Reportagens

Maria, Maria

Por Anita Krepp

Quantos anos demorou para você descobrir que passar três gotinhas daquela oleozinho de cannabis no baixo ventre, durante os períodos menstruais, proporciona alívio imediato nas cólicas? Eu levei uns 30 e poucos para provar em primeira pessoa esse experimento que, desde que testei a primeira vez, e por todas em diante, sempre me funcionou maravilhosamente bem: a cólica sumia em dois minutos, ou talvez menos.

Longe de mim dizer que isso tem comprovação científica, ou que as pessoas devam fazer o mesmo, mas, quando a ausência de pesquisas clínicas ao longo de décadas de proibicionismo atrasa o acesso a informações que poderiam melhorar e muito a vida de milhões de mulheres, então compartilhar experimentos pessoais e relatos de casos médicos passa a ser um compromisso.

A experimentação é uma prática comum entre muitas mulheres no uso da cannabis, como é o caso dos supositórios e óvulos vaginais. Mesmo sem estudos randomizados duplo-cegos, esses métodos têm demonstrado eficácia na prática, com muitas mulheres relatando benefícios ao misturar insumos da planta com óleo de coco, colocar em forminhas de gelo e usar para promover a saúde íntima. Duas especialistas no tema, Luna Vargas, educadora, e Debora Rosa, do canal Ginecologia Natural, compartilham conteúdos informativos sobre isso em suas redes sociais.

De mulher pra mulher

Nessas de experimentar com a planta, muitas mulheres que sofrem de endometriose começaram a testar a cannabis para os sintomas de que padeciam, e o movimento foi ganhando corpo, até que pesquisadores de Sydney, na Austrália, ouviram 900 delas com endometriose, em 28 países diferentes, e publicaram os resultados recentemente na revista científica Reproduction & Fertility. Mais de dois terços afirmam que a maconha funciona melhor do que os remédios que usaram até então.

E a mesma porcentagem de mulheres que prefere o uso da maconha – cerca de 78% – também disse que a planta provoca menos efeitos colaterais do que os medicamentos prescritos. É verdade que ainda existem poucos estudos clínicos sobre o uso da cannabis na endometriose, mas como ignorar o peso dos saberes populares diante de dados tão expressivos? Na mesma pesquisa, 90% das participantes disse que “recomendaria o uso de cannabis a uma amiga ou parente com endometriose”. Aquele toque das manas, né?

Foi justamente para levar esse cuidado a mais mulheres que a ginecologista Mariana Prado se especializou na terapêutica da cannabis aplicada à saúde da mulher. O olhar profissional da Dra. Mariana ainda é raro no Brasil, onde apenas uma pequena parcela do já restrito número de médicos prescritores – estimado em cerca de 20 mil – tem familiaridade com a combinação entre ginecologia e cannabis.

Uma prática, que, aliás, como lembra a médica, começou “com pacientes terminais de câncer ginecológico, usando morfina para ajudar no controle da dor e na qualidade da morte”. A partir daí, foi um passo natural para aplicar o tratamento à endometriose. “Pensamos, poxa, se funciona tão bem em pacientes com câncer ginecológico, por que não extrapolar para a endometriose?”, doença que afeta cerca de 200 milhões de mulheres no mundo, sendo sete milhões só no Brasil.

Adeus hormôninios, olá maconha

A experiência da médica confirma os benefícios da planta para endometriose. Foi notando a melhoria nesses diagnósticos que Mariana decidiu se aprofundar cada vez mais na medicina canabinoide. Além dos muitos casos de endometriose que trata em seu consultório, várias outras queixas femininas vêm sendo apaziguadas com a planta. E para cuidar delas, a Dra. Mariana acompanha a paciente, ajustando as doses de acordo com o ciclo menstrual de cada mulher.

“Diferente de todas as outras patologias, a gente faz sequencial, junto com o ciclo menstrual, entendendo cada fase do ciclo, como começar, quando aumentar… Minhas pacientes não usam a mesma dose de uso contínuo o mês inteiro, a gente tende a aumentar em dia de sintomatologia maior, por exemplo, se é cólica, toma um dia antes”, dá um exemplo prático a médica que vem confirmando a eficácia do tratamento com muitas das pacientes que chegam ao seu consultório para tratar os sintomas da menopausa.

E, de fato, em quase todas as entrevistas da Breeza com mulheres 50+ a cannabis entrou no assunto por causa da menopausa. Várias dormem melhor, outras voltam a sentir libido, noutras a lubrificação retorna abundante. Motivos mais do que suficientes para o aumento do interesse de mulheres nessa fase da vida pela cannabis. “Junto com a endometriose, a menopausa tem sido as prescrições mais frequentes no meu consultório.”

Principalmente como alternativa para quem, por um motivo ou por outro, não topa suplementação hormonal. “A medicina evoluiu muito com terapias hormonais, mas não levou muito em consideração quem não pode ou não quer. A cannabis vem para suprir esse lugar”, analisa a ginecologista que vê um futuro breve e promissor para a utilização da cannabis em muitas outras patologias comuns ao universo feminino.