Reportagens

Música contra os vícios

Por Filipe Vilicic

Mulher com cabelo cacheado usando fones de ouvido, olhos fechados, expressando relaxamento e prazer musical.

“A música é um mundo em si | Com uma linguagem que todos entendemos | Em igualdade de oportunidades” (Music is a world within itself | With a Language we all understand | With an equal opportunity), canta o lendário Stevie Wonder em sua clássica “Sir Duke”. Nós sentimos a música em nossos corpos, nossas mentes, nossas almas, e é óbvio como ouvir um cantor ou cantora que amamos, um jazz que nos toca, os acordes de um piano, realmente nos leva a lugares melhores. Na prática, é isso que provou uma nova pesquisa do Cambridge Institute for Music Therapy Research, na Inglaterra, que mostrou, em um experimento pioneiro e super preciso, como a música altera a forma como o cérebro processa emoções, o que pode ajudar no tratamento de pessoas dependentes de drogas, como ao reduzir a fissura (o craving) na abstinência. É a cura pela arte.

A premissa técnica da qual partem os pesquisadores é de que tanto a música quanto as substâncias causadoras de dependência ativam o sistema de recompensa do cérebro e podem produzir mudanças imediatas no humor e na emoção, sendo aí o som capaz de gerar respostas eufóricas semelhantes às associadas às drogas. O estudo envolveu 16 adultos em tratamento para o uso de álcool e outras drogas, como heroína, cocaína e cannabis, que receberam seis sessões semanais de musicoterapia juntamente com o tratamento padrão, ou apenas o tratamento padrão. A equipe da pesquisa montou um estúdio de música e um laboratório cerebral temporários para o experimento.

Os participantes que receberam musicoterapia relataram menor desejo pelas drogas após as sessões. Além disso, os registros feitos do cérebro mostraram que as pessoas apresentaram níveis mais baixos de atividade beta frontal em comparação ao grupo de controle, sendo que a maior presença dessas ondas beta é um elemento associada à fissura. Por fim, os cientistas também identificaram diferenças importantes nas áreas frontais do cérebro responsáveis pelo processamento de emoções positivas e negativas, o que indica que a musicoterapia pode ser usada no controle de emoções como raiva e frustração.

Um dos autores do estudo, Jorg Fachner, professor de Música, Saúde e Cérebro na Anglia Ruskin University (ARU) e co-diretor do Cambridge Institute for Music Therapy Research, ressalva como o experimento foi realizado com um grupo pequeno de pessoas e, por isso, é preciso aumentar a escala antes de chegar a conclusões definitivas. Porém, para ele, os resultados já mostram que “a musicoterapia pode ajudar as pessoas a processar suas emoções negativas, o que é relevante para gerenciar a fissura e apoiar a motivação para mudar de comportamento”.

O psicólogo Lauro Pontes, expert em cannabis e psicodélicos e pós-doutorando pela UFRN, com ampla experiência clínica, concorda com a eficiência do método e diz que usaria em seu consultório, apesar de frisar não ser especialista nessa abordagem. “É uma prática integrativa muito boa, e ajuda a relaxar, diminuir a ansiedade, focar em outra coisa, o cérebro vai enfrentar aquela necessidade aguda de forma menos aguda”, diz ele.

“Com certeza, a música tem o potencial de alterar as emoções, inclusive, dependendo da música e do contexto ela pode contribuir para estados alterados de consciência”, acrescenta a psicóloga Maria Angélica Comis, especialista em redução de danos e que usa a abordagem musical com pacientes, inclusive como ferramenta de combate à fissura. Em sua perspectiva, cações têm a “capacidade de nos levar para outros lugares, pois atuam fortemente na memória, isso inclusive também é muito utilizado em pessoas com demência”.

Comis se recorda de um bom exemplo que vivenciou: “Quando eu trabalhava na região chamada de Cracolândia, os trabalhadores da saúde, da assistência social e de organizações da sociedade civil organizavam um bloco de Carnaval chamado Blocolândia. Quando o bloco saía para o percurso era nítido o quanto as pessoas que usam drogas se engajavam e, em todo o trajeto, as pessoas curtiam o samba enredo que havia sido criado com e por eles, sem consumo de drogas, apenas com muita alegria, descontração e entusiasmo”.

Para vencer a fissura

É preciso destacar como o tratamento é muito personalizado, e claro que não quer dizer que música servirá a todos aqueles que passarem por um momento grave de abstinência em casa. Por isso, perguntei aos especialistas e pesquisei um tanto para descobrir outras sugestões de como lidar com os momentos de fissura. 

“Se a pessoa está na fissura, então quer dizer que está tentando parar ou em falta por algum motivo, logo, é um cenário na qual o que já se busca é não usar”, comenta Lauro Pontes. “Aí funciona Sol, exercício físico, água gelada, meditação, massagem, banho quente à noite e frio pela manhã… é preciso fazer uma reconfiguração dos hábitos. Pode parecer fácil, mas não é, definitivamente”.

Por exemplo, pesquisas mostram que exercícios físicos estimulam a neuroplasticidade das mesmas vias cerebrais ligadas ao sentimento de recompensa que são sequestradas pelas substâncias. Ou seja, estimulam liberação de dopamina e endorfina, que sossegam a fissura de um dependente químico, como já mostrou uma meta-análise publicada em 2019 no periódico científico PubMed. Estudos de neuroimagem também mostram que a prática de mindfulness, ou seja, de meditação, reduz a hiperatividade da amígdala (centro do estresse/medo) e fortalece o córtex pré-frontal (responsável pelo controle de impulsos), o que também serve para regular emoções e se equilibrar em crises de abstinência. Há ainda comprovações de benefícios de práticas de atividades artísticas e criativas, de fitoterapia, do contato com a natureza, dentre mais.

Em casos de dependências de drogas pesadas como álcool, heroína ou cocaína, Lauro Pontes vê inclusive possibilidade no uso de cannabis como um hábito de substituição. “Quando o problema da pessoa é com a maconha, aí não se usa, ainda mais com THC, pois é claro que pode piorar tudo”, considera o psicólogo, meio que com um alerta que é óbvio para alguns, mas que vale fazer para quem tem dúvidas. No entanto, para ele, o óleo de CBD serve em praticamente todas as situações, inclusive quando se trata de dependência do THC.

Comis destaca como, em todas as situações, é preciso “estar presente”, isso seja em práticas esportivas, no contato com a natureza, ouvindo música. Destaca como “é fundamental contemplar as nuances que muitas vezes passam despercebidas pelo automatismo da vida”. Indica, por exemplo: “Quando fizer uma caminhada, é importante se atentar à própria respiração, olhar em torno, perceber as árvores, a sensação do Sol batendo em sua pele. Estar presente em cada momento é fundamental para possibilitar a regulação emocional”.

O importante é compreender como encontrar calma, equilíbrio e foco para dar os próximos passos. Um dos recursos que apresenta maior êxito nisso, recomendado por todos os especialistas, talvez te surpreenda: receber afeto. Para quem sofre, como na fissura, um abraço de quem te ama é o remédio que mais ajuda a seguir em frente. E o abraço pode até vir com uma boa trilha sonora de fundo.