Por Pastor Berlofa

Pode parecer um paradoxo essa afirmação, mas explico. Antes preciso dizer que esse número de 98% foi um dado retirado da minha cabeça, fiz umas contas, pensei nos maconheiros que conheço, na realidade do nosso país, e de forma empírica cheguei nesse número, pois, até onde sei não existe uma pesquisa sobre isso.
Meu ponto é que a grande maioria das pessoas que usam maconha nunca tiveram, ou tiveram em raras oportunidades, acesso à maconha de verdade, apenas ao que um dia foi maconha, uma sombra do que outrora fora cannabis. Sim, estou falando do prensado, a forma mais popular e barata de comercialização da maconha.
Prensar a erva até que um grande volume se torne um pequeno bloco é muito útil para armazenar, transportar e esconder da polícia, mas os benefícios param por aí, pois para a erva em si, esse método é terrível.
Imagine você viajando para um país absolutamente distante, com outro clima, que o impede de produzir alface e, pra piorar, nesse país o alface é crime! Aí tu chega num restaurante de procedência duvidosa, daqueles que só de entrar o estômago grita socorro, sabe? Então tu pede ao garçom uma salada de alface. O garçom te olha desconfiado, mede você de cima a baixo e diz que o alface naquele lugar é complicado, mas que ele poderia o ajudar.
De repente o Rubens (o garçom) entra na cozinha, abre a porta do porão, desce até os armários inferiores, úmidos, e pega um pote de alface. Bem, esse alface foi produzido aqui no Brasil, mas como seria vendido para esse país que criminaliza o alface, essa produtora não tem nenhuma fiscalização, pois não é regulamentada. Eles cultivam o alface como querem, sem vigilância, sem higiene, sem qualidade. Na colheita, passam o trator em tudo, vem alfa, raiz, insetos, esterco, tudo junto. Aí eles colocam uma tonelada de alface numa prensa tão potente que reduz esse volume de mil quilos num bloco do tamanho de uma moto.
Imagina aquela folha rica em nutrientes sendo esmagada, seu suco escorrendo e secando. Após esse processo ela é armazenada de qualquer forma, em locais sombrios, afinal é um produto ilegal. Essa carga de alface viaja durante três meses em caminhões, navios e carros, passando pelo rigoroso cuidado de qualidade do tráfico organizado de alface.
Finalmente, depois de todo esse rolê, esse “alface” está em mãos do Rubens, um bloco de alface prensado, tudo marrom, com um cheiro de terra misturado com esterco. Rubão rala um pouco dessa merda no seu prato e diz “está aí seu alface”.
Se você já teve a experiência de comprar um alfece verdinho, direto do produtor, colhido no dia, vai olhar para aquilo no seu prato e vai reclamar “Porra, Rubens, isso não é alface, não, querido”.
Você já entendeu a analogia. A maconha prensada que a maioria tem acesso é esse alface do Rubens, é impossível compará-la a maconha de verdade, cultivada, colhida e armazenada com o carinho que ela merece.
A planta de cannabis, assim como qualquer outro organismo, requer uma atenção particular para se desenvolver de maneira saudável. Já a maconha prensada é cultivada em extensas propriedades ilegais, onde a qualidade dos produtos, como já falamos aqui, é completamente questionável. Alguns pontos dessa falta de cuidado no cultivo que podem ocorrer:
Ausência de nutrientes fundamentais que contribuem para o crescimento da vegetação;
Condições ambientais desfavoráveis à saúde da erva;
Emprego de substâncias químicas nocivas à saúde das pessoas;
Condições sanitárias inadequadas;
A presença de contaminantes como ramos, folhas e sementes no produto final;
Transporte impróprio, que também implica em perigos para a saúde das pessoas.
E um dos maiores problemas da maconha prensada: A amônia.
Durante o processo de prensagem e armazenamento irregular, a matéria vegetal da maconha entra em decomposição, o que gera a formação de amônia. Essa substância é tóxica e sua inalação, especialmente em grandes quantidades, pode causar problemas respiratórios.
Sabe aquela tosse intensa durante o beck?
Então, eu não tusso nenhuma vez quando fumo flor orgânica.
Sabe aqueles olhos vermelhos característicos da maconha?
Você já me viu de olho vermelho ou caído em algum vídeo?
Pois é, não existe na internet, nos últimos 4 anos, nenhum vídeo meu que esteja com olhos vermelhos ou aquela cara derretida, pois essas reações são culpa da amônia, do fruto apodrecido, do mofo, e não da planta.
Já um jardineiro consciente, por sua vez, assegura que a planta recebe toda a atenção necessária para crescer de maneira saudável, sem prejudicar a saúde de quem a consome. Isso abrange a realização de processos fundamentais, como a secagem, a cura e o armazenamento apropriado das flores.
Percebe o abismo de diferença entre as duas maconhas?
E isso não te revolta?
Quer dizer, pra conseguir seu remédio hoje em dia a grande maioria tem que ir até as biqueiras, correndo risco de ser preso, pagar caro, pois para quem não sabe um prensado de péssima qualidade custa em média R$130 por 25 gramas. Uma flor da orgânica na biqueira pode custar mais de R$100 a grama. Isso é quase o preço do ouro!
Você literalmente paga preço de ouro numa planta que dá na terra e ainda tem acesso apenas a um produto de péssima qualidade. Enquanto isso, com R$ 5 você entra no mercado na rua da sua casa e compra um corote liberado pela Anvisa.
“Ahh, é só cultivar sua própria maconha”
Sim, o auto cultivo é uma saída, eu mesmo sou cultivador com habeas corpus para cultivo e tenho o privilégio de fumar o melhor dessa terra.
Mas essa é a realidade de quantos?
Se você só comesse o que cultivasse, o que teria comido hoje?
Sem contar que para ter seu cultivo seguro você necessita de um habeas corpus. Exatamente, para cultivar suas “perigosas” plantas você precisa que um advogado consiga um habeas corpus.
Segundo o PROJURIS, plataforma de inteligência legal, um habeas corpus é um remédio constitucional que tem como principal objetivo proteger a liberdade de locomoção de uma pessoa. Previsto no Artigo 5º, inciso LXVIII da Constituição Federal de 1988, pode ser utilizado sempre que alguém sofrer ou se encontrar ameaçado de sofrer violência ou coação em sua liberdade de locomoção, por ilegalidade ou abuso de poder.
“LXVIII – conceder-se-á “habeas corpus” sempre que alguém sofrer ou se achar ameaçado de sofrer violência ou coação em sua liberdade de locomoção, por ilegalidade ou abuso de poder”
Além disso, as etapas processuais deste instrumento estão elencadas nos arts. 647 a 667 do Código de Processo Penal. Ou seja, na prática, o habeas corpus pode ser acionado sempre que uma pessoa sofre ou está sob ameaça de sofrer violência ou coação ilegal em sua liberdade de locomoção. Seja ela por abuso de poder ou ilegalidade.
Diferentemente de outros recursos judiciais, o habeas corpus não se destina a contestar o mérito de uma ação penal. Mas sim a garantir que os procedimentos legais sejam observados e que nenhuma pessoa seja mantida em privação de liberdade sem justificativa legal.
De acordo com suas especificações legais, o habeas corpus pode ser dividido em duas modalidades: a preventiva e a liberatória ou repressiva. Meus Deus, eu só queria botar 3 sementes na terra…
Então, levando em conta o preço caríssimo de uma flor ilegal, a difuculdade burocrática e finaceira de tirar um habeas corpus (visto que um bom advogado cobrará uma média de R$ 12 mil nesse processo) e a completa falta de viabilidade de cada maconheiro ser um cultivador, chegamos ao número que 98% dos maconhehiros continuam na mão do prensado, ainda a forma mais popular a barata de conseguir seu remédio.
Nessa coluna eu apontei os problemas, as incoerências, para você se revoltar comigo com o absurdo que são nossas “leis anti-drogas”. Mas na próxima coluna quero apontar algumas soluções como desde um autocultivo barato, sem precisar de habeas corpus (afinal, descriminalizou), até acesso a associações que já garantem o fornecimento de flores de THC para seus pacientes associados.
Então, comente o que achou dessa coluna, deixe suas dúvidas, suas sugestões, suas experiências que ficarei feliz em ler e responder. Manda lá no Insta da Breeza, o @breeza_revista, ou no meu, o @pastorberlofa.