Por Filipe Vilicic

Aposto que você já foi exposto a uma das narrativas mais repetidas da propaganda proibicionista: a ideia de que acender um baseado seria o primeiro passo inevitável para um tobogã escorregadio que terminaria no uso problemático de substâncias pesadas. A tese da “porta de entrada”, ou no termo original em inglês “gateway drug”, moldou leis, justificou prisões e aterrorizou famílias. O problema? Ela está cientificamente errada. Não passa do mais puro suco da ignorância e do preconceito.
O argumento proibicionista clássico sempre se apoiou em uma estatística interpretada de maneira errada, ou até intencionalmente manipuladora e cruel. A de que a maioria das pessoas que desenvolve dependência em substâncias pesadas relata ter usado cannabis no passado. Só que essa correlação é falsa, pois a ciência ensina que correlação não implica causalidade. Dizer que a maconha causa o vício em heroína porque os usuários de heroína começaram pela maconha é o equivalente lógico a dizer que beber leite na infância causa o alcoolismo na vida adulta, já que quase 100% dos alcoolistas beberam leite quando crianças.
“O pressuposto de porta de entrada, o conceito de que uma droga causa o uso de outra, nunca teve ou vai ter evidência científica, nem com a maconha e nem com outras drogas”, nos resume Clarice Madruga, professora de psiquiatria da Unifesp e coordenadora do 3º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), a maior referência de informações sobre uso de substâncias em nosso país (e sobre o qual já publicamos reportagem aqui na Breeza). Para ela, o máximo que se pode dizer é que o uso de qualquer substância, seja álcool ou cocaína, pode abrir portas para experimentações de todos os tipos, principalmente se a primeira vez for feita de forma precoce, ou seja, na adolescência, antes da vida adulta.
“Quanto mais cedo a pessoa experimentar qualquer substância, há maior chance de usar outras drogas, tanto por aumentar a propensão quanto por mexer com mecanismos de controle do nosso cérebro”, comenta a psiquiatra. Mesmo assim, nesse caso o que se destacaria negativamente como a introdução ao uso é o álcool, tanto por aumentar vulnerabilidades psicológicas, quanto por ser mais disponível e barato.
No Brasil, os dados do Lenad apontam que o primeiro contato dos brasileiros com substâncias psicoativas ocorre esmagadoramente por meio do álcool, frequentemente antes dos 15 anos de idade. É o álcool, socialmente aceito, anunciado na televisão e disponível na geladeira de casa, a substância que mais se associa ao início do policonsumo e que gera os maiores índices de morbidade, violência urbana e dependência no país.
As estatísticas, inclusive, revelam como a ideia de que maconha levaria ao abuso de outras substâncias é completamente errada. É comum que dependentes químicos experimentem vários tipos de substâncias, das criminalizadas às legalizadas? Sim, e é por isso que se descobrem dependentes químicos, devido aos abusos. Mas isso só prova… nada, absolutamente nada.
O relatório histórico do Instituto de Medicina dos EUA corrobora como a imensa maioria dos indivíduos que consomem cannabis nunca migra para drogas pesadas. Os dados de monitoramento do National Survey on Drug Use and Health reforçam a falha dessa conta: enquanto dezenas de milhões de americanos usam cannabis por lazer ou outros fins, a porcentagem que evolui para o uso de substâncias como o crack ou a heroína permanece estatisticamente marginal, de menos de 1%. Se a planta fosse uma “chave biológica”, a taxa de conversão seria matemática, e não uma exceção.
Além disso, se fosse mesmo porta de entrada, em países onde a maconha é legalizada, haveria aumento de dependência química. Todavia, o que ocorre é o contrário.
Desde a década de 1970, a Holanda separou deliberadamente o mercado de cannabis do de “drogas pesadas”. Diversos estudos de acompanhamento da população, ao longo de todas essas décadas, mostraram que, ao remover a ganja do crime organizado, as taxas de transição de usuários de maconha para cocaína ou heroína caíram drasticamente em comparação com países proibicionistas como o Brasil. E o mesmo ocorreu nos estados dos EUA onde é legalizado, com pesquisa apontando que não aumentou o consumo de outras drogas ilícitas e, em muitos casos, observou-se até o efeito oposto, como na substituição do uso de opióides por cannabis em tratamentos como no manejo da dor.
Então… o que empurra as pessoas para o abuso?
Responde a etnobotânica Eliana Rodrigues, professora da Unifesp, discípula do Professora Elisaldo Carlini (nossa maior referência no campo), e que desde 1998 estuda medicinas tradicionais, com diversas pesquisas com canabinóides, e autora do livro “Psicoativos Invisíveis”: “A falta de educação sobre os efeitos das drogas, somada à vulnerabilidade social e/ou psicológica, podem contribuir para a entrada ao mundo das drogas, a partir do uso de qualquer substância”. Para ela, “a melhor saída é a educação, já que proibir uma determinada droga só promove o deslocamento do uso para outras drogas”.
E como a proibição leva ao uso errado, ou mesmo ao abuso e à dependência química? Se existe algum fator que de fato conecta a diamba a substâncias mais perigosas, ele é jurídico. É o que os sociólogos e economistas chamam de efeito de mercado. Sob o manto do proibicionismo, para ter acesso à cannabis, a pessoa é obrigado a recorrer ao mercado ilegal, à biqueira, ao tráfico. É nesse ambiente desregulado que a verdadeira ponte é construída. O mesmo comerciante clandestino que vende a maconha tem interesse comercial em oferecer substâncias com margens de lucro maiores e poder de dependência muito mais agressivo. A ilegalidade é uma grande vilã.
Mesmo assim, a proibição também não é uma razão determinista ou única. “Depende de fatores genéticos, psicológicos, do ambiente em que se vive”, explica a psiquiatra Clarice Madruga. “O que se sabe é que a dependência química é um fenômeno dimensional, um tipo de desordem multicausal, que vai depender de muitos fatores. É uma escadinha, uma coisa aumenta a chance da outra”.
Alguns exemplos desses fatores reais de risco: sofrer violência (seja física ou psicológica) ou abandono na infância e adolescência; acesso facilitado a drogas nos locais em que se está, seja à cervejinha ou uísque dado por um familiar ou ao pó na biqueira; vulnerabilidades e precarizações socioeconômicas; falta de rede de apoio; desenvolvimento de transtornos psicológicos não tratados adequadamente. Mesmo assim, não se trata de uma receita pronta e fatal, mas sim de um ecossistema complexo que precisa ser pensado para além de preconceitos e de ideias ignóbeis.
E “porta de saída” das drogas, existe?
Assim como a dependência depende de uma série de fatores, enfrentá-la também. Dentre outras medidas, é preciso acompanhamento médico, suporte de pessoas que amamos e, sim, um balanço químico de nosso corpo e mente. Nesse último aspecto, para boa parte dos especialistas, a maconha pode até servir de ferramenta útil e positiva.
“A cannabis tem potencial de ajudar pessoas que estão passando por um processo de tratamento, primeiro pelo fato de trazer qualidade de vida, como no combate à insônia e à ansiedade, mas também por auxiliar no sintoma da fissura”, nos diz a médica Mariane Ventura, referência no atendimento clínico com o uso de canabinóides. No combate à fissura, o CBD, por exemplo, pode substituir remédios bem perigosos e arriscados, como ansiolíticos.
Mesmo assim, seria errado chamar o que for de “porta de saída”. Isso porque, o tratamento também exige a compreensão de diversas camadas, além de ser único para cada pessoa.
Inclusive, vale atenção para o uso da maconha nos tratamentos de dependentes. Apesar de existirem evidências empíricas na prática clínica, como aponta Mariane Ventura, a ciência ainda não comprovou a eficácia desse procedimento. “Essa capacidade da cannabis de reduzir danos ou de ser terapia de apoio para transtornos com drogas tem evidências super contraditórias e conflitantes”, pondera a psiquiatra Clarice Madruga. “Pode ser que isso ocorra, mas não tem um bom estudo sobre o efeito do CBD para dependência, as pesquisas são frágeis, com amostras pequenas, sem serem replicadas”.
A psiquiatra acrescenta que “não existe nada infalível para a saída da dependência”. A vida, o mundo, nosso corpo e nossa mente são mais complexos do que ideias simplistas como “porta de entrada” ou “porta de saída”. Explicações baseadas em ignorância só servem àqueles que preferem vomitar ideias erradas por aí para fingir ter qualquer conhecimento, no lugar de estudar e se informar para valer. Na psicologia tem até um nome bom para esse transtorno: Síndrome de Dunning-Kruger.