
Chegar nos Estados Unidos por Denver, no Colorado, é entrar pela porta da liberdade. O país, formado por estados independentes, cujas permissões e proibições variam muito de estado para estado, tem no Colorado um dos mais permissivos quando o assunto é liberdade individual no uso de substâncias. Lá, a maconha recreativa está legalizada desde 2014 – você leu certo, há mais de dez anos é possível comprar um baseado em lojas autorizadas – e alguns psicodélicos, como a psilocibina, foram legalizados para uso terapêutico e pessoal em 2022.
O respeito às liberdades individuais no uso de substâncias e o interesse de políticos e legisladores do estado no desenvolvimento de pesquisa com psicodélicos foram os principais motivos que fizeram a MAPS (Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies) escolher o Colorado como a casa do Psychedelic Science, a maior conferência do mundo sobre o assunto, que celebrou a sua 4ª edição na semana passada, reunindo mais de 8 mil pessoas que viajaram de todas as partes do planeta para discutir e se atualizar sobre o tema.
Esta repórter, cofundadora desta Breeza, foi até lá enviada pelo Poder360 (onde você pode ler a cobertura oficial do evento) e voltou impressionada com tudo o que viu. A começar pelo ecossistema de empresas oferecendo produtos e serviços psicodélicos que no Brasil, apesar de ser o país mais psicodélico do mundo – considerando que todos os finais de semana, um sem número de igrejas ayahuasqueiras realizam cerimônias e distribuem o chá alucinógeno a milhares pessoas –, ainda não há.
Depois de fazer o check-in no hotel, uma força invisível me fez abrir o celular e digitar “dispensário de cannabis perto de mim”, et voi là, haviam seis deles a menos de 10 minutos caminhando. Foi assim que cheguei ao Jars Cannabis Dispensary, com uma fachada chamativa, indicando que o lugar estava aberto todos os dias entre 9h e 21h45. Para entrar no local, é preciso portar apenas um documento com foto – e algum dinheiro em espécie, já que não é possível comprar nada com cartão ali dentro.
Santa cannabis
O Jars se adiantou para facilitar a vida de pessoas que, assim como eu, só andam com cartão de crédito, e instalou um caixa eletrônico dentro da loja. Devidamente monetizada, as portas do céu do Colorado se abriram com a possibilidade de experimentar uma quantidade infindável de vapes, extrações, gummies e outros vários comestíveis, além, é claro, das benditas flores, apresentadas em uma vitrine com mais de 15 variedades de maconha, cada uma devidamente identificada com a quantidade de THC e o perfil genético da planta (sativa, índica ou híbrida).
Saí da Jars com três gramas (uma de cada perfil) com níveis de THC entre 10% e 17%. Mais do que isso, sinceramente, me parece exagero. Voltei para o hotel para experimentar a famosa maconha estadunidense que, vale dizer, é saborosa e surpreendentemente equilibrada. No dia seguinte, começava oficialmente a conferência – e também o circuito paralelo de festas, que transformaria aquela semana num verdadeiro festival.
Chegando numa das duas festas “oficiais” da noite de abertura, milhares de pessoas com as mãos por vezes erguidas (como quem recebe bençãos) e por vezes no coração, saudavam “os espíritos do norte”, “do sul” e, assim, sucessivamente, seguindo os comandos do músico que, antes de começar a sua apresentação, pedia as bençãos dos “espíritos guardiães do universo” no melhor estilo brazilian pentecostal que você possa imaginar.
Enquanto observava um casal extremamente conectado, que sentia os movimentos do parceiro e devolvia algo parecido, numa espécie de forró cósmico, chegou o primeiro convite para experimentar 2C-B, substância psicodélica sintética, pertencente à classe das feniletilaminas. “Melhor não”, pensei, lembrando talvez das trocentas vezes que mamãe havia dito para não aceitar nada de estranhos ou do fato de que agora sou eu a mãe que precisa voltar sã e salva para casa. Me auto delimitei ao papel de cuidadora de quem tinha dito sim para o 2C-B e outras drogas que circulavam no ambiente.
Dividindo um Uber na volta, acabei num hotel a 10 minutos do meu. Lá, partilhamos o último baseado da noite antes de eu iniciar a missão de retorno à cama. Em teoria, era só uma linha reta. Na prática, virou um labirinto psicogeográfico. Estava no centro de Denver, uma da manhã, chapada e sem internet. Andei em círculos por meia hora, sozinha, cruzando com figuras num estado de entorpecimento tão profundo que o apelido popular “zumbis do fentanil” parecia quase gentil. Foi o suficiente para ativar o estado de alerta que todo brasileiro leva consigo feito chip de fábrica. Enquanto me perguntava “que caralhos eu tô fazendo aqui?”, também testemunhava, com os próprios olhos, a face mais crua da crise de opioides nos EUA.
O nome disso é festival
No dia seguinte (e assim foi até o fim da Psychedelic Science), todo mundo parecia não ter dormido o suficiente na noite passada, e na hora do almoço corriam todos para o hotel, tirar um cochilo restaurador, o que fazia com que as primeiras horas da tarde fossem as mais vazias durante toda a semana no Convention Center. No fim da tarde, tudo se repetia na mesma ordem: às 19h começavam as primeiras festas, que podiam acabar antes da meia-noite para os mais tranquilos, ou se estender madrugada afora no after do after.
A festa mais aguardada da semana aconteceu no Meow Wolf, um espaço que parece um museu de outro planeta, criado por um coletivo artístico que funde arte, tecnologia, narrativa interativa e psicodelia em instalações sensoriais imersivas e monumentais. Com os ingressos esgotados logo nas primeiras horas da manhã, o evento virou assunto único no dia: quem tinha entrada mal conseguia disfarçar a ansiedade; quem não tinha trocava dicas quase clandestinas de como conseguir burlar o sistema e entrar. No dia seguinte, a comoção foi tanta que o Meow Wolf foi mencionado até na cerimônia oficial de encerramento da conferência. “Quem aqui sobreviveu ao Meow Wolf?”, provocou, entre risos cúmplices, um dos executivos da MAPS.
Quem sobreviveu, encarou a última noite de peito aberto, começando pela festa do Dr. Bronner´s – uma empresa de sabão cujo fundador é o principal filantropo da MAPS e um dos maiores investidores do universo psicodélico –, e lá estava eu com minhas modestas flores de cannabis, que enrolei e fumei numa área ao ar livre do lado de fora de um domo gigante onde a festa de fato acontecia.
“Tenho cogumelos e MDMA, que você disse que eram os seus preferidos. Com o que você vai se divertir?”, me recepcionou um novo amigo que havia conhecido dois dias atrás. “Vou me divertir comigo mesma”, sorri, mostrando o baseado. Dentro do domo, tinha um palco centralizado com os DJs em meio ao público que viajava nas projeções psicodélicas no teto e nas laterais da estrutura, desfrutando do house afrobeat que saía em um som limpo das caixas de som.
Música, cores, fractais, gente sorrindo, dançando, pulando, viajando e de repente quem estava viajando era eu, que só tinha fumado um baseado mas me sentia numa trip de ácido. Como isso era possível? Um calor incomum tomou todo o meu corpo numa sensação de desvanecer, levantei o cabelo pra ver se melhorava. Uma amiga, feita uma hora atrás soprava a minha nuca enquanto eu me concentrava em não desmaiar. Esse tipo de high pelo ambiente, me contaram depois, é mais comum do que se imagina. Aos poucos, a psicodelia induzida pelo ambiente foi baixando, e quando olho para o lado, senhoras e senhores, Mr. Paul Stamets (um dos maiores conhecedores de cogumelos). Fiquei com a sensação de que eu estava no lugar certo.
Antes da meia-noite, a festa estava encerrada, mas haviam três afters. Escolhi um que parecia o mais prometedor para o que eu buscava há dias sem sucesso: um pouco de psytrance iria tão bem. Na tal festa, nada de psy, mas um techno um pouco mais animado embalou as próximas horas. Sentada num tapete, descansando um pouco, um médico que eu já tinha cruzado na conferência pergunta se eu tinha visto por ali uma colher. “Você perdeu uma colher?”. “Uma colher de ketamina”, explicou.
Por algum motivo random, compartilhamos o Uber de volta com o médico, que assim que chegou ao hotel, fez o convite. “Amanhã eu vou embora e não posso viajar com a ketamina, bora fazer uma sessão?”. Depois de argumentar sobre a pureza da droga, a sua experiência como aplicador, e lançar mão inclusive de argumentos espirituais, e das minhas reiteradas negativas, o doutor seguiu para a sua sessão de ketamina com dois voluntários. Na mesma hora, ali na recepção do hotel, que mais cedo havia sido palco de cerimônias com cogumelos e peyote, alguém sugeriu subir para o “apartamento da Maps”. A curiosidade me fez aceitar o convite, o medo de perder o voo no dia seguinte me manteve apenas no baseado, e a descrição me faz parar por aqui.
Anita Krepp, de Denver



