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O paradoxo da maconha: dá larica, mas emagrece?

A ciência tem indicado que sim. Por mais que o uso rotineiro da erva nos faça comer mais calorias por dia, também tende a ajudar a perder uns quilos. Os motivos disso ainda estão sendo investigados
29|08|24

Qual é a imagem clássica de um breezado (já há leitores chamando também de breezers)? Sim, há várias figuras que podem vir à cabeça. Talvez lhe tenha surgido na mente algo como o Salsicha, do Scooby-Doo: depois de soltar fumaça na van, não perde a chance de comer um rango da pesada. Salsicha é lariquento, um sanduíche atrás do outro. Mesmo assim, é magrão. O mesmo vale para outros personagens icônicos, de Cheech & Chong ao Otto, o motorista do ônibus escolar de Os Simpsons. E na vida real? Pense em Marcelo D2 ou em Snoop Dogg. Aí surge o paradoxo: por que a erva nos faz comer mais, mas mesmo assim quem usa costuma ser mais magro?

A ciência comprova, mas nem precisava dela, pois basta experimentar para saber que fumar um dá uma baita vontade de comer – e como tudo fica suculento. Mas falemos também em termos científicos. As pesquisas são várias, destaca-se uma de 2018 que mostrou que a cannabis instiga nosso olfato, aprimorando-o. Com isso, sentimos mais o cheiro e o gosto da comida, o que dá maior vontade de devorar uns salgadinhos e bolachas.

Além disso, quando usamos cannabis, ativa-se uma área responsável pela sensação de prazer no cérebro, o que faz com que o rango também dê maior satisfação. Não por acaso, um levantamento de pesquisadores ligados à Universidade de Connecticut (EUA) identificou que a legalização nos estados norte-americanos levou também ao aumento de consumo de junk food, em média de 3,1% para sorvetes, 4,1% para cookies e 5,3% para chips. E ao menos desde um estudo dos anos 1980 que se passou a comprovar que usuários ingerem algo como 40% a mais de calorias por dia.

Mesmo assim, persiste a imagem do maconheiro magrão. Será que isso corresponde à realidade? Um outro levantamento, que saiu agorinha em agosto, feito pelo estatístico Ray Merrill, professor da Universidade Brigham Young, também nos EUA, comprovou que sim. Ao analisar dados nacionais de índice de massa corporal (IMC) e de uso de maconha de mais de 730 mil pessoas, concluiu-se que os adeptos da planta costumam ser mais magros.

A análise dos dados mostrou que a obesidade é 35% mais presente na população não-usuária, em comparação com a adepta da cannabis. Essa porcentagem se mostrou presente e constante através das diferentes variantes demográficas, como classes econômicas, idades (todos maiores de 18 anos) e presença de doenças. O que fez o estudo concluir que “conforme a legalização e a prevalência da droga nos EUA aumenta, a presença da obesidade pode cair”. 

MACONHA EMAGRECE?

Não é certo afirmar que sim, pois os estudos são muito recentes e não se sabe se a relação do uso com o corpo mais magro possa ser por outras causas, como pelos hábitos de vida dos típicos breezados. Contudo, as pesquisas indicam que, sim, pode haver aí motivos químicos e reais para fazer com que a maconha seja emagrecedora.

No fim do ano passado, cientistas brasileiras da Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais divulgaram um levantamento que mostra que alguns derivados da cannabis potencialmente têm essa função. Por exemplo, em geral o consumo de cannabis leva a uma redução de 1,87 quilos no peso e a uma diminuição na circunferência da cintura de 2,19 centímetros, sendo que longos períodos de uso correspondem a perdas maiores.

A Breeza trocou mensagens com duas autoras do estudo, as nutricionistas Marcela Gomes Reis (a pesquisa faz parte de seu mestrado) e Nathalia Sernizon, que agora é professora na Universidade Federal de Minas Gerais. Elas responderam em conjunto, em textos enviados via Whats: “Esses resultados refletem a influência do sistema endocanabinoide na regulação hormonal e no metabolismo, destacando a importância da cannabis e seus receptores na modulação da inflamação e no controle da obesidade”.

Sobre o motivo de isso ocorrer, destacam o papel dos receptores endocanabinoides na regulação de processos alimentares, como o peristaltismo, o esvaziamento gástrico, a estimulação do apetite e os mecanismos compensatórios, somando-se à influência no hipotálamo, que está diretamente ligado a hormônios como leptina, insulina e grelina, estes na base do controle da alimentação. “Adicionalmente, os receptores CB1 e CB2 são essenciais na modulação do sistema imunológico e na resposta inflamatória, contribuindo para menores índices de obesidade ao agir na diminuição da inflamação e na regulação dos processos alimentares”, acrescentam.

E do paradoxo de termos larica, mas mesmo assim emagrecermos? Elas respondem: “A questão da larica pode até levar a um aumento do consumo calórico em curto prazo, porém os efeitos a longo prazo podem ser regulados por outros mecanismos mais complexos de alterações no metabolismo”. Quer dizer que nossa liamba pode até ser usada em tratamentos para emagrecer? As nutricionistas sugerem que sim, com ponderação importante: “O tratamento para obesidade com a utilização da cannabis deve ser avaliado com cautela, devido à complexidade do sistema endocanabinoide, ao risco de efeitos adversos e também às suas associações comportamentais”.

O QUE NA GANJA NOS FAZ PERDER PESO?

Parece que fica essa dúvida, né? Qual fator químico da planta ajuda a combater a obesidade? Sabe por que parece? Pois ainda não há uma resposta certeira para isso, apesar de haver muitos indícios.

Usar maconha para emagrecer parece contraintuitivo. Afinal, ela dá uma larica danada. Mas, ao que tudo indica, junto com a vontade de comer, algumas substâncias dentro da planta ajudam a acelerar o metabolismo.

Outro estudo deste ano, realizado pelo médico Gregory Smith, fundador de um laboratório norte-americano especializado em pesquisas com plantas, em particular com cannabis, indicou que, dentre as tantas siglas que compõem a química da erva, ao menos duas têm potencial emagrecedor. Em testes realizados com 44 pessoas, descobriu-se que administrar THCV (tetrahydrocannabivarin) e CBD (o famoso cannabidiol) afeta o receptor canabinoide de tipo 1 (CB1), responsável por diversas funções corporais ligadas ao apetite e, num resumo, à capacidade do corpo em absorver e queimar calorias. A administração de doses diárias desses dois canabinoides, por noventa dias, levou a melhorias no metabolismo e à perda de peso.

Mas isso quer dizer que vou pedir para o meu nutricionista recomendar maconha para me livrar daqueles quilos a mais? A Breeza deixa claro: essa não é a mensagem. Apoiamos o uso de forma responsável e, em qualquer situação que afeta a saúde ou cujo objetivo seja médico, indica-se passar antes por uma consulta. Além disso, há efeitos colaterais que precisam ser ressaltados. Por exemplo, fumar (ao invés de, por exemplo, comer) afeta o pulmão, além de que o uso frequente pode causar uma série de problemas gastrointestinais

Outro ponto: se quer ficar em forma, jamais o simples uso de cannabis vai te ajudar. Todos os estudos indicam que diamba pode ser um auxiliar na perda de peso… todavia, é não mais que um auxiliar. É preciso também comer de forma saudável e se exercitar, dois daqueles hábitos infalíveis para uma vida mais equilibrada.

Filipe Vilicic