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Cinema e cannabis no berço carioca do proibicionismo

Por Gustavo Maia e Thiago Omorodé

Estátua clássica diante de um casarão histórico branco, com palmeira e céu azul ao fundo.

Entre os dias 19 e 23 de janeiro de 2027, a região da Pequena África, na Zona Portuária do Rio de Janeiro, será palco da 2ª edição brasileira do Festival Internacional de Cinema Canábico (FICC). Com cinco dias de programação gratuita, o Festival — concebido em Buenos Aires em 2019 e realizado pelo Cannabis Monitor no Brasil desde 2025 — explora a linguagem audiovisual como uma potente ferramenta de sensibilização, provocação e reflexão para a transformação social. A proposta central do FICC é abordar a temática da cannabis a partir de uma perspectiva cultural, desconstruindo estigmas históricos e criando um ambiente seguro e qualificado para debates críticos sobre os muitos atravessamentos pelos quais o tema abrange.

A sede principal é cheia de simbolismos: o Casarão Cultural João de Alabá. Localizado no território da Pequena África, entre a Central do Brasil e a Praça Mauá, no Centro do Rio de Janeiro, o espaço é dedicado à preservação da memória, à valorização da cultura afro-brasileira e à promoção de encontros entre arte, educação, patrimônio e desenvolvimento cultural e econômico. Instalado no histórico Jardim Suspenso do Valongo, o Casarão desenvolve suas atividades em uma região marcada pela presença africana, pela resistência da população negra e pelas contribuições fundamentais das culturas afrodescendentes para a formação da sociedade brasileira.

Compreender a atuação do Casarão exige reconhecer a importância histórica do território onde está inserido. A Pequena África não representa apenas uma área geográfica da cidade, mas um lugar de memória, resistência, produção cultural e continuidade de tradições que atravessaram gerações. A realização do FICC nesse espaço estabelece uma ponte direta com a própria origem da criminalização da maconha no Brasil, uma vez que foi no Rio de Janeiro que a Câmara Municipal aprovou, em 1830, uma das primeiras normas proibitivas ao consumo da planta no mundo.

O hábito de fumar a cannabis — denominada na época como “pito do pango” — era característico da enorme população de africanos escravizados presente na cidade. A planta era consumida em contextos de alívio para os trabalhos exaustivos do cativeiro, recurso terapêutico e elemento de sociabilidade cultural e espiritual.

Impulsionada pelo receio das elites diante da presença e da organização da população negra na Corte, a norma de 1830 estabeleceu multas para comerciantes, mas reservou a pena de prisão exclusivamente às pessoas escravizadas que fossem flagradas consumindo a erva. Ao longo das décadas seguintes, essa perseguição estruturou o proibicionismo no país, utilizando a repressão ao fumo como instrumento de violência policial e estigmatização racial.

Quase 200 anos após a sanção da primeira lei proibitiva na região, a instalação das telas do FICC no Jardim Suspenso do Valongo representa um ato de ressignificação e reparação histórica. Ao projetar filmes e promover debates abertos sobre o mesmo solo marcado pelas memórias da escravização e do controle policial sobre os corpos e a cultura negra, o festival busca promover uma arena de livre expressão e cidadania em torno dos debates sobre a maconha e as políticas sobre drogas, marcadas de forma estrutural e central pelo racismo.

Onde antes a lei impunha o cárcere ao saber e ao costume ancestral africano, o festival projetará obras audiovisuais que humanizam as narrativas sobre a planta e debatem abertamente suas aplicações medicinais, sociais e industriais no tecido social. Durante os cinco dias do evento, o público terá acesso a uma programação diversificada que inclui Mostra Competitiva com exibição de filmes nacionais e internacionais, longas e curtas de ficção e documentário, distribuídos em cinco categorias de premiação, e diversos filmes também disponíveis online gratuitamente para todo o Brasil via uma plataforma de streaming parceira. O Festival também promoverá mesas de debates com cineastas, diretores e produtores de cultura canábica, além de espaço literário, exposição de arte, atividades interativas e atrações musicais.

A Pequena África e as camadas da memória

A região portuária do Rio de Janeiro reúne importantes referências da história da população negra no Brasil. Entre elas estão o Cais do Valongo, reconhecido internacionalmente como patrimônio ligado à memória da diáspora africana, e o Morro da Providência, historicamente reconhecido como a primeira favela do Brasil. Esses lugares testemunham diferentes dimensões da história da cidade, desde a violência da escravização até as formas de organização, resistência e criação cultural desenvolvidas pelas populações negras.

O Jardim Suspenso do Valongo integra esse conjunto histórico e patrimonial e faz parte do Circuito Histórico e Arqueológico de Celebração da Herança Africana. Projetado pelo arquiteto-paisagista Luis Rey e inaugurado em 1906, durante as reformas urbanas da gestão do prefeito Pereira Passos, o jardim está relacionado às transformações que marcaram a região portuária no início do século XX. Essas intervenções contribuíram para modificar a paisagem urbana e ocultar vestígios materiais associados à história da escravidão e da presença africana na cidade.

A história do território também se relaciona à antiga Rua do Valongo, atual Rua Camerino, importante via ligada ao comércio de pessoas escravizadas durante o século XIX. Posteriormente, a região tornou-se cenário de diferentes formas de organização social e mobilização dos trabalhadores, incluindo a trajetória do movimento sindical portuário e do Sindicato dos Estivadores do Rio de Janeiro, fundado em 1905.

Essas diferentes camadas históricas demonstram que a Pequena África deve ser compreendida como um território vivo, no qual patrimônio, memória, trabalho, religiosidade e cultura se relacionam. Preservar essa história significa reconhecer não apenas os monumentos e as edificações, mas também as pessoas, os saberes e as experiências que constituem a identidade do lugar.

Da resistência ao protagonismo

Mais do que ocupar um espaço histórico, o Casarão procura construir uma relação permanente entre passado, presente e futuro. Seu compromisso é manter viva a memória, fortalecer as manifestações culturais, valorizar os agentes locais e contribuir para que a Pequena África seja reconhecida não somente pelas marcas da violência histórica, mas também pela força de sua população, pela riqueza de suas tradições e por sua capacidade contínua de criação e transformação.

O Casarão é, assim, um espaço de memória, ancestralidade e valorização da afro-brasilidade, comprometido com a construção de um território em que história, cultura e desenvolvimento caminham juntos. A integração entre o Festival Internacional de Cinema Canábico e o Casarão Cultural João de Alabá demonstra que a preservação do patrimônio não se faz apenas voltando os olhos ao passado, mas construindo pontes com as lutas do presente.

Ao transformar a Pequena África em um pólo de reflexão crítica e criação artística sobre a cannabis, o FICC e o Casarão reafirmam a centralidade do racismo no debate sobre as políticas de drogas no Brasil e o protagonismo da comunidade negra e dos agentes culturais na disputa por este tema pela transformação da nossa realidade. Em janeiro de 2027, as luzes que se acenderem na tela do Valongo não estarão apenas exibindo filmes; estarão iluminando uma história de resistência que sobreviveu à repressão para emergir como arte, conhecimento e direito ao futuro.