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ALE SANTOS

Capítulo 3: O Temor de Alencar

Por Ale Santos

Se ainda não leu, fique por dentro antes do último capítulo de O Temor de Alencar, saga escrita por Ale Santos.

O céu estava avermelhado, úmido, com a temperatura típica da noite de outono, aproximando-se dos 15 graus. Condições que atrasavam levemente o crescimento da planta. Samuel carregava uma mochila de notebook, adaptada para manter a temperatura dos frascos do óleo canábico. Sua expressão facial era de preocupação com a colheita daquela temporada e com as dificuldades que enfrentava desde que virara um alvo para os Juízes de Alencar.

— Precisamos ampliar a distribuição, Esmeralda.
— Esse sempre foi nosso maior desafio, querido. — Ela sorriu, como quem já vivera aquele ciclo em que o doutor, agora parte da resistência contra a opressão dos Juízes de Alencar, estava enfrentando.
— Pensei que iria ficar mais fácil e que a população iria ajudar.
— Doutor, você sempre viveu naquela bolha do seu apartamento de classe média, achando que as coisas se resolveriam com a consciência da sua gente. O mundo real é mais frio, às vezes triste. Aqui é o morro; a gente sempre lidou com a descrença como uma das piores inimigas. Enquanto o sistema tiver poder para nos descredibilizar, a população do centro ficará contra todos nós.

Esmeralda estava certa. Alencar não estava conseguindo superar o medo imposto pelas mensagens políticas e, principalmente, pelas pregações do Apóstolo Caio. O missionário começara a incluir diretamente o movimento Alvorecer em seus discursos, afastando pessoas simples da possibilidade de experimentar a cura para o Temor que afligia a cidade:

*“Panfletos que abrem as portas para o inferno estão sendo distribuídos pela vagabundagem. A perversão que é esse movimento Alvorecer está oferecendo uma cura que só Deus pode realmente dar aos filhos da nossa cidade. O céu não se abre para soluções que nascem na escuridão. Não se iludam, não busquem curandeiros, pois suas promessas são tão malditas quanto a própria doença. Lembrai-vos do que está nas inscrições divinas, em Deuteronômio 18:10-12: ‘Que entre vós não haja quem passe seu filho ou sua filha pelo fogo, nem quem pratique adivinhação, ou magia, ou consulte os que divinam, ou os astrólogos, ou quem pergunte aos mortos. Porque aquele que faz estas coisas é uma abominação ao Senhor.’”*

As palavras do apóstolo afastaram uma parte significativa dos cidadãos do movimento. Mas, além do inimigo ideológico, Samuel lidava com a brutalidade da polícia, que passara a caçá-lo, percorrendo várias periferias e vielas em busca do agora cientista oficial do movimento. Os policiais foram equipados com armas de guerra, tecnologias de espionagem e veículos pesados. Todavia, Esmeralda e as mulheres que fundaram o movimento Alvorecer não sobreviveram tanto tempo escondidas à toa. As mães do morro criaram uma rede de conexões entre as comunidades, com teleféricos e passagens tão estreitas entre barracos que apenas um verdadeiro cria da favela conseguiria atravessar de moto. Era com esses acessos que elas modificavam drasticamente os pontos de distribuição do óleo canábico pela cidade, impedindo que as forças policiais estabelecessem um padrão e identificassem as principais estufas de plantação e o laboratório de extração do óleo distribuído.

Naquele momento, Esmeralda e Samuel observavam o crepúsculo caindo sobre as plantações de cannabis que se estendiam em estufas pelo morro. Não se preocupavam muito, pois desconheciam as novas tecnologias que os policiais começaram a usar. Além disso, havia uma estratégia para ocultar as plantações dos juízes: varais estendidos a dois metros de altura com grandes panos, posteriormente elevados para cobrir a vista de quem tentava enxergar o morro de longe. Alguns barracos também se misturavam à paisagem, dificultando ainda mais a observação da comunidade.

— Tá ficando um pouco frio, acho melhor a senhora entrar. — Disse o cientista e, agora, guerrilheiro do Alvorecer.
Eu sou forte como um baobá, meu querido. Esse tempo fica assim mesmo no morro. Dá pra ver os pássaros correndo pra lon… — Esmeralda foi interrompida por uma gotícula que caiu sobre seus olhos. — Ih, vai chover. Melhor mesmo.

O doutor olhou ao redor. Nenhuma outra gotícula havia caído, e não havia formação de nuvens nos arredores.
— Não, não é chuva, Esmeralda.

A senhora passou a mão e logo percebeu que a gota se espalhava de forma oleosa e tinha um cheiro de…
É querosene, Samuel. O que está acontecendo?

Foi nesse momento, com o céu já praticamente escondido, que conseguiram ver drones militares alcançando as plantações. Um deles já estava bem acima de Esmeralda, jorrando um jato de óleo inflamável antes de ateá-lo.
— Corre! — Gritou Samuel, pulando em direção à amiga.

Ele tentou evitar que o fogo se espalhasse pelo corpo dela. Seu movimento foi capaz de arrancá-la do jato principal, mas não impediu que parte de seu rosto fosse queimada. A senhora gritava de dor, mas também de raiva. Enquanto eles se perguntavam como os drones haviam descoberto sua localização, outros apareceram e começaram a atear fogo em toda a produção do óleo de cannabis.

— Precisamos ir. Se os drones chegaram aqui, em breve as tropas dos juízes também subirão.
— Vou avisar os meninos. Você precisa salvar algumas mudas. A gente as coloca em outro morro, mas precisamos garantir o óleo essencial para nossas crianças.

As mães que cuidavam das plantações se desesperavam ao ver lençóis e plantas queimadas. Não demorou para que seus filhos surgissem com motos, mobiletes e bicicletas, correndo para salvá-las e formando um batalhão em fuga para outros pontos da cidade. O filho de Samuel estava em missão de distribuição em outro lugar e nem imaginava que o pai estava prestes a ser aprisionado por seu pior inimigo.

— Vamos usar nossas rotas e fugir para outra comunidade, Samuel. Os policiais não vieram só para destruir nossa plantação; vão enterrar qualquer um que encontrarem aqui. Mas ainda temos alguns minutos. O pessoal já montou barricadas em toda a subida da favela e deve estar tentando impedi-los de chegar mais rápido. Salve as plantas e me encontre no mototáxi.

Samuel correu para o meio das estufas, abrindo caminho com um lençol molhado sobre os ombros. Fumaça e escombros caíam por todos os lados. Ele segurou algumas plantas, colocou-as em uma mochila com outros frascos do óleo. O fogo piorava, e o ar estava intragável. Quase sem oxigênio, olhou ao redor e só viu fumaça e silhuetas que pareciam policiais armados cercando o morro. Preciso correr para o mototáxi, pensou, enquanto sua consciência começava a apagar.

— Esmeralda… — chamou pela amiga.

Ela, infelizmente, não pôde esperar. Distante, na garupa de uma das motos, sentiu-se culpada por deixar o recém-amigo para trás. A ligação entre os dois tinha ficado tão forte nos últimos dias que ela pareceu pressentir o perigo de Samuel. Olhou para trás na garupa e pensou nele pedindo uma bênção.

Samuel desmaiou quando o teto do barraco desabou em chamas. Sentiu um vulto se aproximar e percebeu que seu corpo estava sendo puxado para fora. “Acabou”, pensou, segundos antes de tudo escurecer.

Acordou horas depois, dentro de outro barraco, intacto, em uma viela tão bem escondida que era preciso passar por várias casas e descer uma vala para chegar à sua porta, pequena como um alçapão. Ouviu passos e preparou-se para o pior.

— Calma, meu mano. Tá tranquilo agora. — Um rapaz muito alto, de olhar frio, falou. Não parecia ser da favela, mas estava com roupas chamuscadas.
— Quem é você? Onde está a Esmeralda?

O rapaz pegou um dos panfletos do Alvorecer e mostrou-o a Samuel.
Minha família toda pegou a doença alencarina. Mudei para essa comunidade depois de ouvir histórias sobre a cura. Sou novo aqui, mas conheço algumas vielas e vi aqueles caras subindo quando você estava no meio do fogo.
— Você me salvou. Obrigado, camarada. Como se chama?
— Sou o Vieira. Vi que tem alguns frascos na sua mochila. Tá tudo intacto; deixei lá. Acho que conseguiu salvar uma pequena parte da plantação.
— Sim, mas perdi o rastro da Esmeralda. Preciso encontrá-la para começar um novo laboratório.
— Não se preocupe. Se recupere. Depois a gente dá um jeito de achá-la. Também estou procurando essa senhora há muito tempo.

Vieira, discretamente, colocou as mãos no bolso e ativou o rastreador GPS.
“Sinal ativado.”

Em outro canto da comunidade, os soldados deixavam o morro após destruir tudo o que puderam encontrar.

Acompanhe aqui na Breeza a continuação da história de Ale Santos.

Um novo capítulo todo mês.

Confira a entrevista do Ale para a Breeza e para o nosso podcast Saindo da Estufa.