Na Breeza

Luna Vargas e o ideal da família breezada

A educadora e curadora canábica, voz conhecida por nosso público nas redes sociais, conta como cresceu em um ambiente no qual o uso da maconha foi normalizado – e como as famílias de hoje e do futuro podem se espelhar nisso
30|05|24

Cheiro de maconha lembra Luna Vargas de sua infância. “Eu adorava”. O tema não só nunca foi tabu em casa, como os pais, e muita gente ao redor, fumavam desde que ela se recorda. “Uma criação de uma família pós-hippie”‘, diz em conversa com a Breeza. Ela, que agora aos 40 anos adota uma vida quase nômade, vivendo entre países, cresceu no Alto Paraíso, em Goiás, no pé da Chapada dos Veadeiros. 

A mãe, psicanalista, o pai, empresário, vinham da cultura de psicodelia dos anos 1970, e ela vê sua criação muito influenciada por tios e primos, ligados aos rituais com ayahuasca. Na juventude, compartilha que “Essas coisas eram normalizadas em casa. [a gente falava sobre] Como era a maconha, a cocaína, o LSD, sem tabu. Das experiências deles com substâncias, o que usou, o que não usou, se foram positivas ou não.”

Para Luna, essa educação a fez ser menos deslumbrada que outros jovens com essas substâncias, além de ajudar a ter “maior noção de drogas em geral, a ter maior parcimônia.” Com a família, afinal, tinha liberdade de fazer perguntas, tirar dúvidas, informar-se em uma época, a dos anos 1980 e 1990, em que o acesso às informações desse tipo era bem, bem restrito, não havia como recorrer ao Google.

Luna só foi compreender que a sociedade não via a questão das drogas de forma instruída, como era em seu núcleo familiar, quando tinha uns 10 anos de idade e assistia ao Jornal Nacional. Na TV, a notícia de uma apreensão de tijolos de prensado, armas e dinheiro. “Aí que conectei: meus pais são maconheiros. Entendi pelo Jornal Nacional a gravidade [perante a sociedade daqueles anos]”.

Fumou pela primeira vez de um jeito clássico, numa roda com amigos na pracinha da cidade, com uns 14 anos de idade. Mesmo com a educação evoluída que teve, sentiu que o “proibicionismo tá em tudo, como o racismo e o sexismo; é uma desconstrução que demora um tempo, mesmo para as cabeças mais desconstruídas “. Vinha à cabeça da Luna de 14 anos coisas como que aquele prensado poderia queimar neurônios, ou que a polícia poderia aparecer a qualquer momento.

O primeiro contato com a ayahuasca se deu com uns 20 anos, na casa da avó, que havia experimentado para se aproximar do e compreender o filho, tio de Luna, que conduzia os rituais. Na primeira vez, Luna afirma ter recebido um presente na burracheira: “Senti o amor na forma mais pura, que eu nem sei explicar direito. Em líquidos, em gotas, de uma forma indescritível. Ele tá dentro de mim. Recebi isso nesse dia.”

PELO MUNDO, E DE VOLTA

Na França, onde chegou a dividir casa com vinte pessoas e andava com grafiteiros, formou-se em antropologia. No Marrocos, explorou o haxixe. No festival Burning Man, na Califórnia, conheceu o lubrificante à base de cannabis. 

Luna Vargas é uma exploradora. Do mundo, das psicodelias, do próprio corpo, da cultura canábica. Em 2016, descobriu no óleo de CBD a cura para dores de cólica que tinha pelo uso de um DIU de cobre. Também foi com a cannabis que lidou com dores no ciático. 

No Canadá, em 2018, começou a perceber como a maconha começava a formar um mercado promissor. Entrou para a área como budtender e, com o tempo, descobriu como o campo é carente de informações e conhecimentos. “Na hora de vender, [a maioria dos] o budtender só costuma perguntar ‘sativa ou indica’?”‘. Assim se encontrou em duas novas e promissoras profissões, das quais provavelmente poucos ouviram falar: educadora canábica e curadora (também canábica).

Em 2020, fundou a Inflore, que fornece cursos online de formação e educação para o setor, a primeira empresa do tipo voltada ao mercado brasileiro. Hoje, conta já ter somado quase mil alunos em mais de 23 países. Também não parou de pesquisar sobre a planta e atuar em favor dela, em viagens pela Europa, morando por seis meses na Tailândia e agora aqui no Brasil, em Brasília. 

Na capital de nosso país, procura atuar para influenciar movimentos políticos e sociais que estão sendo construídos, para assim “costurar a articulação política que faça sentido para as nossas pautas”. Uma das mensagens que passa é a de que a “‘indústria da cannabis não é indústria farmacêutica”. Para ele, diferentemente de como tem sido no Norte Global, em países como Canadá e EUA, as farmacêuticas têm dominado o mercado no Sul Global, como no Brasil, impedindo assim a entrada de outros no setor. “Não acredito que, depois de 100 anos de proibicionismo, quem tem de tomar conta é a Big Pharma”.

Luna Vargas espalha educação e conhecimento sobre a planta, avistando um futuro no qual todas as famílias poderão ter acesso a informações sobre a erva, com jovens crescendo de forma instruída e responsável, inclusive nas atitudes frente às substâncias e experimentações. “Usamos drogas porque é bom, é uma coisa a se reforçar. Tem de falar dos benefícios, já que os danos são pequenos. Vamos falar da alegria de se usar drogas”.

Filipe Vilicic