
Bruno Paes Manso é um jornalista que há anos se dedica a estudar o crime organizado, e numa conversa com Anita Krepp, editora da Breeza, analisa como as drogas espelham os medos mais profundos da sociedade. Ele explica que a proibição nasceu de um pânico coletivo diante da desordem, da imprevisibilidade e da ruptura com tradições.
A solução, para Bruno, estaria na regulamentação — não como utopia, mas como necessidade prática. Ele destaca o exemplo do PCC, que se tornou uma espécie de “governo do crime” justamente por entender que regras geram lucro e estabilidade. Se o Estado não ocupar esse espaço, o tráfico continuará ditando as leis.
A maconha, em especial, já vive um processo irreversível de legalização, com avanços medicinais e até com outras indústrias de olho no mercado. Mas o desafio é maior: como discutir drogas sem ignorar os traumas reais de quem vive sob o jugo do tráfico e da violência?
O pesquisador não romantiza o tema. Sabe que a regulamentação esbarra em resistências, mas defende uma abordagem madura: reduzir danos, controlar a qualidade das substâncias e, sobretudo, tirar o poder das mãos de facções. O caminho é longo e cheio de contradições, mas a alternativa — manter a guerra — já se provou um desastre. E, como ele lembra, não há volta atrás, as drogas vão continuar existindo e o consumo também. A questão é quem vai ditar as regras do jogo.
No seu trabalho você investiga profundamente a violência urbana e as dinâmicas do crime organizado. Se a cannabis tivesse sido legalizada há trinta anos no Brasil, como você acha que isso teria alterado o roteiro do tráfico e da segurança pública?
Olha, eu acho que a coisa estaria, sem dúvida, melhor. Eu não sei se no Brasil, isoladamente, mas essa discussão e esse debate no mundo de uma forma geral, a minha impressão é de que por um lado, as drogas dialogam com alguns medos profundos da sociedade. A gente tem uma necessidade de ordem, de previsibilidade, de convívio entre saber o que é certo e o que é errado, as normas, e muitas vezes as pessoas associam a droga com a anomia, com o caos, com a loucura, com a imprevisibilidade. Então as drogas causam muito medo. Entrar em guerra às drogas é entrar em guerra contra o risco da desordem, contra o risco da loucura, então isso sempre foi tratado de uma forma muito emocional e muito pouco madura. Com todo esse medo da desordem que a modernidade trazia, você proibir o risco de desordem era uma necessidade urgente atávica nesse mundo moderno que acontecia, que aparecia ali pelo Woodstock, não era só no Brasil, mas no mundo de uma forma geral. Esse medo, principalmente na cultura ocidental e moderna que vinha nos anos 60 e 70, e aí você entra em guerra contra ela, você começa a proibir o uso das drogas, mas, ao mesmo tempo, as drogas continuam sendo uma demanda que faz parte da cultura hedonista, urbana que vem dos anos 70 e 80 e ela não para, o consumo não cessa. As pessoas continuam demandando diferentes tipos de drogas porque com a crise da religião, com a crise de sentido, com as crises existenciais, as pessoas buscam algum alívio ou buscam outros sentidos, que seja o prazer, e continua um mercado muito grande por ser proibido, e por ser ilegal ele se torna muito lucrativo e atrai muita gente que se financia, financia suas quadrilhas, suas armas, financiam os crimes. A questão era “Como é que a gente lida de forma madura com esses desafios em vez de entrar em guerra contra esse nosso medo?” E por causa dessa guerra e dessa imaturidade e por lidar com esses medos atávicos que a ameaça de desordem simbolizada pela droga representa, a gente teve uma solução terrível que vem gerando danos até hoje.
“Muitas vezes as pessoas associam a droga com a anomia, com o caos, com a loucura, com a imprevisibilidade. Então as drogas causam muito medo”
As drogas acompanham a humanidade desde que o mundo é mundo, o que será que aconteceu em determinado momento para que iniciasse essa guerra?
As drogas faziam parte de rituais religiosos e sempre fizeram parte do sagrado na história da humanidade. Esse contato com o sagrado sempre foi condição inclusive para o processo civilizatório das religiões que definiam a sociabilidade e a ordem inclusive social desde as sociedades animistas, indígenas, que você entrava em contato com o mundo espiritual, com os mortos, com os espíritos da floresta. Você tinha uma série de diferentes tipos de rituais, mas que faziam parte da ordem, o papel do pajé, o papel do xamã, o papel de outros líderes religiosos era parte da ordem social daquele momento, quando a gente vem com um processo de transformação. Mas aí a gente pode falar também do vinho, do álcool e de outros tipos de drogas que passam a fazer parte da civilização, e passam a fazer parte do lazer, da sociabilidade. A partir dos anos 60, começa a ter um outro tipo de relação com a droga, no pós rock’n’roll, pós rompimento com a tradição, surgimento de uma cultura jovem, da cultura adolescente, do próprio rock apresentando uma nova forma de viver, a própria juventude sendo colocada como uma forma de contestação, uma contracultura muito popular. Beatles, Rolling Stones, maconha, cocaína, e aí a coisa ganha uma outra dimensão e passa a fazer parte de um mercado muito lucrativo. A cocaína vinda aqui dos Andes, que é o único lugar onde se planta a folha de coca, tem também a heroína, que já tinha uma entrada na sociedade, mas que também começa a ganhar uma outra dimensão, assim como a maconha começa a ganhar um outro status, um outro simbolismo, uma outra relação, e ela não é mais a droga da ordem do ritual xamânico e da religião, ela é a droga da contracultura, da contestação. Ela representa a revolução, ela representa a insubordinação, o protesto, então as pessoas passam a associar a droga com essa desordem, com uma ameaça. Eu acho que é um momento realmente diferente, um outro contexto.
A gente está vivendo um momento justamente de revisão dessa guerra às drogas, com base nisso e com o que você já tem estudado, o que você diria sobre futuro da guerra às drogas, mundialmente, mas também com foco no Brasil?
Acho que a gente está numa fase muito ruim por causa da extrema direita muito fortalecida no mundo todo, então é um momento muito difícil de falar sobre isso inclusive aqui no Brasil, muita dificuldade de você trazer esse debate à tona porque você vê a extrema direita, se você vai falar sobre regulamentação das drogas, eles parecem que estão entendendo que você vai falar de desordem, de caos ou de comunismo ou de tudo que ameaça aquela tradição que deixa a vida dela mais segura. As pessoas realmente têm medo, e não só a extrema direita. Se você vai falar numa quebrada, isso eu faço muito, é sempre muito delicado você falar, porque as mães, elas enxergam você vindo de fora como um playboy branco falando com uma certa tranquilidade sobre isso, pra ela que vive o problema do tráfico e o risco do filho dela abusar do consumo de drogas e tudo isso, ela vê isso com uma grande desconfiança e com uma irresponsabilidade da sua parte.
“Se você vai falar sobre regulamentação das drogas, eles parecem que estão entendendo que você vai falar de desordem, de caos ou de comunismo ou de tudo que ameaça aquela tradição que deixa a vida dela mais segura. As pessoas realmente têm medo, e não só a extrema direita”
É sempre um tema muito difícil e você tem que abordar com muito cuidado, só que eu acho que não existe outra saída, porque o PCC, a não ser você regulamentar, o PCC, Anita, ele se fortaleceu aqui em São Paulo e deu saltos em 20 anos muito rápidos, e hoje é muito forte influenciando na economia e na política de uma forma geral. Ele é uma espécie de agência reguladora do mercado de drogas e do mercado do crime aqui no Brasil, ele cria regras pro crime não entrar em guerra entre si e passar a se financiar e ter lucros muito mais altos e custos menores, pacificando inclusive os conflitos e mediando os conflitos no crime. O PCC virou o governo do crime, ele percebeu que mais do que ser uma facção, como a mexicana, um cartel vertical, que produz e entra em guerra contra os cartéis, o PCC percebeu que ele tinha que exercer o papel de governo do crime, criar regras pra quem negocia nesse mercado, pequenos e grandes, e regulamentar esse mercado de uma forma horizontal. Quem permitiu o transporte de cocaína dos Andes pra Europa e pros cinco continentes do mundo em 20 anos como nunca tinha acontecido até então, foi o PCC, que percebeu que era necessário regulamentar esse mercado e passou a criar as regras, cobrar e lucrar muito com isso, porque é isso, as pessoas vão consumir o mercado e vai continuar existindo, o que a gente precisa é levar civilidade pras drogas. O Estado precisa regulamentar, porque a gente precisa saber inclusive a qualidade, se é boa ou ruim, definir o consumo, de repente proibir propaganda, como aconteceu no mercado de cigarros. Eu sou de uma geração que fumava muito mais, mas houve um processo de conscientização e de regulamentação que você reduziu muito o consumo, conscientizou as pessoas sobre os problemas na saúde, mas continuou de alguma maneira cobrando imposto, continuou de alguma maneira criando leis de uma forma madura, pra que as próprias pessoas fizessem suas escolhas e fizessem as suas conclusões. Levar civilidade pro mercado das drogas, levar o Estado pra esse mercado através da regulação, é você levar regras pra um lugar onde o crime tá definindo as regras e tá lucrando muito dando as regras. Em vez de entrar em guerra, você pode agir de forma civilizada.
Se a gente regulamentar todas as drogas, o que vai sobrar pro PCC? Dá pra negociar com o PCC ou você já considera que é inegociável nesse ponto?
Eu acho que tem que ser um processo de negociação permanente não só em relação ao PCC, mas como outros crimes no Brasil. Pensando mais especificamente no Rio de Janeiro. O Rio hoje tem vários grupos, Comando Vermelho, Terceiro Comando, as milícias que contabilizam o seu poder pela quantidade de fuzis que eles têm. Um determinado bairro que eu conheço que me disse que tinham mil fuzis, outro tem 500 fuzis, outro tem 400 fuzis, e eles vendem droga, eles extorquem os comerciantes, extorquem os moradores, você precisa chegar com o Estado nesses lugares, mas você não vai entrar em guerra com esses grupos, não vai iniciar uma guerra civil. Vamos supor, o Marcelo Freixo, que é um cara que levanta essa bandeira desde sempre, ganha o governo do estado, não vai dar pra ele, de repente, no dia seguinte falar “vamos entrar em guerra e vamos vencer o crime”. Não, você vai ter que começar a trabalhar uma forma de libertar essas tiranias desses bairros proibindo pelo menos que se use armas em público, atuando na redução dos homicídios, na redução dos conflitos, você não quer acabar necessariamente com o tráfico de drogas, mas reduzir a violência e libertar esses morros dessas tiranias, é uma espécie de negócio pelo uso da força, mas na redução de danos da violência desse mercado você vai definindo até onde você aceita. É algo que ao mesmo tempo vai demandar um tipo de negociação política. Claro que é necessário usar a força, claro que é necessário você pensar sobre o monopólio legítimo da força do Estado e só o Estado tem essa condição numa República, não dá pra você ceder pra outras tiranias usarem a força pra mandar num bairro, o Estado tem que buscar esse monopólio legítimo da força, mas, ao mesmo tempo, você precisa buscar pela negociação. Você vê, na Colômbia e no México passa pela negociação, mas para a opinião pública, essa negociação é complicada de você explicar o que está acontecendo. É um desafio muito grande, um desafio que parece difícil começar daqui, começar do Rio, tem que passar pelo continente, pela América Latina, tem que construir uma frente. Hoje em dia parece ser o momento da direita, ser o momento da extrema direita, o momento do medo, da desordem. A gente vê o Trump, o Bolsonaro, todos esses homens, de alguma maneira eles representam um retrocesso de 50, 60 anos como se o mundo estivesse mudando tão rápido, que as pessoas demandam por uma ordem reacionária, como se o mundo passado fosse mais seguro. Eu quero a volta ao passado porque lá eu entendi o que acontecia, a gente está vivendo esse pêndulo da história, a gente veio para o momento reacionário que depois de tanta transformação pós 2ª Guerra Mundial, pós-contracultura, pós movimento hippie, pós rock’n’roll, pós-feminismo, a questão de gênero, as transformações no emprego, industrialização, a questão da internet surgindo, as redes sociais, tudo aparecendo com muita força e a gente não tem uma perspectiva do que vai ser no lugar disso. Acabou a industrialização, acabou o emprego, a gente não sabe mais o que vai ser quando crescer, qual é o emprego e qual é a nossa identidade, porque os empregos perderam sua força, a IA está aí substituindo tudo com muita velocidade, as pessoas estão muito inseguras e elas pedem um mundo reacionário, que volte ao passado como o o Irã pediu os califados pela ameaça da modernidade. A questão de ordem e desordem é sempre muito importante para entender esses movimentos, e a gente está nesse movimento de busca de ordem, então parece meio difícil nesse momento do pêndulo da história, a gente falar “vamos liberar as drogas”. Vamos pensar sobre como negociar, mas é necessário argumentar, é necessária uma disputa permanente na esfera pública para você desconstruir o medo e levar racionalidade e maturidade ao debate das drogas, que é sempre o nosso desafio, a gente aqui trabalhando com essas questões por mais que seja um momento desfavorável, não tem outro caminho.
O mercado legal da cannabis cresce a todo vapor enquanto tem gente encarcerada por fazer o mesmo. Você acha que existe alguma maneira de fazer uma reparação social pra quem sofreu com essa proibição?
Depende do caso. De repente o cara pode ser um traficante, mas eu acho que o problema do tráfico não é nem a venda, o problema do tráfico é a violência, e por isso que quando a gente fala de tráfico, a gente fala de redução de danos. Então de repente é um traficante que exerce uma tirania numa quebrada, tem vários fuzis, ameaça de morte quem não aceita a liderança dele, às vezes ele tem conflitos com os outros traficantes e ele também vende cocaína, ele também vende crack, uma situação muito delicada e é sempre um comércio muito complicado justamente por conta da mediação da concorrência nesse ser feita pela bala, por conta de ser proibido. O PCC tentou regulamentar isso criando formas de mediação e por isso cresceu tanto, porque ele percebeu que em vez da gente ficar em guerra contra a gente mesmo, vamos criar regras pra chegar nas fronteiras e ser um player internacional. Aí você vai comprar governo, você vai comprar polícia, você vai entrar em conflito. Acho que é uma discussão aceita, mas ao mesmo tempo é uma discussão que gera muita resistência, por boas razões como essa que eu estou te falando, que muitas vezes envolve outros crimes, e que vai criar uma resistência muito grande das pessoas, que já é grande por causa de tudo isso que a droga implica, então eu acho que a gente tem que pensar também ao mesmo tempo, estrategicamente no debate político.
“O problema do tráfico não é nem a venda, o problema do tráfico é a violência, e por isso que quando a gente fala de tráfico, a gente fala de redução de danos“
Como é que a gente desconstrói o medo nesse debate político, como é que a gente amplia a racionalidade nesse debate político, como é que a gente leva a discussão pra uma maturidade que ainda não tem? Tudo isso é válido, mas eu acho que a gente não tem que também deixar de lado a realidade. Tem que ser em cima da realidade, e eu acho que o maior problema de segurança pública é a covardia, geralmente de homens armados, querendo impor suas vontades sobre quem não tem arma e quem quer levar a vida de uma forma diferente; e isso eu acho intolerável, essa covardia armada que pode ser de traficante, pode ser de miliciano, pode ser de policial, mas é de muitos traficantes e de muitos criminosos que controlam o território. É um drama grande e a gente tem que lidar. Claro que com negociação, mas com força também, porque se deixar, eles vão querer bater de frente, eles não vão aceitar. No debate a gente tem que sempre demonstrar que a gente sabe o problema, a dimensão do problema, e o problema no tráfico implica justamente os diversos outros crimes, inclusive de armas e fuzis e conflitos que o tráfico promove. Então eu acho dá pra ter, dá pra falar em reparação social principalmente talvez nos vendedores de maconha, mas enfim, às vezes implica uma outra classe, talvez seja uma discussão até muito da Europa, não tanto do Brasil, talvez. Eu acho que tudo dá pra discutir, mas ao mesmo tempo eu acho que a gente nunca tem que perder a dimensão social disso, e os medos, e as paixões que isso implica.
Você tá a par de como essa discussão, por exemplo, falando da legalização ou da regulamentação dos vários usos da maconha, tá sendo recebido por quem hoje trafica?
Olha, eu acho que não faz parte muito da preocupação do dia a dia porque a preocupação do dia a dia é sempre muito vinculada aos desafios imediatos de ganhar dinheiro no crime. Por exemplo, da mesma forma que a milícia não estava preocupada com a eleição do Bolsonaro, estava preocupada em não pagar o delegado que recebe todo mês uma quantia pra eles poderem invadir uma área protegida ambientalmente e tudo é feito pela base da força, conseguir mecanismos pra lavar dinheiro, formas de você conseguir lavar dinheiro. Como os traficantes atuam na ilegalidade, pra eles a política e a legalidade não fazem parte das preocupações imediatas, porque eles já têm formas muito sofisticadas de ganhar na ilegalidade e de crescer na ilegalidade, como eles vêm crescendo, então claro, você pode ter um ou outro atento, mas eu acho que isso não faz parte da preocupação cotidiana deles. Você tem o PCC entrando na política, isso tá acontecendo. A milícia tá entrando na política, mas não pra debater essas coisas, eles estão entrando na política pra se apropriar de empresas de ônibus, pra se apropriar de organizações sociais, pra lavar dinheiro com essas empresas, entram pra lucrar e entrar na legalidade, mas na legalidade de uma forma disfarçada, comprando uma empresa de ônibus, lavando dinheiro com empresa de ônibus, não pra tornar o negócio deles legal.
Quando o Brasil enfim regulamentar o uso recreativo da maconha, o que você acha que acontece?
Eu acho que isso você já deve estar sabendo mais do que eu e deve estar acompanhando mais de perto do que eu, os desdobramentos do que aconteceu em alguns lugares que fizeram isso e que está tendo já uma história pra ser contada. Eu acho que existem avanços, existem problemas que continuam e nada é ideal. Acho que provavelmente vai ter um mercado ilegal mais frágil, não tão forte como antes, você vai ter mais capacidade do Estado de estar presente e de estar acompanhando o que está acontecendo. Me parece que você também não soluciona o problema do dia pra noite.
Se o Ministro da Justiça te chamasse pra estruturar uma nova política de drogas no Brasil, qual seria o seu primeiro ato?
Vou até bater na madeira aqui, isolar pra que isso não aconteça, porque é um desafio muito grande, imagina a série de pressões e de dificuldades que você tem. Mas o que eu tenho falado é que eu acho que se eu fosse trabalhar nessa questão de segurança pública, óbvio que não daria simplesmente pra você mudar a legislação do dia pra noite, mas eu acho que pra trabalhar no pronto-socorro eu trabalharia com a redução de danos do tráfico de drogas, reduzir os homicídios em primeiro lugar. Então se tem traficante numa quebrada que mata muito, e você consegue fazer isso a partir da medição das taxas de homicídios, você faz uma dissuasão focada, você fica com a polícia dois, três meses nesses lugares passando informação de que traficante que mata vai quebrar e vai ter prejuízo, e aí você começa de alguma forma como já aconteceu aqui em São Paulo e no Rio, promovendo uma compreensão de que matar atrai polícia e diminui os lucros. Você trabalha com essa racionalidade do mercado da droga reduzindo ações violentas a partir de uma dissuasão focada.
“Você trabalha com essa racionalidade do mercado da droga reduzindo ações violentas a partir de uma dissuasão focada”
Segundo, eu diminuiria a letalidade policial, atuaria para redução urgente da letalidade policial, porque a letalidade policial é sintoma do descontrole da polícia, e uma polícia descontrolada, ela passa a fazer parte do crime e passa a vender a vida e a morte no crime como aconteceu no Rio de Janeiro, como aconteceu no mercado das milícias. Você tinha uma polícia violenta, todo mundo aplaudia, eles começaram a ser contratados pelos bicheiros para serem assassinos especializados e viraram o diferencial da cena do crime no Rio de Janeiro. Reduzir a letalidade significa você reduzir o descontrole da polícia e reduzir a força dessas quadrilhas, que com a polícia eles ficam muito mais fortes. E uma atuação mais inteligente, com compreensão do funcionamento dessa indústria, das drogas mais danosas, para você agir mais estrategicamente na redução dos lucros, das lavagens de dinheiro e na forma que eles se comunicam da prisão com as quebradas, uma forma também mais estratégica e mais madura das polícias de lidar com o problema e não ficar nessa guerra ao crime nos bairros pobres como tem sido nos últimos 40 anos. Antes de mudar a legislação e antes de ter esse processo político continental ou mundial de repensar a regulamentação das drogas, a gente tem que atuar na redução de danos e na redução da violência do tráfico de drogas.
Como pensa o narcotráfico hoje?
Eles estão entrando no sistema, estão hackeando o sistema, não estão mais batendo de frente com o sistema, porque eles são o sistema hoje. Eles perceberam e estão dentro, estão ganhando dinheiro, estão na igreja, compartilham com várias ideias de ostentação, de consumo, influenciam atuando com influenciadores, fazem rifas, compram Ferraris, Porsches, estão em empresas de ônibus estão em organizações sociais, financiam políticos… Aí você vê um candidato, um coach super famoso, que tem um monte de amigo da facção e ninguém liga mais, ninguém se escandaliza e ninguém vê isso como problema, porque ele está gerando dinheiro. Eles não precisam mais bater de frente com o sistema porque eles são o sistema.
Qual o maior mito sobre drogas que ainda persiste no jornalismo mainstream?
Não diria que é mito, mas eu acho que a grande questão que a droga desperta decorre do fato de você associar droga com vício, associar a droga com você deixar de ter uma vida digna a partir do momento que você usa a droga, ou uma vida voltada a um sentido coletivo, pra você se voltar a um sentido de só consumir mais droga, ficar viciado e ser um escravo da droga, e o pai perder o filho que se torna escravo da droga, e a droga sendo uma ladra dos sentidos da vida porque elas produzem vício, e a pessoa deixa de viver com os laços coletivos de família, de amizade e passam a ser escravos da droga, como se passassem a viver numa cracolândia, todo mundo que consumisse droga. Esse é o grande medo das pessoas. Eu acho que não é brincadeira, é necessário saber administrar o uso e o consumo da droga. É muito fácil nesse mundo de ansiedade, de crises existenciais e de rede social, e de esvaziamento de sentido, você se perder e de repente encontrar uma fuga por um tipo de substância, porque você não aguenta mais o mundo. Mas, sim, o mundo tá pior, sim, o mundo tá mais vazio, sim, a gente precisa buscar outros sentidos, sim, a droga também pode te ajudar, sim, a droga também pode fazer parte da busca por sentido, mas também é perigosa. Mas vamos conversar de uma forma mais madura. Isso vai continuar sendo usado, então como é que a gente vai administrar isso? Como é que a gente vai pensar sobre esse uso? Da mesma forma, tem a psilocibina, tem o MDMA, tem os calmantes, tem um monte de drogas que são usadas pelas farmácias, as drogas de dor crônica, que causaram a maior epidemia de overdoses na história dos Estados Unidos, mais de 100 mil mortos num ano por causa dos opióides. Então como é que a gente administra isso? Como é que a gente fala sobre isso? Como é que a gente fala das questões existenciais? Como é que a gente fala das questões espirituais? Porque passa por isso também, de você preencher a sua vida, não ter uma vida vazia. E como é que você preenche a sua vida além de você mesmo? Conectado com o coletivo. E muitas vezes passa pela droga, o santo Daime, por exemplo, ajuda a se conectar com uma coletividade.
Você acha que a legalização da maconha pode ser uma realidade daqui quanto tempo?
Maconha eu já vejo como realidade, principalmente agora aqui no Brasil, a cannabis medicinal já teve um avanço muito grande. Tem uma questão da maconha ser uma droga diferente, ter todos esses usos medicinais que estão provados que ajudam a uma série de casos e você já tem uma indústria entrando. Quando você tem todo um setor financeiro, industrial se interessando a respeito, as próprias empresas de cigarro estão entrando nessa indústria, você já tem ações sendo vendidas. Eu acho que óbvio, é difícil prever o futuro, ainda mais nesse momento, de caretice e de tudo isso que a gente estava falando, mas me parece que o debate sobre a maconha, mesmo o uso recreativo de maconha comparado com o que já foi e vindo da Europa, dos Estados Unidos, já houve uma desmistificação do que há 30 anos representava, muita gente aceita a maconha, muita gente já vê com outros olhos.
One thought on “Bruno Paes Manso: “As drogas dialogam com medos profundos da sociedade””
Os comentários estão desativados.