
João Paulo Pacífico está acostumado a ocupar lugares improváveis. É empresário do mercado financeiro e investe em cooperativas ligadas ao MST. Assinou um manifesto defendendo que milionários – como ele – e bilionários – como poucos – paguem mais impostos. E mesmo sem nunca ter usado cannabis, psicodélicos ou qualquer outra droga ilícita, acredita que todas deveriam ser descriminalizadas e fortemente reguladas pelo Estado.
Neste papo com Anita Krepp, editora desta Breeza, o empresário e ativista fala sobre o fracasso da Guerra às Drogas, os interesses econômicos que ajudam a manter a proibição de pé e por que considera um contrassenso prender alguém pelo consumo de uma substância tida como ilegal.
Entre reflexões sobre TDAH, meditação, inteligência artificial e desigualdade social, João também defende a necessidade de questionar sistemas que parecem naturais apenas porque existem há muito tempo. Para ele, boa parte dos problemas que tratamos como inevitáveis existe apenas porque nos acostumamos a não questioná-los. E isso vale tanto para o sistema financeiro quanto para a política de drogas.
João, empresário e ativista, milionário e esquerdista. Como é possível tudo isso conviver e formar parte de uma só pessoa, que no caso é você?
Somos múltiplos e temos que ser o mais coerente possível. O ativismo vem de uma consciência social que eu tenho. Acho que vale voltar um pouquinho. Eu sou uma pessoa que nasceu na classe média de São Paulo, como N outras pessoas de classe média de São Paulo. Mas classe média tem um espectro grande. Sou da classe média bem baixa. Meus pais não tinham apartamento, moravam de aluguel, mas eu sempre estudei em escola privada. É uma família que se esforça para dar aos filhos o melhor que tem. Educação. E eu sempre tive facilidade com números, por isso fui fazer engenharia. Na faculdade, vi que não queria seguir nessa área. Por acaso, caí no mercado financeiro. No terceiro ano da faculdade, querendo trabalhar, o lugar que me aceitou foi uma empresa do mercado financeiro. Não foi algo que eu escolhi, planejei ou sonhei. Simplesmente aconteceu. Entrei completamente cru e fui aprendendo. Até que, em 2008, percebi que no mercado, não só no financeiro, mas especialmente nele, as pessoas eram simplesmente números. Recursos humanos que você pode descartar. Eu falei “Como assim? Não faz o menor sentido.” Eu estava numa bolha. Quando comecei a perceber isso, falei “Tem alguma coisa muito errada.” Somos todos seres humanos e, de repente, percebi que as pessoas eram simplesmente um objeto, um número de planilha que você deleta e pronto. Eu falei “Quero fazer diferente, estou incomodado com isso.” Eu sempre fui muito de pegar e fazer. Nos lugares em que trabalhava, eu fazia, fazia, fazia. Só que não tinha dinheiro para abrir um negócio. Isso foi em 2008, 2009. Não se falava em startup, em aceleradora, nada disso. Era outro momento, nem redes sociais existiam. Falei “Quero montar um negócio meu, uma empresinha só minha, mas que eu possa tratar as pessoas de forma diferente.” Estava incomodado com aquilo. Chamei duas pessoas que trabalhavam comigo no banco. Tive duas sortes. Minha companheira já era funcionária pública, então segurava as pontas em casa, e apareceu um potencial cliente interessante. Fechei o negócio com eles. O sonho de qualquer empreendedor é ter um cliente. Mas no dia seguinte, esse cliente desistiu. Eles tinham uma multa contratual para pagar, não pagaram, não pagaram, não pagaram, até que descobri que eram pilantras. Nunca mais cobrei a multa. Por sorte, tinha um relacionamento muito bom com ex-chefes que foram para cargos altos em outros lugares. Nunca tratei ninguém por interesse, então tinha esse relacionamento genuíno. Fui convencendo essas pessoas a fazer negócio com a Gaia. A Gaia começou a crescer, crescer, crescer. Comecei a Gaia com o olhar de como pode ser um lugar mais humano. Em 2013, mergulhei no estudo da psicologia positiva, devorei livros sobre felicidade e tive a certeza de que tudo que o mercado financeiro pregava era o oposto do que a ciência mostra como bom para a gente.
Quanto mais dinheiro, menos consciência? Onde as pessoas normalmente se perdem?
Hoje em dia, na média das pessoas, a consciência não vem junto, não vem no pacote. E estou falando de todas as classes sociais. O que justifica que uma pessoa como a Virgínia, que é o antro da futilidade, seja uma das mais veneradas e seguidas? Desde sempre se vende dinheiro como o principal valor de um ser, de uma cidade, de uma empresa, de um país. A gente classifica tudo pela grana ou pelo patrimônio que a pessoa tem ou aparenta ter. Parte-se do princípio de que quem tem muito dinheiro é bom, é inteligente, é legal, é mais valioso. O que é bizarro. Mas, por outro lado, na sociedade em que vivemos, nesse capitalismo, se você não tem dinheiro, você não vive. É uma dualidade. Fala-se que o dinheiro não traz felicidade. Estudei muito isso. Mas sem dinheiro você não vai conseguir comer. Me mostra alguém que, com fome, é feliz. A gente não pode glamourizar, não pode romantizar a falta, a pobreza, a miséria. Acho que todo mundo na face da Terra tem direito à alimentação, a teto, a saúde de qualidade, a lazer. O lazer não tem que ser um privilégio. E hoje muitas vezes a comida é um privilégio. Moradia digna, não estou falando de mansão, estou falando de uma moradia digna, é um privilégio na nossa sociedade. Isso é muito louco. A pessoa que está mal fala “Nossa, quero ser aquela pessoa que tem jatinho, que tem casa não sei onde.” E pensa que aquela pessoa deve ser incrível. E aí “O que eu tenho que fazer para ser aquela pessoa?” A humanidade se perde completamente nisso. Eu acho que a gente é meio idiota enquanto humanidade, ainda. Eu tenho certeza. Agora eu tenho hiperfocos por conta do meu TDAH, que descobri recentemente, e estou num pequeno hiperfoco para entender agroflorestas e agricultura sintrópica. O Ernst Götsch ensina que o ser humano é um acelerador de processos. A gente acelera para o bem e para o mal, para a destruição ou para a plantação. E a humanidade é tão burra, me incluo nisso, que hoje a gente tem comida para todo mundo, mas grande parte da população passa fome. Teríamos dinheiro para todo mundo viver com dignidade, e uma parte enorme vive na miséria absoluta. Temos moradia para todo mundo, mas uma grande parte das pessoas não tem onde morar. Então está errado. A gente não consegue juntar essas coisas. Tem algo muito errado nesse modelo.
Mas você acha que há uma maneira de espalhar consciência, de instigar essa consciência? Ou a humanidade nasceu mesmo para ser o que é?
Não acho que a humanidade foi feita assim. A gente acelera processos, na verdade. Se a maioria tiver consciência, a gente resolve todos os problemas, porque o que a gente está lutando é pelo bem da maioria.
Mas você acha que basta a maioria, ou as pessoas que têm mais dinheiro, que têm mais poder e mais impacto?
Exato, aí que está o problema. Grande parte da população é contra as bets. Tem pesquisa que aponta 70%, 80%. Mas a chance de acabar com as bets no Congresso é nenhuma. Vou dar outro exemplo. A maior bancada do Congresso, ou uma das duas maiores, é a bancada ruralista. Ela defende os latifundiários, pessoas que têm um terreno gigante, enorme, que ocupa uma cidade. Quantos brasileiros são latifundiários defendidos pela bancada ruralista? Chutando muito alto, 100.000 pessoas. No Brasil temos 220 milhões. Como o Congresso, que é representante do povo, tem mais da metade dos seus membros representando 0,000 algo por cento da população? A gente precisaria realmente falar com quem está ganhando dinheiro. Mas quem tem grana, em 99% dos casos, está completamente desconectado. Porque essas pessoas olham para os lados e conversam só com o mesmo tipo. Tem gente desgarrada desse grupo? Tem, mas é muito pouco. Durante muitos anos, vendendo investimentos de impacto, investimentos progressistas, que é o que a gente faz, pela regra da CVM, que nos regula, eu só podia oferecer esses produtos para pessoas com mais de R$ 10 milhões. Eu não queria, mas era obrigado pela regra. Ia a eventos, fazia reuniões. No evento, o pessoal falava como se já tivesse resolvido o problema do mundo. Na hora de investir, não investiam. Falavam muito, gastavam dinheiro com marketing e não investiam. Quando conseguimos, por meio de outra legislação, oferecer os produtos progressistas para a classe média, investimentos a partir de R$ 1.000, como investir em cooperativas do MST, o negócio explodiu. Captamos R$ 11 milhões em no máximo 24 horas. Mais de 1.000 pessoas investiram. Aquilo que eu tinha enorme dificuldade com os super-ricos que se diziam progressistas, às vezes moradores da Vila Madalena mas nem isso eram, aquele tipo de pessoa de centro que às vezes quer aparecer de esquerda, não fazia nada. A classe média fez.
Que fenômeno foi esse? O que você acha que aconteceu para que na classe média tenha havido essa abertura e esse interesse?
Na classe média tem muito mais gente consciente. As pessoas são muito mais conscientes, têm mais visão de mundo, não estão na bolha da bolha da bolha. Lembra quando Paulo Guedes, o ministro da Fazenda, disse “Nossa, mas eu não vejo as pessoas passando fome. Eu vou ao supermercado e as pessoas me elogiam”? É porque ele estava na bolha, com segurança do lado, vidros fumês no carro, olhando só para frente. Se fosse olhar na Faria Lima, ia ver gente passando fome. Mas talvez não olhe para os lados.
Você ficou mais conhecido do grande público em 2024, quando foi o único brasileiro numa lista mundial de multimilionários a assinar um abaixo-assinado pedindo para ser taxado pela sua fortuna. Como você foi o único no Brasil, sendo que, segundo a Forbes, temos mais de 70 bilionários? E por que acha que bilionários de fora têm um pouco mais de consciência?
Acho que é bom pontuar algumas coisas. Uma coisa é ser milionário e outra é ser bilionário. E eu estou anos-luz de ser bilionário. Vou transformar em tempo para você entender. Digamos que cada segundo é R$ 1. Você tem R$ 10, você tem 10 segundos. Um milhão de segundos são 11 dias. Um bilhão de segundos são 32 anos e meio. Então a diferença entre um milionário e um bilionário é a mesma diferença entre 11 dias e 32 anos e seis meses. Quem tem 2, 3, 10, 15, 20 milhões tem muito dinheiro no Brasil. A maior parte da população nunca vai ter isso. Mas ainda assim é um queridinho perto dos bilionários. O Jorge Paulo Lemann, aquele empresário que fraudou e quebrou a Americanas, entre outras, tem em torno de 80 a 90 bilhões. 90 bilhões de segundos são 320 anos. O milionário tem 11 dias, ele tem 320 anos. Então é importante dividir. Quando vendi uma empresa, doei grande parte do dinheiro para outra empresa, porque acho que tem que haver um limite. Cada pessoa tem o seu e tudo bem. Eu acho que quanto mais a pessoa tem, mais imposto ela tem que pagar. Isso é justo. Não faz sentido uma pessoa que tem menos do que eu pagar mais imposto do que eu. Assim como não faz sentido alguém que tem mais pagar menos. Quando assinei o abaixo-assinado e defendi o imposto progressivo, foi porque acredito nisso. Acho que pouca gente assinou porque talvez não soubesse da iniciativa. Tem mais gente que concorda comigo. Eu me sinto mal se pagar menos imposto do que alguém que tem menos do que eu. E, da mesma forma, quem tem mais deve pagar mais. O que acontece é que as pessoas com muito, muito, muito dinheiro, esses bilhões, não pagam quase nada de imposto. Isso é muito errado. E tem mais uma coisa louca. Quando se fala em empresário, pegam uma pessoa com MEI ou um pequeno negócio e comparam com o dono do banco. São bichos completamente diferentes. O dono do banco fala “imposto é roubo” e o cara que está ralando no seu mercadinho fala “É verdade, somos iguais.” Não são iguais. O cara que tem bilhões não é igual ao empresário que está lutando no seu negócio. Mas o super-rico convence o outro e fala “Estamos no mesmo lado.” E o cara acredita. As pessoas não percebem essa diferença.
O que te ajuda a ter clareza sobre as coisas? Em termos de hábitos, intelectuais ou espirituais.
Gosto muito de praticar atividade física, muita atividade física. Um pouco de meditação, às vezes mais, às vezes menos. E leituras. Sou muito curioso, adoro aprender coisas, uma coisa, outra, outra, e procuro ter atividade física desafiadora, que me ajuda demais. Acho que estar nesse lugar de aprendizado e ter empatia também conta, e não me faz nada de especial. Mas tenho sensibilidade social. Me dói saber das injustiças que a gente vê no mundo. Não consigo passar despercebido quando vejo algo injusto. Quando conheci o MST, visitei muito, conversei muito com as pessoas, me envolvi de verdade. Aprendi uma expressão recentemente, slacktivismo, ou ativismo de sofá. Quem é ativista de sofá fica só curtindo e compartilhando nas redes e acha que resolveu o problema da fome ou da moradia. Mas a vida real é muito longe das mídias. A vida real é o pé no chão no barro, é visitar, é conversar com as pessoas. É onde você vai ser realmente tocado. A partir do momento em que comecei a visitar assentamentos da reforma agrária, conversar com as pessoas, ver como é a vida delas, eu pensei “Cara, isso faz muito sentido. A reforma agrária é uma necessidade do Brasil e do mundo.” Daí comecei a entender cooperativas do MST e de outros movimentos e pensei “Quero usar minha habilidade para apoiar e fortalecer isso.” Acho que é muito do aprendizado e do estar no lugar. A empatia se desenvolve quando você se envolve com a situação. E isso vai trazendo bagagem. A leitura e a reflexão também constroem o senso crítico, como pessoas e como sociedade. Vou dar um exemplo concreto, falando de política. Acho que Alexandre de Moraes foi fundamental para manter a democracia no Brasil. Foi importantíssimo. Mas a partir do momento em que aparece um contrato da esposa dele com Daniel Vorcaro de R$ 134 milhões, eu critico. Porque isso é imoral. E quando fui lá e critiquei, parte da galera disse “Não, cara, não.” Mas não existe isso de ou você critica ou você ama. Eu quero que me critiquem também. Criticar as ideias e as atitudes, não a pessoa. Não é “Ah, ou é meu ídolo ou é meu inimigo.” Não é assim. Mesmo dentro do campo progressista, a gente precisa discutir ideias. Nenhuma ideia está fechada. Tenho ideias hoje que espero que daqui a seis meses eu tenha aprendido e revisado. A gente tem que buscar o bem comum, não defender bandeiras cegamente. E acho que esse olhar crítico me ajuda muito.
Quando te chamei para essa conversa, você disse que não tinha lugar de fala sobre cannabis e psicodélicos, porque não faz uso dessas substâncias. Sempre foi assim ou é algo mais recente?
Pratiquei esporte a minha vida inteira. Quando era adolescente, nadava. E natação exige muita disciplina. Treino seis vezes por semana, vários dias de madrugada antes de ir para a escola e depois também. Minha vida era dentro de uma piscina com cloro (riso), e eu gostava muito. Por conta disso, nunca tive na cabeça a questão do uso. Sempre trabalhei o autoconhecimento através da meditação. Eu sei que a meditação não atinge o mesmo lugar que essas substâncias, mas sempre fiquei nesse caminho. Como as minhas práticas sempre me satisfizeram como necessidade, nunca fui para esse lugar, apesar de ser totalmente favorável à descriminalização e respeitar muito quem faz uso. De verdade. Eu nunca usei para agradar outras pessoas. Na verdade, nunca usei drogas porque nunca precisei. Pode ser que algum dia faça sentido para mim, super pode. Mas hoje não estou nesse lugar e está tudo bem. Mesmo com bebida alcoólica, sou uma pessoa que não bebe. Quando era mais jovem, conseguia estar com muita gente, solto, sem precisar de álcool para me desinibir. Enquanto isso era normal para outros, e não é uma crítica, é normal, eu já ficava solto sem beber. Então esse é o meu lugar hoje. Posso falar da questão como posição política, mas como experiência de vida não tenho nenhuma para poder comentar.
Sabe que os cogumelos, a microdosagem, tem muita gente que usa justamente para o TDAH?
Descobri o TDAH ano passado, quando minha filha teve o diagnóstico. Eu nem sabia direito o que era. Ouvi muita gente falar, mas não entendia. Quando minha filha começou a apresentar as coisas e a gente foi fazer o teste, eu conversando com a psiquiatra falei “Nossa, tudo que ela está falando sou eu.” E ela disse “É, é meio genético mesmo.” Aí li dois livros sobre TDAH e entendi. “Eu estou muito dentro disso.” Mas tem uma coisa interessante, é um privilégio que tenho. Fui construindo minha carreira e consegui adaptar minha realidade, meu trabalho e minhas habilidades ao meu TDAH, sem nem saber que tinha. Minha filha faz uso de remédio hoje, porque precisa para o foco na escola. Eu nunca cheguei a considerar o remédio, porque estou tão acostumado com meu jeito que funcionou. Poderia algum dia testar, mas está tudo bem como está. Faz 18, 20 anos que não tenho chefe. E antes também sempre fui muito fazedor das coisas. As pessoas que trabalham comigo há muito tempo já conhecem meu jeito. Sabem que o João é o cara que esquece a carteira, que não consegue entrar no sistema da empresa, mas que tem a ideia de montar uma operação que vai revolucionar a agricultura. Estou nesse lugar, aceitando todas as minhas vulnerabilidades. Para mim é muito bom, sabe? De novo, é um privilégio que tenho.
E quando você falou que é favorável à descriminalização, está falando só da maconha ou de todas as drogas?
De todas, sabia? Não sou especialista nisso, mas meu entendimento é que todas as drogas deveriam ser descriminalizadas e super-regulamentadas. Vou falar o meu olhar. Pode ser muita asneira, é uma opinião, sem nenhum lugar de fala. A bebida alcoólica, com toda a propaganda que tem, causa muitos danos e mortes, e pelo menos paga impostos. Quando você tem traficantes ganhando dinheiro com drogas sem qualidade nenhuma, o Estado perde o controle, o ganho disso vira um problema de saúde pública. Acho que a gente tem que olhar isso como saúde pública. Não adianta fechar o olho ou subir o morro para matar 120 pessoas, como aconteceu no Rio de Janeiro. Isso não resolve nada e coloca as pessoas em risco de forma muito maior. Políticas de criminalização, e ainda pior o que acontece em outros lugares, tipo o que Bukele faz em El Salvador, são ruins para a sociedade. Colocar alguém na cadeia porque estava consumindo algo não faz o menor sentido para mim.
E fora que a nossa sociedade está muito enroscada por conta da proibição. Não precisa nem desenrolar muito o fio da corrupção política para encontrar a ligação de figurões com o tráfico. E aí vem o Congresso, que é contra a regulação das drogas. Dizem que é por moralismo, mas há também uma perda de espaço de influência do que hoje eles monopolizam.
Total. Essas grandes organizações criminosas estão em todas as esferas de poder e trazem lucro absurdo para essa turma. É mais fácil se vestirem de moralistas e continuar ganhando esse dinheiro do que expor isso para todo mundo e criar algo muito mais organizado. Tem um interesse econômico gigante por trás disso, gigante, gigante, gigante. Tem dúvida disso?
João, você é investidor em cooperativas do MST. E o MST já iniciou sua produção de cannabis, com pelo menos três polos. Você acha que é o lugar ideal para o desenvolvimento da regulamentação do cultivo em território nacional? É algo sobre o qual você já pensou ou ainda está distante da sua reflexão?
Total, total. Olhando especialmente os benefícios medicinais, tudo que vejo e que pessoas me contam sobre enxaqueca, insônia e mil outras coisas, inclusive os usos práticos do cânhamo, acho que é um absurdo não poder fazer isso. Para mim é totalmente sem sentido. É um falso moralismo que vem acompanhado também do crescimento das igrejas. Tem igrejas que vêm com falso moralismo, pregando coisas que fazem a gente retroceder em outras pautas também: diversidade, gênero, direito ao corpo, direito reprodutivo da mulher. A gente vem retrocedendo muito. E acho que é essa teocracia que o Brasil está virando. O Brasil, infelizmente, não é mais um país laico, como deveria ser segundo a Constituição. Quando você entra no Congresso Nacional ou em qualquer repartição pública, tem uma cruz lá. Com respeito a qualquer religião, não tem que ter uma cruz. Não tem que ter nada. O país tem que ser laico e aberto a todas as crenças, fés e religiões. Infelizmente, eles estão tomando conta. Falei da bancada ruralista, e tem a bancada da Bíblia, que é um absurdo. E agora o PL da pedofilia, que tira de uma menina vítima de estupro até o direito ao aborto legal. Para mim, é um retrocesso enorme. A gente tinha que avançar nesse tema. É muito louco pensar que uma menina de dez anos estuprada está perdendo o direito de interromper aquela gestação. Mas a gente tem que seguir falando. Porque a gente sabe que seja o pastor de lá ou o cara super-rico, se ele quer fazer o aborto, ele faz. Isso vale para quem não vai ter acesso, para a mulher preta e pobre. A pessoa que tem dinheiro consegue fazer o aborto tranquilamente, sem risco nenhum.
Ser ativista e, ao mesmo tempo, atuar no mercado financeiro é muito interessante de observar. Esse universo da cannabis está cheio de ativistas que não conseguem se desprender de conceitos que eles mesmos criaram para si, o que os impede de atuar em outras camadas onde poderiam promover mudanças de fato. Como é para um ativista ser parte do sistema?
Quando a gente entende que o sistema é um meio, não um fim, aí você consegue agir. Hoje eu entendo que o mercado financeiro não precisa ser explorador, neoliberal. Eu uso os instrumentos do mercado financeiro para que literalmente milhões de pessoas possam investir em cooperativas ligadas ao MST, por exemplo. E isso é maravilhoso. Uma pessoa vai pegar R$ 1.000, R$ 3.000, R$ 10.000, coloca lá, esse dinheiro vai para uma cooperativa da reforma agrária, fortalece a cooperativa, gera comida, gera renda, e essa pessoa recebe o dinheiro de volta com juros. Não tem como ir contra. Por quê? Porque faz todo sentido. Mas eu poderia usar esse mesmo instrumento para financiar agrotóxicos ou latifúndio. Não faço isso. Uso para fortalecer. Acho que quando a gente tem essa consciência, e isso é algo que o MST faz bem e que a gente tenta fazer aqui também, é ocupar espaços. Por que esse espaço não pode ser para isso? Quem definiu que tem que ser assim?
A nossa próxima operação, por exemplo, é para viabilizar o aluguel de pessoas que não têm condição de alugar ou que não são aprovadas pelo sistema. Tem uma quantidade grande de imóveis vazios e muita gente que mora de forma informal, em condições horríveis. Só que várias dessas pessoas conseguiriam pagar um aluguel por aquele imóvel vazio. Mas o sistema não permite. Por quê? Porque fala “Para alugar aqui, você precisa de um avalista que tenha imóvel.” A pessoa não tem avalista. “Tem que ter renda CLT.” A pessoa tem renda, mas não é CLT, não consegue. O que a gente está fazendo agora, com uma empresa chamada OCOP, conecta essas duas coisas e garante o pagamento. Fala “Você não precisa de avalista, se você consegue gerar essa renda, eu te aprovo e você mora lá.” De 30% a 60% das pessoas que não são aceitas pelo sistema tradicional elas aceitam, e essas pessoas pagam direitinho. O sistema está fechado, mas dá para embaralhar. Por que tem que ser sempre assim? Por que não pode ocupar outros espaços? Acho que essa é uma pergunta que a gente tem que ter sempre. Não é porque sempre foi assim que tem que ser assim para sempre.
Tenho muita curiosidade de te ouvir sobre como você tem feito o uso da inteligência artificial na sua vida, nos negócios.
Tem uma coisa muito importante que é: a gente não pode terceirizar o nosso pensamento. É o nosso motor, o que nos faz viver. Uma pintora pinta. O processo de criação, de olhar as cores, de fazer isso, é a vida. Mas tem uma IA que, em três segundos, cria um quadro. Qual é a graça da vida? O compositor tem sua arte, pensar, refletir, estar presente, e depois de uma semana, um mês, fazer uma letra maravilhosa. Mas se uma IA faz uma música, qual é a graça? Você vai a um show de IA? Vai sentar e ficar assistindo um instrumento tocar automaticamente? Não. Isso não é vida. A vida é o processo, não o fim. Tenho 47 anos, e quando comecei a dirigir eu decorava os caminhos, usava guia de ruas. Hoje minha inteligência espacial é uma ameba. Vou para a esquina com o Waze, do lado da minha casa. Por quê? Porque terceirizei. E isso na inteligência artificial é um risco gigante.
Como uso hoje? Para buscas e pesquisas. Quero saber sobre desigualdade no Brasil, quero dados sobre determinado tema, peço à IA que me traga informações com fontes, vou lá, verifico as fontes, beleza. Mas faço muitos vídeos, no YouTube e bastante no Instagram, e gosto de escrever meus próprios roteiros. Poderia terceirizar para a IA escrever, mas o processo de escrever é o que eu gosto de fazer. Também uso o NotebookLM, do Google. Às vezes tenho um podcast ou material muito longo, jogo lá, ele resume. Daí decido se quero aprofundar ou não. Se quero, vou e aprofundo. Mas a gente tem que manter viva a capacidade de pensar criticamente, de sentir a vida. Senão vamos terceirizar tudo e nos tornar amebas controladas por três big techs que vão pensar por nós. Acabou a vida.
João, para concluir. Você acha que ainda faz sentido a definição de direita ou esquerda? Sobretudo num país cujo presidente é tido como de esquerda, mas que, na real, para mim, é de centro. Esses termos ainda fazem sentido ou já estão ultrapassados?
É muito subjetivo. Mas hoje eu diria o seguinte. No Brasil, a gente está numa situação em que a divisão é democracia ou autoritarismo. Esse é o enquadramento de hoje. Autoritarismo é Flávio Bolsonaro, Romeu Zema, Caiado, todos que passaram pano para o 8 de janeiro, que foi uma tentativa de golpe de Estado. A gente não pode minimizar isso, não pode falar que foi só a Débora do Batom. A gente viu nas imagens o que aconteceu. Então, para mim, hoje no Brasil é democracia versus autoritarismo. Essa é a divisão. E essa é a primeira luta que a gente tem que ter como sociedade, mesmo uma pessoa que seja mais liberal na economia. Mas acho que hoje estamos nesse lugar. O que acredito que precisamos fortalecer, como país e como nação, é um Estado forte que esteja preocupado com o bem-estar da população. Essa é a base de tudo. O que me assusta muito é que, por mais que a gente tenha avançado em alguns pontos no atual governo Lula, tenho muitas críticas em vários pontos, mas tiramos o Brasil do mapa da fome, isentamos de imposto de renda quem ganha até R$ 5.000, o Haddad fez um bom trabalho, me assusta imensamente ver o que está acontecendo com os direitos da população LGBT. El Salvador, que é o modelo de todos eles, proibiu a Parada LGBT. Olha a insanidade. E eles estão flertando com isso aqui. A gente não pode minimizar o risco que é esse outro lado. Tendo democracia, eu quero puxar cada vez mais para o bem-estar social, para uma economia que seja boa para todas as pessoas e não só para meia dúzia de privilegiados.
O Brasil nos obriga a falar do básico, não dá para ir além, porque tem que garantir que não entremos numa ditadura novamente…
Exatamente. Se a gente olhar as últimas eleições, a gente não teve condição de discutir projetos, planos. Por quê? Porque virou tão absurdo que era “ou isso ou aquilo”. Não tinha dois, três caminhos. As redes sociais fortaleceram muito isso. E esse campo que apoia a ditadura, que minimiza tudo o que aconteceu, está muito forte. Se não fosse por esses áudios do Vorcaro, a gente não sabe como estaria. O risco seria muito maior. E tem o problema do Congresso, que é assustador. Tenebroso.