Reportagens

Retomada após banirem as flores: medicinal cresce 35% em 2024

Dados que a Kaya Mind compilou para a Breeza revelam cenário animador para o mercado, mas ainda envolto de dúvidas, proibicionismos e inseguranças
18|07|24

Nem tudo são flores. Por um lado, a expressão mostra como tudo seria melhor com flores… melhor que prensado, né? Por outro, também como há bem mais do que flores de opções para a nossa comunidade: óleos, balas, resinas, pomadas e tanto mais. Essa alegoria representa bem o que está passando o mercado medicinal no Brasil. Assim revelam dados que a consultoria Kaya Mind compilou para a Breeza.

Entre janeiro e maio deste ano, o crescimento foi de 35%. O cálculo leva em conta o número de solicitações de produtos à base de cannabis, que foi de quase 63 mil no período, ou cerca de 420 (simbólico, não?) por dia. Ou seja, mesmo no legalizado, o cenário real é ainda maior, se somássemos as vendas em farmácias e pelas associações.

Ótima notícia, mas poderia ter sido bem melhor se… tudo fossem mais flores. “No ano passado, houve um boom quando várias empresas novas ou não no mercado começaram a importar flores para fins medicinais”, lembra Thiago Cardoso, cofundador da Kaya Mind. De fevereiro a março, o salto chegou à casa de 50%. “Depois que a Anvisa deu aquele corte na prescrição de flores, o mercado teve uma queda muito grande”.

A nota da Anvisa que cortou o plano pela raiz saiu em julho de 2023, faz um ano nesta semana em que publicamos a edição de número 20 da nossa Breeza. A justificativa do órgão foi de que “a regulamentação atual dos produtos de Cannabis no Brasil não inclui a permissão de uso de partes da planta, mesmo após o processo de estabilização e secagem ou mesmo nas formas rasuradas, trituradas ou pulverizada”‘, considerando “risco de desvio para fins ilícitos e a vigência dos tratados internacionais de controle de drogas dos quais o Brasil é signatário”. Por ora, venceu a hipocrisia e o preconceito.

O efeito no mercado foi uma queda de cerca de 30% entre julho e agosto. No auge do entusiasmo com as flores, o número de pedidos chegava a 16 mil por mês. Após o banimento, caiu para algo como 11 mil. Porém, a Kaya Mind destaca uma informação interessante, de que antes da empolgação o patamar era de 9 mil. Ou seja, apesar da queda, o nível pós decisão da Anvisa é superior ao que estava no início de 2023.

CURVA PRA CIMA

Neste ano, o fôlego está sendo retomado. Além do aumento de 35%, em maio um total de 1.540 municípios brasileiros realizaram pedidos de importação de produtos à base de cannabis, sendo que no ano passado esse número era de menos de 1 mil por mês.

A variedade de cidades não impacta tanto em volume de vendas, visto que 86% do mercado medicinal está concentrado em apenas dez cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro. Contudo, revela como preconceitos e fronteiras estão sendo vencidas para fazer a cannabis se espalhar de forma consciente pelo país.

Há muito chão para expandir, afinal são mais de 5,5 mil as cidades brasileiras. Mas outra boa notícia é que ao se observar de forma ampla, além do cálculo mensal, até hoje já foram 4,4 mil que tiveram ao menos um paciente de cannabis no Brasil.

“A retomada de agora se deve a alguns fatores, como ao aumento da prescrição de resina, mesmo que isso ainda não impacte tanto quanto foi com a época das flores”, comenta Cardoso, da Kaya Mind. “As empresas cresceram também junto com o mercado, estão mais qualificadas. É tudo muito por descobrimento, tentativa e erro”.

26 BI NO FIM DO ARCO-ÍRIS

A consultoria calcula que o comércio no Brasil tem um potencial de 26 bilhões de reais. Só que isso se for para bem além dos consultórios médicos. “Hoje o mercado de cannabis medicinal não representa o usuário de maconha no Brasil”, comenta Cardoso.

Uma pesquisa realizada pela Kaya Mind com manifestantes da Marcha da Maconha de SP indica a realidade pra valer: 85% só fuma do prensado; do medicinal, é bem minoria. Além de muito mais que se coloca nessa conta, como questões sociais sobre as quais já versamos na Breeza, as finanças da família brasileira média estão longe de permitir a compra de um óleo medicinal, que hoje custa na casa de 400 reais, sendo que o salário mínimo está em 1,4 mil.

“O medicinal tem a maior barra do mundo, em regulamentação, exigências fiscais, comprovações, elevando assim o valor o produto”, diz Cardoso. Dentro da projeção de 26 bilhões do potencial de nosso país, leva-se em conta também um futuro de legalização, hoje impedido mais por politicagens e preconceitos vários.

Desse total, a maior parte do bolo, de entre 11 e 13 bilhões, viria do uso adulto, de vendas sem prescrição, para fins terapêuticos e de lazer. Já a produção de cânhamo industrial tem potencial na casa dos 5 bilhões, enquanto o medicinal responderia por 9 bilhões. 

Há ventos positivos, como a confirmação da descriminalização pelo STF. “Mesmo que seja um texto muito aberto, com efeito que só será entendido na prática, o simples fato de ter sido pauta do STF divulgou o assunto e fez aumentar o awareness sobre o tema”, analisa o cofundador da Kaya Mind. “Caso se confirme o entendimento geral do plantio de até seis plantas, isso também pode ter impacto positivo em negócios como os de growshops“‘. 

O que falta para destravar o mercado de vez? Claro, regularização e legalização. Todavia, Cardoso aponta também que “as empresas têm de amadurecer”. Vindo do mercado tradicional de vendas de produtos de consumo, ele trabalhava antes guiado por dados e informações precisas. Para ele, o mundo dos negócios da cannabis no Brasil ainda está engatinhando nesse sentido. “Um mercado ainda imaturo, a geração de dados deveria ser constante e feita de forma inteligente por todos os players“.

Uma indústria amadurecida nasce também do compartilhamento de informações que a fomentam e instigam; da circulação de notícias e dados que a solidificam e, neste nosso caso, podem finalmente dar uma credibilidade tão buscada, mas ainda pouco conquistada para além da nossa bolha; de líderes da sociedade que resolvem encarar de frente e sair da estufa; de marcas que representem a realidade da comunidade brisada; de espalhar conhecimento  para vencer hipocrisias, preconceitos e tantas outras barreiras ignóbeis. Sem esses importantes ingredientes, não chegaremos aos 26 bilhões que prometem estar lá do outro lado do arco-íris.

Filipe Vilicic