Por Filipe Vilicic

Uma nova experiência de químicos da Universidade da Califórnia Davis (UC Davis) bateu como uma nova onda no campo de estudos dos psicodélicos. Os cientistas fizeram algo como uma autópsia no LSD, o ácido, o doce, e ao desmantelar suas peças, conseguiram sintetizar versões simplificadas em laboratório. No processo, descobriram quais partes da substância dão o efeito alucinógeno, e quais não. Foi aí que ocorreu um grande salto: duas dessas versões simplificadas conseguiram reproduzir efeitos terapêuticos, relacionados à neuroplasticidade, sem ativar receptores que geram alucinações. Ou seja, é o LSD que não dá viagem.
“Não foi possível remover partes do LSD. Em vez disso, tivemos que construir análogos simplificados do LSD do zero, o que se revelou bastante desafiador”, nos conta o bioquímico David Olsen, diretor do Instituto de Psicodélicos e Neuroterapias da UC Davis e que liderou o trabalho. “Este nosso estudo, assim como estão mostrando os de outros pesquisadores, sugere que podem ser criados análogos não-alucinógenos de psicodélicos para focar nos benefícios terapêuticos”.
Como exemplo de resultado positivo de terapias com LSD, Olsen destaca um trabalho também liderado por ele, no qual se demonstrou a eficácia em pacientes com transtornos depressivos, e há pesquisas que mostram vantagens também em tratamentos ligados a ansiedade, estresse pós-traumático, dentre outros. O que o time de David Olsen fez foi desconstruir o LSD e depois reconstruir nove modelos simplificados, sendo que dois desses não apresentaram os efeitos alucinógenos, e um ainda mostrou potencial antipsicótico.
Isso pode ser o início do caminho para remédios à base de LSD, mas sem o baque das alucinações. De certa forma, equivale ao que os produtos de CBD, a “cannabis medicinal”, representam para os com THC, que alguns gostam de separar como se de outra planta fosse. “Essa comparação é boa, pois fazer um fármaco não alucinógeno de LSD aumentaria a receptividade pela sociedade e pelo governo, facilitando a liberação na legislação, a adoção pelo SUS”, avalia Isabel Wiessner, doutora em ciências da saúde mental pela Unicamp, onde liderou o primeiro estudo humano duplo-cego controlado por placebo no Brasil sobre os efeitos do LSD em pensamento, linguagem, criatividade, cognição e experiências similares à psicose e à terapia, e hoje pós-doutoranda no Instituto de Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.
O potencial mercadológico é inegável, como ressalta David Olsen, o autor do novo estudo: “O LSD é um composto extremamente potente para ativar uma série de receptores fundamentais no cérebro. Acredito que usá-lo como estrutura de referência para desenvolver terapias otimizadas pode se mostrar muito promissor para uma grande variedade de condições”. Bom, sim, com vantagens para alguns tipos específicos de pacientes, principalmente aqueles que não podem ter contato com o efeito psicodélico, como por apresentar transtornos prévios; mas convenhamos que também com muitos e muitos prós para o mercado. Será que logo veremos remédios de ácido nas farmácias, com médicos receitando via apps?
É a mesma coisa sem o barato?
Essa é a pergunta que fica, pois ainda não há resposta definitiva em termos científicos. Será que ao isolar uma parte da molécula de LSD, recriando-a sem alguns dos anéis que a constituem, os efeitos terapêuticos são preservados por completo mesmo? Ou a viagem, o que se sente na psicodelia, não faria parte do processo de tratamento?
É inegável que ao se tirar o elemento do barato da substância, o mercado, as leis, as pessoas mais conservadoras ou reacionárias, vão receber melhor a narrativa e, em certa medida, até a ciência e a medicina psicodélicas. Todavia, será que corre o risco de virar uma higienização da droga, como se fez em certa medida com a nomenclatura da “cannabis medicinal” versus a da “maconha” (tudo a mesma planta, mas os termos protagonizam um conflito de narrativas)? Não só, pesquisadores como Isabel Wiessner defendem que extrair a parte alucinógena da experiência acabaria por destruir a alma do processo e assim diminuiria os benefícios para a saúde mental.
“Essa abordagem, de produzir remédios tradicionais com psicodélicos, com os efeitos farmacológicos, mas sem alucinações, tem seu valor, só que acho que não reconhece o verdadeiro potencial da substância”, opina ela. “O que caracteriza esse potencial extraordinário dessas substâncias são as mudanças subjetivas, como as pessoas relatam que transformou suas vidas, inclusive no contexto terapêutico”. A cientista acrescenta como outras classes de substâncias, a exemplo dos opióides, não conseguem produzir “efeitos tão profundos”. O LSD, portanto, só atingiria seu potencial verdadeiro quando por inteiro, numa comparação mais simplista, em algo como é o Efeito Entourage (Comitiva) com a cannabis.
O mercado canábico global mostra a solução. O caminho harmônico é aquele no qual diferentes possibilidades podem conviver juntas, como é com os óleos de CBD, os full spectrum, toda a planta. No caso do LSD, a regularização é o caminho, como de costume, concedendo ao indivíduo o controle do que fazer com o próprio corpo, só que podem haver opções, como umas para quem quer só a calmaria sem a psicodelia, e outras para quem prefere a viagem completa.