Por Filipe Vilicic

Numa conversa recente que tive para a gravação de um podcast apresentado pelo humorista Paulinho Serra, entramos em um papo sobre o uso de drogas por soldados em guerras. Como encarar uma guerra estando são? Vamos combinar que poucas pessoas conseguiriam realmente lidar com o ambiente constante de mate ou morra, por múltiplas razões, inclusive pela incapacidade de querer matar o outro. Nesse cenário extremo de violência e sobrevivência, as substâncias entram como artifícios para desligar partes do cérebro, como do medo ou da empatia, criar uma coragem artificial, vencer fome e sono, se tornar capaz de ver e realizar atrocidades que, sem estar sob efeito, não se conseguiria superar.
“A relação entre seres humanos e drogas é tão antiga quanto de seres humanos e guerras, então é compreensível que as drogas e as guerras caminhem juntas ao longo da história da humanidade”, avalia o pesquisador Thiago Rodrigues, professor do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (UFF), grande expert do cenário global do comércio de drogas.
Os antigos vikings, por exemplo, se apoiavam nos efeitos da amanita muscaria, um cogumelo alucinógeno, e do meimendro-negro para entrar em um estado de fúria conhecido como berserkergang e assim estarem prontos para as batalhas. As legiões romanas consumiam vinho impregnado com mandrágora e ópio para anestesiar soldados em estado crítico, sendo que a elite militar de Roma também tinha acesso à thériaca, uma preparação farmacêutica com doses massivas de ópio puro, vinho e dezenas de ervas. Papiros do Egito antigo, de antes de 1550 a.C., trazem relatos do uso de ópio para acalmar dor e ansiedade em guerreiros e feridos, e a Ilíada de Homero, do século VIII a.C., introduz a substância nepenthe (que a maioria dos historiadores acredita ser uma mistura de vinho e ópio, ou mesmo cannabis vinda do Egito) como ferramenta de guerreiros gregos para eliminar a dor, o luto e as memórias das guerras, na primeira menção literária do uso de drogas para lidar com o trauma do pós-guerra.
“Quase ninguém em sã consciência acharia legal estar em uma guerra, em constante situação de matar ou morrer, então essas substâncias ajudam a ganhar coragem”, explica o médico, pesquisador e consultor em medicina psicodélica Bruno Rasmussen Chaves. Para ele, o incentivo estatal, dos governantes, ao uso de substâncias em conflitos é “uma conduta egoísta de querer aumentar a coragem do soldado a ponto dele se expor, se arriscar e às vezes até morrer por causa disso, mas desde que no fim da batalha se tenha ganho na contabilidade, pois não importa se morrerem 20% do meu lado, contanto que do outro tenham morrido bem mais”.
Há, porém, muitas diferenças entre as guerras do passado e as modernas. No contexto do uso de drogas no campo de batalha, vê-se a ascensão do papel das sintéticas e da indústria farmacêutica, principalmente a partir do início do século XX, com atuação intensa na II Guerra Mundial. “Nas sociedades tradicionais, o uso de psicoativos na guerra estava relacionado a práticas culturais, enquanto a partir da formação do estado moderno, no século XV, e do capitalismo, mais recentemente, surge um modelo elitista das substâncias como facilitadoras do processo de operação de soldados e para tratar de situações traumáticas, sem perder esse soldado”, comenta Thiago Rodrigues, da UFF.
Ele observa que há um divisor de águas no período do antes e durante a II Guerra Mundial, em que farmacêuticas de vários países (EUA, Alemanha, Inglaterra, França, Japão…) estavam na procura de substâncias que pudessem fabricar um supersoldado, numa corrida que inclusive inspirou artistas a criarem figuras como o Capitão América das HQs e filmes da Marvel. Na prática, metanfetamina, anfetamina e cocaína inundaram o campo de batalha, tornando as tropas mais resistentes ao sono, à fome, ao medo, a dilemas morais.
“Os soldados começam a usar num contexto de melhorar a performance, mas também de aliviar o sofrimento, aliviar o estresse, distrair, relaxar, evitar lidar com o que está passando, não pensar tanto na saudade de casa”, analisa o médico Bruno Rasmussen. Ao mesmo tempo, os campos de batalha viram laboratórios e mercados lucrativos para as farmacêuticas e para os governos. Observa-se o uso de substâncias como estimulantes para o combate em todas as guerras, do Vietnã à atual Rússia–Ucrânia. Relatórios de inteligência militar e relatos de campo apontam o uso de ampolas de substâncias estimulantes e analgésicos pesados (como o Promedol) tanto pelas tropas russas quanto as ucranianas, especialmente unidades de infantaria.
Rasmussen destaca como o contexto de conflito também existe em áreas que não necessariamente estão em guerras tradicionais, a exemplo de regiões de atrito entre milícias, narcotraficantes e policiais no Rio de Janeiro. “É comparável tanto do ponto de vista psicológico quanto físico, cirurgiões no Rio têm a mesma experiência de médicos que estão no fronte de batalha, pois recebem pessoas com tiro de fuzil, mutilação por granada, não só calibre 38, mas arma pesada”.
O historiador francês Laurent Henninger dizia que o ser humano não é naturalmente corajoso, pois ele tem medo da morte. Para enfrentar uma guerra, é necessário ganhar uma coragem que sobrepassa a vontade de sobreviver, e criamos muitos métodos para isso, de treinamentos militares ao que talvez seja o caminho mais rápido (e perigoso) do uso de drogas que ajudam no meio da fumaça da guerra.
Os sobreviventes
O veterano de guerra muitas vezes retorna destruído para sua casa. “O cara volta, aquele calor da situação esfria, e aí se conscientiza não só do que fez, e pode começar a achar errado, mas também do que viu, do que testemunhou, que aí são cenas que chegam a ser indescritíveis”, contextualiza o médico Rasmussen ao explicar as raízes do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT).
Como já escrevi em outra reportagem aqui na Breeza, recentemente tem se popularizado os tratamentos de TEPT com psicodélicos como ibogaína (que conquistou simpatia até de Donald Trump). “O que vai curar mesmo é a terapia, falar sobre, relembrar, tentar digerir mentalmente, e o MDMA facilita muito isso pois bloqueia momentaneamente a conexão da amígdala, uma região primitiva do cérebro, a estrutura do medo, ao córtex frontal, a região do raciocínio, da cognição, da compreensão”, diz o médico, trazendo outro exemplo de substância que têm sido efetiva nessas consultas com pessoas com TEPT.
O abuso de drogas pesadas no campo de batalha, contudo, lança outro desafio: muitos dos combatentes regressam como dependentes químicos. Estima-se que algo como 15% dos estadunidenses na Guerra do Vietnã utilizaram heroína no fronte, e também havia predominância de substâncias como opioides. Dos veteranos do Vietnã, em torno de 20% apresentaram problemas com dependência química.
Contudo, o tipo de substância à que se recorre no tratamento do TEPT é bem diferente daquela usada como fuga no meio do combate. “As usadas para melhorar a performance no conflito são estimulantes e criam dependência muito fácil, enquanto o perfil das utilizadas depois do retorno, para tratar o trauma, não criam tanta dependência, como é com o MDMA, e chegam até a ser experiências desconfortáveis, como é com a ibogaína”, pondera Rasmussen.
Como mostrou a reportagem já citada da Breeza, a ciência comprova a eficácia dos psicodélicos nos tratamentos de casos como de veteranos de guerras. Mas o pesquisador Thiago Rodrigues, da UFF, ressalta como é preciso considerar diversos atores que têm interesse em deixar militares e congêneres sob efeito, seja na guerra ou na paz, quando retornam para procurar descanso: “A ideia de sinalizar que uma droga pode ser uma solução mágica para tratar pessoas que sofrem ao serem lançadas nessa grande tragédia que é a guerra, e que retornam para a sociedade e não conseguem se enquadrar, me parece algo de uma relação espúria entre estado, a indústria farmacêutica e o complexo militar”.