
Reunião de família num domingo à tarde e, de repente, um primo anuncia que começou a trabalhar com cannabis. “Mas vai trabalhar com droga, meu filho?”, pergunta a avó, traduzindo em poucas palavras a dúvida geral da família, que apesar de um pouco chocada, tem curiosidade de entender a revolução dessa planta na medicina, na indústria e, claro, no mercado de trabalho.
Atualmente, mais de mil pessoas trabalham direta ou indiretamente com a planta no Brasil, e segundo dados da consultoria Kaya Mind, o setor tem potencial de criar 300 mil novas vagas diretas e indiretas nos próximos anos – a depender, claro, da expansão do marco regulatório da planta no país.
Paralelamente aos avanços da regulação, as oportunidades de trabalho na indústria canábica seguem pipocando principalmente em áreas relacionadas ao uso medicinal, mas, na prática, inventar o próprio trabalho tem sido uma tônica desse novo mercado. Foi assim com a Maria Eugênia Riscala, cofundadora da Kaya. “Chamavam empreendedores canábicos de loucos e hoje chamam de visionários.” E com a Luna Vargas, que ao notar um interesse crescente da sociedade pelo tema, criou a Inflore para formar novos profissionais do ramo.
Mas será que o sonho de trabalhar com cannabis, quando realizado, é aquilo tudo que a gente imaginava? Para responder a essa questão, a Breeza conversou com profissionais destacados no setor, que agora contam pra gente se trabalhar com maconha é amor ou é cilada.
Maria Eugênia Riscala, empreendedora e fundadora da Kaya Mind
“A melhor coisa de trabalhar com cannabis é sentir que você tá fazendo uma diferença real e que a planta entra em diversas pautas essenciais para a transformação do mundo como um todo, mas principalmente da sociedade brasileira. Mas a pior é lidar diariamente com o preconceito. Há cinco anos as pessoas chamavam empreendedores canábicos de loucos e hoje chamam de visionários, mas ainda tem muita descrença.
Eu sinceramente acho que falta burocracia nesse meio, quando a gente pensa na importação do produto de cannabis, é burocrático, sim, mas pouco rastreável, porque tem um passo a passo pensado só pra ter o mínimo de informação no sistema. Estamos construindo um mercado do zero com a chance de fazer melhor, de ir fazendo e consertando. Para construir um mercado em pleno século 21 é preciso rastreabilidade, tecnologia, segurança dos dados.
Tem muito ativista que entra pelo sonho de trabalhar com isso e de conseguir ajudar alguém, mas tem muita gente que viu nisso um potencial de ganhar dinheiro. Quem vem pra surfar a onda, se arrepende, porque o mercado é muito difícil. Se quiser ganhar dinheiro, é mais fácil mexer com criptomoedas do que com cannabis”.
Pedro Nicoletti, pesquisador e empreendedor
“Trabalho exclusivamente com cannabis, e ela me dá insights pra entender todo o meu entorno. Na minha pesquisa, eu reuni um grande número de pesquisadores que reclamam do preconceito, a gente está em 2025 e ainda hoje os pesquisadores são perseguidos dentro das instituições de ensino por tentar trabalhar com essa erva. A maior barreira da ciência é produzir conhecimento no meio do preconceito.
Professores reacionários barram o tema por achar que é coisa de gente imoral ou de viciado. A ciência devia ser idônea, encarar propostas de forma objetiva, com curiosidade, sem juízo de valor, sem julgamento moral de bem ou mal, mas a fim de entender a utilidade da substância.
Mas as dificuldades de trabalhar com a erva enquanto pesquisador são diversas, desde instâncias superiores, como a Anvisa, quanto no laboratório em si. Tem pesquisador que reclama do cheiro que solta nos experimentos com cannabis, e são os mesmos que pesquisam esgoto, mas quando cheira a cannabis é um problema. Obviamente, isso vem mudando, principalmente pelo tema econômico, e a injeção de dinheiro nas universidades. Infelizmente, a legitimidade dessa planta acompanha o dinheiro também dentro das universidades”.
Paulo Vinícius Carmo, médico
“Me sinto motivado e privilegiado de estar vivendo esse momento no Brasil. Eu tenho uma história com a planta que vem antes de eu começar a prescrever, e poder levar isso aos pacientes é muito satisfatório.
Como médico que saiu do, digamos, mercado tradicional, eu trabalhava com pronto-socorro, UTI, gestão hospitalar, consigo ver e sentir de forma bem clara a insegurança jurídica que ainda existe, e que pode ser uma dificuldade para os médicos que estão começando. É importante ter uma boa consultoria jurídica e dar pro paciente assinar termos de aceite. São muitos os imbróglios jurídicos que a gente passa. Já fui chamado pra explicar pra delegado, juiz, policial, e até paciente já me ligou de madrugada pedindo ajuda.
Mas a terapêutica da cannabis, em si, é muito tranquila, com potencial bem menor de efeitos colaterais se comparada a remédios alopáticos. Em geral, é mais fácil conduzir os pacientes, e esse é um ponto que a maioria dos médicos ainda não enxerga”.
Luna Vargas, educadora e fundadora da Inflore
“Num mercado tradicional, as pessoas recebem oferta de emprego. Na indústria da cannabis, que tá no começo, a gente vive outra realidade, que é você inventar e buscar o seu emprego. Foi assim comigo, que fui cavar a oportunidade de trabalhar com o que faltava nesse mercado.
A expectativa geral das pessoas que chegam na Inflore é fazer uma transição de carreira e ter oportunidade de trabalhar com o que mais ama. O desencontro entre o que elas esperam e o que encontram é uma questão de falta de conhecimento do mercado que gera expectativa errada. A maioria dos trabalhos de entrada são no acolhimento de pacientes e na representação de empresas e produtos, e uma das possibilidades de trabalhar diretamente com a planta são as associações de pacientes.
É um mercado em formação, onde falta tudo, inclusive uma regulação. Nesse cenário os problemas podem ser o caminho para propor resoluções e se tornar oportunidades únicas. Para quem tem treinamento e visão, as oportunidades estão exatamente na resolução dos problemas. Mas é preciso entender de ciência e ter conhecimento do mercado para perceber isso. É assim que muitas pessoas vêm se destacando na cena”.
Alexandre Cimini, representante e consultor
“Além das habilidades comerciais, um representante de cannabis precisa entender profundamente a legislação e estar profundamente atualizado, porque esse trabalho exige uma abordagem mais consultiva, com uma necessidade constante de educar médicos e farmacêuticos, que têm muitas dúvidas e preconceitos. O trabalho do representante de cannabis vai além da venda, ele precisa informar, orientar e criar confiança. O ciclo de vendas costuma ser mais longo e mais detalhado, mas o potencial de crescimento é grande pra quem sabe se posicionar bem e escolher os clientes certos.
A área de vendas em cannabis tem tudo pra ser uma carreira ainda mais promissora. Com a entrada das grandes farmacêuticas o mercado deve crescer rápido e ganhar mais legitimidade, e isso também abre as portas para profissionais mais experientes, os chamados 50+, combinando experiência, reputação e conhecimento.
Trabalhar com cannabis medicinal é pra quem tem coragem, resiliência e visão, e para quem entende que está fazendo parte de algo maior, construindo um mercado novo, ajudando a mudar a forma como tratamos saúde e qualidade de vida. Quem tá nesse mercado pelo hype ou pela oportunidade pode até começar, mas dificilmente permanece”.
Julia Duarte, criativa
“Amo trabalhar com cannabis, instiga a minha criatividade, mas não necessariamente porque a planta abre a tua mente, claro que isso acontece, mas tem outros pontos que impulsionam a criatividade, porque se você quer pregar a palavra da planta você precisa de muita criatividade para furar a bolha e atravessar as barreiras da censura e do preconceito. É mais fácil sermos criativos quando temos um propósito.
Trabalhar no universo canábico é tão maravilhoso quanto desafiador. Amo trabalhar em prol da única coisa que pode salvar o mundo, na minha opinião, que é a natureza, e aliar isso à saúde, em um contexto de mundo em que as pessoas estão definhando. É tão maravilhoso levantar a bandeira da natureza, voltar à ancestralidade, naturalizar o que já é natural, e abrir um portal novo de esperança para pessoas que estão ansiosas, deprimidas.
Também sonho muito que as empresas de cannabis deem valor à educação corporativa. Pra isso acontecer tem um ‘to do’ muito importante do cannabusiness brasileiro, que é o compromisso, a seriedade e a dedicação para criarmos narrativas claras e didáticas, capazes de mostrar a importância da cannabis na saúde física e mental”.
Andréia Galassi, pesquisadora
“A pesquisa em cannabis é absolutamente promissora, por se tratar de um campo novo, que pode ser ainda muito explorado para melhorar a qualidade de vida das pessoas. Durante décadas as pesquisas com cannabis foram proibidas e agora a gente tá podendo pesquisar cientificamente essa planta, cuja gama de possibilidades terapêuticas não temos sequer noção. Me interessa especialmente a terapêutica da cannabis para tratar dependências químicas, essa particularidade de uma substância psicoativa poder ajudar a tratar a dependência em outras substâncias psicoativas.
Mas para conseguir financiamento para pesquisas com a cannabis, você precisa quase que trabalhar o dobro para fazer com que o seu projeto tenha rigor e qualidade acima da média e assim a agência de fomento olhe e reconheça o caráter científico da proposta. Depois, ainda será preciso superar o estigma e o preconceito entre os seus próprios colegas acadêmicos.
Muitos estudantes me procuram para trabalhar, mas na maioria das vezes uma ideia muito vaga, que só chega porque acha legal, porque é cool, mas sem um objetivo claro. É um terreno difícil, porque você precisa de recursos que são sempre difíceis e burocráticos, com grande concorrência. Um estudante com desejo mas sem objetivo claro não ajuda em nada. Trabalhar com cannabis não é oba oba, nem bagunça. Precisamos de pessoas dedicadas e que estão a fim de trabalhar de verdade”.
Guilherme Marques, médico e empreendedor
“Ter contato com pacientes que têm múltiplas questões desperta a medicina ancestral, você pode aprofundar e ter mais contato com o paciente, ouvindo com atenção aos detalhes. Infelizmente, ainda há poucos estudos robustos, com meta-análise, que muitas vezes não contemplam padrões para ser usados e validados, e isso faz com que para a academia a cannabis ainda seja limitada.
Como médico, eu tenho um olhar muito pragmático e científico, coisa que nem sempre é suficiente para o lado empreendedor, quando a gente está trabalhando no escalonamento de uma marca, mas encontrar um lugar comum entre os dois é instigante, assim como encontrar um equilíbrio ético dentro da publicidade médica, do que posso colocar nas redes, também é algo muito peculiar”.
Anita Krepp