
Com sua premiada trilogia de livros, nascida de forma involuntária, a escritora – e, antes, atriz – Aline Bei nos conduz pela vida de mulheres que nos levam a experiências de dores, de perdas, de solidões, de abandonos. Começou em “O Peso do Pássaro Morto”, em que nos leva pelas memórias e fardos da protagonista em um vaivém não linear, e foi para “A Pequena Coreografia do Adeus”, sobre uma jovem que se vê em meio às violências veladas da separação dos pais. Agora lança o terceiro de sua série, “Uma Delicada Coleção de Ausências”, no qual deixa de lado a narrativa em primeira pessoa para adotar a terceira, e coloca mais perspectivas em torno de uma história familiar que mexe com nossas próprias lembranças enquanto lemos.
Aline Bei é ousada em abordagem e forma, apresentando uma escrita experimental, com pausas, quebras e frases iniciando em minúsculas. Lembra o teatro, do qual é cria e sente falta, numa perda transparecida em sua escrita tão teatral, mas, ao mesmo tempo, poética, criando um estilo que de tão único, distancia-se de ambos, sejam os palcos ou as estrofes. Ao mesmo tempo e ainda que talvez não queira, sua linguagem parece se adequar perfeitamente ao mundo rápido das redes sociais, cheio de pulos e histórias de coxias a serem preenchidas, de, como ela pontua, tensões de silêncios dos não ditos.
A entrevista do nosso editor Filipe Vilicic com a escritora Aline Bei passa por várias viagens, das literárias às criativas, em uma brisa que é meio como ela nos disse: lenta, metálica e pesada, conduzida por jazz no repeat. Ou será que não? Tente decifrar o estilo dessa nossa conversa.
Quando eu me deparei com seus livros pela primeira vez, e até hoje quando leio a sua obra, sinto que é uma brisa em alguns sentidos, porque há uma quebra de paradigmas, uma quebra de forma. Você se sente como parte do monólogo, em um teatro. O Peso do Pássaro Morto, A Pequena Coreografia do Adeus, te levam para essa brisa, que parece que você tá indo pelas memórias das pessoas. É uma coisa até onírica. Como é que você construiu essa forma de escrever? Como veio essa inspiração?
Quando eu comecei a escrever e comecei a publicar meus textos na internet, que foi dessa maneira que eu comecei, também comecei escrevendo na universidade, já era um ambiente bastante coletivo, e eu divulguei os meus trabalhos logo. Eu não fui uma autora que guardou o seu texto em gavetas, que demorou para sair do armário, como dizem. Eu saí muito rapidamente porque eu estava vivendo um momento difícil que é essa perda do teatro. Eu fazia teatro, comecei nas artes cênicas, foi o meu grande sonho, meu sonho inicial, meu sonho inaugural como pessoa no mundo, que se concretizou em alguma medida, mas que se rompeu, se fraturou no meio do caminho e que se transformou depois na própria escrita, se metamorfoseou nela.
Mas nesse momento que eu estava na universidade de Letras, eu ainda não sabia o quanto o Teatro não tinha ido embora, que ele continuava ali em alguma medida. Pensava que o fato de não fazer mais teatro era alguma coisa que me tirava o direito de ser artista. Então, quando eu comecei a escrever, me agarrei muito rápido nesse gesto e comecei a compartilhar da mesma medida que o teatro é coletivo e compartilhado e ele é fruto de ensaio, pesquisa e escuta do outro, a minha escrita já nasceu também com essa porosidade. Aí eu comecei a perceber que o que eu escrevia tinha uma singularidade que ao mesmo tempo que não afastava as pessoas, causava também uma espécie de estranhamento, que é um um termo muito usado na literatura, mas também uma aproximação do meu universo. E aí eu comecei a perceber que eu tinha um universo particular, que é claro que eu recorria a ele como atriz, a esse meu imaginário, esse meu fundo poético. Era ele que me salvava quando eu fazia os meus personagens. Mas como atriz, você não deixa ele vazar. É o texto do autor, do dramaturgo, o que vem na frente.
O teu fundo poético, ele fica ao fundo mesmo, né? E na escrita o teu fundo poético vem à frente. Então as pessoas começaram a me dizer o quanto esse universo era peculiar, particular e que eu acho que tem a ver com essa fala tua, de um lugar um pouco onírico, alguma coisa com as suas próprias regras, que a gente adentra e a gente se descola um pouco da norma do mundo, mas também a gente se aproxima bastante da realidade, porque são histórias que têm um vínculo com a violência, com o feminismo, com a nossa cultura contemporânea, mas também se descola simultaneamente. Então, tudo isso foi sendo uma descoberta da minha matéria afetiva, do modo como eu… do processo da vida, né? E que eu fui percebendo que isso poderia me gerar uma linguagem, um trabalho, um projeto literário singular. Como eu acho que todo artista que for fundo em si vai sair disso com algo muito próprio nas mãos, em alguma medida. Então, foi assim que eu descobri essa minha brisa, digamos assim, essa minha particularidade.
Para mim, pelo menos, é muito difícil definir o teu estilo. E olha que eu sou um leitor de ler de tudo. Só que aí às vezes eu lembro de um formato de peça de teatro, mas aí parece que você me leva pra coxia quando você entra nas memórias, vai para trás. Quer dizer, não é mais o teatro, né? Você está entrando no que é aquela personagem como pensamento, que é aquele trabalho que se faz na coxia, antes de entrar, de você pensar o que que veio antes. Mas aí no novo livro você já leva para um romance, mas que também não é um romance clássico, porque até começa as frases com minúscula e tem umas quebras no meio. Como é que você define esse estilo?
Achei bonita essa sua definição que parece que tá no teatro, mas depois é uma máquina que vai para trás. É perfeita essa imagem, porque nunca é uma estreia o meu texto, nunca é uma forma plausível, assim, sustentável diante de um público. É sempre fraturado, sempre ferido de alguma coisa, sem nome, sempre na sombra da carne, da coisa, nunca a carne em si. Tem sempre um devir, um estado de ainda, de ensaio constante no meu trabalho, sabe?, que eu acho que vai criando a minha linguagem em alguma medida. É muito pessoal a minha investigação, apesar de ser uma leitora também voraz, me senti altamente influenciada por Clarice Lispector, por Lygia Fagundes Telles, por Hilda Hilst, por Tennessee Williams, por tantas pessoas que eu amo. Mas ainda assim eu não sinto que essa influência ilumina um modo de fazer. Na verdade, ela gera repertório sensível para que eu construa as minhas próprias coisas. Sempre foi dessa forma, não é pela forma do outro que eu vou encontrar minha forma. Eu encontro a minha forma na falta que o teatro me faz até hoje na minha vida. E esse modo como eu equilibro ser artista da sombra do sol, né?, ser uma escritora, que é um lugar de intimidade e reclusão, versus esse meu temperamento que ainda tá em mim, que tem esse desejo de coletividade, de expansividade, de corpo, de presença. Tem uma dualidade interessante aí, um paradoxo que eu habito como artista hoje, e que é isso que me faz escrever mais do que qualquer outro estilo que eu possa vir a entrar em contato. Ainda que eu seja influenciada por muitas pessoas, mas a minha maior influência é a perda, essa falta original do teatro na minha na minha vida.
Você está falando da falta do teatro e obviamente seus livros geram e podem gerar adaptações, como as teatrais. Como é essa sua relação com o teatro hoje?
Você sabe que eu li um livro do Mario Benedetti recentemente, chama “Andaimes”, em que ele fala sobre o exílio dele. Ele é um autor uruguaio, ficou muitos anos na Espanha e depois voltou. Esse livro é um livro de ficção, mas tem um espelhamento profundo com a vivência que ele teve mesmo como exilado. Eu, de repente, ali na na narrativa dele, encontrei uma palavra pro teatro em mim, entende? É um exílio, porque essa impossibilidade de voltar, é claro que se pode voltar pro teatro de muitas formas, como a gente já conversou aqui, eu poderia voltar a fazer teatro, eu poderia, mas não com a mesma inocência, não do lugar onde eu parei, não o teatro que eu imaginei para mim, a altura que eu estava, voltar pro teatro tem um lugar de impossibilidade, porque não é aquele teatro, já é um outro, porque eu já sou uma outra pessoa, não é possível voltar.
“Tem essa nostalgia, esse lugar onde eu acho que eu me alimento, porque a escrita, ela é a falta, ela é um espelhamento de um desejo. Se você se sentir de algum jeito preenchido, você não vai escrever. A escrita vem de uma falta profunda de alguma coisa”
Então tem essa nostalgia, esse lugar onde eu acho que eu me alimento, porque a escrita, ela é a falta, ela é um espelhamento de um desejo. Se você se sentir de algum jeito preenchido, você não vai escrever. A escrita vem de uma falta profunda de alguma coisa. E que o teatro pode ser só um símbolo, na verdade, né? Eu não sei ainda o quanto isso tá conectado com a minha infância, com o meu desejo de transcendência do eu, esse tipo de coisa, que eu acho que a arte sempre tem. Mas o que eu sentia é que quando eu tava me locomovendo…. você comentou da “Delicada”, de ser um romance um pouco mais vinculado com o que se espera de uma narrativa. Eu acho que tem muito a ver com a terceira pessoa, que é um lugar que eu assumi nesse terceiro livro, por necessidade e por desejo. Porque eu acho que essa história seria muito mais interessante de ser contada da perspectiva de mais personagens do que de uma única pessoa. E porque eu já tava com essa vontade nos meus outros dois livros, que são esses monólogos interiores, de olhar para outros personagens e compor uma espécie de caleidoscópio, criar uma perspectiva de telefonia. E aí a leitora e o leitor vai sair dessa experiência fazendo suas escolhas e não só com uma voz única, cantando na sua orelha insistentemente uma coisa. Há muitas vozes e a pessoa vai criar a sua história a partir disso tudo. Eu tinha um desejo enorme de fazer isso e eu consegui tecnicamente agora com a “Delicada” (seu último livro).
Acho que por isso que se aproxima um pouco mais de um romance tradicional, ainda que tem muita quebra, muita visualidade, muita ausência plastificada na folha, como uma presença em colunas pelo texto e tal. Mas quando eu estava terminando a “Delicada”, eu já estava percebendo isso intuitivamente, mas eu sou demorada. A minha brisa, ela é lenta, metálica, assim, pesada. Então eu vou dando linguagem para um pressentimento muito depois, eu tenho um tempo bem lento. E aí eu fui entendendo que eu tava terminando uma coisa, que eu comecei com o “Pássaro”, continuei com a “Pequena Coreografia do Adeus”, a “Delicada” fechava uma porta importante e abria outra. É um livro entre projetos, digamos assim, fazendo fronteira com o que eu já fiz e com o que eu quero fazer, com o meu futuro de escrita. E aí por isso que eu nomeei como uma trilogia involuntária, até como uma provocação a mim mesma, para que meu ciclo caminhe em direção a uma outra coisa que eu ainda tô descobrindo o que é, mas que eu já tenho a sensação de tá fora desse projeto que eu fiquei por quase 10 anos como autora. Ecoa tudo o que eu já fiz, mas que também abre para uma outra lógica, que é o que eu tenho estudado agora.
Falar de escrita, para mim, é uma uma brisa deliciosa. Então eu vou me empolgando aqui (risos de ambos) e uma coisa que me vem muito também são as redes sociais. E aí eu vou tentar me explicar melhor aqui, porque não é que é post de rede social, não é isso, né? Mas hoje se fala muito da dificuldade da leitura profunda e eu vejo isso até em mim mesmo, porque a gente tem tanta informação ao redor que às vezes é difícil você se concentrar.
É verdade.
Tive um papo com o Sérgio Rodrigues recentemente aqui na Breeza sobre isso, mas tem pesquisas (científicas) adoidado, né? Isso aí tá em todo lugar. Mas no seu livro eu não sinto isso. Eu sinto às vezes uma proximidade com uma linguagem das redes sociais que traz as pessoas. Aqui é um baita elogio, não tô falando daquela coisa ruim das redes superficial, não.
Sim.
Essa coisa da linguagem, por exemplo, em detalhes, que não são detalhes, né?, mas talvez para alguns leitores, leitoras, sejam, que é começar com letra minúscula. Você faz isso muito, né?, e nas redes sociais, essas quebras, que você faz, esses espaços vazios, são todas formas que você vê hoje muito na internet. Tem uma relação? É viagem minha ou isso é pensado, facilita mesmo essa comunicação, autora-leitora?
Na verdade, o lugar onde eu me alimento para esse tipo de procedimento não é da internet. Sou uma pessoa que tá na internet, que gosta da internet, que vive esse dilema nosso contemporâneo das coisas boas e ruins que a gente enfrenta, sendo uma pessoa que tem rede social. Mas eu não vejo um outro caminho possível para uma artista como eu, de se locomover com alguma liberdade, se não for a partir das redes sociais, nessa divulgação do trabalho. Então, uso muito para trabalho, especialmente para trabalho, mas não é a dela que eu me alimento. Agora, isso não quer dizer que ela não me influencie inconscientemente. Claro! Agora, o que eu pensei, quando eu comecei a escrever, primeiro foi uma grande ilusão que eu tive no comecinho, assim, que eu era uma poeta. E aí, a poesia ela tem liberdades que a prosa não se dá. E a poesia ela também tem uma um interesse pela palavra, pela corporeidade da palavra, que muitas vezes a prosa passa reto, porque a prosa tá vinculada a outras preocupações. A poesia tem um apelo estético da palavra muito grande, né? Ela corporifica mesmo a palavra. E eu adoro essa experiência, adoro artes visuais, sou uma artista que se alimenta de todas as artes para escrever. Então, quando a poesia conquista, como na poesia concreta, um espaçamento, um um modo de se portar, que beira o quadro, que beira o desejo de pendurar o poema na sala e isso ser uma obra de arte, e o poema ultrapassa o que ele diz, e a forma como ele diz é mais relevante até do que a mensagem ou tá tão conectada com a mensagem que é impossível desassociar. Na poesia concreta a gente tem essa visualidade.
“Não vejo um outro caminho possível para uma artista como eu, de se locomover com alguma liberdade, se não for a partir das redes sociais, nessa divulgação do trabalho. Então, uso muito para trabalho, especialmente para trabalho, mas não é dela (a rede social) que eu me alimento. Agora, isso não quer dizer que ela não me influencie inconscientemente“
Isso me interessa profundamente porque eu acho que isso dá conta de silêncios que a linguagem não vai conseguir acessar nunca, nem no escritor mais virtuoso. Eu sou uma pessoa que tem o desejo de materializar o silêncio, a tensão do silêncio do não dito, esteticamente na minha folha. E a questão das maiúsculas seletivas é que eu não gosto da hierarquia de uma maiúscula no início de uma frase marcando uma intenção, uma tonalidade que não tem. Para mim, ela vai ser maiúscula quando a personagem ou o narrador se exaltar, desejar um relevo na letra. Eu escrevo com uma gramática íntima, é o modo como eu vejo. Então a plasticidade é da intenção do personagem do narrador, e isso vale mais do que me ater a regras gramaticais pré-estabelecidas, ainda que eu respeite todas elas e compreenda todas elas, mas é sempre uma sustentação de um gesto estético ou outro que não é esse da gramática esperada. Então, é desse modo que eu vejo, por ter sido atriz. Um ator quando tem um texto muito longo, ele recorta isso para respirar esse texto, e ele tem as suas entonações, o seu ritmo, a sua vocalização musical e o modo como uma letra sobe. Às vezes um nome próprio é menos importante do que um um adjetivo, às vezes uma vírgula importa mais, depende da intencionalidade do ator. Gosto de materializar essa partitura na minha escrita, então é esse o jogo que eu jogo. Se isso vai ecoar um modo de lidar com a linguagem na internet, não tem problema nenhum. Mas não é dela que eu me alimento, é de um outro lugar.
Para mim, que sou um um cara aí nascido antes da internet, apesar de ter crescido com ela, eu vou falar uma coisa que às vezes soa bizarra, sou estranha para mim até hoje, que é o seguinte: tudo que você fala dos sentimentos e tal, é bem humano, né? Aí, por que eu falo isso? Porque hoje há o não humano também. Você tem o robô, você tem inteligência artificial escrevendo, o que muitas vezes me assombra. Então, se você chega lá e fala “escreve esse texto, depois escreve estilo Clarice Lispector, ou nesse estilo da Aline Bei”, a inteligência artificial tenta, vamos dizer assim. Para mim parece um pouco pastel frito por quem não gosta de fazer pastel e nem gosta de comer pastel, e dá pastel de plástico.
Pastel plástico, mas tá aí.
Como é que você vê a inteligência artificial tentando chegar nesse lugar que não só você chega, como você falou também, é devagar, né? Existe seu tempo. Cada um tem o seu, né? Cada escritor tem, mas pelo que você falou, você tem um tempo aí para fazer o que a inteligência artificial quer te entregar em minutos.
Tem preocupação com isso, muita preocupação, né?
Como é que você vê isso?
Com uma preocupação crescente, porque eu acho que tem um estado de acordamento pro tempo que a gente vive. Nunca usei a inteligência artificial, não sei a cara que tem um Chat GPT. Eu nunca entrei em nenhum site, não tenho nenhum interesse nisso. Não tenho interesse em ler coisas escritas por máquina, por robô. Não me interessa como artista, acho antiético. Mas entendo que o mundo vai caminhando em direção a lugares que a gente não tem como não ir, porque a gente tá vivo e o tempo se move e as coisas acontecem. A nossa revelia também, né? Mas eu acho que a arte sempre trabalhou numa espécie de lugar de resistência da humanidade, e uma coisa muito importante que a máquina não consegue reproduzir é o tempo do processo. Para mim me importa mais, como artista, muito mais do que qualquer resultado positivo, negativo, um grande fracasso, um grande êxito editorial… a minha travessia em direção ao que eu quero escrever, o meu desejo, o modo como eu me transformo, aprendo e perco coisas no caminho, em direção ao que eu quero escrever.
São anos de escrita, 4, 5 anos, que pode ser que uma máquina faça em 5 minutos, mas não me interessa o resultado, realmente me interessa a transformação e tudo que vai me atravessar durante esse processo. Eu acho que as pessoas que gostam de escrever deviam pensar a mesma coisa, se elas querem apenas o resultado ou uma uma ferramenta de facilitação, ao ponto da loucura, quase, de você poder entregar tudo que você deveria percorrer um caminho muito mais longo (para fazer), e aquilo ficar pronto em… mas não foi você que fez, de quem é a autoria daquilo?
E é um compilado, pelo que eu entendo, e eu não entendo completamente, mas me parece um recorte de mil universos que já existem, que foram pensados por pessoas com seus tempos de sacrifício, de dedicação, de investimento intelectual, emocional. E aí tudo isso é colado, copiado numa espécie de resultado, como a gente disse aqui, de plástico, né?, que não tem relevância para mim, porque não tem coração, não tem veia pulsando. Se ficar cada vez melhor, para mim vai ficar cada vez pior, porque eu não leio um texto só porque ele é muito bom, eu leio porque ele foi escrito por uma pessoa, porque ele vai me dar um olhar, né?, uma sensibilidade daquele universo pessoal, e que com todos os seus caminhos errantes, tem vida, né?
Então, assim, para mim realmente não me interessa. Eu gosto muito do livro do Sérgio Rodrigues, “Escrever é Humano”. Gosto muito do livro que saiu agora da Marília Garcia, “Pensar Com as Mãos”. Isso a máquina nunca vai fazer, entre outros gestos, porque falta o corpo, falta a consciência de si, falta o atravessamento da experiência. Por mais que a gente também tenha os nossos fundos poéticos e trabalhe com uma espécie de construção inconsciente das referências que a gente tem, isso é feito com pele, ossos, e sangue e suor. E me interessa esses restos que ficam na mesa do trabalho depois, tudo que a gente deixou, sabe? Se não tiver seu resto, se só tiver clique, a mim não me interessa.
“O mundo imaginado, inventado, tem uma presença plástica na minha inteligência, na minha percepção, às vezes maior inclusive do que o mundo real, que eu tenho às vezes mais dificuldade para compreender. Então eu sou naturalmente vocacionada para a imaginação”
Você falou aí da loucura. A loucura é uma coisa muito humana, que a inteligência artificial não consegue ter. A gente falou do Sérgio Rodrigues aqui, ele me disse uma frase muito forte que é que ele não acredita no escritor que só bebe água, porque ele é de fumar um baseado para acreditar nas próprias histórias. E aí quando eu ouvi ele, também pensei em escritores sóbrios, digamos assim. Então, cada um tem um processo criativo, que para mim muitas vezes parece loucura, e eu também tenho dificuldade de acreditar no escritor que só toma água, né? Mas para você, como é que é que você entra nessa loucura? Como é que você acredita nas suas histórias? As substâncias fazem parte da tua vida? Senão, como é que você faz, né
Para mim não tem dificuldade em acreditar. Difícil seria viver sem acreditar, porque tenho uma força tão grande, eu tenho uma força de imaginação tão grande, a minha infância, a minha menina, ela continua num estado de ebulição muito forte em mim. Eu não consegui me desfazer daquele olhar que a infância sempre teve, e o desprendimento, o próprio brincar com as coisas, nomear coisas, classificar, trazer uma espécie de vida oculta dos objetos, das coisas inanimadas, isso sempre foi um gesto orgânico para mim. Então, acreditar numa história é natural para mim. Eu, o teatro, o que é o teatro senão um exercício profundo de imaginação, em um minuto de leitura a gente já tem aquele personagem materializado ali, começa a acreditar nele.
O mundo imaginado, inventado, tem uma presença plástica na minha inteligência, na minha percepção, às vezes maior inclusive do que o mundo real, que eu tenho às vezes mais dificuldade para compreender. Então eu sou naturalmente vocacionada para a imaginação. O que eu uso como recurso de concentração, que é uma das coisas que eu acho mais importante para um artista, ele se conectar com o material dele, assim, se conectar com os com o universo que ele quer criar, é a música. Então, eu tô sempre buscando músicas para envolverem o meu tempo de escrita. Geralmente são músicas clássicas, músicas instrumentais, eu sou louca por jazz. O jazz ele tem uma loucura, um ímpeto, um volume assim de grito, uma cama elegante e sofisticada, que eu amo assim, sabe, essa transposição, e é uma música que me ajuda muito a me conectar com a minha criatividade, com os meus processos. Então, a música faz parte, e a música repetitiva, porque eu quando encontro uma música que faz parte da minha cena – e às vezes o meu escrever ele primeiro é uma curadoria musical; eu primeiro vou encontrar música que vai me ajudar a uma cena que eu tô imaginando, ainda de forma nebulosa. Aí eu encontro a música e eu coloco aquela música no repeat. Então eu fico ouvindo assim por três semanas até eu terminar a cena, e sem parar. E aquilo não cansa o meu ouvido, pelo contrário, parece que eu vou escavando por baixo, sabe? Que eu vou entrando numa bolha de concentração. O isolamento que ao mesmo tempo é uma conexão com esse mundo imaginado, que é tão caro para mim.
Então, é dessa forma, e eu também tomo café. Café me ajuda, porque às vezes eu acordo e gosto muito de escrever de manhã, que é um entorpecimento. A manhã também é o meu entorpecimento, porque a manhã tem um estado de vulnerabilidade, de mistura com o sonho, de um lugar, essas horas perigosas, né?, o começo do dia, o final do dia, a madrugada. São horas muito boas para a escrita, a hora do devir, a hora da transformação, da metamorfose em alguma outra coisa. Mas a manhã para mim é muito boa, só que às vezes eu tô com o olho, a pálpebra tão pesada de sono que eu não consigo olhar a minha linguagem. Então, aí o café me ajuda a levantar as cortinas sem perder completamente essa atmosfera nebulosa da manhã, que me ajuda a escrever.
E como você vê os colegas escritores, as colegas escritoras, que vão às vezes para a bebida ou para pro baseado, ou qualquer substância? A gente não tem hipocrisia aqui. Eu queria saber como é que você vê o processo criativo, mesmo. É válido todo processo ou você vê que a escrita tem que ser essa coisa mais racional que você coloca, construtivista, né? Quase, né? No sentido construir, não construtivista no sentido educacional, mas naquela coisa de construir um atrás do outro. Como é que você vê essas outras formas de escrita também?
Com muito interesse, de forma muito genuína, mas acho que cada um encontra o seu modo de habitar, o teu processo, a sua criatividade, o seu espaço. E são recursos que a gente escolhe por afinidade, assim, por curiosidade de mundo. “Isso que tem mais a ver comigo, eu vou nessa”, e às vezes funciona para um trabalho, para outro funciona diferente. Acredito muito no poder da liberdade e da expansão, da pesquisa, dos modos de estar, de conexões com o corpo, e com a criação, e como é que isso vai reverberar para cada um. É uma escolha individual que eu respeito profundamente. Agora, eu não acho que meu processo, você mencionando meu processo como racional, eu não sinto que meu processo passa pela cabeça. É muito doido, porque para mim o meu processo vem de regiões de órgãos vitais, assim, de lugares assim do corpo. Eu não consigo exatamente racionalizar como é que a minha escrita acontece no sentido de o que é a técnica, sabe? É muito abstrato para mim, eu fico num lugar mesmo de envolvimento corporal com o material, de me misturar mesmo com o que eu escrevo. E depois que eu saio do processo, eu começo a teorizar um pouco mais. Só que eu já me afastei daquele estado entorpecente, lírico, que você vivencia quando você tá escrevendo um romance ou um texto.
“Cada um encontra o seu modo de habitar, o teu processo, a sua criatividade, o seu espaço. E são recursos que a gente escolhe por afinidade, assim, por curiosidade de mundo. ‘Isso que tem mais a ver comigo, eu vou nessa’“
Agora eu vou pro meu emocional aqui, de quando eu li teus livros, e todos eles me marcaram de alguma maneira. O último, que eu comentei, tô aí no finzinho, então ainda pode me marcar mais, mas que é “Uma Delicada Coleção de Ausências”. É difícil às vezes os nomes dos seus livros, de lembrar de memória.
(risos) Mistura tudo.
É, vai misturando.
As leitoras misturam todos (risos).
Mas eu acho que eu acertei aqui, mas me tocou muito pelo circo, me tocou muito porque tem a ver com a minha história. Me tocou muito pela avó, claro, né? E eu fui criado bastante por uma avó aí na na minha infância. Mas em especial “A Pequena Coreografia do Adeus” me pega, me pegou, me fez chorar, me fez pensar, me fez ter que parar de ler, que é uma coisa rara, sabe? Quando você para e fala: “Tem que parar agora”. E sair andando. Por ser filho de pais separados e ter passado por situações assim, de verdade, muito similares às da protagonista. Queria ver o que você tem a falar mesmo pras leitoras, pros leitores, pros nossos breezers aqui, que passam muitas vezes por isso que eu tô falando, porque tem muito a ver com essa descoberta. Nesse meu período eu procurei arte, mas também procurei as drogas. Foi quando eu descobri as drogas. Então, quando eu li teu livro me veio isso. De início muito ruim, depois muito bom. Eu fui virando adulto, fui aprendendo como controlar isso, aprendendo como dosar e tudo mais. Mas não é sobre drogas. A pergunta é: como lidar com essas situações? Porque você escreve muito sobre situações de vulnerabilidade, tanto feminina, mas que é humana, né? Desperta o meu feminino, mas desperta o filho que eu fui, sou, o pai que eu sou hoje. Então, começa a mexer com essas coisas, algumas pessoas caem na arte, outras pessoas caem nas drogas.
Eu acho que para todo mundo que teve uma história que marca, um trauma, é muito importante que a gente viva a nossa tristeza até o fim, com profundidade, porque eu acho que tem também uma coisa na nossa sociedade que é não aceitar a tristeza como uma emoção tão digna quanto a alegria, quanto qualquer outra. A tristeza, ela tem os seus canais de acesso a outras emoções. Inclusive, eu sinto que as emoções são todas furadas por cano, sabe? E a gente pode passar por elas com profundidade e encontrar uma saída, um túnel para uma outra coisa. E aí, a partir dessa vivência profunda, com a sua própria tristeza, com o seu drama pessoal, você pode acessar outras formas de habitar o que te aconteceu, e habitar o teu presente com potência. Porque uma coisa que a gente tem e que é muito importante é a liberdade de construir um outro modo de estar no mundo. Aquilo nos aconteceu às vezes em fases como você traz, muito difíceis, porque são fases de vulnerabilidade, a infância, adolescência, onde você tá ali com tutores que às vezes são pessoas absolutamente irresponsáveis, seja emocionalmente, seja economicamente, enfim, tantas adversidades. E a criança, ela não tem ferramenta, nem emocional e nem qualquer outra para escapar disso, né? Mas depois que a gente se torna adulto, a gente pode fazer escolhas, a gente pode decidir caminhos, decidir modos realmente de habitar o nosso próprio acontecimento primordial. E eu acho que a arte, nesse sentido, ela nos fortalece muito, ela dá linguagem para a nossa dor.
Por isso que eu acho que a arte revela, porque às vezes a gente esconde tudo que nos aconteceu, não fala sobre o que aconteceu, não faz terapia, não faz uma análise, aquilo fica tão escondido. Mas aí depois que a gente lê alguma coisa, que revela para nós com uma linguagem às vezes que só a arte pode trazer, porque a arte revela com complexidade, com beleza, com ritmo. Então a gente escuta aquilo, a musicalidade daquilo, e a gente percebe além da sombra também a iluminação daquilo. A gente percebe que aquilo tem outras camadas, não é só aquela nota que toca sempre quando a gente lembra da nossa dor, tem outras coisas. E mais, é coletivo, porque se a gente tem uma dor e a gente se conecta com pessoas que tiveram histórias parecidas, isso fortalece a gente em algum sentido, porque não é uma singularização, uma espécie de culpabilização, mas uma coisa humana, compartilhada, que pode nos aproximar inclusive de pessoas absolutamente interessantes, entende? Então, a gente começa a dar vazão para outras possibilidades, e eu acho que a arte é esse canal de cura, assim como nenhum outro, mas é claro que sozinha ela não resolve. Há todo um processo que precisa ser feito ativamente pela pessoa e cada um vai encontrar o seu modo de realizar. Eu acho que o importante é a gente estar ativo, não ficar passivo no que nos aconteceu, mas fazer escolhas dentro disso tudo e criar vocabulário para os nossos dramas, para que a gente possa caminhar pro lado de fora deles também e ressignificar tudo isso.
Lendo seus livros, me veio minha avó, me veio minha mãe, enfim, vieram mulheres da minha vida na minha cabeça, mas também veio uma mulher dentro de mim, né? O meu feminino, como homem lendo, me parece que eu acesso isso, a mulher, a fêmea dentro de mim aqui. E eu queria saber do futuro aí da escritora se esse vai ser um tema ainda persistente, um tema que fica com você, que é um tema que você fala: “É aqui que eu vou”. Ou se, nas próximas obras, a ideia seria explorar outras temáticas, outras formas nesse sentido de feminino, porque obviamente você é uma escritora, você é uma mulher que sempre vai ter o feminino lá. Mas nesse sentido de despertar no leitor, na leitura, esse lado, e essa a ideia.
Ainda é cedo porque eu tô tateando meu próximo livro no escuro, sabe? Eu tenho uma coisa, eu sinto que cada livro que eu escrevo tem deixado para mim esse teatro que a gente conversou, no primeiro momento simbólico, esse espaço onde as minhas histórias acontecem, mesmo que não seja verbalizado, ele é pressentido na leitura das pessoas mais sensíveis. Sempre que uma história acaba e passa pro seu carro alegórico, ela esquece um adereço em cena para mim, e é delicado esquecer uma coisa que eu não vou contar ainda porque é cedo, né? E também essa coisa ela pode ser olhada ou pelo seu significado real, ou pelo seu significado simbólico. E eu gosto sempre de olhar pros objetos esquecidos de uma forma simbólica para que ele se multiplique e eu possa entrar em novas camadas. Mas entende que cada história minha é muito fruto de uma fibra que já tava sendo tecida no outro livro, né? Todos os meus livros eles se coabitam, coexistem, de uma forma quase como um resumo mesmo. Então, o meu próximo livro, ele é fruto dessas coisas todas que eu já fiz, mas como eu disse, me parece que tá apontando para uma nova lógica que eu tenho tentado descobrir com muitas leituras, porque tô no início.
Eu acabei de entregar a “Delicada”, publiquei ela em junho e foi um livro que eu escrevi até abril, então eu tô ainda muito misturada com o processo e tem um período onde eu preciso me afastar em direção à próxima coisa, para descobrir. Mas não é um interesse só de construir personagens com o feminino na frente do protagonismo. Eu tenho interesse em pessoas e tenho um desejo de construir a diversidade na minha folha. E às vezes, se eu ainda não o fiz, é mais por uma questão de não me sentir apta ainda para compreender fora do eu, né? Porque é mais fácil eu me multiplicar em mulheres, que não têm uma biografia como a minha, mas que ainda são mulheres. É mais fácil compreendê-las do que compreender, por exemplo, uma lógica de um homem. Assim, eu ainda não fiz esse caminho, não consegui fazer esse caminho completo. Então, quando eu me senti pronta para trazer esse protagonista, eu trarei. Agora, eu tenho personagens que são, por exemplo, Lucas, que é o filho da nossa protagonista do “Pássaro”, o Seu Luís, que é um benzedeiro, o Bento, que é um cachorro macho, o Camilo, que é um personagem muito importante na história de “Uma delicada coleção de ausências” e que foi um aprendizado de construção de personagem absurdo, dos maiores que eu já tive. Então eu tenho personagens, o Sérgio, pai da Júlia, eu tenho vários personagens masculinos… o Vegas, o boxeador… que estão no meu imaginário, que flutuam pela minha sensibilidade e que espero que me ajudem a construir um masculino mais curado também, né? Porque eu tenho trabalhado também um olhar pro masculino que muitas vezes olha para onde dói, para onde fere. Espero que em algum momento eu consiga também falar de outras possibilidades, de outros eus dentro desse universo masculino.
Como é que você lida com as suas próprias memórias e emoções ao escrever? Porque seus livros não são, digo, tão simples de ler, né? Eles me trazem memórias. Eu acho que isso é compartilhado por leitoras, leitores. Como é que você lida com as suas próprias memórias e emoções quando está escrevendo esses livros?
Eu me sinto uma colecionadora de memórias. As minhas memórias… eu não uso o meu repertório de vida como uma reprodução na folha, jamais faria isso, não porque eu acho errado ou não interessante quem faz, mas porque eu tenho medo de esgotar. Sinto que se eu usar a minha memória como uma espécie de mola que me impulsiona para compreensão de humanidades que estão fora de mim, então eu pulo na minha memória, me afundo e salto em direção a alguma outra coisa expandida. Mas às vezes também é o contrário, uma personagem me mostra um universo que eu não consigo logo identificar em mim, encontrar alguma referência, alguma possibilidade, alguma comunicação, e eu preciso escavar, porque se eu não encontrar algum eco daquilo em mim, eu não vou conseguir fazer. E eu acho que esse modo tem muito a ver com o teatro, no teatro a gente usa a memória também como uma forma de se aproximar de uma identidade, de um personagem, por mais diferente que ele possa parecer de outra época que ele seja, um objetivo em cena que não tem nada a ver com a sua pessoa. Se você lidar com esse personagem de fora, ao menos que seja uma proposta brechtiana, mas no geral, se você tá num viés mais realista, se você vai adentrar esse personagem julgando, você não faz. Você precisa encontrar dentro de você algum lugar que ele possa adentrar com a sua significação, com a sua argumentação, com as suas hipóteses e se infiltrar em você. Você precisa sustentar essa argumentação, pelo menos em cena. Fora dela, você não não necessita fazer isso, mas em cena você precisa encontrar sempre a equivalência. E aí eu tento fazer isso também como artista para não me distanciar, para não escrever meus textos com ironia, que é uma coisa que não me interessa muito, eu me interesso mais por escrever de dentro. Não importa o quão vil um personagem possa ser dentro daquela argumentação, eu preciso adentrar para tentar compreender a lógica dele para além da minha. E aí depois eu vou olhar isso de cima e problematizar os meus pontos.
Quando eu comecei a ler “O Peso do Pássaro Morto”, me veio, e eu não sei por que, não sei nem explicar direito, mas me veio “A Paixão Segundo G.H.”, não só porque é um pássaro e uma barata (no livro de Clarice Lispector), mas aquela coisa de parecer que tem uma figura aí que leva para um lugar do pássaro morto e da barata, que dá toda aquela filosofia, aquela vontade de comer a barata, não sei. Eu vi diretamente uma ligação para mim, por algum motivo, me deu um “nossa, né?”. Agora você, Aline, já vejo você entrando aí nesse panteão de nossos escritores, nossas escritoras. Então, para mim nenhum problema te comparar com Clarice, por exemplo. Eu queria saber como você se vê nesse lugar em meio dessa história da nossa literatura brasileira. Como é que você se localiza dentro dessas influências todas e no hoje?
Me sinto uma atriz que escreve com muito comprometimento com seu projeto literário. Escrevo para respirar, para sobreviver. O modo como esse texto vai ser compreendido pelas pessoas, inclusive no futuro, é um grande enigma. Acho que para todo mundo, assim, é impossível prever. Há muitos textos que são esquecidos, há textos que quando foram publicados não foram compreendidos e que anos depois se tornaram textos fundamentais, cânones. Então, como o tempo gira a obra e faz ela durar ou desvanecer, é uma coisa tão particular que eu acho que nenhum artista devia se preocupar demais com isso. A gente precisa ficar concentrado no nosso gesto, por menor que ele seja, por mais frágil que ele possa parecer e talvez justamente por isso sustentá-lo, pela sua fragilidade, pela sua delicadeza, pela sua impossibilidade, porque é viver uma vida mesmo que parece uma espécie de vida de sonhador, né? Ser um escritor, ser um poeta, ser um ator, qual é a urgência disso? E ao mesmo tempo não há nada mais urgente do que isso.
“Ser um escritor, ser um poeta, ser um ator, qual é a urgência disso? E ao mesmo tempo não há nada mais urgente do que isso”
Então, ter esse tipo de profissão exige um desprendimento. É preciso se conectar apenas com esse fazer, com essa artesania da coisa, que é o que eu faço. Agora, não sou boba, né? Leio muito porque preciso aprender e leio essas pessoas que você pontua, como Clarice, que já disse aqui, para mim, tô até com o livro dela aqui, “Todas as Cartas”, na minha mesa para começar a ler. É uma autora interminável, fundamental, que ilumina tudo que há de mais inconsciente, selvagem, na linguagem, que só tem como nos ajudar nos nossos processos, sejam individuais ou sejam coletivos. Lygia Fagundes Telles, como já disse aqui, Manuel Bandeira, Manoel de Barros, Graciliano Ramos, todos os nossos autores, cânones, como Machado de Assis, Guimarães Rosa… olha os autores que a gente tem em língua portuguesa! É absurdo, né?, o que eles fizeram, e a gente precisa aprender, a gente precisa aprender a lê-los cada vez mais sobre a luz do nosso tempo também. Então, com esses exercícios que eu me preocupo mais do que com qualquer localização da minha figura no tempo-espaço.