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Artigo

A cultura da canábis e a cultura canábica

Por Daniel Paiva

Boldinho, personagem de Daniel Paiva que sofreu perseguição jurídica

(O texto a seguir de Daniel Paiva, quadrinista e estudioso da história da maconha, autor de obras como “Diamba”, é um dos capítulos do livro “Maconha no Brasil Contemporâneo: reflexões, desafios e possibilidades para além da cannabis medicinal – Volume II”, que será lançado na ExpoCannabis 2025, que ocorre nos dias 14, 15 e 16 de novembro em São Paulo. A Breeza é parceira de mídia da ExpoCannabis)

A palavra cultura pode se referir tanto ao cultivo agrícola quanto ao conjunto de
conhecimentos, costumes, crenças, padrões de comportamento, adquiridos e transmitidos socialmente, que caracterizam um grupo social. No caso da maconha, os dois significados ocorrem, muitas vezes se confundem e se misturam de forma natural. A cultura da canábis e a cultura canábica andam juntas, são inseparáveis, compartilham uns baseados, mas têm suas singularidades.

A cultura da cannabis sativa é o cultivo milenar da planta da maconha. Sativa ou
sativum vem do Latim sativus que significa cultivada e está no nome científico de muitas plantas domésticas, como por exemplo: Arundo Sativa (a cana), Lactuca sativa (alface), Oryza sativa (arroz), Hordeum sativum (cevada), Coriandrum sativum (coentro), e muitas outras (a lista é enorme).

Ou seja, qualquer vegetal que o ser humano cultiva é Sativa. Fomos escolhendo,
através de séculos, as plantas mais fortes e com as características que mais nos
interessavam, pelo motivo ou para o uso que fosse. A espécie de cana que faz a melhor
cachaça, a cevada que faz a melhor cerveja, o coentro que… bom, deu pra entender. Aliás a humanidade fez isso até com os cachorros, selecionando atributos e qualidades, dando origem a todas as raças que conhecemos hoje (* cãonnabis , valeu Sidarta Ribeiro!).

A maconha que fumamos atualmente é resultado desses séculos de cultivo, ou seja,
da seleção de linhagens e espécies feita por gerações de doidões e chapados de todo o
mundo. Se hoje temos as famosas linhagens genéticas Haze, Kush, Skunk, Cabrobró, cada uma com suas características e sabores, é porque essas plantas foram escolhidas e aprimoradas e continuam sendo quando os cultivadores selecionam e cruzam espécies de maconha diferentes, seja pelo motivo que for; melhor gosto, melhor cheiro, melhor brisa e chapação.

O cultivo da canábis foi proibido e marginalizado durante o último século, tornando
clandestino também o conhecimento acerca da planta. A proibição ao uso da maconha no Brasil teve sua primeira manifestação oficial no código de posturas municipal do Rio de Janeiro em 1830 e veio junto com a repressão ao samba, à capoeira e às religiões
africanas. Todas práticas culturais dos negros que aqui viviam escravizados.

A repressão à erva foi internacionalizada com a infame Guerra às Drogas liderada
pelos EUA no século XX. Durante muito tempo, as informações sobre como cultivar a planta foram passadas de maneira clandestina, oralmente ou em publicações independentes e underground.

A partir do advento da internet toda essa comunicação ficou mais fácil. No Brasil, o
fórum do Growroom foi responsável pela troca de informações sobre cultivo em português, germinando a cultura da canábis em todo o país.

A cultura canábica é todo o conjunto de comunicações envolvendo o universo da
maconha. Desde a arte até a imprensa, passando por receitas culinárias, toda forma de
expressão feita por maconheiros e/ou para maconheiros, faz parte dessa cultura e suas
manifestações aumentaram e se fortaleceram ao longo das últimas décadas.

Muito provavelmente por ser uma droga que estimula a criatividade e solta a
imaginação, a maconha é uma das preferidas dos artistas. O que seria dos Beatles se o
Bob Dylan não tivesse apresentado aquele baseado? Talvez não existisse o Sgt. Peppers. Nem o Magical Mistery Tour.

Os criadores de arte e cultura canábica são artistas sob efeito criando obras sobre
estar sob efeito, para serem consumidas por um público sob efeito da maconha. É uma
cadeia produtiva de chapação e lombra. Mas nem tudo é brisa e good vibes. Quem produz conteúdo canábico é e sempre foi sistematicamente censurado. Atualmente isso é feito pelo algoritmo nas redes sociais, enquanto fake news e discursos de ódio da extrema direita circulam livremente e geram receita para as grandes empresas da internet.

Quem produz arte, informação e cultura canábica não é contemplado em edital, não
ganha prêmio, não arruma patrocínio nem apoio, no máximo ganha umas caixas de seda de uma marca mais descolada. Ou seja, precisa estar muito chapado pra entrar nessa. Além disso, precisa gostar muito da erva, ter a certeza de que a nossa vida em sociedade seria melhor se a maconha fosse legalizada, ter uma indignação e revolta por essa planta ser proibida e não conseguir se expressar de outra forma a não ser sendo anti-proibicionista.

A cultura canábica transita por todos os meios de comunicação, formas de
expressão e de arte. No cinema, por exemplo, Cheech e Chong nos fazem rolar de rir, e por outro lado, as imagens lisérgicas da animação Yellow Submarine (olha os Beatles doidões aí de novo) hipnotizam e parecem dar um upgrade na onda (*obrigado Bob Dylan). Além dos vários documentários que informam sobre os muitos aspectos da proibição da maconha ou sobre as inúmeras descobertas científicas em relação à cannabis medicinal.

Na música, o reggae é o único estilo musical que tem seu próprio estupefaciente. E
a maconha é o único estupefaciente que tem seu próprio estilo musical. É quase como se um fosse sinônimo do outro. Quando está tocando reggae em algum lugar, você já tem certeza de que aquele lugar é legalize. Ou quando você vai escolher a trilha sonora para ouvir com aquele baseado e o primeiro som que vem à mente é… Bob Marley.

Mas fora o reggae, outros estilos musicais foram extremamente influenciados pelo
uso da maconha. No jazz os músicos ficavam mais inspirados para fazer seus solos de
improviso. Louis Armstrong foi um notório maconheiro e um mestre do gênero. No rock, adivinha o que o Jimi Hendrix estava fumando quando compôs Purple Haze? Ou o que Rita Lee e os Mutantes estavam plantando quando criaram a música (e álbum) Jardim Elétrico?

No Rap, a banda norte-americana Cypress Hill e a brasileira Planet Hemp
mandaram o papo reto nas letras sobre a maconha, quebrando tabus, chocando parte da sociedade e mudando paradigmas. Os quadrinhos canábicos estão presentes desde a galera da contracultura norte-americana dos anos 1960/70 com Gilbert Shelton dos clássicos Freak Brothers. Aqui no Brasil, tivemos nos anos 1980 personagens maconheiros como Woody e Stock do cartunista Angeli (na revista Chiclete com Banana) e Doy Jorge e Ozetês de autoria do Glauco (na revista Geraldão).

As publicações independentes também foram muito importantes para a cultura
canábica; o Bagazine influenciou o Planet Hemp que depois teve sua própria revistinha em quadrinhos; a Hemp Family Comix. A revista Tarja Preta marcou época com personagens como o Capitão Presença. Já a revista semSemente (2011-2012), uma espécie de versão brasileira da High Times, chegou a ser distribuída nacionalmente com muita informação sobre cultivo, fotos coloridas, matérias, entrevistas, sem deixar de lado os quadrinhos canábicos.

Desde a segunda edição da revista Tarja Preta (2004), publiquei quadrinhos
canábicos com os meus personagens Beto e Dé, minha versão do Capitão Presença
(personagem copyleft de Arnaldo Branco) e a paródia Boldinho. Na revista semSemente, lá estavam Beto e Dé dando dicas de cultivo em forma de tirinhas coloridas. Todas essas HQs foram republicadas em coletânea, no meu livro “Beto e Dé e outros Quadrinhos Canábicos” (Edição independente, 2020).

Menos de um mês depois da chegada do livro da gráfica, recebi da maior empresa
de histórias em quadrinhos do país uma notificação extrajudicial me ameaçando de
processo criminal por causa do meu personagem Boldinho, que se tratava de uma paródia de um personagem de quadrinhos infantis muito famoso de propriedade da referida empresa. O cabelo do personagem, que tem apenas 5 fios, na minha paródia era substituído por uma folha de maconha e ele interagia canabicamente com os outros personagens da sua turminha.

Lembrando que a paródia é prevista e permitida pela lei do direito autoral e que o Boldinho só foi publicado em revistas para maiores, além de ser desenhado com meu traço tosco o que torna impossível de ser confundido com o original. Os advogados da empresa alegaram que a paródia não pode trazer descrédito à obra original, o que é muito subjetivo em se tratando de uma obra de humor.

Sabendo que seria um processo oneroso, estressante, que se arrastaria durante
anos e que teria poucas chances de ganhar (segundo o advogado consultado; 30% de
chance), afinal dificilmente o juiz seria cabeça aberta o suficiente para me absolver, resolvi tirar o meu time de campo. Acatei parte das reivindicações contidas na notificação: Retirei as imagens do Boldinho de todos os meus sites e redes sociais e parei de vender o livro. Não consegui acatar o pedido de recolhimento e destruição de todas as cópias, primeiro porque seria impossível recolher os exemplares já enviados para os compradores da pré venda na internet, e segundo porque destruir todas as cópias seria uma cena meio nazista. O que eles queriam? Uma fogueira? Fahrenheit 451?

A consolação veio nas redes sociais. Mais de 100 artistas apoiaram a campanha FreeBoldinho e postaram em seus perfis suas próprias versões do Boldinho além de outras paródias com personagens da turminha. Depois dessa repercussão negativa, a maior empresa brasileira de quadrinhos publicou uma nota dizendo que não seguiria em frente com o processo pois eu já havia acatado as exigências deles.

Após respirar aliviado, fumei um pra relaxar, esperei alguns meses até baixar a
fumaça e encontrei uma forma de continuar a vender meu livro. Afinal, apenas o Boldinho foi alvo da notificação e o livro tinha cerca de 120 páginas de quadrinhos canábicos com outros personagens. Sendo assim, inspirado pelo álbum “As Aventuras da Blitz” que em 1982, final da Ditadura Militar, teve duas músicas censuradas depois das cópias já prensadas e a solução da banda foi arranhar com canivete as duas faixas em 30 mil discos, resolvi fazer parecido com meu livro. Passei a cortar na tesoura as 12 páginas que continham as tiras do Boldinho e a rasurar a aparição do personagem na capa. Com essa auto-mutilação, livro a livro, pude voltar a vendê-lo e a desencalhar as centenas de exemplares recém-chegados da gráfica que eu tinha em casa. Agora o livro ganhou um novo título: “Beto e Dé e outros Quadrinhos Canábicos que não foram alvo de notificação extrajudicial”, vem com menos páginas, mas em compensação com uma história extratextual a mais.

A partir de janeiro de 2021 me dediquei ao projeto da HQ “Diamba, histórias do proibicionismo no Brasil” (editora Brasa). Como era um assunto pelo qual eu já me interessava havia tanto tempo, muita coisa eu já sabia ou, no mínimo, sabia onde procurar. Fiz uma primeira pesquisa e elaborei um roteiro preliminar em 6 meses, então comecei os desenhos. Mas a pesquisa nunca parou, eu continuava descobrindo novos textos e artigos e assim ia mudando o roteiro e acrescentando novas partes enquanto desenhava as páginas. Em abril de 2023 entreguei para a editora Brasa o material que ainda passou por uma colorização (de verde), além de uma edição (super caprichada) com capa dura simulando como seria um maço de baseados de maconha. O livro foi lançado em setembro de 2023 na Bienal de Quadrinhos de Curitiba.

“Diamba” é uma não-ficção, pode ser considerado um documentário em quadrinhos, que conta a evolução das leis que proibiram a erva no Brasil, assim como vários casos absurdos que só o proibicionismo poderia proporcionar, como as prisões de Gilberto Gil, Rita Lee e da banda Planet Hemp, ou os saudosos verão da lata e verão do apito. Paralelamente aos fatos históricos, o livro apresenta também uma narrativa baseada num artigo de jornal que contava sobre um jovem preso por usar um boné estampado com a folha da maconha. Na HQ, imagino um possível desdobramento para a prisão deste jovem, negro, morador de favela do Rio de Janeiro.

Mesmo depois do livro lançado, continuo descobrindo novas informações sobre a
História da canábis, novos artigos acadêmicos, pesquisas científicas, livros e palestras. É como se a pesquisa para Diamba não terminasse nunca. E não termina mesmo. Temos muito assunto para descobrir e debater ainda.

Por tudo isso, e também porque as leis continuam mudando, vide o julgamento do
recurso extraordinário 635.659 no STF liberando o porte para uso pessoal e o seu imediato contra-ataque no Congresso, a PEC 45/2023, que visa proibir o porte de qualquer quantidade de qualquer droga, já comecei a trabalhar na continuação de Diamba, onde pretendo contar a história da legalização no Brasil. Enfim, essa discussão está longe de terminar e nesse longo caminho ninguém vai nos calar.