Reportagens

A erva bem na fita

A Breeza conta em primeira mão os detalhes da 1ª edição brasileira do Festival Internacional de Cinema Canábico, confirmada para outubro no Rio, assim como falamos de alguns desafios que faltam ser superados pra essa homenagem à cultura canábica sair ainda mais legal

Quando você pensa em maconha e cinema, o que lhe vem à cabeça? Para a maioria da plateia, certamente enfileiram-se na mente títulos como Cheech & Chong, Superbad, Segurando as Pontas, The Big Lebowski, Ted, Medo e Delírio em Las Vegas. Isso, claro, se não lembrar daquela vez que fumou um com sua roda antes de dar risadas num filme de comédias, ou gritos num de terror.

Onde quero chegar é que o cinema canábico é colonizado por cores estadunidenses. Nada contra, convenhamos que há muito bom gosto em produções de nomes como Judd Apatow e Seth Rogen (que neste ano produziu e protagonizou a maravilhosa série O Estúdio, na Apple+, e que também é bem psicodélica). Como bons maconheiros cinéfilos, divagamos. Mas numa onda de filmes gringos.

Cadê os brasileiros? E os latino-americanos? Claro que existem, mas são parcos, e lhes faltam o apoio (inclusive de grana) que deveriam ter. Parece carecer à plateia e aos maiores produtores que se é para levar a sociedade para frente em questões como a da legalização e do fim da Guerra às Drogas – passo para solução do apocalipse carcerário de nosso país –, a base para mudar tudo é a cultura. A educação, a informação, o conhecimento, por meio de livros, peças teatrais, da TV, de jornalismo, de muita música, de cinema.

Que boa brisa é então receber a notícia de que a 1ª edição brasileira do Festival Internacional de Cinema Canábico (FICC) avançou no seu caminho, apesar de ter trazido e ainda trazer desafios. “Vamos criar ferramentas para provocar, gerar reflexões”, comenta o historiador Gustavo Maia, idealizador e um dos organizadores. Na conversa com a Breeza, ele compartilha que para fazer o festival perfeito, ainda faltam investimentos, que busca levantar via apoiadores, principalmente entre marcas do nosso setor canábico. “Mas vai rolar, já nos comprometemos, mesmo se for o mais roots possível”. 

Celebração canábica

Já tem onde, no Centro Cultural da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), perto do Maracanã, e do lado de uma praça conhecida de quem gosta de fumar um. A proximidade vai permitir dar um-dois antes de ver uns filminhos.

Também tem o quando, de 20 a 24 de outubro, propositalmente logo depois do Festival Internacional de Cinema do Rio, que vai de 2 a 12. Francisco Ferraz, que atua na produção do FICC e também tem experiência no Festival no Rio, nos contou que existe a ideia de atrair públicos similares, aproveitando quem continua no clima cinematográfico do período. Inclusive há planos de tentar divulgar algum conteúdo referente às produções canábicas no evento maior e bem mais tradicional, pegando carona no estilo hippie aventureiro de beira de estrada.

Na ExpoCannabis do ano passado, houve algo como um pocket do FICC, escrevemos sobre aqui na Breeza. Havia então a ambição de realizar o festival no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM), o que não foi possível, como por razões financeiras. “Mas não desistimos da ideia, pelo contrário, temos a perspectiva de executar a segunda edição no MAM, já estamos em conversas com a nova direção do museu”, comenta Ferraz.

Por ora nas salas mais modestas da UERJ, o FICC gira em torno do cinema, mas procura trazer também outras manifestações culturais. Estão nos planos um espaço literário, exposições de artes canábicas, oficinas, mesas de debates.

As estrelas, porém, são os filmes. Até trinta serão selecionados para a mostra principal, em seletiva cujas candidaturas devem estar abertas em julho e agosto. Também haverá exibição online e gratuita dessas e outras produções que se candidatarem.

São quatro dias de festival, então tem tempo para muita cultura brisada rolar. “A maioria dos eventos brasileiros, como a ExpoCannabis, têm proposta comercial, com uma parte cultural secundária, e são mais elitizados, de acesso mais difícil”, avalia Gustavo Maia, o idealizador da edição nacional da FICC. “Nosso evento é gratuito, acessível, traz para o centro a perspectiva cultural, indo para além de ser um festival de cinema e abraçando a cultura canábica”.

Se vier também uma safra de filmes de qualidade como a que estava na pocket exibição da Expo de 2024, a plateia pode esperar se divertir… e refletir bastante. No ano passado, se destacaram curtas como o ao mesmo tempo belíssimo, nostálgico e divertido “Conserva”, assinado por Diego Benevides. O curta de treze minutos narra, com filmagens de Super 8, a história de um carismático senhor que achou uma preciosa lata de ganja, o “veneno da lata”, que mudou sua vida para sempre.

Há muitas histórias maravilhosas da cultura canábica brasileira para serem contadas por nossos artistas, em nossas telas.

A semente

Gustavo Maia, historiador com um baita trabalho de pesquisa sobre maconha no Brasil e o nome por trás do Cannabis Monitor, conheceu o festival já em 2019, quando foi cobrir a ExpoCannabis uruguaia. Dois anos depois, em nova edição do evento no mesmo país, começou conversas para fazer  a edição brasileira. Foram quatro anos até o desejo se concretizar agora. 

Antes do Brasil, o FICC passou por três países, Uruguai, Argentina e Chile, em um total de doze edições. Defendeu a argentina Malena Bystrowicz, uma das criadoras do festival, em conversa que tivemos com ela no ano passado: “Muito além do nosso desejo pessoal de combinar cinema e cannabis, o FICC tem um significado social e político. Um espaço que faz falta, eram necessárias telas que colocassem em discussão a questão da cannabis e das drogas; era preciso falar do proibicionismo, dos direitos à saúde física e mental, do negócio dos laboratórios e dos cartéis; era preciso falar sem preconceitos sobre vícios e consumo problemático; falar sobre ciência e sobre todas as vidas que poderiam ter sido melhores sem o tabu e sem a clandestinidade; de todas as pessoas que estão presas por consumo ou cultivo; falar que a maconha é ilegal se for fumado por um negro ou por um pobre e é legal se for fumada por um branco; falar do machismo dentro da cultura da cannabis”.

Tem muito a ser dito, mesmo. Que bom que essa conversa está chegando agora aqui ao nosso país.

Filipe Vilicic