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ALE SANTOS

Capítulo 2: O Temor de Alencar

No segundo capítulo da saga do escritor Ale Santos, ele nos apresenta o Juiz, personagem que terá de vencer os próprios preconceitos para achar uma cura para sua esposa… com a ajuda da erva

Por Ale Santos

Se ainda não leu, fique por dentro antes do 1º capítulo dessa saga escrita por Ale Santos: O Temor de Alencar.

O trânsito da pequena Alencar sempre foi um pouco desorganizado, mas décadas atrás a quantidade de veículos nas ruas não justificava leis severas. O que antes se chamava acidente hoje é um esbarrão. Essa situação mudou com a modernidade e a urbanização. Sem acompanhar a evolução dos carros, as irregulares ruas de Alencar tornaram-se perigosas para pedestres e ciclistas. Mas o que isso tem a ver com o Temor? É que dessa notícia nasceu um dos principais personagens desta história: o Juiz.

Manchete: Dono da padoca do Freguês morre em acidente na travessa do Colosso.

Na madrugada de quinta-feira, um veículo preto arrancou pelas vielas, dirigido pelo recente motorista de 23 anos, Jorge de Augurez, que, entorpecido, não percebeu o padeiro esperando o caminhão de leite estacionar ao lado da rua. O trágico acidente resultou na morte do Senhor Vieira, dono da padoca do Freguês.

A notícia marcou a pequena Alencar. Embora outros acidentes tivessem ocorrido, era a primeira vez que alguém da classe média perdia a vida assim. Desde então, uma aura revanchista cresceu entre os trabalhadores, especialmente no filho do padeiro, Mauro Vieira Junior. No enterro, ele chorou intensamente; depois, suas lágrimas pareciam ter secado, dando lugar apenas a raiva, angústia e frustração.

Júnior passou os anos seguintes aficionado por noticiários policiais, assistindo-os de manhã e à tarde, esperando a população se revoltar contra os que chamava de “arruaceiros”, bandidos e qualquer pessoa julgada vagabunda pela imprensa policial. Sua ansiedade por resolução desses crimes aumentava; em sua cabeça, todos ficavam impunes. “Eles fugiram facilmente? Por que a Polícia não vai até o final?”, dizia, sabendo que o final, como conhecera, era a morte.

Seu estado de depressão e ódio o transformou em um rapaz determinado a seguir carreira jurídica. Estudou com afinco até passar no vestibular, na Ordem dos Advogados e, enfim, no concurso para magistrado. Essa jornada durou mais de duas décadas, trancado no quarto todas as noites, com poucos amigos e nenhuma diversão, apenas os mesmos programas que assistiu desde a morte do pai. Todavia, um encontro aleatório mudou sua vida, em um congresso para apresentar as experiências e pesquisas do Doutor Moreira sobre transmissões binaurais. Por motivos inexplicáveis, Mauro Junior decidiu acompanhar de perto o cientista de renome internacional que prometera recuperar a sanidade e a civilidade em indivíduos com deficiências morais. Em determinado momento da palestra, olhou para o lado e viu um rapaz franzino, de cabelos ralos, tentando esconder o rosto, que olhava compenetrado e angustiado para o palco. Eles conversaram por um tempo; o jovem demonstrava um entusiasmo inédito com as possibilidades das ondas binaurais. “Dá para reconfigurar o cérebro de qualquer pessoa exposta a essas ondas por tempo suficiente”, disse. Dali surgiu uma amizade soturna:

_ Posso te oferecer a ferramenta para conquistar esta cidade – disse o franzino.

_ E por que faria isso? – Mauro percebeu as intenções higienistas no discurso do rapaz, sua aversão a práticas imorais e a crença no atavismo de deficiências como o alcoolismo. Para ele, isso poderia impedir outras mortes como a de seu pai, então fez a pergunta apenas para continuar a conversa.

_ Porque Alencar merece ser grandiosa, e faremos isso quando você se tornar o Juiz.

Curiosamente, o rapaz nunca disse seu nome, mas ali mesmo, sentado na poltrona, pegou um caderno e esboçou as primeiras ideias de sua tecnologia de controle social. “As ondas precisam estar em frequências distintas, entre 150 e 227 Hz para o ouvido esquerdo e 180 a 321 Hz no direito, criando um arrastamento neural equivalente a 58 Hz, suficiente para afetar as funções motoras do cérebro”, escreveu por horas, em silêncio, enquanto era observado atentamente. Ao final do dia e da palestra, entregou os esboços para Mauro e desapareceu.

Anos depois, Junior colocou o plano em prática, levando ao que vocês já conhecem: o estado catatônico, membranas oculares e tudo mais. Ciente dos efeitos desumanizantes de suas ondas, o Juiz protegeu a própria família, impedindo que esposa e filhos tivessem acesso a qualquer aparelho que transmitisse as mensagens em casa. Todos deveriam viver sem televisão, computadores e informando-se apenas pelos jornais impressos da prefeitura. Deveria o homem saber que a busca por arte e entretenimento é inerente à humanidade, anterior à linguagem, e não deveria ser cerceada, sob o risco de se tornar compulsão. Sua luta contra o uso da cannabis o afastou tanto de casa que dificilmente percebeu o que acontecia ali.

Na noite em que buscou o Dr. Samuel, médico que resgatara o próprio filho da doença alencarina, o Juiz sofreu duas derrotas. A primeira foi a fuga do doutor, desaparecido nas favelas de Esmeralda, cuja vida era dedicada à produção do óleo canábico para a cura da cidade. A outra veio de casa, pois, ao voltar frustrado e furioso, flagrou a esposa com uma pequena tela escondida, assistindo a novelas.

_ Quanto tempo você está assistindo a isso? – indagou tarde demais. A resposta de Catrina veio com um balbuciar confuso. Ela virou-se, e seus olhos já começavam a desenvolver a membrana acinzentada do Temor de Alencar. Ele urrou de ódio, tão alto que foi ouvido nos arredores da mansão, mas todos os policiais acreditaram ser motivado pelo desaparecimento de Samuel. O Juiz agora estava em uma encruzilhada mortal: a destruição da cannabis poderia significar a morte da esposa, e aparentemente apenas dois cientistas poderiam ajudá-lo a resgatá-la. Um era Samuel, com o tratamento natural da cannabis, inaceitável para sua família. A única opção era, então, encontrar aquele rapaz franzino que lhe ensinou a manipular as ondas binaurais, mas será que ele ainda está em Alencar? 

Acompanhe aqui na Breeza a continuação da história de Ale Santos.

Um novo capítulo todo mês.

Confira a entrevista do Ale para a Breeza e para o nosso podcast Saindo da Estufa.