Reportagens

Como falar da maconha na política de sua cidade?

Contamos os bastidores de como se formou a Frente Parlamentar em Defesa da Cannabis em Floripa. É preciso ceder para avançar?

Por Filipe Vilicic

A notícia da formação de uma nova Frente Parlamentar em Defesa da Cannabis Industrial, há poucos dias, em 16 de junho, em Florianópolis, nos chama a atenção por algumas razões. Primeiro pelo estado onde ocorreu, Santa Catarina, de perfil bem conservador, o mesmo onde se aprovou uma lei, em abril último, que multa quem for flagrado usando drogas ilícitas (ou descriminalizadas) em ambientes públicos; além de lá estar Balneário Camboriú, outro exemplo de movimento contrário ao progresso, onde há um sistema de recompensas financeiras a guardas municipais que flagrarem pessoas usando.

Ao mesmo tempo, Santa Catarina é também um estado onde tem cannabis no SUS. “O debate está nesse lugar esquizofrênico, com centro e direita aderindo à ideia da cannabis medicinal, mas ao mesmo tempo querem criminalizar a maconha com leis locais, é um comportamento de querer desassociar dois tipos de maconha – uma do bem, e outra do mal; vivem desse pânico moral“, diz o vereador Leonel Camasão, de Florianópolis.

Ouvimos Camasão para compreender como foi a criação da Frente em Defesa da Cannabis, que é de sua articulação. Há um movimento político em cidades e estados de resistência aos avanços federais sobre o tema, como a descriminalização pelo STF e a publicação recente de um plano para regulamentar o plantio medicinal em larga escala.

Como escrevemos em reportagem recente da Breeza, existe um movimento de replicação de medidas contrárias à adoção da cannabis em todas as suas formas, incluindo a medicinal e a industrial, em cidades e estados vários. É inteligente estar a par também das metodologias que permitem os avanços de medidas a favor do tema, inclusive para replicá-las ou observar caminhos que podem ser tomados em nossas cidades e estados.

Tem de ceder?

Parece que, ao menos na política, sim. Em Florianópolis havia quase duas dezenas de propostas de frentes parlamentares na Câmara, com predominância da direita. “Propuseram um acordo, tivemos uma reunião de líderes. Jesus, uma proposta de acordo, quando penso, Jesus!”, comenta Camasão.

Houve um acordão que permitiu a criação de frentes como a da cannabis e outras ligadas a causas como a LGBTQ+ e a da redução da jornada de trabalho. Assim como abriu portas para outras de defesa da ala conservadora, como as ligadas a concessões para igrejas e para a área da construção civil.

“Os argumentos econômicos são interessantes de serem usados pois aí a gente entra no debate do centro e da direita, e aqui em Florianópolis tem muito essa ideia por parte do governo de que tudo que importa é o setor econômico”, conta o vereador, ao ser perguntado de como procura convencer centro e direita de apoiar as pautas ligadas à maconha. O caminho, para ele, é fornecer argumentos financeiros, como dos multimilionários lucros possíveis com a legalização para o estado de Santa Catarina. A proposta é posicionar uma ideia verdadeira e bem promissora, a do Brasil como polo mundial de produção de consumo.

Pode-se argumentar que a tática talvez seja vista por alguns como de higienização do assunto, naquela trilha de chamar maconha só de cannabis, tentando fingir que são plantas distintas. Camasão responde ao questionamento, feita pela Breeza a ele: “Não é a nossa perspectiva. É um jogo de morde e assopra e a gente faz esse debate buscando convencer o centro, pois a extrema direita é mais difícil”. 

Pra quê uma Frente?

Em um debate, abrir frente para progredir sempre é bom. A articulação na política permite a união de atores em torno de pautas conjuntas. Já há outros exemplos anteriores, e pioneiros, Brasil afora, como em estados como São Paulo, Pernambuco, Maranhão e Goiás. A grande maioria, principalmente no âmbito municipal, é focada unicamente no fim medicinal, o que já é mais aceito pela sociedade, e são raras as que puxam o tema do industrial no nome – a este jornalista só veio de lembrança a Frente Parlamentar da Cannabis Medicinal e do Cânhamo Industrial de São Paulo. 

A Frente Parlamentar traz para o debate associações de usuários, pequenos comerciantes que fazem produtos que vão de cosméticos a mel, pesquisadores de universidades, médicos, advogados, dentre mais dos protagonistas do movimento canábico. Ao unir diferentes setores interessados, ganha-se força e se dá a verdadeira dimensão ao tema. Trata-se de um espaço de troca, de fluxo de informações, de articulações e de formação de caminhos para proporcionar maior visibilidade ao assunto, seja pela bandeira, pela cultura, pelo dinheiro, pela política, pela sociedade, por trazer associada à pauta uma série de outras pautas necessárias à sociedade, como as que lutam contra desigualdades e preconceitos. 

Breeza não tem partido, mas tem assuntos, missões e linha editorial. Somos progressistas na maconha, nos psicodélicos, no sexo, nas liberdades individuais, inclusive na escolha de perguntar para quem concordamos e para quem não concordamos por meio do jornalismo que fazemos, onde o que mais pesa são as perguntas, a apuração, o trazer para a mesa debates que importam ao nosso público, sem hipocrisia e sem medo de furar bolhas e gerar reflexões e críticas.

Por isso, seja de esquerda, centro, direita, se vê na regularização e na legalização o caminho, inclusive em defesa das liberdades individuais de acesso à saúde, ao lazer, ao bem-estar, ao consumo e mais… pense se não vale perguntar ao vereador em que votou em sua cidade se ele não pode levantar uma frente em defesa (econômica, política, legislativa, social, medicinal, cultural) da cannabis por aí. Ajuda a equilibrar o debate que tem chegado aos lares brasileiros.