí um dia ele até falou, “pô, pai, mas nem um pouquinho de bobeira é foda, né?”
(risos) Vocês já fumaram juntos?
Fumamos juntos e foi muito legal. Primeiro, a segurança de saber que meu filho não tava na rua, fumando no meio da rua, sei lá, sendo abordado pela polícia. Segundo, ele não tava fumando um baseado de procedência ruim, porque eu sabia de onde vinha. Nessa época eu ainda fumava, sabia da procedência. E terceiro, porque eu tava ali junto com ele, entendeu? Tava junto, explicando tudo, o que ele tava sentindo, o que não tava, a hora da crise de riso, de começar a rir. Eu estimulava isso, “tá, vamos ver um vídeo divertido aqui”, rindo pra caramba. Passava aquela fase, eu falava vamos lavar os pratos, a cozinha tá uma zona. A gente ia lá lavar os pratos. Depois passava e pô, vamos toca guitarra, vamos fazer um som. E ficamos fazendo um som. Esse dia foi muito gostoso, ali, seguro, em casa. Daí pedi pra ele não fumar na rua, não ficar explanando isso, porque a gente vive numa sociedade super hipócrita. Mas dentro de casa, sim, você pode fumar, e tá tudo bem, meu filho é um cara que ganhou prêmios na escola, hoje é um adulto em turnê pela Europa, neste momento. Ele paga as próprias contas desde muito novo, moleque incrível. Então, ele ter passado por essa experiência fez mal pra ele? Não. Talvez fizesse mal se ele não tivesse seguido o que ele seguiu, com compromisso, com as coisas que ele precisava fazer na vida, afinal, não é só fumar baseado que a gente vive. E precisou passar por essa experiência, e que bom que foi acolhido. Eu sempre falo pros meus amigos, que tão tendo filhos adolescentes agora, que como eu fui pai muito novo, eu sempre digo senta e conversa, deixa a porta aberta pro diálogo. A única coisa que eu não tenho diálogo é se um dia eu souber que tão cheirando cocaína. Se eu souber, aí eu caio na porrada. (risos) Eu tô falando sério, porque é um bagulho que eu realmente tenho muito medo, pelas pessoas que eu vi passarem pela vida e se perderem, pessoas que até morreram, ou de roubar coisa em casa. Vi vários amigos fazendo isso. Eu acho uma droga muito perigosa, é uma droga muito enganadora. Nisso eu tenho um cuidado absurdo com eles, nesse quesito eu tô sempre em cima. Mas o resto eu acho importante que eles passem por isso e que eles experimentem.
“Fumamos juntos e foi muito legal. Primeiro, a segurança de saber que meu filho não tava fumando no meio da rua, sei lá, sendo abordado pela polícia. Segundo, não tava fumando um baseado de procedência ruim. E terceiro, porque eu tava ali junto com ele, entendeu?”
E aí, como é que foi essa sua parada com a maconha? O que aconteceu? Ou não aconteceu nada, você simplesmente empapuçou e deu um basta?
Eu já tava morando em São Paulo por alguns anos, e predominantemente por lá rolava o prensado, e aí eu comecei a achar que o prensado era muito forte, então dava dois peguinhas e eu não queria fazer mais nada da vida, ficava sentado vendo TV. Aí um belo dia acabou o prensado. E aí, pô, eu sempre gostei muito, sempre fui viciado, então eu sempre tinha, quando tava acabando, eu já comprava mais. Dessa vez eu não comprei e deixei passar os dias. E eu não fiquei com vontade de fumar com o passar dos dias. Aí um belo dia, quando eu resolvi fumar, eu tava na casa de um amigo, talvez, não me lembro exatamente, aí dei um peguinha e não me senti bem. Baixou minha pressão e tal, aí tentei outro dia, também não rolou, aí outro dia rolou, mas ao mesmo tempo já não fazia diferença. Já não fazia a menor diferença o ter ou não ter. Uma coisa que eu nunca consegui me livrar, por exemplo, é do cigarro, da nicotina. Já tomei adesivo, já tomei a porra toda, e nada, nunca consegui. Mas da maconha eu fui conseguindo e não me fez falta essa parada. Não é nem o lance de “ah, parei porque tava ficando assim ou assado”. Não me fez falta ficar usando todo dia. E hoje em dia eu faço um uso muito restrito, que é isso, dentro do meu estúdio, dou um peguinha ali e, porra, é uma economia absurda, porque eu dou um peguinha e fico doidão o dia inteiro.(risos) É uma maravilha.
E óleozinho de maconha, você toma?
Tomei os oleozinhos por um tempo, vi uma diferença, mas uma diferença pouca, até. Eu não sei se era a quantidade que eu tava tomando, mas foi porque eu tava ficando muito ansioso, então durante um tempo eu fiz o uso do óleo. Incrível, muito legal, deu uma baixada boa, deu uma segurada, mas achei “ah não preciso ficar tomando todo dia”, e talvez eu estava tomando em uma dose muito baixa, então talvez não tenha dado o efeito que precisava dar. Ou também precisava de acompanhamento em volta, terapia e tal, coisa que eu acho importante que todo mundo faça. Mas eu acho incrível o rolê do óleo, o quanto tá favorecendo. Eu tenho um amigo que faz uso do óleo, cara, o cara mudou da água pro vinho, uma coisa absurda, é bonito ver. Um cara que tinha muito problema de ansiedade, de pânico, e agora tá mó zen, e aí começou a estudar sobre o assunto. Do jeito que esse Congresso brasileiro é, na hora que qualquer deputado desse sacar que dá pra fazer dinheiro com isso de forma legal, seja de direita, seja de esquerda, vão liberar essa porra. Como assim não tá liberada até hoje? Essa porra não tá legalizada até agora exatamente porque esses caras não criaram nenhum outro mecanismo pra ganhar dinheiro, não tem nada a ver com ser cristão ou conservador, porra nenhuma, a gente sabe disso. Na hora que esses caras acharem o filão do dinheiro, coisa que aconteceu nos Estados Unidos, que tem acontecido em vários países da Europa, vão fazer.
“Ano passado perdi dois amigos com câncer, sei o quanto foi difícil estar perto e acompanhar isso tudo e o que esses caras estavam passando, um deles não usou óleo, e a outra pessoa, que usou, conseguiu ter pelo menos uma condição um pouco mais tranquila de conseguir se alimentar, de conseguir respirar e ficar um pouco mais calma dentro daquilo tudo que tava vivendo”
Ano passado perdi dois amigos com câncer, sei o quanto foi difícil estar perto e acompanhar isso tudo e o que esses caras estavam passando, um deles não usou óleo, e a outra pessoa, que usou, conseguiu ter pelo menos uma condição um pouco mais tranquila de conseguir se alimentar, de conseguir respirar e ficar um pouco mais calma dentro daquilo tudo que tava vivendo. Eu vi esses dois lados, e é muito louco, como a gente ainda vive nesse lugar de hipocrisia absurda. Na Alemanha, quando os caras fizeram os lugares pra galera usar heroína e tal, baixou o índice. Não é fazer igual à Cracolândia, que a galera mete bomba. Aquilo é um problema de saúde, não é porque “ah, é um monte de doidão folgado que não quer nada com a vida”. Não, aquilo é um problema de saúde. Com a Liga também, eu gravei uma matéria sobre o crack na Bahia, e, uma das cenas mais absurdas que eu vi foi chegar, eu tava gravando com um personagem perto de uma boca, perto de uma biqueira, e encosta um puta carro do caralho, e o cara compra as pedrinhas de crack e vai embora. E aí eu fiquei olhando aquilo ali, e o cara que tava comigo, que era um advogado, falou: “todo dia ele passa aqui”. Aí eu… porque na cabeça da gente é assim: “não, é só pobre fodido que tá usando aquilo ali”? É uma doença mesmo e tem que ser tratada. Só que aí você precisa de um puta cuidado governamental sobre isso, coisa que no Brasil a gente ainda não tem.
Tem alguma coisa assim, alguma criação específica ou algum momento que você se lembre de ter sido auxiliado por alguma substância que deu muito bom criativamente?
De maconha, por exemplo, tem várias. Nossa, várias! Quase todas, vai ser mais fácil eu te contar que músicas eu não fiz assim. (risos) Te deixa sensível, te deixa com um olhar sensível pra tudo. Não tem comprovação científica, mas parece que o ouvido abre mais, de você sacar os timbres e tal, e começar a perceber na hora que você vai costurando aquela roupa, aquela música, esse som aqui vai ficar perfeito se eu gravar um teclado aqui, se eu botar a voz desse jeito. Então, pra mim, foi muito legal na parte de compor. Tô compondo, aí dou um peguinha, dois peguinhas no baseado, e aí tô compondo sobre ficção científica e lembro de um livro do Isaac Asimov, aí vou lá, pego o livro e fico procurando naquele lugar. Te dá uma concentração pra fazer o negócio, nesse ponto pra mim funciona muito, dá uma puta concentração. Eu passo fácil assim. Eu sou um cara muito chato com minhas composições e demoro muito tempo compondo, porque eu gosto de pesquisar muito pra compor. Esses dias eu tava estudando física quântica, tipo, sempre odiei física a minha vida inteira, e eu estudando física quântica amarradão, lendo Stephen Hawking. (risos) Agora, pra cantar em show, nunca gostei de fumar maconha, porque pra mim a garganta fica muito ressecada e tira um pouco minha espacialidade. Eu sou um cara que me movimento muito no palco, então eu ficava meio mais lento, pelo menos na minha cabeça. Talvez eu nem estivesse tão lento assim, mas na minha cabeça eu ficava mais lento. Então, pra cantar, nunca foi um negócio que eu gostei. Depois do show, beleza.
E pro Carnaval da Vingança Volume 2, você vai chamar gente pra participar?
Eu tô exatamente nesse momento de pensar quem seriam as participações. Tô terminando de gravar as vozes. Então, quando eu terminar de gravar as minhas vozes, aí eu vou abrir. Mas eu queria convidar os amigos pra participar. É sempre massa, né? Fora a orquestra, que já são 15 amigos, o Maestro Spock já participou, o Nilcinho, que é o cara que escreveu os arranjos, sempre juntou uma turma muito boa. Eu adoro estar nesse rolê de me misturar, de fazer coisas com a galera, com músicos completamente diferentes. Eu fiz uma turnê com A Banda Mais Bonita da Cidade, que é um som que, se você olha de primeira, não tem nada a ver comigo. Mas aí, olhando mais perto, porra, os caras têm tudo a ver. Ouviram minhas músicas, fizeram versões incríveis, a gente fez um monte de show junto, foi legal pra cacete. Isso é um lance que só a música te possibilita, circular em vários ambientes diferentes, entender o processo de cada músico, acho isso muito legal.
E como faz pra se manter atualizado sobre os novos músicos?
Sempre gostei muito de descobrir artista novo. Sempre curti. Sempre fiquei atrás, pesquisando e pegando dica aqui, pegando dica ali nos blogs de música. Eu acho isso muito legal, porque eu já fui um artista novo, eu fui descoberto por alguém. Então, é uma forma de devolver tudo que a música fez por mim. Devolver isso pra música é falando de novos artistas, encontrando novos artistas, conhecendo novos artistas. Se eu posso, e hoje em dia eu consigo ter um programa que revela novos nomes, eu vou focado nisso e vou muito afim de fazer isso. Porque se eu conseguir atingir 15 pessoas, eu já estou muito feliz. São 15 pessoas que estão conhecendo o som daquela banda. Esse ano, o Caça Jóia, a gente vai lançar 3 programas de uma vez só no Canal Futura, e na Globoplay: o Caça Jóia Maré, que é um especial só com artistas das comunidades da Maré no Rio de Janeiro. Já vamos na segunda temporada desse programa. Daí a gente tem um especial Belém, do Pará, só com novos artistas paraenses. E se você está pensando que a gente foi naquela coisa o Tecnobrega, o Carimbó, não, tem de tudo. Eu sempre estou olhando para a cena de uma cidade como um todo. Então tem desde banda de rock, artistas de música eletrônica, até sim o Tecnobrega, o Carimbó e tal. Mas a gente conseguiu fazer um olhar mais amplo. E no final do ano, saiu o Caça Jóia Clips, que é um outro espaço que a gente conseguiu para os artistas independentes escolherem esses clips. A gente vai ter acho que 13 episódios e eu já tenho 3.500 clips. Como encaixarei? Não sabemos. Mas você percebe que existe a demanda. Qual canal hoje em dia que passa clipe de artista independente? Não tem. Então, se eu for esse grãozinho de terra, tentando mudar e dar visibilidade a esses artistas, eu estou muito feliz com isso quando eu vejo os artistas que passaram nas outras temporadas do Caça Jóia, tocando no Rock in Rio, assinando com gravadora, como Kaê Guajajara, Matheus fazendo Rock, é incrível. São artistas que lá atrás a gente olhou para eles. O primeiro portfólio que eles tinham era a participação do Caça Jóia. E como um cara que entrevista diversos artistas, numa coisa de ego, eu prefiro muito mais entrevistar um artista novo do que entrevistar Caetano Veloso.