Colunas
Observatório da Planta

Ciência clandestina: quando salvar vidas desafia a lei

Por Murilo Nicolau

O médico alemão Werner Forssmann foi punido, afastado e ridicularizado por colocar um cateter em seu próprio coração, em 1929, contrariando ordens do hospital em que trabalhava. O procedimento, visto como imprudente e antiético pela medicina da época, hoje é uma das principais ferramentas da cardiologia mundial. Forssmann recebeu o Nobel décadas depois — tempo suficiente para que a desobediência solitária fosse ressignificada como genialidade visionária.

É fácil celebrar o pioneirismo quando ele se torna útil. Difícil é reconhecer que, muitas vezes, a ciência que hoje salva vidas precisou ser feita na clandestinidade. Entre o experimento e a consagração, o que houve foi rejeição institucional, punição e silêncio.

O mesmo se repete hoje no campo da cannabis medicinal.

No Brasil, centenas de famílias e pacientes são obrigados a cultivar a própria cannabis em casa, com autorização judicial, porque o Estado falhou em garantir acesso regular, seguro e acessível a um produto terapêutico reconhecido mundialmente. Muitos desses pacientes só chegaram ao tratamento porque um médico — tal como Forssmann — ousou desafiar os protocolos da medicina tradicional. O prescreveu mesmo sob risco de censura ética.

Assim como o coração era um “território proibido” da medicina nos anos 1920, a cannabis ainda é, em muitos consultórios, um assunto cercado por medo e insegurança institucional. A planta continua marcada por estigmas, como se a sua prescrição fosse um ato subversivo – e em certos conselhos profissionais e universidades, é exatamente isso.

Enquanto isso, pesquisadores brasileiros seguem tentando estudar a planta com acesso limitado, protocolos rígidos e receio de se exporem. Muitos evitam falar publicamente sobre seus projetos. Outros desenvolvem pesquisas estruturadas, mas sem acesso a flores, sementes ou extratos — como se fosse possível estudar um remédio sem tocar na substância ativa. A ciência canábica nacional se expande, mas segue atravessada pela suspeita, desconfiança e medo.

É a ciência na surdina. Os primeiros habeas corpus de cultivo individual foram tratados como aberrações jurídicas e hoje são mais de 6 mil decisões concedidas. As primeiras Associações foram vistas como infratoras. Hoje, são fornecedores de medicamentos que o próprio SUS não entrega

Não se trata de romantizar a desobediência civil ou incentivar a quebra de protocolos a qualquer custo. Mas de reconhecer que a lei, quando não acompanha a evolução técnica e social, se torna ela mesma um risco à saúde pública. O atraso na regulação da cannabis no Brasil obriga médicos a se calarem, pacientes a se exporem, famílias a judicializarem a própria sobrevivência e cientistas a pesquisarem escondido. A tal da ciência clandestina.

Forssmann introduziu um cateter no coração — e foi expulso. Décadas depois, foi premiado por salvar milhões. Os médicos, advogados, engenheiros, mães, ativistas e pesquisadores que hoje impulsionam o avanço da cannabis no Brasil sabem o que isso significa. Já convivem com a mesma contradição: criminalizados até que gerem lucro. 

Talvez o verdadeiro desafio da regulação da cannabis não esteja apenas na letra da lei, mas na forma como ela é interpretada e aplicada. E, sobretudo, na pergunta que ainda paira no ar: para que serve a lei – cuidar ou controlar?

Tem dúvidas jurídicas sobre a planta? Responderei às perguntas enviadas pela comunidade breezer. Envie DM pelo Instagram da @breeza_revista. Ou pelo meu, o @omurilonicolau.