Saindo da estufa

Lan Lanh: “A descoberta da minha sexualidade veio junto da música e da cannabis”

Percussionista de mão cheia, Lan Lanh foi descoberta por Carlinhos Brown quando ainda era adolescente e seguiu encantando com um ritmo e uma simpatia só dela. Enquanto se descobria musicista, também descobria a sexualidade e a maconha sem neura nem vergonha. Na base de muita experimentação, ela foi moldando suas preferências ao longo da vida, sempre alinhada à natureza e ao bem viver.

Nesta conversa com Anita Krepp, editora desta Breeza, a baiana geminiana que vive sorrindo por aí, até quando o momento não é tão bom assim, falou sobre como mantém, aos 57 anos, um vigor de dar inveja a qualquer um. Também contou como trocou o uso fumado pelo óleo que relaxa na medida, e relembrou como atravessou a morte de Cássia Eller, tentando se blindar das fake news sobre overdose e aprendendo, como lhe aconselhou Gil, a ficar em paz com a própria dor.

Você pode também ouvir essa entrevista em nosso podcast, o Saindo da Estufa

Eu te sigo de perto há pelo menos 20 anos, e você sempre me pareceu tímida, reservada. Ao longo dos últimos anos, porém, você foi se tornando uma pessoa pública, com muita projeção. Como você lidou com essa transição?

Tudo na minha vida sempre aconteceu num fluxo muito natural. Esse dom de tocar, de fazer música, de criar arte, veio, e o resto é consequência. É o meu estado pleno de exercer a minha profissão, o momento em que estou ali me conectando com o meu dom, com a minha espiritualidade. Eu fui tocada pela percussão antes de tocar a percussão. Então acho que tudo isso é um pouco místico, e quando as outras coisas vieram, vieram como consequência. Nesse fluxo de tocar e crescer tocando, profissionalmente e evolutivamente, foi tudo natural. Fui aprendendo a lidar com isso da mesma forma que sempre fiz com tudo na vida. E também é da minha personalidade, por mais tímida que eu seja, sou comunicativa, geminiana. A gente tem essas mil habilidades, e essa coisa da comunicação é muito fluida. Sempre consegui me comunicar bem, sempre tive uma certa candura para lidar com o mundo.

Ser tocada pela percussão antes de tocar a percussão, interessante isso. Como você se descobriu batuqueira?

Quando comecei a gostar de música, fui muito levada pela minha irmã. A gente ganhou um violão, que foi o primeiro instrumento da família. Minha irmã era um ano e meio mais velha que eu. Ela montou uma banda com umas meninas da faculdade de música aqui em Salvador, onde estou agora. Depois de 35 anos fora dessa cidade, voltei para me reconectar com as origens. É muito especial relembrar tudo isso. Minha irmã ensaiava com essas meninas na garagem da nossa casa. A minha mãe sempre gostou muito de arte e de música, depois se tornou professora de artes e artista plástica. Eu ficava vendo os ensaios, me interessava, mas era muito menina ainda. Um belo dia, ouvi uma conversa de que estava faltando ritmo no grupo, e elas foram buscar um amigo de uma das meninas. Minha irmã era a caçula da turma: elas já tinham 18, 19 anos; minha irmã, 15; e eu, 13. Foram buscar um menino que já tocava na noite baiana, nos bares. Ele montou ali uma bateria e ficou tocando com elas. Eram quatro violões e a bateria, uma bateria meio percussiva. Num determinado momento, aquele ensaio sem instrumento de percussão me tocou o coração. Fiquei mais interessada no baterista que estava tocando. De repente, minha mãe chamou para o lanche, e todo mundo foi para a cozinha. Nesse momento, eu fui até a bateria e comecei a tocar, porque estava encantada com o instrumento e com o instrumentista. Quando ele saiu da cozinha e perguntou quem estava tocando, eu me encolhi toda. Ele disse: “Você tem ritmo, você toca bem.” Esse menino era o Carlinhos, que depois se tornou o Carlinhos Brown. Foi a minha primeira conexão. Ele ficou falando para a minha mãe e para o meu pai o tempo todo que eu tinha ritmo para a bateria. Depois de um tempo, meu pai me deu uma bateria, e eu comecei a montar uma banda. Essa banda foi fazendo shows, ganhando a cena da noite baiana, que estava num movimento muito efervescente do axé music por conta do Luís Caldas. Meu pai tinha um galpão onde ele consertava balanças. Ele fez ali um estúdio de ensaio que se chamava Sonar, e esse se tornou o primeiro grande estúdio de ensaio de Salvador. Todo mundo ensaiava lá: o Olodum, a Timbalada, Ivete ainda estava nascendo ali, Daniela Mercury ainda fazia parte de uma banda. Ninguém ainda tinha estourado tanto. Luís Caldas sim, e ele levou a minha banda. Ele gostava muito da gente porque era uma banda só de mulheres, com um cantor. Uma das mulheres era a percussionista Monica Millet, neta da Mãe Menininha do Gantois, que eu convidei para tocar. Quando eu vi o Carlinhos Brown na bateria e depois vi a Mônica nos atabaques, nos tambores, e comecei a conhecer os bastidores dos terreiros e as batidas afro, me encantei de vez. Me arrepio até hoje. Foi a minha conexão com as origens ancestrais, com as batidas dos terreiros. A partir daí, eu me tornei percussionista.

Nessa onda de se tornar percussionista, de ser tocada pela espiritualidade, rolou também uma descoberta espiritual mais profunda?

Sim. Acho que eu já carregava isso de forma natural. Quando comecei a tocar os atabaques e a conviver com a Monica, era tudo muito fluido. Eu entrava com ela na casa dela, ela me apresentava: “vem cá, eu te apresento ao seu Xangô”, e eu dizia “oi, seu Xangô, oi, seu Oxóssi”. Natural assim. É uma religião que eu tenho, que respeito, que admiro, e da qual me sinto parte. Já sou uma figura feminina ogã.

No Lan Lanh e os Elaines foi a sua estreia nos vocais?

Na verdade, começou antes, no Rabo de Saia. Eu fazia as composições da banda, junto com os outros integrantes, e algumas músicas sozinha. Como o meu primeiro instrumento era o violão, eu já compunha. Quando a Cássia Eller estava viva, eu já tinha feito o primeiro show do Lan Lanh e os Elaines. Fui convidada para um festival quando já morava no Rio há algum tempo, e juntei os meninos que tocavam comigo na banda da Cássia, que já sabiam que eu tinha músicas. A Cássia gravou uma canção minha do Rabo de Saia no Veneno Vivo, mas eu era muito tímida para mostrar as minhas músicas, ainda sou. Eu curto mais tocar do que cantar. Esse disco do Lan Lanh e os Elaines foi muito incentivado pelos meninos. Fazer o disco se tornou uma urgência, uma forma de estar perto daquela turma, porque a gente ficou sem chão com a partida da Cássia. Não só a gente, o Brasil inteiro ficou assim. Ela não levantava a bandeira, ela era a própria bandeira. Uma figura da diversidade, da maternidade. Eu vi, de perto, duas mães criando um filho. Muitas coisas simbólicas. Quando ela foi, os meninos me botaram pilha: “vamos gravar suas músicas, e você que canta, porque você é que canta suas músicas.” A Cássia tinha descoberto minhas composições quando a gente foi gravar o vinil do Rabo de Saia. O Luís Caldas levou a gente para o Rio, e nesse disco havia duas canções minhas. Ela garimpou uma delas e falou: “Você está escondendo o jogo?” Pegou “Amor Destrambelhado” e gravou no Veneno Vivo. E assim surgiu o Lan Lanh e os Elaines. Eu estava ali de bandleader, cantando, mas morrendo de vontade de ter um respiro para tocar percussão, que é o que eu realmente curto.

E o H que você botou no final do seu nome, foi por numerologia?

Nunca fui mística nesse sentido de “vou fazer um show, preciso consultar a numerologia”. Sempre foi no fluxo da intuição. As coisas foram acontecendo, fui abençoada com essa intuição e com a conexão de estar nos lugares certos, fazer as parcerias certas. O meu coração foi o que me conduziu. Às vezes eu trocava um trabalho com grana maior por algo que eu curtia mais, pela turma que eu curtia. Fiz uma turnê com a Cyndi Lauper. Comecei a fazer coisas internacionalmente, e quando eu dava o meu nome na internet, vinha um monte de resultado japonês. “Lanlan” com NN é um nome muito comum na Ásia, acho que é o nome de uma orquídea. Decidi fazer um movimento para ter uma personalidade de marca. Fizeram uma logo pra mim e colocaram um “h” como marca registrada. Achei legal. Como ia usar a logo de qualquer jeito, fui consultar a numerologia, e era bacana. Então mantive o H a partir daí. Foi quando eu percebi que era importante ter um destaque. Antes, eu nem sabia como eu mesma escrevia o meu nome. Cada hora as pessoas escreviam de um jeito. Nesse momento, dei uma personalidade e consolidei a minha marca.

Lan, você tem um corpo e uma disposição de dar inveja. Ninguém diria que você está com 57 anos. De onde você tira essa energia e como cultiva o seu bem-estar?

Gosto de endorfina, isso vem da minha profissão e vem de criança, porque eu fui atleta, joguei futebol e vôlei. Cheguei a fazer parte da seleção baiana de vôlei ainda muito nova. Sempre tive essa coisa atlética. Fora tocar, que já é muito físico. Eu explodo de estresse se não estiver queimando energia. É como eu me sinto bem, é a minha terapia. Fiquei um período com a rotina muito bagunçada depois que as meninas nasceram, e a menopausa entrou junto nessa. Pandemia, filhos, menopausa. Eu vivia muito a maternidade junto com a Nanda, acho que dá uma simbiose, uma coisa. A minha menstruação parou. Achei que tinha entrado na menopausa, fui fazer os exames e não estava ainda. E depois voltou junto com a Nanda. Fiquei realmente mal nesse período. Agora, voltando a morar em Salvador, estou conseguindo voltar à minha rotina de exercícios. Eu fiz 57 anos e tenho uma energia muito grande. Sempre tive essa energia, e perdi nesse momento justamente porque não estava carburando.

Mas puxar ferro mesmo?

Eu gostava muito de correr e nadar, fazia só cardio. Depois, com a Nanda, descobri um treino que misturava várias práticas. Era um método criado por um japonês, o Jun Igarashi, que já partiu desse plano. Comecei a treinar com ele e descobri uma coisa que eu não curtia, pegar ferro. Ainda bem, porque chegou na hora certa. Tem uma hora que é só ferro, amor. Não dá mais para ficar sem musculação. E misturava com funcional também. Hoje o que eu faço é muay thai, natação e, nas horas vagas, musculação. Na minha idade é sobrevivência, ter energia para aguentar o tranco é sobrevivência.

Soube que você é entusiasta da cannabis. Procede?

Eu sim. Já fui, pelo menos (risos). Uma época eu fumei bastante, depois parei. Parei o cigarro, que me fazia muito mal, e parei a cannabis também. Aí veio a maternidade, a rotina… Houve um tempo que era muito bom. Era uma época que eu não fazia nada a não ser tocar. Eu estudava, me conectava com a criatividade, me focava nas coisas. Confesso que eu sempre me liguei nas coisas naturais. Nunca fui de droga. Considero a cannabis uma erva, uma coisa mais natural. Se você pode usar e usar com parcimônia, para quem pode, faz bem. Tem pessoas que entram em outras viagens, tem uma coisa psicológica nisso. Não é todo mundo que pode, mas para mim fazia bem, me conectava com a música. Hoje o barato que me dá isso é o exercício. E também essa fonte da juventude tem muito a ver com as minhas filhas.

Já fez uso medicinal?

Já experimentei. O que rola mais agora, nesse momento de menopausa, é o óleo. Ele dá um relaxamento. Não é remédio para dormir, pelo contrário. Mas dá uma relaxada boa. Quando uso, é mais para descansar mesmo.

Aqui na Breeza, a gente já entrevistou pessoas que contaram que a cannabis e outras substâncias ajudaram no processo de descoberta e aceitação da própria sexualidade. Para você também aconteceu isso, esse apoio?

Não. Eu nunca tive problemas em descobrir nem em experimentar os meus desejos. Fui bem livre com isso. A cannabis veio num momento de formação musical, ali com 20 anos, no tempo do Rabo de Saia. Era uma época de estudo e concentração. A minha sexualidade sempre foi fluida. Naquela época era fluida porque eu nem sabia se era bissexual, não havia essas nomenclaturas. Eu curtia a pessoa. Se a pessoa me desse paixão, podia ser menina ou podia ser menino. Com o tempo, fui me afinando, tendo relações e conexões mais duradouras com mulheres. Hoje posso dizer que fui bissexual, porque estou há 12 anos com a Nanda, mas já tive uma fase muito bissexual e não tinha problema com isso. Tive sorte que minha família era tranquila. Me lembro de uma vez, quando eu já estava começando a namorar umas meninas, a minha mãe falou que o que ela queria e desejava para as filhas era que elas fossem felizes, tivessem dignidade, caráter. Que o resto não importava. Eu sei que nem todo mundo tem essa sorte. E entendo que a exposição que a gente tem ajuda muita gente a normalizar. A descoberta da minha sexualidade foi junto com a música e junto com a cannabis, mas sem uma coisa ligada à outra.

E cogumelo? Você curte?

Não curto. Eu sempre tive muito medo das coisas que me tirassem o chão. Sou geminiana com ascendente em Libra e tenho uma lua em Áries. Não curto nada que me tire do prumo. Por isso que a cannabis me funcionava, eu ficava produtiva, focada, não entrava em paranoia. Não tinha desejo por essas outras coisas. Eu preferia ir comendo pelas beiradas. Tomava uma cervejinha, ficava de boa e gostava de acordar bem. Essas coisas mais alucinógenas, ácido, cogumelo, nunca curti.

E cocaína?

Nem se fala. Eu detestava o cheiro, detestava aquela coisa prolixa, aquela conversa superpoderosa que as pessoas tinham. Convivi com muita gente que usava, claro, todo mundo teve uma época assim. Mas eu não curtia, não curto, não gosto, não uso e nunca usei. Era uma energia que eu não curtia. Eu sempre fui mais nas coisas naturais, nas coisas que você compartilha. Olha como era um baseadinho, você dava um tapa, passava para outra pessoa, dava fome. Tudo que eu gosto: comer, dormir, trocar com amigos, comunicar. O oposto da onda da cocaína. Eu via as pessoas de longe e não curtia. Nem o papo, nem a energia, nem o cheiro. Até hoje, graças a Deus.

Por que você acha que, na época da partida da Cássia, tanta gente especulou que tivesse sido overdose? Virou uma fake news enorme.

A Cássia era uma pessoa muito transparente. Nas declarações que ela dava, ela já falava que tinha tido um problema, que tinha tentado se tratar. Uma época ficou super limpa, no momento da maternidade com o Chicão. Eu comecei a tocar com ela quando o Chicão já tinha uns dois, três anos. Mas eu já via nela, nesse período, esses altos e baixos: o movimento de querer fugir das pessoas que ofereciam, de não querer mais. Ela foi tendo as recaídas, mas o movimento dela já era de não curtir mais. Quando engravidou, falou isso, declarava em entrevistas. Então as pessoas sabiam por ela mesma. Acho que ela já tinha sinalizado que estava num momento tranquilo, que não aguentava mais aquilo. Mas essas coisas vendem notícia. Antes de saber o que tinha acontecido de verdade, saíram essas histórias. Porque ela tinha tido febre reumática, era sedentária, fumava cigarro. O coração já podia estar vindo com uma série de cicatrizes de uma vida que ela teve. Me lembro dela, pouco antes de morrer, dizendo que tinha sentido falta de ar, então acho que ela já estava num processo de alguma coisa que ela não percebeu, e tudo isso desencadeou nesse sensacionalismo. Ela faz uma falta enorme. Fiquei muito sentindo também essa partida tão jovem de Preta Gil, uma menina com quem a gente fez um trabalho junto, um trio, eu, ela e Davi. Uma pessoa que eu conheci na época do Rabo de Saia, que era a mais novinha da turma e vinha acompanhar os shows. Eu fui para o Rio de Janeiro, a gente era os jovens baianos chegando, se encontrava muito, convivia muito na mesma turma. Foi outra dessas coisas que acontecem sem explicação.

E onde é que você se apega, nesses momentos de dor extrema? É na espiritualidade?

Na época que a Cássia morreu, eu vim para Salvador. É aqui que eu me recarrego, que me reconecto com tudo. Por um tempo eu nem sabia se queria fazer música de novo, tão pesado era o luto. E acho que é importante viver essa dor. Eu nunca quis tomar remédio para dormir, queria deixar o meu corpo cansar, viver a tristeza. Eu saía andando, caminhava muito. Não conseguia dormir, acordava de madrugada com o dia nascendo, a minha irmã saía comigo, a gente andava. Fui recuperando aos poucos, naturalmente, a vontade de comer, a vontade de dormir. Nessa época, eu era muito amiga da Narinha, Nara Gil, e ela me ligou porque estava acontecendo uma coisa toda com a imprensa. Eu tinha me blindado. Não tinha redes sociais, não ficava procurando notícia, porque saía muita mentira. A Narinha ligou e falou que talvez eu precisasse de um advogado por conta das especulações. E aí o Gil pegou o telefone. Ele falou uma frase pra mim que foi muito importante: “Minha filha, fique muito em paz com a sua dor.” Então eu fiquei aqui em Salvador, em paz, vivendo esse luto. É o que nos resta para entender e para seguir em frente. Quando voltei para o Rio, reencontrei aquela turma, muitos amigos que tocavam com a Cássia. E aí veio a retomada do Lan Lanh e os Elaines. Porque era o momento de se reencontrar, de se apoiar, de viver aquele luto entre amigos.

Vi que você criou umas músicas para a Xuxa numa época, mas ela não gravou, e aí você retomou esse material para um projeto infantil…

Uki Kerê Ké surgiu exatamente assim. A gente estava arrumando a casa no Rio, fazendo aquele bota-fora para receber as meninas, e a Nanda achou um monte de CDs daqueles antigos, de gravar em casa. Em um deles estava escrito “Lanlanh / Xuxa”. Ela perguntou o que era, eu nem lembrava na hora. Quando ela botou para tocar, eu pensei: caramba, isso foi em 1800. Era para o Xuxa para Baixinhos. Uma amiga diretora que trabalhou muito tempo com a Xuxa, me deu umas ideias do que ela estava buscando para o Volume 1. Eu fui pro estúdio, compus oito músicas e mandei para a Xuxa. Nunca tive retorno, ela não gravou. Essas composições ficaram guardadas. A Nanda foi mostrando para algumas pessoas, todo mundo ficava chiclete com as músicas, e ela ficava em cima de mim. Aí, vivendo esse momento de maternidade e começando a pensar no que queríamos mostrar para as nossas filhas, a gente encontrou nessas canções uma forma de fazer um audiovisual do jeito que a gente gostaria de dar para elas: com baixo estímulo, com uma arte mais artesanal, stop motion com musicinhas que a gente ouve junto. Um parceiro nosso que trabalha muito com stop motion artesanal entrou na viagem, e a gente criou esse canal de entretenimento infantil. Fizemos seis episódios e agora estamos trabalhando na próxima temporada. É também uma brincadeira em família. As meninas participam, curtem. Às vezes estou aqui gravando alguma coisa e elas falam “eu quero fazer isso”, eu deixo o microfone ligado e elas participam do jeito que querem. A gente edita e vai. Teve um momento muito lindo que acabou virando episódio: a conversa de Nanda com as meninas no dia que a gente foi deixar as chupetas pros dinossauros. Aqui em Salvador tem o Parque do Dinossauro, e a gente tinha combinado que quando elas fizessem 3 anos ia lá deixar as chupetas. Nessa noite, sem chupeta, rolou um papo. As meninas perguntaram o que é “passado”, a Nanda foi explicando. Eu gravei e a gente editou. E aí eu convidei o Luís Caldas para ser o Dino Caldas, o dinossauro. Ele topou. É uma música que eu não fiz para a Xuxa, fiz porque aquele momento aconteceu. A Nanda começou com a história, as três foram construindo juntas, e depois a gente fez a canção.

Que mais tem no baú de Lanlanh para os próximos projetos?

Tem muita coisa. Eu fiz um projeto que chama Arte é Mulher, que apresentei no CCBB antes da pandemia, durante seis meses. Era uma explosão feminista, baseado no livro Ocupação, de Heloisa Buarque de Hollanda, que fez a sua passagem agora como Imortal da Academia Brasileira de Letras. Um time só de mulheres, tanto na técnica quanto no palco. Era um musical lírico, com falas, músicas, depoimentos. Agora estou reeditando o Arte é Mulher. Escrevi novamente para o CCBB, propondo uma nova temporada. Joguei pro universo. Paralelo a isso, tem o show em homenagem ao Naná Vasconcelos, o De Lan Lanh para Naná, que assim como o Carlinhos Brown são os meus musos inspiradores, os artistas percussionistas que me incentivaram muito a fazer um trabalho próprio e personalizado. Não queria restringir essa homenagem só à Ocupação Naná Vasconcelos em São Paulo, então estou levando esse show para outras praças. E tem mais: estou bolando um super evento, um baile que eu não posso revelar ainda, mas é um baile para quem tem filho e fica com aquele vale night na cabeça, querendo usar bem. Estou criando um baile para remeter a épocas mais retrô, com música e DJ fazendo essa mistura. Tem também um trabalho que comecei aqui em Salvador, me reconectando com as minhas origens e com a música da Bahia. Conheci um violinista que toca na OSBA e também na UFBA, o Mário Soares. Fizemos um show juntos, violino e percussão, desbravando todos os mares do afro, trazendo as batidas de terreiro nesse duo. O Mário está muito ligado em tudo que estou fazendo de música agora. A gente participou um do show do outro, depois fez um show juntos, e no carnaval fizemos uma homenagem ao Luís Caldas e ao Luís Gonzaga no Pelourinho. Esse show se chama Axé pra Lua e foi puxado pela celebração dos 40 anos do axé. Luís Caldas foi o padrinho do movimento e também foi o meu padrinho na música. Então faz todo sentido.