
O psiquiatra Jairo Bouer é voz que entende e nos faz entender de sexo e de drogas. Ele traz os assuntos sem hipocrisias com suas falas, escritas e seu rosto que ganharam fama na TV (MTV, Cultura, Globo…), no rádio, nos jornais, em sites. Agora é sucesso no Instagram e no TikTok (onde é seguido por mais de 1 milhão de perfis) com seus comentários sempre diretos ao ponto!
Na entrevista a seguir para Filipe Vilicic, editor da Breeza, o Dr Jairo nos fala sobre redução de danos ao usar o que for, de como foram as (poucas) experiências dele com drogas, do status das pesquisas médicas sobre maconha e psicodélicos… assim como da atual onda conservadora e reaça, que traz também cenas como a do pastor de calcinha andando pelas ruas e viralizando nas redes.
A entrevista está divertida, educativa e elucidativa para quem quer usar o que quiser, fazer sexo da forma que gostar, mas de maneira informada e responsável. Como nos diz Jairo Bouer, que ganhou força com o público jovem e, hoje, é seguido também por adultos que cresceram lendo e ouvindo seus conselhos: “prevenção, redução de danos, e autonomia com responsabilidade, né?”.
Começando aqui a conversa, queria entender como é que você vê o momento atual da forma como a sociedade lida com a sexualidade, neste momento em que a gente saiu de políticas de inclusão, as empresas falando disso, falando mais de diversidade, e agora parece que tá indo pro oposto, né? As empresas estão cancelando esses programas, principalmente nos Estados Unidos. Tem governos que passam a reprimir esse tipo de política pública. Como é que você vê esse momento?
Se a gente pensar, assim, se a gente fizer um retrospecto… e eu falo um pouco da minha experiência. Eu me formei em medicina, depois em psiquiatria e comecei a trabalhar com sexualidade nos anos 90, no século passado. Já são uns 30 anos aí, talvez até um pouco mais de 30 anos nessa história. E aí eu vou te contar que eu sinto hoje mais dificuldade da gente poder falar do assunto do que há três décadas, houve uma uma guinada conservadora aí em relação a esse tema e acho que tem algumas coisas importantes para pensar. Na década de 90 a gente estava vivendo uma grande crise, né? Na época a gente chamava de uma epidemia, mas era uma pandemia de HIV e AIDS, com pouquíssimos recursos tecnológicos, naquela época, para a gente poder lidar com essa questão de saúde pública. Então, a gente tinha basicamente preservativo, tinha alguns antirretrovirais que tinham uma meia vida, assim, rapidamente, e o vírus ficava resistente a esses medicamentos rapidamente. Eu falo assim, 5 a 10 anos, via de regra. Todo mundo que tomava os primeiros medicamentos, né? O vírus ficava resistente e a gente não tinha mais recursos terapêuticos. E camisinha, que sempre foi um insumo importante, (mas) sempre houve uma adesão muito parcial à história da camisinha. A gente sabe que, mesmo hoje, acho que menos de metade das pessoas usam a camisinha regularmente nas suas relações sexuais. Então, é um insumo importante, ajuda, previne, mas as pessoas não usam.
A gente tinha que falar de sexualidade, então as escolas encampavam esse assunto, a gente participou de vários projetos e não foi só no Brasil, não, no mundo inteiro a gente tinha esses projetos de intervenções, de discussão de sexualidade nas escolas por conta dessa questão de prevenção. Aí a gente dá um salto no tempo, né? Se do ponto de vista tecnológico a gente teve uma evolução incrível em relação à sexualidade e em relação à prevenção, pensando especificamente na questão do HIV-AIDS, né? Então, hoje, embora a gente não tenha uma vacina, a gente tem medicamentos ou recursos medicamentosos que você faz prevenção química. Então você tem PREP, você tem PEP, mesmo para as pessoas que se infectam com vírus, hoje você tem tratamentos altamente eficazes que tornam as pessoas, eh, eh eh, indetectáveis e, portanto, elas não transmitem o vírus. Podem passar décadas convivendo com HIV e vão morrer muito mais velhos, como a gente vai morrer um dia todos nós, de outras causas que não o HIV. Então, embora a gente tenha tido esse salto tecnológico, embora a gente tenha, no nível pessoal, Filipe, acho que a gente aborda hoje questões de sexualidade de uma maneira mais tranquila, ou, enfim, a sociedade tem o potencial de lidar com essas questões, principalmente os mais jovens, de uma maneira mais tranquila. Então, se você fala de orientação sexual, se você fala de identidade de gênero, eram temas que eram muito mais complexos nos anos 90 e que hoje, assim, os jovens falam sobre isso, convivem com isso, lidam com a sua sexualidade de uma maneira muito mais tranquila. A gente tem esse salto tecnológico e a gente tem uma evolução, vamos chamar assim, de alguns conceitos em relação à sexualidade.
Mas do ponto de vista prático, quando você vai pensar em projeto de sexualidade nas escolas, políticas de saúde pública em sexualidade, a gente tá muito mais atrasado do que a gente estava há duas ou três décadas. Eu acho que isso tem a ver basicamente com o movimento conservador. No meu entender, a percepção dessas correntes conservadoras é uma percepção burra, vamos chamar assim, né? Limitada, né? Confundir posição política com sexualidade, né? Então, assim, eu posso ser de direita, eu posso ser de esquerda, mas o que a minha vida sexual tem a ver com isso? A gente tem de lidar com essa hipocrisia. Porque a gente assume uma máscara absolutamente hipócrita. Porque a gente vende um conceito pros outros e na vida pessoal a gente tem um conceito completamente diferente. Então eu acho que existe uma hipocrisia muito grande, né? E existe um erro crasso, que no meu entender é misturar discussões de prevenção, sexualidade, comportamento, com polarização política. Eu acho de uma burrice, de uma cegueira total. E aí a gente vê situações, assim, a gente tem um pastor que condena gays, condena transexuais, condena adúlteros… aí na calada da noite veste uma calcinha, uma peruca e vai pra rua, né?
“Existe um erro crasso: misturar discussões de prevenção, sexualidade, comportamento, com polarização política. Acho de uma burrice, de uma cegueira total. E aí a gente vê situações, assim, a gente tem um pastor que condena gays, condena transexuais, condena adúlteros… aí na calada da noite veste uma calcinha, uma peruca e vai pra rua, né?”
Nada contra ele vestir uma peruca e ir pra rua. Pode ser o que a gente chama de crossdresser. A pessoa que tem prazer, tem desejo em se vestir com as roupas do sexo oposto. Pode ser que ele tá ali procurando uma parceria sexual, e acho que isso faz parte da fantasia dele. Isso não interessa a ninguém, né? No nível pessoal, cada um faz o que bem quer da sua vida, desde que não prejudique ninguém. Agora, vender um peixe que você tá fritando para comer como se fosse proibido, pecaminoso, né? Eu acho de uma hipocrisia de um tamanho sem igual. E aí a gente percebe muito, um acoplamento de uma pretensa orientação política com esse tipo de comportamento… então essa hipocrisia. E aí a gente tem uma questão que eu acho que é bastante importante aí, porque isso de alguma forma impacta a vida de todo mundo. Aí você tem, por exemplo, uma guinada conservadora nos Estados Unidos, em que políticas de inclusão, políticas de diversidade, que vinham sendo aplicadas, deixam de serem utilizadas ou empregadas, isso é muito ruim pra sociedade como um todo.
Só uma última coisinha, Filipe. Eu lembro que lá na década de 90, quando a gente falava de prevenção, uso de camisinha, tinha uma onda conservadora também, que falava que a alternativa, ou a melhor alternativa, para prevenção do HIV-AIDS era abstinência sexual, né? Então eles não falavam de prevenção nas escolas, eles falavam só de abstinência. O que a gente via, né? Não tem um engajamento, as pessoas não são abstinentes e, portanto, sem informação sobre prevenção se expunham mais a risco. Eu acho que é mais ou menos o que a gente vai experimentar, né? Então, (hoje) não tem educação sexual nas escolas, não se fala disso, não tem política de inclusão, as pessoas são educadas nas suas bolhas, né? E aí a gente pode ter alguns resultados bem complicados.
Falando até dessa dessa amplitude da educação, eu cresci aí anos 90, 2000 e lembro das vinhetas da MTV falando sobre prevenção. Você via em todo lugar, você via nas ruas e nos outdoors. Você via nas suas colunas que eu acompanhava na Folha, seus livros, né? Hoje você tem, por exemplo, seus vídeos no Instagram, você encontra isso, mas me parece que até a rede social reprime isso. Porque as pessoas têm que escrever sexo com símbolos, aí bota um emoji porque senão a rede social reprime. Aqui com a Breeza é muito isso porque a gente fala de maconha, psicodélicos, sexo, a gente fala de temas ousados. Como você disse, as pessoas não são abstinentes nem de sexo… e nem de drogas, né? Seja café, álcool, o que for. Então a gente fala sobre, mas a rede social vai lá e corta, que é o oposto que tinha naquele momento MTV. Você falou aí do que aconteceu com o mundo. Agora, como é que a gente passa esse tipo de informação hoje com essas resistências que por vezes são até algorítmicas, né? Uma caixa preta que a gente não entende.
É complicado, né? A gente, por exemplo, tem feito um trabalho muito intenso. A gente foi migrando, então numa época a gente falava de sexualidade no jornal, nas revistas, na TV, nas rádios, a gente vai acompanhando essa mudança, de onde as pessoas se informam, a gente passa pela web, pela internet, pelos grandes portais e acaba desembarcando nas redes sociais. Então aí a gente continua a fazer o trabalho que faz, já em duas ou três décadas, nas redes sociais também. É complicado mesmo, a gente é frequentemente penalizado por tratar de temas mais sensíveis, só que a gente fala e trata de uma forma educativa, quer dizer, a gente usa humor, a gente tem uma linguagem direta, mas a gente continua a falar, né? Então é muito curioso, porque de alguma forma o algoritmo penaliza a gente.
É tão maluca essa história. Porque a gente (a equipe do Jairo, como do site doutorjairo.uol.com.br), por exemplo, faz parte de algumas redes internacionais patrocinadas pelas próprias redes sociais, de saúde mental. Então, a gente tem uma rede de saúde mental, de profissionais de saúde mental do mundo todo, que estão atrelados à Organização Mundial da Saúde, atrelados também a uma dessas grandes redes sociais. A gente faz, a gente publica vídeos, eles impulsionam, a gente discute com eles temas sensíveis, em reuniões para falar sobre esse assunto e tal. A gente está junto com a rede social para pensar em políticas de saúde pública e, assim, ao mesmo tempo, essas mesmas pessoas que trabalham nessas redes sociais e que têm um papel importante, elas não conseguem entender o algoritmo da própria rede que elas estão trabalhando, porque eles têm uma dificuldade de enxergar que a gente é parceiro, que a gente não é e inimigo, né? Então, assim, isso dentro da própria rede, da estrutura da rede.
Imagina como isso fica. E ao mesmo tempo você tem aí conteúdos sendo veiculados pelas redes e que são altamente complexos, complicados e sensíveis. Só para falar de um tema que nesta semana ou, enfim, recentemente tá mais destacado, a questão da adultização, da sexualização precoce dos jovens. Esses vídeos estão lá o tempo inteiro, as pessoas estão acessando. A gente tem grandes influenciadores com conteúdos muito sensíveis e que não são penalizados. E aí quando você vai tentar fazer um trabalho educativo, informativo, fala de prevenção ou, enfim, álcool, droga, sexualidade, a gente acaba penalizado. As redes sociais, na verdade, acho que elas são uma representação de tudo que acontece fora, na sociedade como um todo. E aí as bolhas se reproduzem, as mesmas bolhas que você tem na sua vida social se reproduzem nessas redes e com uma intensidade com com alcance muito maior.
Você falou de pontos que pra gente aqui é muito importante na Breeza, da questão da educação, de que as pessoas usam mesmo, então a gente precisa informar. E aí me vem aqui na cabeça… quais são as consequências dessa desinformação, desse algoritmo que bloqueia? Porque eu vejo aqui sempre no jornal falando de aumento do número de HIV. Outro dia a Breeza fez um painel de redução de danos na feira da diversidade da parada LGBT+ aqui em São Paulo. E você via muito a preocupação com o sexo químico, né? Misturar drogas pesadas com sexo. E as pessoas podem misturar drogas com sexo, isso aí as pessoas fazem. Mas a questão é o abuso, né? Passar do limite. Você via muito essa preocupação, por exemplo, na comunidade LGBTQ+ que a gente tava conversando lá. Quais são as consequências da gente não ter essa amplitude de campanhas? Essa amplitude de vinhetas da MTV, como tinha, como a gente comentou, de ter essa real amplitude desse discurso educacional.
É, eu acho que é o risco, as pessoas se informarem ou buscarem algum tipo de informação na rede e não necessariamente obterem o melhor resultado dessa informação. Na MTV, por exemplo, só pra gente fazer uma coisa meio saudosista, nostálgica, mas ao mesmo tempo a gente entender um pouquinho isso, tinha uma certa curadoria dos conteúdos que estavam sendo expostos. A gente tinha muita liberdade, a gente ia direto ao ponto, mas tinha uma curadoria, né? Você não falava um absurdo, um non sense, uma desinformação, uma fake news, né? Agora, como a rede social, tem um grande vantagem de multiplicar ou de dar voz às pessoas que não teriam voz. Se a gente pensa nessa mídia tradicional, ela acaba dando e reservando o espaço de fala para pouca gente, né? Se de alguma forma as redes sociais subvertem essa ordem e isso pode ser bacana, porque mais gente pode passar seu recado, sua mensagem… por outro lado, tem uma ausência de controle ou falta de curadoria, e informações muitas vezes absolutamente equivocadas, distorcidas e um grande espaço para fake news.
E pior, o uso de fake news, de desinformação por correntes políticas com um ganho lá no fundo, que por trás disso estão buscando algum benefício, algum ganho. Então, a gente precisa tomar muito cuidado com isso. Só para ficar, por exemplo, na questão do chemsex que você trouxe, né? Mundo afora a gente tem algumas políticas de redução de danos e informação sobre essas políticas, que é muito importante, né? Por exemplo, tem alguns países em que você pode testar o que você vai usar, antes de usar. Aqui, muitas vezes as pessoas compram determinadas substâncias, não sabem exatamente qual é a procedência daquela substância, e essa substância pode ter contaminantes, esses contaminantes podem colocar a pessoa em risco. As pessoas muitas vezes não se dão conta que uma substância que altera o teu nível de consciência, o teu nível de percepção, pode fazer com que você corra mais riscos em diversos departamentos, inclusive no campo da sexualidade.
“Tem alguns países em que você pode testar o que você vai usar, antes de usar. Aqui, muitas vezes as pessoas compram determinadas substâncias, não sabem exatamente qual é a procedência e pode ter contaminantes (…) muitas vezes não se dão conta que uma substância que altera o teu nível de consciência, o teu nível de percepção, pode fazer com que você corra mais riscos em diversos departamentos, inclusive no campo da sexualidade”
No chemsex, talvez os riscos estão nessa exposição que o indivíduo tem da sua saúde, da sua sexualidade, em situações mais complexas. A gente viu recentemente o caso de um inglês que acabou sendo vítima de um golpe lá de algumas garotas de programa, acho que eram garotas de programa, lá no Rio de Janeiro, né? Não deixa de ser que chemsex. Ele tava em busca de sexo, não foi voluntário (o uso da substância), né? Provavelmente ele não sabia aquilo que ele estava consumindo, mas ele tem uma alteração de nível de consciência e ele é roubado. Podia ter ser sido levado para uma comunidade, podia ter sido sequestrado, podia ter sido colocado numa situação mais de risco à vida dele. Quando a gente faz voluntariamente também pode acontecer, o indivíduo tá buscando uma alteração de sensibilidade, de prazer, de nível de consciência, e aí tem um rebaixamento dos seus controles, e pode se expor numa situação de risco, por exemplo, fazer sexo sem proteção, né?, esse é um exemplo.
Por isso que, muitas vezes, quem faz uso regular de substâncias pra ter a sua vida sexual talvez tenha que considerar, imagino que essa é uma um dos assuntos que vocês falaram nessa mesa, tem que considerar talvez uma profilaxia química para HIV, pelo menos, né? Então, por exemplo, fazer PrEP, fazer PEP, né?, além da substância que se está usando para obter uma alteração de nível de consciência, de prazer, de sensibilidade e por aí vai. Mas essas mensagens, é importante que elas cheguem nas pessoas, e que elas não fiquem só nichadas, que elas não fiquem só em determinados grupos. Assim, “como que eu que sou mais vulnerável do ponto de vista social, econômico, que vivo eh numa franja do espaço urbano, em que eu não tenho acesso a essas informações e etc., como que eu me comporto numa situação de risco, como que essa informação chega para mim, né?” Então, eu acho que os grandes projetos de prevenção, as campanhas, a função delas é chegar nas pessoas e deixar as pessoas mais informadas.
Acho que as escolhas são pessoais, né, Filipe? Então, cada um sabe o que que vai fazer da vida. Se eu quero botar uma peruca, usar a calcinha, ótimo, né? Se eu quero usar uma substância porque eu me sinto melhor para fazer sexo, beleza. Mas, assim, será que eu sei que eu tô correndo risco? Será que eu sei que eu posso estar prejudicando a vida de alguém? Será que eu percebo que eu posso estar me colocando em situação de risco? Então, eu preciso receber essa informação, né? Acho que isso é importante. E a gente corre esse risco, né? Nesse momento em que alguns assuntos ficam interditados.
Você falou de redução de danos, que é um assunto que a gente aborda muito aqui, né? A gente tem até o Guia da Boa Breeza…
É, eu vi aqui.
…que é sobre redução de danos, que a gente distribuiu no evento da Parada e vai distribuir em outros lugares com informações de vários especialistas. Aí eu queria entender como você vê a redução de danos aplicado às drogas, a todas as drogas, as legais, cigarro, álcool, maconha medicinal ou maconha lá fora em alguns lugares que é legalizado, ou as não legalizadas, as não regularizadas, metanfetamina, cocaína, todas as outras. Porque na redução de danos você tem uma ideia muito… é praticamente igual, para mim é igual, né?, como a do sexo dos anos 90 que você falou, pô, falavam de abstinência. Se você chegar aí e falar pra galera para de usar drogas, a galera toma café, a galera toma álcool, né? Não tem como. Então, como é que você vê a redução de danos aplicado às drogas hoje, que é um assunto super em voga?
Acho que quando a gente pensa em abstinência, é uma estratégia que funciona para todo mundo? Não, ela funciona provavelmente para uma minoria das pessoas. Ah, tudo bem. Você vai falar em abstinência sexual para uma turma que por uma questão religiosa não faz sexo antes do casamento. Talvez cole, talvez funcione nessa política, mas para a grande maioria da população não vai funcionar. Em relação às substâncias, acho que é uma questão muito parecida, né? Tem gente que não vai usar nada e tá muito bem, obrigado, ótimo, né? Não vai usar cigarro, não vai beber, não vai usar nenhum tipo de droga não regulamentada, e vai levar a vida desse jeito e tá muito bem com isso. E para essas pessoas… elas já fazem a sua própria abstinência. Agora, para quem não faz, ou para quem experimenta e, de novo, as escolhas são sempre muito pessoais, né, Filipe?, acho que é muito importante que a gente ofereça para essas pessoas, políticas ou estratégias que as coloquem em menor situação de risco, que reduzam seus danos, os seus riscos. Por exemplo, se a gente pensar na talvez droga mais consumida no mundo, que é o álcool, por exemplo, a gente tem uma evolução nessa história de política de redução de danos, por exemplo, o drink and drive. A pessoa que bebe, não deve guiar, não pode guiar. E distribuição de água nas festas, nas baladas, de preferência distribuição gratuita de água, em que as pessoas vão sabidamente beber. O piloto da vez como uma como uma estratégia, enfim, várias possibilidades, de medidas, de estratégias que vão reduzir os danos, os riscos que boa parte das pessoas vão correr. Inclusive, né, a informação sobre como eu reconheço meu limite, quando talvez seja a hora de parar, como que eu busco o suporte de outras pessoas se eu resolvo beber. Então, eu acho que essas informações, essas estratégias são importantes e isso, né?, de alguma maneira vale para… a gente tem políticas de redução de danos específicas para determinados tipos de substâncias, ou de drogas.
“Da mesma forma que a gente sabe que a política de abstinência total às drogas (e ao sexo) é inócua, não funciona para a maior parte das pessoas, as grandes políticas de combate às drogas também (…) de novo, prevenção, redução de danos, e autonomia com responsabilidade, né? Acho que são conceitos que conseguem dar conta de muito mais gente, do que as políticas muito restritivas“
Então, se a gente pensa em drogas endovenosas, e se a gente pensa na prevenção à exposição ao HIV e outras, infecções que podem ser transmitidas pelo compartilhamento de agulhas e seringas, né? Distribuição gratuita desses insumos é uma política de redução de danos. Centros em que a pessoa vai, por exemplo, na Europa, centros em que a pessoa vai se auto-aplicar drogas endovenosas e aí terá material descartável à sua disposição. Testagens das substâncias, das sintéticas, que podem ser feitas, você tem alguns testes rápidos para detectar até alguns contaminantes que podem trazer risco para a saúde. São exemplos de estratégias que são muito importantes, porque da mesma forma que a gente sabe que a política de abstinência total às drogas é inócua, não funciona para a maior parte das pessoas, as grandes políticas de combate às drogas também, né?, como a que tem nos Estados Unidos, principalmente no século passado, mas que a gente continua tendo, vamos chamar assim, traços dessas políticas até hoje ali nos Estados Unidos, se você pensar. A gente tem uma uma limitação importante dessas grandes políticas de guerra às drogas, tá? Então, assim, de novo, prevenção, redução de dano, e autonomia com responsabilidade, né? Acho que são conceitos que conseguem dar conta de muito mais gente, do que as políticas muito restritivas. Então, nesse sentido, eu acho que essas discussões são importantes em qualquer campo, sexualidade, álcool, cigarro e drogas, até uso de tecnologias, né, Filipe? A gente fala já em redução de danos de uso de tecnologias e tal. Então, acho que tudo isso faz parte, né? E a gente tem que discutir essas essas possibilidades. E implementar, né? Não só discutir, implementar.
Ah, isso é importante implementar, que é o que a gente vê pouco aqui no nosso país às vezes, né? Muita fala e pouca implementação. E aqui a gente gosta de ouvir também, principalmente quando alguém como você, não só tão informado, como que nos informa, que é modelo disso. Como é você em suas experimentações? Você é um experimentador de substâncias, ou não é? Já foi? Como é que você lidou com isso na sua vida?
Olha, na verdade, tenho poucas experiências com substâncias ao longo da minha. Já experimentei, óbvio, várias, mas foram poucas. Eu acho que poucas, basicamente porque, por uma característica minha, que eu gosto muito de ter o controle sobre tudo que tá acontecendo. Então eu gosto de ficar de olho, gosto de saber e gosto de ter um controle sobre as situações que eu tô passando naqueles momentos. Então, assim, eu me divirto bem sem necessariamente precisar estar sob efeito de alguma substância, né? Mesmo álcool, por exemplo, que é uma uma substância, talvez das substâncias…. é café, açúcar, que estão muito presentes na vida, da gente no dia a dia… o álcool talvez seja a substância que eu mais tenho contato. Eu fico bem com uma quantidade muito pequena de álcool, então eu não preciso de álcool para me divertir. Se eu bebo uma quantidade muito baixa de álcool, eu fico tranquilo, fico bem, não gosto da sensação de estar perdendo controle, mas essa é uma característica minha, né?
Assim, ao longo da vida eu já tive, durante a faculdade, já tive contato, experiências com outras substâncias, mas não é uma coisa que para mim é uma coisa super marcante, super importante, que eu tenho que fazer o tempo todo. Mas eu tenho, obviamente, tenho amigos em meu círculo de relacionamento, de amizades, tenho pessoas que usam com frequência, como álcool, ou cigarro, ou maconha, enfim, essas pessoas fazem parte das minhas redes de contato, são pessoas que eu saio junto e convivo o tempo todo. Assim, eu acho que é muito você respeitar a autonomia, a individualidade e entender que as pessoas têm gostos, têm desejos, têm vontades que são muito particulares, que são muito suas. E tudo bem, né? É, desde que – e é aquilo que a gente sempre fala – você entenda eventualmente os riscos que você está correndo, eventuais riscos e, se existem esses riscos, os impactos que isso pode ter na tua vida e como lidar com eles.
Eu já falei para vários amigos e pessoas próximas alguma coisa do tipo assim: “Será que você não tá passando um pouco, exagerando um pouco com relação ao consumo de determinado tipo de substância? Então, por exemplo, uma pessoa que queria emagrecer e que fumava maconha o dia inteiro, e que aí não parava de comer o dia inteiro e obviamente não conseguia emagrecer, né? Assim, malhava o dia inteiro, corria, mas não tava conseguindo emagrecer. Aí a discussão era quando você usa, você tem mais fome, né? Se você tem mais fome e usa, vai ser mais difícil você conseguir esse teu objetivo. Ou, por exemplo, uma coisa que às vezes a gente percebe também: a pessoa começa com um consumo mais eventual, mais esporádico… e isso, assim, não só com amigos, mas com pacientes… e esse uso ele aumenta, né? Aumenta por tolerância, aumenta porque a pessoa está numa fase mais vulnerável da vida dela. Então, “eu fumava maconha todo dia antes de dormir porque eu conseguia dormir mais tranquilo”. Beleza? Aí assim, eu comecei a fumar, além de antes de dormir, eu comecei a fumar depois que eu acabava o trabalho, porque era o momento em que eu queria relaxar mais, tá? Então você começava a fumar às 6 da tarde. Aí fumava às 6, fumava às 8, fumava às 10, fumava às 12, né? “Aí eu comecei a fumar durante o dia para relaxar durante o trabalho”. Ok, se você tem um trabalho que te permite isso, se você acha que isso não está impactando a tua vida, a tua produtividade, a tua concentração, o teu foco, beleza. Agora, se isso começa a te incomodar, se isso pode estar te prejudicando, será que você não tem que talvez repensar, rever, entender o impacto que isso tá tendo?
Então, eu acho que isso é uma coisa importante da gente falar, assim, a gente tem hoje, por exemplo, eu acho que a maconha é sempre a droga mais polêmica, né? Porque assim, ela é mais presente, ela talvez é mais usada, tirando o álcool. Eu acho que hoje, no Brasil e no mundo, a gente tem mais uso de maconha do que de cigarro, por exemplo. Nos Estados Unidos, você já tem, apesar da onda conservadora por lá, você tem estados que antes disso já tinham regulamentado a questão do uso da maconha, do consumo da maconha. Vários países da Europa e tal. Eu acho que, assim, esse cenário de em que você pode utilizar as substâncias sem riscos legais, eu acho que esse é um cenário positivo, né? Porque de novo, a repressão, a criminalização, né? O combate às drogas, a gente sabe que são políticas pouco efetivas. Agora, é muito importante que cada um, e eu acho acho que esse é o desafio pessoal, assim, até que ponto esse consumo tá bacana para mim, até que ponto eu aumentei o consumo e esse aumento pode estar impactando minha vida de uma maneira que poderia estar me trazendo algum tipo de prejuízo? Acho que essa é uma questão. E digo, isso é sempre mais complexo, porque assim, de novo, a gente tem os defensores de que tem que ter uma liberação total, cada um usa o que quer e os impactos seriam desprezíveis. Para algumas pessoas não são desprezíveis, né? Tem gente que é muito sensível, tem gente que tem ou pode ter um risco maior de de quadro psicótico, principalmente, né?, pessoas mais jovens.
“Acho que a maconha é sempre a droga mais polêmica (…) Porque já que as drogas estão mais prevalentes, o uso tá mais frequente, a gente tem que entender que elas também podem trazer risco”
A gente sabe que para algumas pessoas, sim. A pessoa pode aumentar o consumo e isso trazer algum tipo de prejuízo para sua vida pessoal, relacional, prática, trabalho e etc. A gente sabe que tem muita gente que usa substâncias numa tentativa, talvez consciente, talvez inconsciente, de se automedicar, porque tem um transtorno de base. E muitas vezes você perde a chance de tratar esse transtorno, né? Porque a pessoa acha que o melhor tratamento, sei lá, para TDAH ou para ansiedade é usar maconha e não usar uma terapia, entender o que tá acontecendo, usar um medicamento específico por um tempo limitado. Acho que essas discussões também são importantes, né? Porque já que as drogas estão mais prevalentes, o uso tá mais frequente, a gente tem que entender que elas também podem trazer risco. Então, acho que esse é esse é um ponto importante. E com maconha esse tema é sempre mais sensível, né? Porque os defensores mais arraigados falam: “Não, esse é um papo careta, esse é um papo da academia, você tá querendo medicalizar”. Mas tem algumas discussões que são importantes, sim, que a gente tem que passar por elas.
Falando em medicalizar, hoje tem muito o uso com fim médico. A gente aqui vê o uso como uso, né? Então tem essa polêmica também, é uso adulto, uso recreativo, uso médico? Mas o fato é que tem o fim médico, né? Com a receitinha que o médico dá, você vai lá, pega tanto para maconha quanto para outras substâncias, como cogumelos e outros psicodélicos são usados para esses fins de cura. Como é que você vê essas substâncias entrando nesse lugar de cura também da medicina, que é o teu lugar? Há lugar bom para isso?
Sim, Filipe, eu acho que a gente tem lugar bom, sim, para isso. A gente precisa lembrar que boa parte dos medicamentos comerciais que a gente tem hoje, muitos deles são derivados de substâncias ou de produtos que eram utilizados ao longo da história da humanidade para outros fins e que você acaba descobrindo um fim medicamentoso para eles. Então, sim, eu acho que a gente fala de psicodélicos, a gente fala de alguns sintéticos, a gente fala de maconha para tratamento de algumas condições. Acho que, sim, de novo, tem espaço, né, no arsenal terapêutico pra gente usar isso. Eu só acho, Filipe, que como qualquer tipo de remédio, a gente precisa de pesquisa, né? Aí a gente precisa provar que usar maconha para esse fim é melhor, ou tão bom quanto usar A, B ou C, ou não usar nada, né? E os riscos, né? São menores? Ou os efeitos colaterais não são importantes ou são desprezíveis? Então, eu acho que a gente precisa ter pesquisa, né? Hoje a gente tem muita coisa acontecendo de pesquisa ainda nos centros acadêmicos, nos centros universitários. E para determinadas condições, a gente já mostrou, já demonstrou que os usos de derivados de maconha, por exemplo, tem uma finalidade muito importante. Agora, tem outros tantos que a gente precisa continuar investigando, antes de poder, vamos dizer assim, oficializar o uso. Então, por exemplo, quando a gente pensa em medicamento comercial, você tem muitas vezes o uso para o qual ele é aprovado e o uso que a gente chama de off label… que a prática mostrou que também funciona para isso. E aí a gente pode até reavaliar esse medicamento para esse uso off label, que por conta do uso, da experiência, se mostrou que tinha função. Por exemplo, o minoxidil para crescimento de cabelo. Era um remédio que era usado para controlar a pressão, e começou a crescer o cabelo. As pessoas começaram a ter crescimento de cabelo. Opa, então tem um fim, vamos testar ele para determinado fim. Vamos ver se tem risco, vamos ver se tem função. Então esse é só um exemplo.
“A gente fala de psicodélicos, a gente fala de alguns sintéticos, a gente fala de maconha (…) tem espaço no arsenal terapêutico (…) só acho que, como qualquer tipo de remédio, a gente precisa de pesquisa, né? Aí a gente precisa provar que usar maconha é melhor”
Acho que, sim, que tem espaço, de uma maneira geral. A gente tem pesquisa clínica acontecendo para várias substâncias e para várias e várias condições. Alzheimer, Parkinson, e aí não tô distinguindo as drogas, tá? Tô só falando sobre alguns campos de pesquisa. Epilepsias, controle de ansiedade, distúrbio do estresse pós-traumático. A gente tem uma experiência clínica, o uso clínico, a tentativa de provar que a gente tem um efeito terapêutico que é bom, e que esse efeito terapêutico é melhor com determinadas substâncias do que com outras que a gente têm disponíveis e que o benefício é maior que o risco, né? Então, acho que esses são pontos importantes, mas eu acho que nos próximos anos a gente vai ter cada vez mais pesquisa clínica. E de novo, é muito importante que a gente tenha essas pesquisas, porque uma coisa é eu fazer um cursinho na internet e já posso prescrever canabinóides, e sem a gente ter de fato uma avaliação, um controle, um resultado prático importante. E outra coisa é você ter, ao longo do tempo, você vai ter pesquisa clínica, vai chegando a resultados, vai achando um lugar para esse arsenal nos recursos terapêuticos que a gente tem hoje.
Vou fazer duas perguntas juntas agora porque elas são quase opostas. Porque você falou que você não é um grande adepto, mas teve suas experimentações. Teve alguma droga, pode ser maconha ou outra que você falou, que deu um “Pô, isso aqui é bom, isso aqui é gostoso, me fez bem”. E ao mesmo tempo, teve alguma droga que quando você experimentou, como médico, como usuário, você percebeu isso “aqui é muito ruim, não deveria estar na sociedade”? Ou não existe isso. Como é que você viu no seu corpo, na sua mente?
Eu acho que depende muito do momento também e da substância. Eu não experimentei também tantas coisas assim, as experiências que eu tive foram boas, né? Até que uma delas não foi boa. E aí quando essa experiência que que era boa não foi boa, preferi não continuar. E as outras poucas experiências que eu tive, foram boas, foram prazerosas, mas acho que foi um momento, sabe? Eu tava ali com a minha turma na faculdade experimentando e, depois, assim, não fez sentido para mim a continuidade dessas experiências, mas foi importante eu saber, né?, quais eram os efeitos que tinham no meu organismo. A mesma substância podia ter efeitos que podiam ser legais e, ao mesmo tempo, dependendo do momento que eu tava, podiam não me fazer bem. E você ter a decisão, a possibilidade de fazer as tuas escolhas, sem pressão do grupo, sem influências de mídias, influências sociais, você pode fazer suas próprias escolhas. Acho que isso é legal.
Mas não tem uma droga boa e uma vilã, isso existe?
Assim, existem algumas substâncias que têm talvez um maior potencial de causar impactos ou adição em algumas pessoas de uma maneira mais rápida. Então, talvez essas substâncias precisem de um controle maior, de um cuidado maior. Só para ficar num exemplo, o crack a gente sabe, né?, que ele tem um potencial de dano ou de adição muito rápido, mas algumas pessoas experimentam crack e nunca tem problema. Enfim, só para ficar num exemplo disso, mas ele (o crack) tem, a gente sabe que tem esse risco teórico importante. Acho que fazendo essa ressalva, acho que é isso, né? As substâncias podem ser boas ou podem ser ruins, a depender da quantidade, da frequência, do momento em que o indivíduo está, dentre outras questões.