Saindo da estufa

Sérgio Rodrigues: “Sou a favor do uso de todas as substâncias para auxiliar no processo criativo”

Foto de Alexandre Sant’Anna / Divulgação

Sérgio Rodrigues passeia pelas palavras com uma desenvoltura que é para poucos, e com um domínio cada vez mais raro nesta era em que terceirizamos escritas e resumos de leituras às inteligências artificiais (as IAs). Em romances, contos e em suas colunas na mídia, nos apresenta a um mundo de significados e ao peso de cada vocábulo.

Seu novo livro, “Escrever é Humano – como dar vida à sua escrita em tempos de robôs”, é um projeto que vinha lapidando há tempos, mas que que viu se tornar mais urgente conforme as IAs se espalharam, oferecendo de graça, a qualquer um, textos do tamanho de novelas. “A gente conta histórias porque a gente vai morrer, porque a gente vai ter um fim. Para um imortal como é o robô, como é a IA, histórias não fazem sentido”, nos diz, em entrevista para Filipe Vilicic, publisher desta Breeza.

A IA também não é capaz de fumar uns baseados ou tomar uns copos de uísque para despertar outras partes da consciência em busca de inspiração para o processo de criação da escrita. Sérgio é a favor do uso de qual for a substância que ajude o artista em suas descobertas. Ele próprio, já foi do tabaco, e hoje vai de café e uns becks. Fumar uns o faz acreditar mais nas histórias que está escrevendo.

Nessa era de robôs e IAs que fazem de tudo, ele vê as artes em risco, assim como a própria humanidade. Como nos diz na entrevista a seguir, a nós talvez possa restar um futuro meio Mad Max, em que prevalecerá a barbárie, não haverá escritores e leitores, e no qual será necessário muita psicodelia para sobreviver.

Li o seu novo livro aqui, que tem um nome muito sugestivo, que é “Escrever é Humano”, e toca em quem escreve, como eu, como você. E hoje em dia isso tá muito explícito no teu livro, eu tenho recebido muito de amigos, colegas, jornalistas, essa coisa de dicas de como a inteligência artificial (IA) pode melhorar a tua vida, ajudar como ferramenta. Mas você botou isso em cheque lá em algumas partes. Nesse novo mundo da IA, o que vai restar pro humano? O que vai restar pra gente sentir da escrita?

É um prazer estar aqui conversando com você na Breeza. Cara, essa é a pergunta, né? Ninguém sabe direito. A gente tá no meio de um de uma revolução mesmo. Não é exagero falar que é uma revolução, porque é uma baita de uma revolução, inclusive. E a gente não sabe muito bem para onde as coisas vão. Essa questão da arte é uma sinuca e tanto, eu acho, que a humanidade se colocou, né? Porque a inteligência artificial no fim das contas é uma criação da humanidade, né? Ao mesmo tempo é uma espécie nova. E, assim, a nossa compreensão de arte é muito dependente do humano, da autoria de uma pessoa com as suas emoções, com a sua sensibilidade, com a sua intuição e tal, que criou aquele objeto estético ali, né? Assim, a IA é uma outra coisa. A IA é uma imitadora do nosso jeito de fazer. Eu acho que, sim, ela pode vir a ser uma ferramenta muito útil e é, para muita coisa, não tenho menor dúvida, para organizar, para ajudar em pesquisa, para sintetizar coisas, para estabelecer relações entre muitos textos, um número infinito de textos que a gente não teria nem tempo na nossa escala humana para absorver e processar, e ela faz isso em segundos. É claro que isso tem uma utilidade, a gente não sabe nem onde vai dar, mas isso é um uma coisa que amplia a nossa capacidade de fazer coisas. Isso é a definição de ferramenta, ela amplia a sua força, ela amplia o seu poder de realização. Mas ao mesmo tempo ela tá tentando te roubar o protagonismo desse negócio. Se você não for muito safo, e daqui a pouco a gente fala mais disso, mas eu não sou muito otimista em relação ao que vai restar das habilidades humanas daqui a um tempo, porque a gente é muito preguiçoso, a gente delega, a gente tem, no princípio, um escravo nosso. Mas a gente não sabe se ele não pode vir a ser senhor em algum momento, mas neste momento é um escravo. Você vai lá e manda “faz isso”, e ele faz, né? E e acaba sendo. Ô Filipe, neste momento está no meio dessa confusão e eu vejo mais como uma coisa de você ter que tomar partido, a questão é mais política do que qualquer outra coisa. O partido que eu tomo é o da criação humana pura. Eu acho que tem um correspondente com, sabe, com cultivar alimentos orgânicos, com cultivar algo que vai ter muito valor para um número menor de pessoas, porque vai ser um luxo, né? No mundo de comida industrializada, você vai tá lá cultivando a sua própria verdura, os seus próprios tomates, isso vai ter um valor enorme, mas não vai ter uma fila na sua porta para comprar. É uma seita. A literatura sempre foi um pouco uma seita, né?

Falo no caso da literatura porque é o que o meu livro trata mais, mas isso é uma questão para a arte em geral. E eu estou um pouco assim abalado nesse momento com a inteligência artificial, porque eu acabo de ser apresentado a uma ferramenta de criação de canções, que é uma coisa que eu gosto de fazer também, eu sou letrista. Uma ferramenta de criação de canções chamada Suno, que mesmo na sua versão gratuita é uma coisa assombrosa. É assombroso aquilo, é um brinquedo perigoso até, porque eu não quero fazer mais nada da minha vida, a não ser ficar no Suno, dá para você compor um álbum por dia. E não é música clichê. Sim e não. Sim, claro que é clichê, aquilo ali tá desempregando, sei lá quantos músicos tiveram que existir, tocar, para que ela pegasse tudo isso e sampleasse e barateasse no mercado, que é o que a IA faz com o nosso trabalho, o trabalho humano. Mas, cara, ter uma ferramenta dessa na mão, entendeu?, no momento em que você está escrevendo a letra, você já tá ouvindo a canção pronta, arranjada e cantada, bem cantada pra caramba. E aí você muda o “Não, agora eu não quero esse vocal de rhythm blues, me dá um vocal de folk”. E, assim, não dá para negar que esse negócio é fascinante. Agora, no caso do texto, eu tenho mais resistência, acho que o que a IA apresenta pra gente… porque escrever é botar uma palavra depois da outra, né? Se você tá fazendo uma canção ali, claro, você tá desempregando um monte de músicos, tá desvalorizando o trabalho de um monte de gente, mas a canção ainda é sua. Você escolheu o tema, você escolheu a história que você vai contar as palavras da letra, então você pode dizer que você é autor daquilo. No mínimo, você é autor da letra de uma canção musicada pela IA. Quando chega na literatura, você não é autor de nada mais, me parece, se você terceiriza o texto. O texto é uma palavra depois da outra, não há outra forma de escrever, escrever é isso. Então o que a IA faz eu acho que nem é escrever exatamente, é útil para burro, é tipo dominante, inevitável e já ganhou em 98% da paisagem textual que nos cerca. Acho que para a criação literária, para a arte feita com palavras, acho que ela não chega, pelo menos no estágio atual de desenvolvimento, acho que não chega, é a tese que o meu livro defende. Mas a verdade é que hoje, nesse momento, ninguém sabe nada. Estamos todos chutando.

Lendo o seu livro, fiquei aqui pensando o que que é para mim escrever, o que é ler, como eu vejo a minha função até como leitor. Eu lembrei de um professor meu que ele gostava de falar que ler é conversar com os autores. Isso ficou na minha cabeça aqui, quer dizer que se eu tô lendo um autor de mil anos atrás, se eu tô lendo Shakespeare, de certa maneira eu tô conversando com Shakespeare e ele tá trazendo algo, eu tô levando algo para ele, é uma relação de humanos na fogueira, uma coisa que existe desde sempre: uma conversa na fogueira, alguém contando história para você. Fico pensando, será que isso é possível com a inteligência artificial? Se a IA começa a escrever matérias, começa a escrever livros, será que a gente não perde a nossa história? A gente não perde esse contato humano? É uma brisa que tem a ver ou não?

Tem tudo a ver, porque na verdade eu acho que a última coisa que vai justificar essa arte no futuro é o fato dela ser humana. Agora, tem uns complicadores aí, porque se o leitor de um texto não souber se aquilo é humano ou não, e o texto for habilidoso ou bem construído o suficiente, qual é a diferença? Quer dizer, a diferença passa a estar fora do texto. Porque eu acho que hoje, não, hoje a IA é incapaz de fazer isso, mas muito em breve provavelmente a IA vai conseguir produzir uma imitação de texto literário muito boa, suficientemente boa, até porque nossa espécie não é uma grande leitora, ela engole qualquer coisa mesmo, tem mercado para muita coisa. E é claro que a IA vai conseguir produzir coisas com cara de texto literário. Hoje ela é tosca, mas daqui a pouco não vai ser mais. Os saltos são incríveis, mas aí a gente vai ter que continuar buscando algo fora do texto.

“Acho que a própria capacidade de ler em profundidade, o que um romance exige, está com os dias contados. Não acho que vai acabar, mas eu acho que vai virar uma seita bastante pequena, a seita de produtores e consumidores de literatura”

Aí que eu falo do alimento orgânico. Olha, isso aqui foi feito por uma pessoa e tem um valor em si nisso. Quem ver valor nisso, vai dar valor, quem não ver, vai entrar numa outra viagem, e eu acho que não vai ser mais escrever um romance. Por que a IA vai ficar escrevendo romance? Romance é um gênero humano, criado historicamente numa época em que só os humanos sabiam escrever. Se hoje você consegue terceirizar esse trabalho para uma outra espécie, não vejo porque ela vai continuar fazendo romance. Acho que a própria capacidade de ler em profundidade, o que um romance exige, está com os dias contados. Não acho que vai acabar, mas eu acho que vai virar uma seita bastante pequena, a seita de produtores e consumidores de literatura. O que a IA faz quando ela facilita tanto assim o acesso? Ela me transforma, que nem eu descobri hoje lá no Suno, me transforma num cara que compõe, arranja, produz, aluga o estúdio e faz uma canção em mais ou menos 5 minutos. Isso é genial para mim? É divertido para caramba. Agora, o que que isso tá fazendo para a ideia de música? O que isso tá fazendo com o produto música? Acho que tá transformando ele em chiclete, tá transformando ele numa pasta, que é o que tudo tá sendo transformado. Tudo tá sendo transformado numa pasta. E aí acho que a briga de agora em diante vai ser muito pesada. Não acho que faça o menor sentido recusar a IA, mas acho que faz muito sentido a gente abrir muito o olho com ela. Todas as discussões que estão rolando hoje sobre roubo de direito autoral, de obras que estão sendo usadas para treinar a IA, esses músicos todos que eu acabei de falar, que estão lá dentro do Suno para que eu possa ficar brincando, esses caras todos foram roubados. E isso é uma discussão. A gente tá num momento de faroeste em que tá valendo tudo, mas não pode valer tudo. Senão vão passar um trator em cima de nós como espécie, brutal. Já tá passando, né? Já tá passando, mas eu acho que ainda dá tempo de fazer alguma coisa.

Tomara, né? E veio para mim um livro seu que é O Drible, quando a gente tava falando disso, porque lá tem uma relação que tem a ver com textos e crônicas entre pai e filho, né? É uma conexão que é de memória. E aí você vê que a leitura nos leva pra memória, nos leva pro nosso pai, nos leva pra religião, nos leva – para alguns, né? – para Jesus, para Alá, para Buda. Te leva a essas coisas mais emocionais. É a mesma coisa que levar para um robô? Aí me vem isso também, né? Porque o que muda na humanidade no momento em que a gente talvez perca essas ligações emocionais, ou até religiosas, de fé espirituais. A IA pode alcançar isso também?

Ela pode alcançar a imitação disso, e a imitação ser tão boa que o leitor, o espectador, o ouvinte, não vai mais poder dizer a diferença, não vai saber a diferença mais. Aí, nesse momento, acho que a gente tá numa enrascada boa, porque as histórias que a IA vai ter que continuar contando, se ela continuar contando histórias, e acredito que vá, ela vai pegar esses elementos todos que você acabou de falar e botar dentro das histórias. Ela não vai fazer isso porque ela compreende, ou porque ela sente ou porque ela acredita em nada. Aquilo não é nem escrever, aquilo é uma coisa de probabilidade pura, né? Mas ela vai encontrar os padrões que se encaixam no que você, ah, “Isso aí é uma história de superação? Vende? Vende”. Ela vai imitar uma história de superação, vai acessar um monte de histórias de superação e vai fazer uma imitação que em breve, eu acho, vai ser indistinguível do original. Então, não importa muito se por trás tem uma pessoa ou não, porque quem consome aquilo vai continuar vendo os mesmos dramas de sempre. A relação pai e filho vai tá lá, mesmo a IA não sendo filha de ninguém, e às vezes sendo uma boa filha da puta, vai tá lá a relação pai, filho. Porque esse é o elemento das histórias, as histórias são humanas, isso não tem a menor dúvida, parece bastante provado que os humanos contam histórias para preencher o tempo humano, para tornar humano o tempo cósmico, o tempo que não significa nada, né? A gente conta histórias porque a gente vai morrer, porque a gente vai ter um fim. Para um imortal como é o robô, como é a IA, histórias não fazem sentido, ele não vai morrer, não precisa preencher um tempo entre o início e o fim, e o início e o fim de uma vida são sempre arbitrários, não quer dizer nada “Eu nasci no ano tal, vou morrer no ano tal”. Isso não significa nada no tempo cósmico, né? Nada, zero, e no entanto para mim é tudo. Então como é que eu faço para que isso seja tudo? Eu conto uma história, né? A gente fica tentando. A nossa vida é uma tentativa de contar uma história, uma vida, para nós mesmos, que seja.

“A gente conta histórias porque a gente vai morrer, porque a gente vai ter um fim. Para um imortal como é o robô, como é a IA, histórias não fazem sentido, ele não vai morrer, não precisa preencher um tempo entre o início e o fim

E a gente conta histórias como exercício para isso, para contar história, para preencher o tempo, o nosso tempo de vida que é curto. E tem um conto do Borges que caiu como uma luva, que eu uso para fechar o livro, chamado “O Imortal”, em que ele diz exatamente isso. As coisas só são dramáticas, pungentes e importantes numa história porque aquilo vai acontecer com os seres humanos uma vez só. O ser humano é uma figura patética, que vive, morre e acabou. Aquilo que acontece na vida dele acontece para sempre na vida dele. Enquanto para os imortais, nada é importante, tudo vai acontecer 1 milhão de vezes. Aconteceu agora, vai acontecer de novo, é um grande quarto de espelhos. A eternidade, na cabeça do Borges, é um grande quarto de espelhos em que nenhum gesto tem valor, tem peso. E para as histórias é preciso que eles tenham, têm que ter valor, ter peso, ter consequência, ter uma moral, não a velha moral da história, mas você tá lidando o tempo todo com questões morais nos personagens. E ele tá te desafiando como leitor, moralmente, e às vezes você tá concordando, às vezes você tá odiando, aquilo vai te mobilizando sentimentos que é claro que são humanos, é claro que nós inventamos esse troço. O problema da IA é que ela nos imita bem demais, e aí ela tá querendo dizer hoje o seguinte: “Sai da frente porque tudo isso que vocês ficaram fazendo, agora eu sei fazer muito mais rápido e melhor que vocês. Sai da frente.” Muita gente tá saindo, tá saindo. Muita gente tá delegando e é difícil não delegar. A gente é preguiçoso. A gente sabia fazer contas, as quatro operações, de cabeça até um tempo não tão distante assim. Hoje ninguém mais sabe, todo mundo terceirizou. Ninguém, que eu falo, aí depois vai aparecer um “não, eu sei”, sim, a gente sabe que você sabe, mas a maioria das pessoas não sabe mais, né? E a gente tinha dezenas de telefones na cabeça até outro dia mesmo. Hoje em dia mal sabe o próprio telefone.

Então eu acho que o que vai acontecer com a escrita, em muito pouco tempo, é que ninguém mais vai precisar escrever nada, nada, nada mesmo. A não ser que queira escrever, a não ser que escrever seja um valor para essa pessoa. Então eu acho que não desaparece, mas se torna um certo luxo, acho que vai se tornar um nicho bem pequeno, mesmo. Não vejo muita gente com essa vontade de manter essa, porque ler e escrever são atividades com um certo grau de dificuldade, de aprendizado, de treinamento. A nossa capacidade de atenção, o nosso arco de atenção já encolheu desde o início da revolução digital, barbaramente, o meu, o seu, de todo mundo. Então eu acho que, assim, daqui a pouco as mudanças vão ser muito maiores. Eu não não sou muito otimista também na coisa da colaboração homem-máquina, em muitos casos, sim, claro. Um bom cineasta daqui a pouco, ou hoje, talvez já, ele pode fazer um longa-metragem inteiro em casa, sem ator, sem câmera, sem locação, sem nada. Se ele for um gênio, ele pode fazer uma obra-prima. Se ele souber contar, inventar uma história legal e souber contar essa história. Não é mais a mesma coisa, é outra arte.
 
Outro dia eu vi um artigo muito bom, e eu não vou me lembrar, infelizmente, do autor para citar, para dar o crédito, mas que dizia exatamente isso. Dá para fazer um filme assim, dá. Agora é um objeto completamente diferente, um filme era uma uma obra coletiva e passa a ser um produto individual, como era um romance, por exemplo, até agora. Um escritor pode sentar no seu quarto e escrever um romance sem ajuda de ninguém. Um cineasta vai poder fazer um longa assim. É impossível você negar que isso é um avanço, que isso é lindo, que isso é prodigioso, que é uma coisa incrível. Agora, isso nos coloca em algumas sinucas de bico bem complicadas como espécie, né? Inclusive na questão da nossa sobrevivência, mesmo.

Algo que, pelo menos até agora, a inteligência artificial não consegue fazer, imagino eu, e que tem muito a ver aqui com a Breeza, que a gente fala de drogas, a gente fala da cultura canábica, da psicodelia… é aquela visão do escritor que toma um uísque, fuma um baseado, para poder ter o processo criativo, despertar coisas no seu cérebro com substâncias. Coisas diferentes, sentimentos diferentes, conexões diferentes do cérebro. Como é que você vê essa figura do escritor nesse futuro de robôs? O processo de criação, sob efeito ou não, existe pra inteligência artificial? E o que que a gente tem a perder sem essas figuras que fizeram tanto sob efeito também, do Hemingway a Bob Marley?

Cara, eu acho assim, em primeiro lugar, eu acho que a gente não perde nada. Acho que o escritor humano vai continuar existindo, né? Só acho que ele vai ter menos público, vai ser uma pessoa que insiste em fazer um produto artesanal numa época em que tudo foi industrializado, né? Tem muito valor esse artesanato dele, eu sou completamente a favor do uso de todas as substâncias para auxiliar no processo criativo, o que quer que ajude o cara, não há nenhuma objeção a fazer, não tenho argumento moral nenhum, nem mesmo legal. O cara que se vire para descobrir, a pessoa que se vire para descobrir o que funciona para ela, porque não não é só “ah, vou ficar chapado e vou produzir uma uma obra prima”, não é assim que funciona, mas em alguns casos ajuda sim. Como quando você precisa acessar umas dimensões mais intuitivas e tal da sua consciência, umas dimensões mais abaixo da consciência, ajuda muito, ainda mais, assim, para cavar uma brecha no seu dia a dia chato de trabalho, de problemas. Você tem que cavar um, entrar no clima ali, uma boa dose de uísque que pode fazer muito por isso, e outras, o que for do gosto de cada um. Mas a questão é assim: a criação não existe na IA, pela IA não existe. Pelo menos enquanto ela não criar uma consciência própria, o que ela não tem, e o pessoal diverge muito sobre quando é que isso vai acontecer, né? Se é que vai acontecer, tem gente que diz que não vai acontecer. E ela tem também que começar a trabalhar com símbolos, ela não trabalha com símbolos, ela nem escreve, ela copia e cola coisas, né? Só que ela tem um GPS extraordinário que ela sai navegando em nanofrações de segundos por tudo que já foi escrito na história da humanidade e sai pegando uns pedaços. Isso eu acho que não tem nada de criação aí. A criação é outra coisa.

“Sou completamente a favor do uso de todas as substâncias para auxiliar no processo criativo, o que quer que ajude”

A questão é que ao imitar a perfeição, o que era criado dessa forma, ela consegue chegar no mesmo lugar ou num lugar parecido o suficiente para desvalorizar a porra toda, o que eu acho que é o nosso grande problema. Não é que a IA não seja capaz de reproduzir um texto, digamos, com nuances literárias, com entrelinhas, com jogos de palavras, se você der suficientes inputs lá e os prompts certos, abastecer com os textos corretos, acho que ela vai chegar em breve a um resultado que você já não consegue distinguir mais do original. Só que ao fazer isso, é como se ela chutasse o tabuleiro, assim, acho que ela apresenta uma ameaça existencial à própria ideia de arte. O momento em que a arte se deixa reproduzir assim, tão facinho, tão baratinho, ela se desvaloriza como um todo. E aí é que tá o grande perigo, sabe? Porque a nossa também se desvaloriza junto, a não ser que a gente crie uma cultura de cultivo, do que é exclusivamente humano na arte. E aí você vai vir com selo de “este livro foi escrito sem ajuda de IA”. Acho que estamos muito perto disso.

Você falou aí do seu apoio a usar o que for preciso pro escritor, pro artista despertar. O nosso leitor tem sempre interesse em saber também. Você tem alguma coisa que você usa para poder se despertar? Como é a tua relação com as substâncias, café, uísque, baseado, o que for? Aqui a gente não tem hipocrisia.

Os três (risos). Assim, café, eu tomo, tomo muito café, tomo café pra caramba. Já teve muito tabaco no que eu escrevo, mas eu parei há 20 anos. Então, beleza. Mas no começo era quase que associado uma coisa a outra, eu não conseguia escrever uma linha antes de acender um cigarro. Mas disso eu me livrei. Eu acho que com um baseado, que é uma coisa que para muita gente não combina com escrever, muita gente já me falou isso, que quando dá unzinho, dá dois, fica disperso, fica relaxado demais para escrever. Para mim funciona ao contrário, eu me concentro, aquilo fecha um túnel ali no texto e eu passo a acreditar nas histórias que eu tô inventando, de uma maneira que eu não acredito se eu tiver careta, entendeu? Assim, se eu tiver careta, tendo a rejeitar aquela história, como clichê, ou como insuficiente, ou tem que melhorar isso aqui e tal. E acreditar no que você está escrevendo, uma ficção, é importante. Se você não acreditar, você não vai convencer o leitor também, né? E me ajuda nisso. Eu gosto de beber, mas eu já bebi mais para escrever, acho que não combina muito. Você acaba em pouco tempo já meio estragado, e escrever exige muitas horas, assim, em geral. Mas eu acho, assim, eu não conheço ninguém que escreva sob efeito de psicodélicos, assim, na hora, no ato de escrever, mas que diz que tem ideias incríveis para depois escrever. Aí eu não sei porque não é muito a minha, mas eu acho que vale o que funcionar para você, para você produzir uma obra legal. Assim, não faz o menor sentido você dizer que o verdadeiro escritor é o cara que só toma um copo d’água e tal. Não, não vejo sentido nesse papo.

Voltando aqui à conversa das palavras, e para mim você é uma grande referência de dar o real significado para as palavras, o histórico, o peso. Eu testei a IA umas vezes para ver como ela trata o tema da maconha, e ela trata as coisas meio como sinônimos, como maconha e cannabis. Mas essa não é a real, porque quando você pensa “cannabis” tem um peso, né? Cannabis medicinal é um termo até higienizado, associado a algumas pessoas. A maconha, o maconheiro, tem outro peso. O viciado, o dependente químico, outro peso, do que usuário, né? Alguns veem pela ótica do criminoso, alguns pela ótica do paciente. E a IA mistura essas palavras, significados, se você não dá um prompt que vai guiando ela, e são poucas as pessoas que conseguem guiar a IA. Então, como é que você vê primeiro o peso dessas palavras sobre a maconha, de chamar um de maconheiro, que para mim não tem nenhum estigma nisso, eu sou; e o outro de paciente, que usa “cannabis”, que não é diferente de maconha, é a mesma planta? Como é que você vê esses diferenciais na mídia, no dia a dia? E como é que a gente vai tratar com robôs disso que é tão humano, é tão delicado o peso dessas palavras assim?

Pois é, o problema dos robôs é que eles reproduzem a nossa linguagem, né? Então, se eles encontrarem referências preconceituosas por aí, vão usar todas as referências preconceituosas, e não dá para negar que a nossa espécie é muito preconceituosa. E como você falou, a Guerra às Drogas foi uma criação, uma criação do século XX, e que veio com uma propaganda brutal. O grande estigma das drogas foi criado pela Guerra às Drogas e a linguagem vem junto, a linguagem vem junto. Assim, tem como você, em tese, é aquilo que eu tava falando da briga que a gente tem hoje, em tese a gente tem como manter o controle da visão de mundo que a IA vai nos devolver, porque é um espelho, ela vai começar a devolver isso para nós e isso vai ser vai ser tomado como verdade, já está sendo. Então se a gente permite que a IA adote posturas opressivas, posturas discriminatórias contra qualquer minoria que seja, é possível que em pouco tempo ela nos ajude a cristalizar essas opressões de uma maneira que vai ficar muito mais difícil ainda de quebrar, porque o que ela nos devolve é visto como impessoal. “É a máquina que tá falando, né?” E aquilo, na verdade, é um reflexo do que ela aprendeu com a gente, e o que ela aprendeu com a gente frequentemente não é bonito.

Acho que provavelmente um bom caminho, em termos de política linguística, seria abraçar a palavra maconheiro e revalorizá-la, né? Somos todos maconheiros, somos maconheiros com orgulho

Teve a história do computador, da IA, do Grok, do Elon Musk, que chegou à conclusão de que era Hitler, enfim, ou o ser humano que ela mais admirava, “se você fosse um ser humano, quem você seria?” Isso tudo é preocupante pra caramba, pra caramba. Eu concordo com o que você apresentou: cannabis é uma coisa que tá meio sanitizada, você pode falar, porque, né?, é medicinal, mas não deixa de ser uma porta para que se comece a retrabalhar esse preconceito, que é muito arraigado, né? A palavra cannabis é uma aliada nessa luta contra o preconceito, e as aplicações medicinais também. Mas eu acho que tem um longo caminho pela frente, acho que a palavra maconha, que tem um peso negativo, sem dúvida nenhuma, principalmente o maconheiro, eu acho que provavelmente um bom caminho, em termos de política linguística, seria abraçar a palavra maconheiro e revalorizá-la, né? Somos todos maconheiros, somos maconheiros com orgulho e tal. Uma coisa parecida com o que aconteceu com a palavra brasileiro, que no começo era uma palavra depreciativa para coletores de pau-brasil. Era um trabalhador braçal, os brasileiros eram a parte mais baixa da escala social da colônia, e acabou dando nome a toda a gente, e a gente abraçou isso, viramos os brasileiros. Tanto que esse “eiro” não é um sufixo muito comum para nacionalidades, né? É um sufixo muito comum para trabalhador braçal, pedreiro, padeiro, mas eu acho que o maconheiro pode ir pelo mesmo caminho.

Uma coisa que pega muito com o nosso leitor, é um comentário muito constante que a gente recebe, é de como a mídia também, os jornais, os sites, tratam de forma diferente, alguns muito claramente. Então tem a mesma notícia de um garoto pego com maconha, por exemplo, que foi preso por um policial, e pode ser tratada num lugar como o traficante, bandido, que foi apreendido. E no outro lugar fala: “Não, é um usuário que foi encontrado em tal situação e não tem o respaldo da saúde pública”. Quer dizer, você vê que são linguagens completamente diferentes. Como é que você vê essa disputa também de palavras na mídia, de como você trata a mesma situação de maneiras tão distintas? E como o leitor consegue, nesse mundo que tá cada vez mais difícil ter leitor de qualidade, como é que a gente consegue equilibrar esses vocábulos? Como é que a gente consegue lidar com essa disputa?

Rapaz, isso é uma questão de classe, né? É uma questão de classe, assim, o menino de classe média vai ser tratado com uma benevolência que o menino da periferia não tem, não vai merecer dessa mesma mídia. Não é livrar a cara da mídia, não, acho que ela tem uma responsabilidade enorme nisso e tem muita margem de manobra ética dentro do que a mídia é. Você pode fazer isso de uma maneira escrota, você pode fazer isso de uma maneira decente, né? Essa coisa de nomear as realidades. Agora, o fato é que uma grande parte usa os estereótipos porque os estereótipos vendem, porque é isso que o público maior tá acostumado a receber e, de certa forma, ele cobra isso também. Existe um punitivismo, que é contra o pobre, na verdade, que é uma questão de classe mesmo. Quando eu falo que não é para livrar a cara da mídia é porque eu acho que no centro da questão não está a linguagem. Nesse caso, o centro da questão é político, é social. Enquanto não se resolver esse abismo absurdo, esse pesadelo que a gente tem no Brasil, não vai ser a linguagem que vai resolver. Não adianta você tentar resolver pela linguagem, você acaba caindo no politicamente correto, que às vezes é ridículo até, porque você claramente está evitando falar de um problema real e está achando que resolveu, ou está se apaziguando a sua consciência porque você mudou o nome do negócio. A realidade continua tão feia quanto antes, mas você acha que você fez alguma coisa e o seu ímpeto de brigar por uma mudança já arrefeceu, já diminuiu. E eu não sou muito chegado nessa coisa da linguagem, a gente tem que ser muito responsável pelas coisas que a gente escreve, pelas coisas que a gente comenta, tem sem dúvida nenhuma um peso muito grande, e é capaz de perpetuar ruindade, perpetuar maldade no mundo, ou ajudar a desfazer a maldade. Agora, a maldade vem de um outro lugar, a raiz dela é outra, e que não vai ser com linguagem que a gente vai resolver.

Tem um livro teu, que é de contos, se não me falha a memória, que eu adoro o título, que é O Homem que Matou a Escrita, né?

O escritor, matou o escritor.

Desculpa, tava tirando de memória. O Homem que Matou o Escritor, devia ter aqui do meu lado anotado. Mas aí a gente tá falando aqui realmente de uma quase morte do escritor, da leitura, pela máquina, talvez não pelo homem. Será que a máquina vai editar a forma como a gente fala também? Porque quando a gente pensa nas nossas palavras, elas vieram de Shakespeare no inglês, elas vieram dos escritores, vários aqui, Camões e tal, que criaram palavras pra gente também aqui na nossa língua. Será que a IA vai matar também essa função do escritor e do leitor, de criar uma linguagem pro nosso dia a dia, pro nosso povo?

É possível que tenha impacto. Eu acho que matar, não, eu acho que o povo continua sendo o grande criador de línguas, não vejo muito um futuro em que ele seja substituído nisso. Agora, impacto vai ter, não vai ficar igual, porque nada vai ficar igual, a revolução é muito profunda. Mas eu não acho que ela vá nos substituir. Na verdade, eu acho que não vai substituir em nada. Talvez até num futuro muito distante, se a gente pudesse chegar naquele ponto da ficção científica em que os robôs dão um golpe, aniquilam a humanidade e tomam conta de tudo. Não acho que esse seja um futuro impossível, mas acho que a gente não vai ter tempo de chegar lá. Porque o mundo acaba antes, né? Para evitar que essa desgraça aconteça, a natureza falou: “Opa, pera aí, vamos botar um freio nesse troço aqui”. E parece que a gente não tem esse futuro todo pela frente, né? Não o planeta, mas a humanidade, o planeta como um lugar habitável por seres humanos. Vai continuar tendo muito bicho, mas parece que eles vão se livrar de nós.

Talvez seja mais saudável para a Terra, né?

Acho que é, tá parecendo que é, né, cara? Tá parecendo mesmo. E a gente já sabe que o processo, a gente tá indo rápido pro Beleléu. Muito rápido, cada vez mais rápido, talvez provavelmente já não é mais possível deter esse momento em que a o clima vai entrar em colapso total. Poderia talvez adiar o momento, mas deter, parece que não tem mais como. A gente sabe de tudo isso e no entanto nós somos como uma coletividade planetária completamente incapaz de deter o que está acontecendo. Não tem os instrumentos políticos, não têm minimamente, e muito pelo contrário, todas as tentativas de cooperação internacional acabam, né?, nos últimos anos tão desmoronando uma por uma. É o contrário do que deveria estar acontecendo. Então, assim, eu acho que realmente não tem muita saída, a sobrevida da humanidade não parece muito longa, ou pelo menos não nas condições que a gente conhece, né? Acho que um futuro meio Mad Max talvez ainda dê para imaginar, uma coisa de, enfim, colapso das estruturas sociais que nós temos hoje e uma volta para uma certa barbárie.

E aí a gente vai precisar de muita maconha e psicodelia para aguentar, hein?
(risos) Vai.