
O humorista Paulinho Serra, conhecido por seus stand-ups, filmes e por tantos programas de TV que foram da extinta MTV ao Pânico na TV, já teve na maconha uma aliada criativa, para inspirar a fazer piadas em momentos de chapação com os amigos. Daí criou uma história engraçadíssima em que era uma batata, e personagens como o caçador de crocodilos sem um braço e o traficante gay, que viralizou.
Hoje ele nos conta, na entrevista para Filipe Vilicic, editor da Breeza, que sua relação com a erva é mais diária, terapêutica, madura e é legalizada, como paciente. Abraçou a causa, virou embaixador de uma marca da cena, o Dr Sativa (também apoiador do nosso podcast Saindo da Estufa), e vai lançar um podcast de curiosidades sobre a planta.
Na nossa conversa, mostra porque a ganja é bom assunto para piadas, conta que tinha pavor de maconheiros, até entrar no teatro e se descobrir um maconheiro (e que os maconheiros são bom público), e que agora usa para criar, trabalhar, como um remédio que alivia a pressão, dá criatividade e entusiasmo. Boas reflexões, com muito bom humor, em conversa cheia de histórias de soltar o riso.
Paulinho, eu vi um vídeo seu, de um stand-up, que você começa falando de legalizar a maconha e depois você faz um monte de piada em torno da maconha, em torno do humor canábico, faz umas referências, como Scooby-Doo. Por que decidiu ter a erva como assunto, e de certa maneira como bandeira também?
Cara, eu nasci em Bangu, região periférica do Rio de Janeiro, e depois morei em Campo Grande. E em Campo Grande foi onde a milícia se instaurou no Rio de Janeiro e hoje tá espalhada e tomando conta de tudo. Então, o que que era a milícia? A milícia, no início, a gente chamava dos quebra-cocos, os caras eram os quebra-cocos. Porra, meu irmão, você amanhecer e falam: “Caraca, cara, mataram o fulano, mataram o ciclano…” pô, mas como assim mataram? “Cara, viram ele fumando baseado, mataram ele, mataram ele.” Então eu tinha pavor. O nome maconha sempre era, para mim, sinônimo de estar perto da morte. Ah, aquele maconheiro. “Mas mataram por quê?” Porque era maconheiro, era maconheiro, era maconheiro. E aí eu sempre muito afastado por aquele medo, aquele pavor. E quando eu começo a fazer teatro, eu saio do subúrbio e começo a ir fazer teatro e conhecer novas pessoas, conhecer e começar a trabalhar com teatro. E eu com 25 anos de idade já tava fora da casa dos meus pais, e fui numa festa onde eu vi pessoas que eu admirava muito, era uma festa, assim, muito legal, de cinema e tal. Então, senhoras, bailarinas, pessoas bem-sucedidas, todo mundo bem-sucedido, as pessoas estavam fumando o cigarro de que eu falei, aquela aquele dia foi uma percepção, né?, da ficha caindo, de como o meio ajuda no estereótipo negativo que vem se criando há anos e anos a respeito da maconha. E aí quando você começa a conhecer e a estudar, saber o porquê da avalanche de preconceito em relação ao cânhamo em primeiro lugar e à cannabis, você fala: “Cara, peraí, isso aqui tá muito errado”.
Eu nem gosto do termo uso recreativo, sabe? Muitas vezes eu uso para trabalhar, para ficar melhor no trabalho, para criar, para escrever. Então, para mim é medicinal, é o meu remédio, é o que alivia a pressão, que me dá criatividade, que me dá entusiasmo, o que, usando da maneira correta, me faz bem. Aí comecei a observar os comportamentos da hipocrisia da sociedade, né? Falei: “Cara, como as pessoas são hipócritas! Porque perturba muito mais uma pessoa bêbada pra caraca, um vizinho bêbado pra caramba, brigando, gritando e criando confusão… ou se um cara for cocainômetro”. Então, meu texto (do stand-up) tá falando meio que sobre isso, a diferença dos dois (maconheiro e usuário de cocaína). E aí quando chega lá o cara (maconheiro) que mora com a vovó, fala: “Vovó, trouxe um bolinho pra senhora”. É sempre gente boa, é sempre um cara legal, estereótipo do… é o Cheech & Chong, cara, são pessoas legais, sabe? Então a gente tem que desmistificar isso, né? E o humor é uma ferramenta que você toca e há questionamentos sérios, né? O humor, a ferramenta do humor, a gente consegue alcançar, falar a verdade e trazer reflexão.
Por isso que eu fiz (o stand-up de maconha), e ali foi meio foi de improviso, cara, eu fui chamado ali na na hora, tava no clube do Minhoca, aí tinha essa noite canábica. Fiz um texto no improviso, mas falei: “Cara, vou falar toda a verdade”. Falei do empreendedorismo. “Cara, a partir do momento…”. Aí eu falei brincando: “A partir do momento que liberar essa parada aí, tem gente com habilidade para plantar e tem gente com habilidade para comprar. Então você bota ali igual no Tinder, detecta quem tá perto de você plantando com quem vai conectar.” (risos) Eu falei: “Cara, é o novo Uber. Você vai salvar uma galera. É uma nova tendência de grana, o dinheiro que tá parado aí, vocês não estão se ligando.” E fui fazendo essa analogia que, no fundo, no fundo é isso, cara. No fundo, é isso.
Paulinho, como é que foram as suas experimentações? Você tinha experimentado nesse contexto mais proibicionista também, ou foi experimentar já com a galera do teatro?
Foi com uma galera de teatro, porque eu era muito… eu tinha muito preconceito, né? Então ficava “não, não, não, não, não, não preciso dessa parada… não, não preciso dessa parada não, não preciso não, não preciso, não”. Porque eu sei do meu meio, eu sabia do meio onde eu estava, de onde eu vim. E eu sei que no meu meio aquilo ali era sinônimo de, né?, de algo muito sério. Então, tinha um preconceito. E aí, uma vez assim, pegando uma carona no carro, com uma amigona minha, a gente tava no carro com outro amigo, e aí eles acenderam, assim, passaram e eu “deixa eu experimentar”. E sabe que a gente foi pro shopping…. mano, eu nunca dei tanta risada na minha vida, porque eu acho que todo mundo é isso, vai fazendo assim, a boca (ele faz uma careta como se rindo como um maconheiro). Tô, assim, de canto e rindo, tá com a cara assim, e rindo demais, demais, demais (risos). Mas aí fiquei de boa, aquela pessoa que fumava quando tinha, sabe? Ah, se tivesse ali, vou fumar, vou fumar. Se tiver, vou fumar. Só que você percebe que você fica muito bem, né? E vou morar sozinho, vou morar no Humaitá, e aí com uns amigos lá, então a gente sempre alguém tinha alguma coisa.
Agora quando eu viajo pela primeira vez para Amsterdam, aí dá aquele choque, né? Você percebe o quanto é normal e cotidiano na vida, que não parece que você tá fazendo alguma coisa errada, porque você, o tempo inteiro, a sociedade construiu algo negativo em volta. Então chega lá, você tem um cardápio, tem um monte de gente, ó. Eu até brinco, eu tenho um texto que eu falo “pô, eu entrei assim meio ressabiado, tal, com caps, com bonezinho e tal. Aí eu chegam assim (o segurança, o abordando): ‘Hei, man, no cap, no cap’. Eu falei: ‘Cara, mas tem gente fumando maconha, e eu que tô errado porque eu tô de boné?’ (risos). Para mim foi um choque dizer que o errado era entrar de boné. E foi um choque, né? Você vê ali aquele conflito de realidades. Assim, quando você vai no Uruguai também, a facilidade que é de você ir numa farmácia, né? Como fluorescência, né, como você fumar.
Hoje eu tomo óleo para dormir com CBD e THC, a gominha quando tem, eu tô sem agora, mas é incrível, né? Você dorme, tem uma qualidade de sono, a sua vida fica muito mais ativa. Eu sinto muitas dores, que eu operei a cabeça do fêmur, tive uma óstone necrose na cabeça do fêmur. Fiquei um tempo, muito tempo sem andar, uns 8 meses sem pisar direito no chão, a minha perna esquerda vira e mexe tem que tá ali fazendo fisioterapia para tá sempre bem, só que de vez em quando dói. E aí o uso também do óleo, do THC com CBD, essa combinação e vários outros componentes que a planta tem, né, cara? É surreal! Você vai se apaixonando, você fala: “Caraca, é uma erva incrível mesmo, porque tem o THCV”. Eu até brinquei, pô, meu irmão, CV, esse TH é do CV (Comando Vermelho), mas é o que é que falam que agora, tá surgindo, né? que é como se fosse o Mounjaro natural, a parada que tira o apetite. “É, mas o THC não abre apetite?” Aí você descobre que os dois sendo usados juntos, o CBD barra a chapação do THC. Cara, é uma loucura, uma ciência enorme que dá muita curiosidade de você ficar envolvido mesmo, né?
Hoje eu sou embaixador do Dr Sativa e eu fiquei amarradão com o trabalho do Dr. Sativa. Inclusive, quem quiser baixar o app, cupom Serra, para poder tá sempre mostrando que eu tô junto com a galera aí. E é muito interessante, cara, você receber na sua casa, saber o que você tem que fumar à noite, fumar de dia, porque a gente acabou se aventurando sem ter muito. Então, agora tá refinando, sabe?, tá sendo refinado. Então você toma um medicamento para você ficar melhor, sabendo o que você tá tomando, sabendo ali que não é aquele prensado cheio de barata, de perna de barata, porra, de sangue de traficante, ainda tem essa. É um alívio, cara, você comprar legalizado, chegar na tua casa com uma receita médica. É uma parada de outro mundo, meu irmão. Tô vivendo agora esse momento que eu acho que é muito legal, muito interessante.
E aí é sair do armário mesmo, sabe? Porque tem uma galera que tá no armário aí, um monte de gente construindo um monte de coisa legal, e fica achando que tem que fumar escondido porque não pode e tal, tem que parar com essa, e com esse estereótipo, né? Tem que parar com isso. Você vai vendo na história, pô. Fiquei sabendo que Schwarzenegger fumava. Ele foi Mister Universo, fumando. Olha aí o tabu quebrado depois de não sei quantos anos. Por que ele não falou isso lá atrás? E ver os marombeiros aí tudo, porra, no crossfit, levantando aquele baseado gigante assim, sei lá, porra, arrancando. Não, você vai estudar sobre a planta, é uma loucura, cara.
Lembro que quando eu trabalhava na MTV, que era da editora Abril, né?, então alguém lá da editora falou assim: “Cara, quer vender revista Superinteressante? Bota uma folha de maconha na capa!”. Falou que eram as revistas que mais vendiam, porque todo mundo acha um assunto super interessante, todo mundo quer saber o que tem por trás e no futuro a gente pode ter farmácia que os remédios todos são extraídos da cannabis, né? E aí o que eu ia falar que eu vi uma parada, cara, que eu achei muito foda, que se você tiver uma margem de um rio que foi afetada por algum produto químico, eu não não sei se radiação, talvez esteja falando besteira, não sei se radiação, mas, assim, que foi poluída severamente, a raiz da planta da maconha absorve isso, cara. Ela filtra essa impureza, é claro que a planta fica condenada, mas ela filtra. Aí, quer dizer, para cada cada pé de de maconha para fazer cânhamo, eh, e que porra, são quatro pés de algodão equivalente. E aí eu tive o prazer de ver uma vez lá na Austrália, eu vi um quimono, um quimono feito de cânhamo, perto dos quimonos feitos de algodão. Meu irmão, cara, quimono de algodão pareceu o couro do Cascão, negócio sempre fedido. E o do cânhamo, seca muito mais rápido, muito melhor. Não sou especialista para falar aqui que nem historiador, mas a história mostra que aí tem muitas teorias e muitas comprovações de barreira de entrada para a planta, né?, de uma forma geral, porque uma planta que você faz óleo, que você faz corda, que você faz tecido, que você extrai remédio, que você usa para se para se divertir, que você usa para abrir a cabeça, pô, é bizarro. Então, é uma grande inimiga, muito barato, precisamos exterminá-la. Foi isso que aconteceu, né?
A maconha te ajuda também na comédia, a ter bom humor, a fazer boas piadas, ela te inspira nisso também?
Hoje menos, né?, que hoje eu já uso de uma forma tão cotidiana. Mas quando eu tive os primeiros contatos, foi total isso, muita coisa que eu criei foi na chapação com os amigos. Assim, me lembro que uma vez eu tava na casa de um amigo, o Leandro, e aí galera jogando videogame, FIFA, sei lá. Isso era ali perto de 2000, 2003, por ali. E aí eu fui fazer um rango, sempre gostei de cozinhar, aquela larica também, né? Inclusive esse meu amigo, a maconha ajudou muito ele quando teve câncer, quando fazia a quimioterapia, a boca aguava muito, tinha muita vontade de vomitar, né? Ele fumava e falou: “Cara, difícil até fumar, mas quando eu fumo, a boca seca e me dá apetite.” Então, assim, tem muitas maneiras, né?
E aí, falando da criatividade, e aí eu fui lá, meu irmão, fui cozinhar, comecei a descascar a batata, aí maior viagem. Eu falei assim: “porra, meu irmão, batata é sinistro, mano. Tá, o que que eu vou fazer com essa batata?” Falei: “caralho, batata dá para fazer muita coisa, meu irmão. Caralho, a batata é sinistra, compadre. Olha a batata aqui, na moral, porra, a batata tu faz frita, tu faz assada, tu faz cozida, tu faz purê, tu corta fatia, bota na testa para tirar dor de cabeça. Tem batata noisette, batata rosti, batata doce, batata… Aí cheguei na sala falando como se eu fosse uma batata. “Rapaziada, na moral, prazer, sou o Batata e mô vacilação, tão falando mal de mim aí, tô sabendo que tô falando mal de mim. Como é que fala mal de mim, rapaz? Sou primeiro lugar no McDonald’s, compadre. Porra, minha avó, minha avó já morreu baroa, tá ligado? Tava baroinha, cortaram a vovó no meio, porra, rechearam o vovó, botaram strogonoff dentro, porra. E e aqueles batata policial, meu irmão, aqueles dois lá, o tal do Chips. Pô, os malucos são polícia, maluco. Pô, chips, chegaram da dura. Pô, eu gosto mesmo daquelas batata, tá ligado? Aquela do pacotinho azul e prateado, batata da onda, mané. Ruffles, tá ligado? Da onda, mané, onda batata”. Do nada comecei, aí os caras se dobravam de rir, os caras se dobravam. Falavam: “caralho, que porra de criatividade isso?” Eu não parava de falar: “Minha mãe morreu, cara. Esfaquearam minha mãe, botaram minha mãe dentro de um panelão. Tu tem noção? Mataram meu pai, sabe como, cara? Meu pai era um doce, cara, botaram meu pai numa fogueira de São João. Papai morreu todo queimado, cara. Papai era um doce, cara. Agora eu tenho um amigo, eu tenho um primo, cara, foi muito doido isso. E aí, esse meu amigo sempre fala: ‘Pô, faz batata, faz batata’”. Aí virou uma coisa de que eu comecei a falar, cara, vou botar isso no papel e comecei a escrever. Aí veio batata, aí depois veio o meu avô, uma homenagem ao meu avô assim, dizendo que tinha gastado o dinheiro inteiro numa noitada na Lapa. Eu ia narrando aquele ali como se imitando o meu avô e a galera dobrando de rir. Aí depois veio o Jeff Michael, que eu e sempre… uns personagens muito politicamente incorretos.
Acredito muito no humor da época, sabe? Por isso que às vezes tem coisa que eu não faço mais, porque para mim humor tem a ver com época, e as pessoas falam: “Ah, mas o bobo da corte antigamente…”. Então, pô, tu vai fazer a mesma coisa que o bobo da corte fazia, porra, ficar dando cabalhota, fingindo que tá caindo, isso já não, né? Passou! Tem coisa que é atemporal e fica, mas o meu humor tem muito a ver com a época.
E aí eu fazia o Jeff Michael, adestrador de crocodilos. Eu sempre quero levar as pessoas a acreditar numa coisa que é totalmente diferente. E aí o Jeff Michael, fazia assim, sem braço. “Olá, eu sou Jeff Michael, o adestrador de crocodilo”. Aí no final dizia que eu tive micose na minha unha. “Não, vocês estão achando que eu era meu crocodilo (a falta do braço), não. Ele é um animal saudável, dócil, ele jamais faria mal para mim”. Eu tive micose… pra pessoa entender, pô… o cara é adestrador de crocodilo, então a tua cabeça na mesma hora coloca assim: “Esse cara tá sem braço porque foi mordido pelo crocodilo.” Mas não. E aí eu sempre… aí eu comecei a criar, criar, criar.
E aí quando eu faço o traficante gay, o traficante gay, pum, explode. Um cara filma, bota na internet, pô, imagina, eu quebrei com um paradigma, do cara que é totalmente estereotipado, daquele estereotipado, daquele machão agressivo, da figura soberana da masculinidade, mas o cara é assumidamente homossexual, então ele não tá nem aí. Então isso foi uma quebra de padrão, não tem a ver com preconceito nem diminuição de nada, foi uma quebra de um padrão que a gente tá acostumado. E aí foi o que foi, e eu acho que tem muito a ver com isso, com a criatividade ligada a esses momentos descontraídos, sabe?
E o maconheiro é bom público para você, pros seus stand-ups, você percebe que pessoas fumando maconha são mais fáceis ou mais difíceis como público?
Mais fácil, é mais fácil. Anteontem eu fui fazer um show, e aí às vezes eu tô levando um DJ… para falar que a gente pode questionar época, né?, essa coisa de época que eu já falei. Porque a gente é de uma época onde todos nós recebíamos as mesmas informações dos mesmos veículos, né? A gente tinha que ver jornal na TV, não tinha uma pesquisa de notícias que não fosse a TV, era muito difícil. Além do jornal, eu digo assim, mídia audiovisual, né? Aí quando vem a internet, muda tudo, e aí eu falei assim “A gente escutava as mesmas músicas, a gente sabia o que todo mundo sabia. Quer ver só? Aí o cara botou assim: “Ô, ô ô, cadê o isqueiro?” Tum. Aí cortou. Aí todo mundo “demorou formar o bonde dos maconheiros”, que é uma parada de baile funk daqui do Rio. Eu falei “Tá vendo só, cara?”. No público geral, é claro que é mais engraçado (o maconheiro). E tem uma galera que faz humor canábico, né? Uma galera que é especializada, assim, tenho um amigo, o Iuri Salvador, o cara faz piada só para esse público, porque hoje o stand-up também tem isso. Isso é uma coisa muito brasileira, tá? O brasileiro criou isso no stand-up que inclusive o americano copiou, o americano tá copiando, que é o nicho, o stand-up nichado. Então tem o stand-up que fala sobre crossfit, sobre umbanda, sobre espiritismo, sobre o canábico, sobre maconha e tal. Eu não sou expert, não, porque o meu público é muito variado, então nesta altura do campeonato, hoje eu não consigo nichar o meu público, né? Ele já olha para a minha cara, já sabe o que que eu sou.
Você falou que agora recebe o legalizado em casa, que é outra experiência, é outro processo. Você teve histórico ruim também nesse sentido proibicionista de repressão, com polícia. A maconha teve esse lugar também na sua vida, ou sempre foi tranquilo?
Já passei, eu passei algumas vezes assim, quando o Witzel era governador do Rio, parecia que tinha uma lei para ir em cima de artista, brother, era impressionante. Todo mundo que eu conhecia falava: “Caraca, tomei uma dura no aeroporto, tomei uma dura …”. Aí teve um cara uma vez que que deu uma duraça bizarra, não tinha nada. Porque, assim, eu não fico carregando de um lado pro outro, né? Se eu tô num lugar parado ali e tal, não gosto, porque aqui no Rio de Janeiro a repressão realmente é sinistra. Então eu não gosto de me locomover, levar para lugar nenhum, porque todo lugar que eu vou, eu sei que tem, então não tem problema ficar de boa. E hoje em dia tem muito amigo, né?, com essa de comprar legalizado, já tinha uns amigos que plantavam. Aí tu vai lá na casa do cara, o cara te oferece junto, sai de lá de boa, tal e é assim. Mas eu já tomei duras sinistras. E teve uma vez que a gente, voltando de um ensaio de carnaval, com um amigo meu, e o cara revistou o carro inteiro e, porra, mão no saco, tal, pá. E aí falou assim: “Pô, mas tava um cheiro aí. Não encontrei nada, não, mas eu senti um cheiro aí. Fala a verdade, vocês fumam?”. Eu falei: “Pô, cara, a gente fuma, mas não tem nada”. Ele: “Ah, que eu prendi uns vacilão aqui, tava aqui esses 25 gramas aqui, ó. Vocês tem quanto aí para levar?” Aí eu “o quê?” Olhei pro Leandro, falei: “Não, cara, a gente não quer não”. O cara queria passar o que ele prendeu numa outra abordagem pra gente. Aí eu fiquei um pouco em choque. Isso já tem bastante tempo, tá? Isso já tem, você pode colocar uns 20 anos. Eu fiquei assim, muito em choque: “Cara, pera aí”. A gente veio discutindo. Falei: “caralho, tu viu o que que acabou de acontecer, mané? Que porra foi essa? E a gente não pegou?”. Claro que não. E, cara, ia pegar aqui, ia perder ali, negócio estranho. Esse dia foi muito louco, cara, esse dia foi aquela coisa, assim, do quanto o tráfico de drogas é valioso e necessário para todo mundo do Rio de Janeiro. Como é que ele gera dinheiro para todo mundo? É um negócio surreal.
Fiquei bem chocado esse dia. Eu já tomei dura com a com a minha filha no carro, chovendo, eu falando pro cara: “Caraca, meu irmão?”. O cara revistando tudo, não achando nada. Tem uma blitz famosa indo lá pra Búzios. Eu falei: “Que isso, cara? Que bizarro, cara”. Mas com aquela coisa do artista, pô, já que é artista, deve ter, vai em cima. O que não deixa de ser um preconceito, né? Mas quanto a isso, para mim foi fichinha, né, cara? Perto de , assim, tiveram casos de quando eu era jovem e falar: “Pô, cara, mataram o fulano, Eduardo, pô, mataram Eduardo”. Falei: “Cara, mas como assim, cara?” O cara trabalhava na Michelin, moleque fazendo faculdade, mas ele tava com fulano e cicrano, e tava com os outros dois na hora lá, fumando um beck no campão, e aí mataram os três. Tipo, ele tava junto e foi morto também porque não era para estar fumando. Então foram muitos traumas, sabe, cara? Foram muitos traumas, e isso precisa acabar, né? Isso precisa acabar, e isso tá acabando, de certa forma. no sentido de que eu… é claro que quem não tem acesso, quem não tem condição financeira, vai sempre comprar no paralelo. Não digo que o tráfico vai acabar, mas a opção de você usar sem precisar contribuir pro tráfico, é aliviador. É um, assim, você tira um peso. Vou ver se eu consigo tirar a licença agora para plantar também, ter o habeas corpus, para poder conseguir plantar em casa. E aí é o é o mundo ideal, né?
Você comentou até que é embaixador do Dr. Sativa, que é apoiador aqui do podcast, do nosso Saindo da Estufa. Eu sei que você vai lançar um podcast com eles.
Sim.
Conta um pouco mais de qual é a proposta.
Cara, eu tava brincando até, falando que uma vez eu tava perto do Cristo Redentor, ali nas Paineiras, né?, aí chegou um cara que tava de bike e tal, acendeu unzão, a gente sentiu aquele cheirinho, cara. Ele: “Pô, cara, quer dar um dois aí?” Sempre oferece, né? É tribal, você chega, você quer conversar… caraca, que que é esse aqui? Pô, esse aí é das Ilhas Bengalas, da Jamaica. Contou uma história lá. Eu falei: “Cara, como um maconheiro gosta de história, né? Envolvendo a cannabis, qualquer coisa que envolva… eu acho que é igual o pai de pet, cara, aquelas pessoas que são viciadas em gato, qualquer coisa de gatinho quer ver e tal”. Então, eu quero tirar todas as minhas dúvidas, quero pegar as curiosidades que eu tenho em relação a Saúde, Religião e História. Acho que talvez esses são os três pilares do meu podcast. Assim, eu quero falar sobre a História. A gente vai conversar lá com o Minc, ex-ministro, um cara que foi sempre muito ativista, tá sempre na Marcha, um cara criador de leis. Quero conversar com professores de História para contar como é que foi a primeira vez, como é que começaram a falar. Quero falar com usuários que tomam o óleo para poder perder a ansiedade e a vontade de se coçar, que tem uma doença assim. Aí eu vou conversar com a moça lá, eu esqueci o nome, bolhosa, o final é bolhosa, que dá umas bolhas que estouram e não tem cura. Então, quando a pessoa toma o óleo, cara, perde a vontade de coçar. Olha que coisa incrível!
Quero quebrar os paradigmas, sabe? Quero mostrar o podcast para a pessoa que tem preconceito, e a pessoa olhar e falar: “Ué, mas isso aí eu nunca ouvi falar”. Quero desmistificar, quero falar sobre a potência, as propriedades, talvez o lado místico, não sei, se tiver alguém de misticismo para falar, porque também tem aquelas ervas do Santo Daime, né? A chacrona e o cipó, não sei da onde. Lá também são ervas que tem um monte de coisa ainda que a galera não sabe direito. Eu sei que os caras fazem um chá e tu fica, meu irmão, tu vê.
Eu tomei o chá, compadre. Eu vi umas caveira colorida brilhando que até agora eu não sei porque que eu vi aquilo ali. O bagulho é… inclusive, não podem se misturar. São ervas que não podem ser misturadas. A cannabis não pode ser misturada com essas, não pode nem estar perto, é muito doido. Eu fui uma vez fazer um filme que nesse lugar rolava os rituais do Santo Daime, e aí o cara avisou, falou assim: “Olha aqui, por favor, quem tiver com algum baseado, não fuma, que aqui não é lugar para isso, porque é um lugar sagrado e essas plantas são plantas sagradas”. Eu falei: “Eita, porra”. Então isso já me gerou uma curiosidade, agora que eu lembrei disso, na verdade me deu um gatilho agora de convidar essa pessoa pro podcast, sabe? Tudo que é relacionado, tudo que é relacionado à cannabis, vamos conversar. O cara que planta, o cara que é legalizado, o cara que tem uma associação. Queria muito falar com algum religioso, né? Como é que a religião traz, as religiões tratam isso, e quero tirar as minhas dúvidas, sabe? Eu quero ter um programa onde eu vá com vontade de ir para aprender. E eu acho que essa é a função do podcast, vai ser para isso, aprender cada vez mais sobre, para ter o argumento, porque a ignorância é triste, né? Então, já que eu posso ter a possibilidade de aprender, vamos nessa.