Por Filipe Vilicic

Ao longo desta semana, começou a correr um bem-fundamentado boato de que os EUA de Donald Trump iriam classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como terroristas ou, mais especificamente, narcoterroristas. Por enquanto, não chegaram nisso, mas flertaram com essa tentação numa declaração: “Os Estados Unidos veem as organizações criminosas brasileiras, inclusive o PCC e o CV, como ameaças significativas à segurança regional em função do seu envolvimento com o tráfico de drogas, violência e crime transnacional”.
A manobra estaria ligada ao movimento de Trump de criar o Escudo das Américas, uma coalização no continente que junta EUA e outros governos de extrema direita (e só eles), como o da Argentina de Javier Milei, que no ano passado se precipitou a designar CV e PCC como terroristas. “Esse acordo teve atenção de treze países da América Latina, todos de ultradireita e totalmente alinhados aos EUA de hoje. Brasil, México, Colômbia (as três maiores nações latino-americanas) não têm intenção de participar e protegem a própria soberania”, diz o pesquisador Thiago Rodrigues, professor do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (UFF).
Rodrigues é tido como um dos maiores entendidos do assunto no mundo, tanto que foi eleito pelo AD Scientific Index, plataforma global de medição de impacto científico, como um dos 100 cientistas de maior impacto internacional na área de Ciência Política e Relações Internacionais. Ele é um dos especialistas que nos ajuda a compreender por que, diabos!, Trump tem adotado essa estratégia de chamar traficantes de terroristas.
O presidente dos EUA já fez isso com organizações criminosas do México, da Venezuela, do Haiti e de El Salvador. A Venezuela é o caso mais extremo: a manobra foi usada como justificativa para os EUA atacar o país e sequestrar seu presidente.
Para o historiador Henrique Carneiro, professor da USP e autor de livros como “Drogas: a História do Proibicionismo”, se trata de um “pretexto”: “Os EUA estão usando uma suposta acusação para fazer intervencionismo descarado em função de interesses econômicos e geoestratégicos, que vão do petróleo e terras raras, ou mesmo o controle político em sua área de influência. A perseguição ao narcotráfico serve simplesmente como um bode expiatório”.
Trump gosta de repetir que vê a América Latina como quintal dos EUA e, por extensão, latino-americanos como seus servos e vassalos. Quem não se submete, pode ser alvo. A intensificação das movimentações dos EUA nesse seu “quintal” é, portanto, por medo de perder força e influência. Isos tanto diante da própria soberania dos países, quanto diante da presença, em particular econômica, de potências que vê como rivais.
“O domínio e a ascendência maior na América Latina está ligada à concorrência com a China”, pontua o pesquisador Bruno Paes Manso, especialista no assunto das facções criminosas brasileiras, autor de obras referenciais como “A República das Milícias” e “Guerra: A Ascensão do PCC e o Mundo do Crime no Brasil”. “A China passou a ter mais influência no continente”.
Trump, hoje provavelmente o exemplar máximo da extrema direita no mundo, também quer forçar o alinhamento ideológico dos governos ao seu pensamento. Por isso, as ameaças ao Brasil estão também relacionadas às eleições presidenciais deste ano em nosso país.
“Tem um caráter ideológico importante para a ultradireita e poderia levar ao desgaste do governo Lula”, avalia Thiago Rodrigues. “A diplomacia brasileira e o próprio presidente Lula estão tentando desmontar essa pressão que está sendo feita pelo Trump e por seu Secretário de Estado, Marco Rubio, o que tem sido aparentemente bem-sucedido, e aí seria uma derrota para a extrema direita brasileira”.
Por que não é terrorista?
PCC, CV e outras organizações criminosas e máfias precisam ser combatidas pela lei e pelas polícias. E assim são! Classificá-las como terroristas só dificultaria ainda mais o combate apropriado, por meio de investigação e inteligência, e daria munição para interferências estrangeiras. Além de que, pelo ponto de vista conceitual, não faria qualquer sentido.
“Terroristas são ações violentas de grupos que são motivadas por questões políticas, religiosas e conflitos étnicos, e visam destruir um outro grupo por suas crenças mais amplas”, explica Bruno Paes Manso. Ou seja, nada a ver com o tráfico de drogas; tudo a ver com ataques como o do fatídico 11 de Setembro de 2001 nos EUA.
E onde se enquadram os traficantes. Paes Manso volta a elucidar: “O tráfico de drogas envolve o mercado do crime, do lucro, a disputa comercial e patrimonial do crime comum. Não implica em mudanças profundas no país ou em grandes guerras. É trapaça pra ganhar lucro!”. Assim sendo, é um problema a ser encarado pelo Código Penal, não por interferências e invasões militares estrangeiras.
O caminho de classificar criminosos como terroristas como artimanha para interferir em países latino-americanos não é nova, como já abordamos aqui na Breeza (leia nossa reportagem anterior para saber mais), e tem raízes no século passado. Todavia, se antes já era descabida, agora a situação é ainda pior.
Como analisa Thiago Rodrigues: “Se a nomenclatura já era divisiva nos anos 1990 e muito duvidosa nos 2000, agora é completamente descabida. O objetivo é apenas dar munição pra ultradireita latino-americana, inclusive no Brasil, para ela avançar com processos de ultrapenalização”.
Como resistir?
Como Rodrigues já destacou, o caminho da diplomacia é eficiente. Contudo, não é e nem pode ser o único. Diz ele: “Podem haver respostas mais pragmáticas, como tem feito Claudia Sheinbaum no México, planejando ações diretas do estado contra o crime organizado”.
Isso mostra que o próprio país toma as iniciativas necessárias para reprimir os grupos de traficantes, como tem sido feito (mesmo que com derrapadas e erros) aqui no Brasil. E que não tem sido realizado com eficácia, veja só, pelos próprios EUA em seu território.
“O grande tráfico é feito no próprio interior do EUA. Existe uma rede varejista de uma série de grupos narcotraficantes associados a setores financeiro”, esclarece o historiador Henrique Carneiro. “Não são pequenos botes atravessando o Caribe ou o Pacífico que vão ser os grandes veículos de transporte de substâncias proibidas”, acrescenta ela, em referência aos ataques que militares estadunidenses fizeram a embarcações civis nas águas colombianas e venezuelanas.
O conflito também é discursivo. Nos fala a pesquisadora Vitória Baldin, doutoranda pela USP e que se especializou em ativismo palestino – povo duramente atingido pelas desculpas dos EUA para gerar guerras de seu interesse econômico: “Chamar de terrorista estigmatiza comunidades inteiras (como foi feito em Gaza e pode ser perigosamente estendido a, por exemplo, favelas brasileiras). Não é uma disputa só jurídica, é discursiva”.
Como forma de resistência, ela indica “descontruir narrativas simplificadoras”: “Evitar que se estigmatize comunidades. O ativismo digital pode ajudar, pois funciona para dar visibilidade internacional e maior entendimento para as narrativas locais… mas tem seus limites. A arte, o jornalismo e a cultura auxilia na construção e desconstrução da legitimidade de discursos e questiona enquadramentos”.
Agora, convenhamos, para acabar com tantas desculpas para guerras que só favorecem uma elite ligada a Trump e aqueles que apostam nos extremos ideológicos, parece que só haveria saída definitiva noutro caminho: torcer pela mudança no governo dos EUA, o mais breve (como ao minar o poder de Trump com uma vitória democrata nas votações para o Congresso neste ano); e, aqui no Brasil, votar com consciência e sem ser vassalo de gringo.