Saindo da estufa

Renato Freitas: “Não sou canabizeiro, sou maconheiro”

O deputado estadual Renato Freitas, do PT do Paraná, nos abre o jogo sobre ser “maconheiro”, “não canabizeiro”, e faz diversas revelações, do hábito de cultivar em casa aos planos de construir uma associação de plantio para pacientes de cannabis com trabalho de egressos do sistema carcerário.

A entrevista para Anita Krepp e Filipe Vilicic, editores e fundadores da Breeza, foi ao vivo em nosso estúdio na ExpoCannabis, cinco dias antes de viralizarem vídeos do deputado em uma briga de rua em Curitiba. Sua posição de enfrentamento é demonstrada em diversos pontos da entrevista.

O deputado demonstra vontade de agir publicamente a favor do plantio da cannabis, que na entrevista ele conta, em detalhes, como já testou em sua casa, até agora sem muito sucesso: “O que a gente quer? Que os egressos do sistema carcerário tenham um protagonismo na associação de cultivo (…) nós vamos poder fumar nossa maconha na cara da classe média, branca, hipócrita, de Curitiba. Isso vai ser uma vitória!”. 

Seu plano, motivado por uma conversa com a associação Flor da Vida, é criar um coletivo com direito a plantar cannabis medicinal para pacientes em situação de vulnerabilidade. O trabalho seria realizado por egressos do sistema carcerário. “A gente tem que começar a ganhar dinheiro com o plantio da maconha, eventos como este daqui (a ExpoCannabis) têm de ser mais negros, enegrecidos, denegridos. Enquanto isso não ocorrer, a maconha que nós fumamos vai enriquecer outros bolsos e outras políticas”.

A conversa super franca pode ser ouvida como podcast e vista em vídeo no Spotify e no YouTube. A ação de entrevistas em vídeo da Breeza tem apoios institucionais da Philip Morris Brasil, apoiadora também do Guia da Boa Breeza, e da Flora Urbana, que está com a gente na nossa coluna A Semente.

(Filipe Vilicic, FV) Renato Freitas é símbolo de ir direto ao ponto, já chegou aqui pedindo gummy, dizendo “sim, uso maconha”. Deputado, eu vi um vídeo seu na Marcha falando de legalização, de como seria solução pra menos violência, mais inclusão, arrecadar mais dinheiro com impostos. A gente vê aqui na Expo que todo mundo usa, eu uso, um monte de gente usa. A legalização parece que existe pra alguns, né? Como vê o processo de legalização no Brasil e o que o Estado pode fazer por isso? Como vê essa hipocrisia de que aqui tá todo mundo fumando um, enquanto no Rio de Janeiro tem gente que toma tiro por isso, né?

Primeiro, satisfação total de poder trocar essa ideia num evento tão grande, estou aqui pela primeira vez, então tô impressionado. Olhei e falei “caralho, então eu não sou o único maconheiro no Brasil?” (risos). Fiquei espantado, muito massa, daora, isso mesmo, a luta contra a ignorância e contra os tabus é sempre uma luta de preservação da vida e do bem viver, porque a ignorância é inimiga da vida e aliada de mentira, e a mentira não dá bons frutos. Então, que não coloquem as mãos nas nossas sementes, porque os frutos da cannabis, ou melhor dizendo, da maconha… Eu não fumo cannabis, filho, eu fumo maconha. Não sou canabizeiro, sou maconheiro. Mas, claro, minha mãezinha poderia estar lá com a cannabis dela, uma gotinha lá pras situações dela e assim por diante. A planta é maravilhosa e a criminalização dessa planta na história de nosso país se demonstrou de caráter absolutamente racista, pois se proibiu o pito do pango, sem saber o que era de fato a substância, sabendo apenas que era da tradição dos negros usar e, para controlá-los, proibiram. Faz da questão uma questão penal, pois quando faz da questão penal, coloca a polícia nas jogadas, as armas, a ameaça de morte, o poder sobre a vida, o núcleo da política, do soberano em relação ao súdito, do presidente ao cidadão comum. O poder que ele tem, o soberano, sobre a sua vida. Proibe da forma mais radical.

Olha que curiosidade, a primeira vez que os EUA, que é quem lidera e protagoniza essa falsa Guerra às Drogas há muito tempo, a primeira vez que eles proibiram alguma droga, foi lá quando na virada do século XX os chineses fizeram uma alta imigração para a região oeste, o far west, da expansão deles, matando os índios. E de repente vê o Jackie Chan no filme e você “caralho, o que tem a ver o Jackie Chan lá com os indígenas, os caras?”. Tem a ver porque os chineses estavam lá, muitos deles construindo ferrovias nessa expansão. E os chineses começaram a se organizar por conta das más condições de vida ali e o governo local pensou “temos de desmobilizar os chineses, então coloque os chineses na pauta do direito penal, criminaliza condutas deles”. Criminalizam duas condutas: Uma, fazer o uso de ópio; Segunda, proibiram criminalmente os usos das tranças na nuca, referência a uma identidade, um pertencimento, uma devoção ao barato deles lá, imperador, religião, não sei , essas fitas, mas é a cultura dos caras. Criminalizam a conduta dos caras em duas dimensões, uma não se consagrou com o tempo, porque se mostrou absurdo criminalizar religião, posição política, pertencimento nacional, mas a outra, que é a questão das drogas, por conta do tabu e da falta de informação, se perdurou no tempo como estratégia especial de combate e principalmente de dominação permanente de massas empobrecidas e dominadas pelo colonialismo.

(Anita Krepp, AK): Até onde eu saiba, deputado, você é o único político (eleito) que se revela maconheiro, né?  

(FV) Não só se revela, mas chega chegando e batendo no peito “sou maconheiro”.

(AK) – Por outro lado, falta tanta gente entender dentro da política, sair da estufa. Como a gente pode, os políticos, atuarem sobre isso? Como você, deputado estadual, pode atuar? Essa é a edição da Expo com maior participação de parlamentares. Qual é o caminho da cannabis para garantir que esse julgamento da cultura negra deixe de acontecer?

É muito importante de fato os parlamentares botarem a cara no Sol. Tem de parar com essa mania de traguei, mas não fumei; fumei, mas não traguei; traguei, mas não chapei. Ah, para com isso, filho (algumas palmas do público que passava na ExpoCannabis). Qual é o problema? Tá jogando pra torcida? Se for jogar pra torcida, você vai estar sempre seguindo uma manada. E muitas manadas, a maioria delas, e a do bolsonarismo hoje é um exemplo, rumam sempre para um precipício. Tem de botar a cara no Sol. Se os outros vão achar que é um defeito seu, que seja o seu defeito. Seja real. Embora obviamente não é nenhum defeito, não ligue, não encare. Lá na virada, o tempo é rei, aquela Dona Maria que aprendeu na igreja que a maconha era coisa do diabo, lá na virada ela vai ver você fortalecendo a comunidade, dando comida a quem tem fome, dando oportunidade a quem tá caminhando e depositando uma esperança pros olhos da criançada. E acalentando o coração dela mesma. E vai chegar à conclusão óbvia de que o uso ou não da planta não é uma coisa moral, e vai simplesmente, como nós, naturalizar. Essa coisa de “meu Deus, olha só o cara fumando maconha”, e ali tá um jovem, um adolescente. A gente cria esse espectro, essa maldade. Mesma coisa da nudez, “olha só, uma pessoa nua!”. Cara, tua filha tem 2 anos , ela vai te ver nu, vai ver a mãe nua, isso nem é uma informação… né (dá de ombros)? Agora pros adultos, caralho, a nudez, por quê? Os vícios, os tabus, os próprios medos, as inseguranças… é isso que levam também pra maconha, como os deputados fazem.

Mas quero voltar na sua pergunta porque eu quero falar disso. É o seguinte, a gente tem de fazer isso, dar o exemplo e o tempo resolve muita coisa, desde que a gente tenha coragem. A vida da gente é coragem, é matar no peito. Agora o que nós não podemos fazer, e a meu ver acontece muito, é a pessoa botar a cara no sol e falar “eu sou a favor do uso do canabidiol, não sei o que, para aquela doença rara, que aquela criança tem, se não topar… beleza, ganhou todo mundo, de fato. Agora, você não deu um passo, pelo contrário, mistificou o barato. O problema do THC não é o mesmo da maconha? A gente tem de assumir a dimensão mais popular, resistente, que se afirmou como tradição no nosso país, que é a tradição do maconheiro velho. Seja entre os indígenas, seja entre os nossos, o preto véio. A maconha chegou até aqui assim, sem medo de se apresentar.

(FV) Você fez até um paralelo muito interessante, que se faz, que é da repressão do sexo, que teve muito nos anos 90, com a repressao às drogas hoje. Ao sexo, digo, a gays, com relação a Aids, essa perseguição hoje se emula com maconheiro (brisei aqui um tanto nas conexões, mas tem uma reportagem nossa que tem umas linhas sobre o tema). Isso pra chegar no tema da perseguição, na sua biografia você foi perseguido muitas vezes. Teve prisão numa baderna que só você foi preso. Teve perseguição desde berço, na história da sua família. Como reage e resiste?

Eu tenho meus rituais de salvação, “eu me sinto às vezes meio pá, inseguro, que nem um vira-lata, sem fé no futuro” (canta o rap do Racionais MC’s ). Minha espiritualidade se dá muito na música, me conecto com a música, com o rap, com o reggae, com o samba, com a capoeira. Músicas assim me fortalecem em espírito. No final da tarde, coloco um som, estouro aquela bomba, ta ligado? , e me permito apertar o pause e pensar os meus próprios pensamentos, que não são respostas imediatas aos milhões de estímulos que o dia nos impõe, segundo por segundo, como se fosse uma chuva ácida a corroer sua autonomia, sua liberdade de pensamento, porque você tem de sobreviver. 

(AK) Seguindo no tema da repressão, eu queria muito que você comentasse essa situação de Santa Catarina, o que tá acontecendo, essa bizarrice, onde estão multando os usuários maconheiros, que comentasse e também aproveitasse para explicar como cidadãos e maconheiros podem lutar contra isso, contra essa opressão do estado?

Pra você vê, né?, a aposta na ignorância tem sido sempre uma aposta vencedora (risos do deputado, em tom de ironia). Pelo amor de Deus! O populismo de agora constrói figuras caricatas e nanicas como Nikolas Ferreira e que tais, enquanto a verdade incômoda, que corrói a ferida para cauterizá-la, é colocada numa posição até bélica, de enfrentamento bélico, violento. Porque esse tipo de criminalização não é só ode à ignorância, à hegemonia da ignorância, ao império da ignorância. É também a ameaça da ignorância sobre a lucidez. Porque é um direito individual fazer o uso de qualquer planta, porque não pode criminalizar uma conduta que não tem um bem a ser garantido. Qual é o bem se você não está fazendo nada a ninguém, filho? Ah, mas é contra ele mesmo. Então como algo ultraprocessado, com um monte de bacon, e bagulhos cabulosos… (faz gesto de comendo um fast food) vai vir um agente do governo pular na frente e falar “você vai tirar uma cadeia hoje, só pra ficar esperto! Se eu te ver de novo nesse cachorro quente aqui, filho, você vai pra cadeia”. Então não vem com esse papo de louco, quer me controlar? “Nesse mundo, camará. Mas não há, mas não há, mas não há quem me mande. Eu só sei obedecer. Se mandar, se mandar, são bento grande“ (trecho de música de Paulo César Pinheiro). Então a gente diz não, né?, tá ligado.? E Santa Catarina apostou na ignorância, nesse pessoal.

Olha, minha mãe falava bem assim pra mim. Outro dia, minha mãe falou bem assim pra mim. Minha mãe, Dona Raimunda, veio do sertão da Paraíba… daquelas tradições, né, mano? Fugindo da miséria, da seca , da fome, discriminada no seu caminho. Eu falei da maconha e ela… (imita a mãe) “Quando eu era criança, falavam que se entrasse a fumaça da maconha pela fresta da porta, falavam que você tinha problema, podia nunca mais voltar, poderia morrer”.  Sabe uma coisa bem violenta? Meu, o maconheira era como comunista. Seu maconheiro! Seu comunista! Mais ou menos a mesma pegada, tá ligado? Acabava com a humanidade do cidadão. Comunista, maconheiro, duas ideologias, né, mano? Comunista perseverou. Maconheiro, nois voltou, com mais força, e conquistou. E hoje essa ofensiva apostando nesse populismo, a gente tem de enfrentar. Botar a cara no Sol é a única estratégia possível. Botar a cara no Sol! O fascismo botou a cara no Sol, porque os maconheiro não vai botar, filho? Então, passa o baseado.

(FV) Uma coisa que a gente fala aqui, temos até o Guia da Boa Breeza, a gente tá distribuindo pra galera de graça (na ExpoCannabis, com apoio institucional da Philip Morris Brasil), e que trata do uso responsável. Um conhecimento não tão difundido, mas agora a Sâmia Bomfim tá querendo regularizar a profissão de redução de danos. Pra você, como usar de forma responsável e como fazer políticas públicas que liberem, mas também dão apoio a quem precisa de ajuda, de um auxilio da saúde pública?

Essa é a grande questão que tem de ser tratada, esse é o princípio, tem de partir daí. A gente tem de superar esse paradigma punitivista arcaico, obscuro, que visa controlar as pessoas, e não discutir o uso. O uso é certo, o proibicionismo é um fracasso desde seu início, não conteve a produção, a circulação, a mercantilização, a venda, muito menos o uso. 

(AK) Inclusive, até expandiu, né?

Expandiu o uso. Promoveu como fator extra, pois se legalizado não ocorreria, promoveu violências de dimensões jamais vistas pela história moderna da humanidade. Só ver que 40% da população carcerária brasileira, que é a terceira maior do mundo, é composta por pessoas que estavam portando drogas, normalmente em pequena quantidade. Grandes traficantes não são presos, nós sabemos. E promove a corrupção dos agentes estatais porque torna o mercado muito rentável e, sabemos, não somos inocentes, os parlamentares, o Congresso, não são lá aquele exemplo de honestidade. São, por incrível que pareça (diz de forma irônica)… alguns, alguns, alguns… são corruptos. Sei que isso não é colocado na ordem do dia pra debater a legalização porque ninguém tem coragem de utilizar a lógica mais simples possível: a proibição gera essa corrupção, que gera um interesse por parte do sistema. Olha para os bancos, chegou no tráfico pela primeira vez , com a PF, que já foi atacada pra perder suas atribuições, como reação imediata. Na primeira investigação pra prender (faz gesto com a mão mostrando quem tá em cima, no topo)… quer combater crime, o tráfico? Vamos pegar os peixes grandes. Chegou onde? Brancos, fintechs, Faria Lima, os bonitos bem nascidos com cheirinho de hipoglós. Mas não era o neguinho, sem pai, lá do fundão, de bermuda e chinelo, com vinte buchas de pedra na bochecha, de cada três que vende usa uma pois é dependente desde os 11? Não era ele o protagonista, o vilão que precisa ser eliminado para que tudo volte à ordem? Ou seja, há interesses muito fortes que promovem essa criminalização aí e a gente tem de combater isso. Colocar a cara no Sol. Nem lembro o começo da pergunta… maconheiro, né?

(FV) Então bora pra próxima (risadas).

(AK) Deputado, eu tô, assim, muito curiosa de conhecer as suas técnicas pessoais de redução de danos . Antes disso quero entender qual é sua sesh preferida, se curte essa coisa de extrações e tal, ou se gosta de bolar o baseado no papel com filtro de cartão e isso. Conhecer suas estratégias de redução de danos.

Primeiro, da questão passada, não se discute o uso, se discute o abuso, ponto. Vencido isso, como se discute o abuso? A redução de danos e outras estratégias mais. As minhas, a gente tem essa mania (fala com amigo), bolar baseado sem filtro e pá. Hoje, não, hoje vou te falar, pego o papelzinho ali, faço o barato, a piteira e pá. Fica um artesanato que demanda uma calmaria, já faço um processo que vira um ritual também. De redução, coisa de louco, tem o fator mais importante que tava esquecendo, a piteira é mero acessório. Que envolve toda essa discussão, que envolve toda a complexidade da discussão e a necessidade da legalização. Hoje eu tenho o privilégio, que quase ninguém tem, mas eu tenho, de usar a planta natural, saudável, conforme os ditames da natureza, sem a intervenção desastrosa, acidental ou até maliciosa do ser humano nesse processo, que dá também de uma forma, uma energia cabulosa, não precisa ser assim. Não precisa ser aquele prensadão do Paraguai com o sangue, do moleque, guarani, indígena, do moleque que tava ali tentando atravessar a ponte. Podia ser socorro imediato, CPF na nota, a farmácia é uma biqueira com CNPJ.

(AK) Recolhendo impostos

Recolhendo impostos.

(AK) Pra reverter em Saúde, Educação, a gente tá precisando.

Claro, o remédio é encarado como? Por que todo remédio faz um efeito colateral, tem bula que é pra isso. Mas o remédio é um redutor de danos, é uma droga que vai no teu organismo para reduzir seus danos. E a forma natural de usar maconha natural é a redução que as pessoas precisam, primeiro ter acesso à planta, à planta, ponto. As pessoas não tem. A maioria dos maconheiros, das quebradas brasileiras, digo por experiência da minha vida, agora tô fumando (flores), mas quando fumava (no passado) era o que aparecia. Com o cheiro e a cor que tinha, e mudava bastante , e isso não é legal. Vai fazendo mal cabuloso, acabando com o organismo, capaz!, vai ficar permanentemente longo período da sua vida consumindo uma química que não sabe o que é (o prensado)? Sai fora, filho., cê é louco?!? Essa é a principal medida que eu tomei e se não tiver uma luta pra isso, pelo plantio, pelo uso individual, não vai haver uma redução de danos verdadeiro, porque os apetrechos, se o cara não tem dinheiro pra comprar maconha, não tem dinheiros pros apetrechos, só a seda. E quando aparecer alguma coisa ali, talvez.

(FV) Quando se começou com esse processo de regulamentação, legalização, começou por essa questão de linguagem. Como até você falou no início, uns chamam só de cannabis medicinal, outros maconha, ganja, diamba. Aqui na Breeza protegemos que maconha é maconha. Queria saber sua opinião como político, que representa, de porque tem essa questão da linguagem, inclusive na Câmara?

É um discurso que quer dourar a pílula. Ouça, a pílula é natural, é uma planta, é um chá, faz bem. Por que quer esconder? Por que quer colocar outro rótulo? Por que quer deixar palatável? E, principalmente, palatável pra quem? Ah, para aquela classe média branca, que hegemoniza o barato, que tem as empresas e CNPJ, cujas mães têm tabus que vem da Igreja Católica antiga, e que pra essas pessoas o único modo é demonstrar que os filhinhos das crianças que têm problemas de saúde podem ser tratados com cannabis medicinal. Enquanto eles pegam esse caso, que é necessário, obviamente, mas é extraordinário, uma exceção, eles escondem a regra. A regra é nóis, preto, pobre, de quebrada, fumando um, trocando uma ideia, e às vezes sendo humilhado, agredido, preso, algemado… eu fui algumas. 

(AK) Por conta de maconha?

Eu tenho ali umas 16, 18 passagens, pelo menos umas 4 por conta de maconha. As outras são por desacato e desembolo, porque nós não leva pra casa, não. Nós é igual, não é menor, não. Então pra não ser menor, a gente tem de lutar, nós paga o preço que tiver de pagar, pois é o preço que tem de pagar pra colocar o nome maconha, maconheiro… (risadas) eu sou maconheiro.

(AK) Olha, e eu queria saber de sua qualidade como jardineiro.

Eu sou uma pessoa sortuda, porque eu fui no Mídia Ninja, o pessoal ali, salve Mídia Ninja, sem palavras os mano, mil grau, as mina mil grau… nas verdade, peguei umas sementinhas, tava com Carlinhos, meu parceiro, e só joguei, despretensiosamente. Aí vingou duas plantonas, mas daí, putz, tentei regar todas dicas, o Sol tava bom, tirei, coloquei um pouco no vento, ela cresceu, mas ficou feinha, coloquei no vento…

(AK) Tem de estressar a bichinha. 

Aí nessa o que aconteceu? Tive de emendar umas três agendas, três estados, assim, cara. Putz, meu pessoal, não deu, já. Minha mãe também chegou, eu deixava na sacada, quem não quiser que não fume, mas minha mãe chegou, pegou e deixou escondidinha no banheiro lá da frente. Aí o bagulho não ajudou muito. Ah, minhas plantas, minhas experiências. Por enquanto! Estamos bolando um plano de fazer associação!

(FV) Conta mais.

É, então, Núcleo Periférico. Pra quem não tá ligado, nosso coletivo, um coletivo preto e periférico, das quebradas de Curitiba e da região metropolitana, que tem como bandeira direito à moradia, urbanização, esgoto, saneamento, canalização de rio pra evitar enchente, o básico lá na quebrada, luta contra o racismo, principalmente pela linguagem cultural. Cada um é um artista, cada um faz uma arte, é arteiro, pelo menos (risadas). Aí é o seguinte, a gente foi construindo com o tempo um coletivo maior, cada vez mais forte, e aí que me candidatei a vereador e depois a deputado etc. A gente atua com a população negra de modo geral, com a a população em situação de rua, com os imigrantes, com as mulheres em situação de violência, egressos do sistema carcerário, e é aí que eu queria entrar, porque por lidar com os egressos do sistema carcerário, a gente tem o Sol da Liberdade, que é o núcleo dentro do núcleo, que a gente lida com direitos humanos, na cadeia, pá, os bagulho, nós fecha fechado na garantia do direito fundamental de não ser assassinado, não ser torturado, não ser abusado, que é lá, né?, mano, na madrugada dentro de uma cela, por conta de maconha muitas vezes, você pode ser humilhado e perder a sua vida, nós luta por isso. O que a gente quer? Que os egressos do sistema carcerário tenham um protagonismo na associação de cultivo e uso do Núcleo Periférica, que se Deus quiser, e Ele quer e nós tá correndo, vai ter muito associados e nós vai poder fumar nossa maconha na cara da classe média, branca, hipócrita, de Curitiba. Isso vai ser uma vitória!

(AK) Já temos previsão de quando, local, como surgiu essa ideia?

Surgiu lá do Mídia Ninja. Surgiu dos manos do… semente da vida, como é?

(AK) Flor da Vida?

Flor da Vida, hein?, Flor da Vida. Os mano mil grau, os mano deu atenção pra nós, explicou o processo, coisa que a gente não sabia. A gente é maconheiro leigo… era, já não tâmo tanto assim mais, não, mas a gente era maconheiro leigo. Aí os mano foi mostrando o processo, falou como foi o deles, tanto do processo do cultivo, das condições, das manhas, dos meandros, da afetividade com  a planta, quanto do caminho burocrático formal, que não é acessivel. Olha, me formei em direito e não sabia da caminhada, qual é. Percebi a caminhada e percebi “isso é possível”. Primeiro, ponto, isso é possível. Território pra cultivo e espaço? É possível. Gente nossa só pra isso? Vai ter também. E qual vai ser a função cumprida dentro da associação, não pode dar deixa pra inimigo? “Renato Freitas quer fumar maconha e reúne gente pra plantar”? Não é assim. Várias fitas, mil fitas, e uma delas é re-pa-ra-ção.  A gente tem que começar a ganhar dinheiro com o plantio da maconha, eventos como este daqui (a ExpoCannabis) têm de ser eventos mais negros, enegrecidos, denegridos. Enquanto isso não ocorrer, a maconha que nós fumamos vai tá enriquecendo outros bolsos e outras politicas, também. Então é reparação, colocar o irmão preto, pobre, que tirou cadeia por causa do tráfico, pra ter o domínio desse novo comércio da droga que está se desenhando no horizonte e muita gente já enxergou.

(FV) Já que você usa, oferecemos nossa cuia e nosso cinzeiro (parcerias com a Flora Urbana) pra você.

Que daora, olha os brindes chegando, que daora. Obrigado, mano.