
As gritarias eram típicas na hora do jantar na casa de Vinicius Campos, o Vini. “Quando terminava, cada um ia pro seu quarto batendo portas”, diz ele, lembrando dos três filhos então adolescentes, revoltosos com assuntos quaisquer que levavam a conflitos. “Eu ficava com a respiração agitada, nervoso.” Para segurar a onda, Vini ia para a varanda para mergulhar em um ritual que nós, breezados e breezadas, bem conhecemos: fumar um.
O baseado o levava para outra vibe. Recuperava o fôlego a cada tragada. “Ia pra longe para, no dia seguinte, encarar o assunto em outro lugar.” Para Vini, a maconha o ajudou a ser um pai melhor. “Colocava as coisas em perspectiva em uma batalha que vivia dentro de casa. A maconha me levava a procurar por soluções mais amorosas.”
Ator e escritor, querido pelo público infantojuvenil, o paulistano Vini vive com o marido, o argentino Edu, e com os três filhos, a garota Milagros, hoje com 21 anos de idade, e os meninos Alfredo, de 19, e Pablo, com 18, em Buenos Aires. Os chama de “crianças”, ainda hoje. Vini e Edu, porém, não conhecem os filhos desde que eles nasceram. “Foi uma adoção tardia, eles tinham 9, 11 e 12 anos.”
O casal conhecia as crianças de antes. Já as acompanhavam fazia cerca de 4 anos, visitando-as como padrinhos (um papel voluntário de escuta e conversa) no orfanato. Os três são irmãos biológicos e logo todos começaram a se ver em um futuro juntos com aqueles dois visitantes. Assim veio a decisão de adotá-los.
“A adolescência costuma chegar com crises. Mas tivemos dois agravantes. Nós, como pais, não tínhamos tanto tempo antes para construir um vínculo forte. Faltava conhecê-los bem, com tudo aquilo que os pais começam a interpretar desde bebê, por sinais do choro.” Sim, é um desafio da pesada adotar três irmãos adolescentes. Um que é encarado por poucas e especiais pessoas.
SAINDO DO ARMÁRIO E DA ESTUFA
Mesmo que a ganja já seja descriminalizada na Argentina desde 2009, exige coragem para um artista querido pelo público infantojuvenil assumir o hábito de fumar um rotineiramente. Vini, entende de coragem.
Em 2017, ele foi o primeiro apresentador da Disney a se assumir gay, o que virou manchete ao redor do mundo, com fotos dele com a família, na época em que tinham acabado de adotar os filhos. “Namorei no armário com um cara quando jovem, só fui assumir mais para o mundo aos 22. Aos 25, casei com o Edu e decidi que nunca mais ia me esconder, só que na Disney eu não tocava no assunto. Quando decidimos adotar as crianças, não queria dizer que eu era pai solo ou que havia uma mãe. Foi quando falei com a Disney, que não fez qualquer objeção.”
Vini apresentou uma série de programas no canal da Disney, incluindo um que educava sobre a diversidade de modos de viver, no qual uma família de extraterrestres aprendia a conviver com uma de humanos, e vice-versa. Além da carreira na TV, com novela no currículo, e no cinema, ele também passou a se dedicar à escrita de obras voltadas a crianças e adolescentes. A mais famosa delas é O Amor nos Tempos do Blog, lançada em 2012 pela Companhia das Letras e que virou best-seller do gênero.

“Quando escrevo para adolescentes, sempre falo de amor, contra o bullying, contra a masculinidade tóxica. São conceitos que se debatem na infância.” De maconha, ele frisa que “não é assunto para crianças, se tiver uma criança aí, saia da sala ou chame os pais”.
Ao mesmo tempo, defende a importância de falar do tema com adolescentes. Para ele, é uma obrigação dos pais debaterem o tópico em casa. “Ou vai fumar escondido, ter acesso de outro jeito à informação.”
SOBRE DROGAS, EM CASA
A primeira vez em que Vini experimentou maconha foi aos 21 anos. A segunda, aos 27, em Buenos Aires e já casado. Até os 31, ele não colocava uma gota de bebida alcoólica na boca.
Passou a gostar da brisa da ganja e a adotou em sua rotina. Antes dos filhos, principalmente durante momentos de criação, tornou-se peça-chave durante o processo de escrita de livros e roteiros. “A maconha está presente em tudo o que eu faço nos últimos oito anos”, resume ele, que agora em abril completa 44 anos de idade.
Noiado com a saúde, ressalta que faz tudo com muita responsabilidade: “Tenho um médico de cabeceira, que me acompanha, sempre faço check-up do pulmão, atividade física todo dia e mantenho uma dieta vegana. Maconha é uma das substâncias que consumo para ser um ser humano mais saudável. Como beterraba ou cenoura”.
Quando tinha 15 anos, um dos filhos o flagrou fumando um fininho com uma amiga. Na hora, Vini negou. “Magina, é algum vizinho.” Imediatamente, sentiu-se mal com a mentira, pois passou a sensação de que ele próprio estava criminalizando um ato tão rotineiro e saudável.
Poucos minutos depois, após baixar a brisa, encontrou o filho à beira da piscina. “E aí, perguntou o que era aquele cheiro? Era maconha. Eu tava fumando”. Naquele minuto, o filho caiu na risada. Não acreditava que o pai, “velho e careta demais” (segundo o próprio), estaria fumando.
Anos depois, quando o mesmo filho experimentou unzinho com amigos, logo sabia com quem compartilhar a experiência: com seu pai. “Sabe, é um filho meu que sempre tá de mau humor, ele é cheio de regras, com pouca paciência com o outro, bem parecido comigo. Ele precisava (da maconha), o ajuda a ver de um jeito mais amável.”
Quando os filhos perguntam sobre alguma droga, ele e Edu possuem um livro a respeito do assunto, o argentino Un Libro Sobre Drogas, que ajuda a explicar pelo ponto de vista científico. “Cada capítulo é sobre uma droga, na visão da ciência e da biologia. O que acontece no cérebro? Qual é o risco de viciar? Qual é a diferença do consumo breve para o esporádico e para o frequente?”.
A relação é muito aberta e a conversa, livre. O que não quer dizer que não existam regras. Vini não deixava os filhos beberem álcool, ao menos em casa (fora, o controle é impossível), antes dos 18 anos. Não é afeito ao tabaco e se incomoda que um dos filhos tenha virado fumante. “A maconha não me preocupa. Ninguém tem overdose com ela, né? O que me preocupa são as outras drogas”.
RODA EM FAMÍLIA
A primeira vez que todos fumaram juntos foi na virada de 2021 para 2022. Era Ano Novo, os pais já sabiam que os filhos tinham experimentado antes, o mais novo deles tinha 17 anos de idade, e então decidiram ser legalize naquele dia especial e de festa, com a presença de outros amigos. “Foi uma forma de eles entenderem que agora eram adultos.”
Em um momento da noite, ao redor de uma fogueira, Alfredo, o filho do meio, se levantou para fazer um discurso. Disse o quanto representava para ele e para os irmãos serem filhos daquele casal canábico tão especial. Do quanto o encontro deles todos transformou a vida daqueles crianças, agora adultos. “E a gente disse como se sentia como pais”, resume ele, sobre a emocionada reação dele e do marido.
Não houve abusos de qualquer tipo de drogas. Todos se divertiram e riram juntos. Os mais velhos, como Vini e Edu, dormiram cedo, enquanto os jovens foram até o amanhecer. Para fazer o que os jovens amam fazer. Fumar um à beira do rio Tigres, com os irmãos, na casa de veraneio da família.
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Conheço Vini, cinco anos mais velho que eu, desde meus 16 anos. Preciosista e progressista que é, não é afeito à palavra “modelo”. Digo, então, que Vini me foi e é referência. De aceitação, de ideias livres e evoluídas. E de (muita) coragem. Talvez sem seus ensinamentos em minha própria adolescência, não teria construído brio o suficiente para conceber a ideia desta Breeza.
Filipe Vilicic