Na Breeza

Minha vida, minhas regras

Por Anita Krepp

Nelson Matias nunca fumou maconha e essa informação parece contrariar o personagem que circula há quase três décadas pelos bastidores da maior Parada LGBT+ do mundo — e da qual hoje é presidente. Ícone da comunidade gay no Brasil, Nelson já esteve cercado de fumaça suficiente para várias vidas. Em boates, shows, estádios, trios elétricos, camarins e manifestações. Sempre de tabela, estava lá ele sentindo aquele cheirinho característico que, aliás, nunca o incomodou. “Eu sempre achei o aroma da cannabis muito menos desagradável do que o do cigarro tradicional.”

Na semana da Parada, Nelson concedeu entrevista à beira da exaustão de quem coordena um dos maiores eventos do Brasil (e no qual a Breeza está presente com uma roda de conversa sobre redução de danos e drogas com nomes ilustres). “Eu não vejo a hora do último trio desligar às seis da tarde no domingo e a gente dizer: puta, entregamos”, confessa, rindo, porque sabe que não é verdade. A Parada termina e não termina.

Na segunda-feira haverá prestação de contas, reuniões, relatórios, patrocinadores, críticas e cobranças. Existe uma versão televisionada da Parada, aquela que ocupa algumas horas da Avenida Paulista. E existe outra, invisível, feita de planilhas, articulações políticas, encontros de organizadores e uma quantidade de trabalho burocrático que ninguém faz ideia. Nelson vive nessa segunda versão – e não dá nem um tapinha na pantera pra aguentar esse tranco.

Quando entrou para o movimento LGBT, nos anos noventa, ele não imaginava ocupar cargos institucionais, onde chegou querendo mudar algo que não entendia: por que a comunidade LGBTQIA+ brasileira ainda parecia confinada a espaços marginais enquanto as grandes marchas americanas já reuniam multidões e ocupavam avenidas inteiras? 

Hoje, no terceiro mandato à frente da APOGLBT, continua falando de liderança com certo desconforto. Durante o nosso papo, ele falou muito mais da instituição do que de si mesmo. Quando menciona conquistas, atribui a processos coletivos, e quando comenta dos artistas que aceitaram participar da Parada sem cachê em um dos anos mais difíceis financeiramente, faz questão de dizer que não ligou para ninguém. Que a iniciativa partiu dos artistas. “Nunca tive uma postura centralizadora ou personalista. Não acredito em salvadores da pátria.”

Alcoolismo deixa marcas

Apesar de não fumar maconha, Nelson não é santo nem nunca foi abstêmio. Bebeu bastante na juventude. Experimentou cocaína e LSD, mas não transformou nenhuma dessas experiências em epopeia geracional, já que não tem interesse em mitificar o próprio passado. O álcool, porém, ocupa um lugar diferente. Aos 28 anos, bebeu uma garrafa de whisky inteira e foi parar no hospital. O médico perguntou se estava drogado. Nelson disse que não, que tinha tomado só um whisky. O médico respondeu: “Então o senhor está drogado.” A sociedade romantiza tanto o álcool que esquece de enquadrá-lo na categoria da qual faz parte.

O pai de Nelson era alcoólatra, e como normalmente acontece de repetirmos experiências ao longo da vida através dos nossos vínculos mal resolvidos, anos depois ele namorou por um tempo uma pessoa com o mesmo problema. Mas foi por pouco tempo. “Acabou se tornando uma relação muito tóxica quando a outra pessoa está doente.” 

Essas duas experiências próximas foram suficientes para transformar a maneira como ele observa o debate público sobre drogas. Enquanto parte da sociedade ainda enxerga a cannabis como uma droga ameaçadora, Nelson cresceu assistindo aos danos produzidos por uma substância legal, socialmente aceita e presente em qualquer celebração familiar. “Raramente você vai ver alguém com uso de cannabis se tornar uma pessoa doente por conta disso.”

Nelson diz que seu próprio organismo sempre funcionou como um freio natural. Quando algo começa a lhe fazer mal, física ou emocionalmente, simplesmente perde o interesse. Nem todo mundo, porém, tem esse privilégio. Há quem passe a vida inteira negociando com fantasmas mais difíceis. Por isso ele evita julgamentos e não abre mão de uma frase que ouviu de um amigo já falecido e que nunca esqueceu: sabendo usar, não irá faltar. E considera essa uma lição não sobre drogas, mas sobre a vida. Tudo exige algum grau de sabedoria e de limite. 

Além de maconheiro, veado

Desde criança observava a figura do maconheiro ser tratada como uma categoria moral. Alguém que merecia desconfiança antes mesmo de abrir a boca. Mais tarde percebeu que conhecia bem aquele mecanismo. Pessoas LGBT passavam pela mesma triagem. Primeiro vinha o estereótipo. Depois, o preconceito. Só então a possibilidade de serem vistas como indivíduos. 

“Além de maconheiro, veado. Mais ou menos como: além de preto, veado”, exemplifica com uma frase não pretende equiparar experiências distintas, mas tem uma mesma lógica. A facilidade com que certas pessoas são reduzidas a uma única característica e a rapidez com que o julgamento substitui a curiosidade surpreendem por tamanha ignorância. “Durante muito tempo, LGBTs e usuários de cannabis foram vistos através dos mesmos estereótipos e julgamentos morais.”

Os dois movimentos reivindicam o direito de viver sem perseguição baseada em moral alheia. Num estado laico, diz, minha vida, minhas regras. Dentro dessa lógica, ele não faz distinção entre uso medicinal e recreativo. Acha que fazer essa distinção é uma armadilha que simplifica um debate mais complexo. “Senão eu vou cair na vala de só reconhecer quando é uso medicinal. Mas tá tudo bem usar de forma recreativa também.” Nelson não parece particularmente interessado em decidir quais escolhas merecem legitimidade e quais precisam se explicar.