Saindo da estufa

Bela Gil: “Os psicodélicos, na minha vida, vieram para ficar. São substâncias mágicas”

Intimamente ligada ao universo dos psicodélicos, Bela Gil vê nessas substâncias uma possibilidade de transformação individual profunda, um caminho para tratar o que precisa ser olhado dentro de cada um de nós, para que talvez possamos evoluir coletivamente com mais paz, consciência e harmonia. Foi a yoga que colocou a psicodelia em seu caminho, ao apresentar a Bela o conceito de transcendência, uma sensação que ela diz reencontrar em experiências com DMT, LSD, psilocibina, MDMA e ayahuasca.

Neste papo com Anita Krepp, editora da Breeza, Bela Gil fala pela primeira vez sobre sua trajetória de mais de 20 anos com aquilo que prefere chamar de psicotrópicos. A curiosidade nasceu da tentativa de compreender os mistérios da vida e da morte, e também de encontrar uma forma mais confortável de existir no mundo. 

Para ela, o potencial terapêutico dos psicodélicos não está necessariamente separado da recreação, já que experiências recreativas podem produzir efeitos profundos sobre o bem-estar, ainda que não substituam processos clínicos formais. “Dançar pode ser terapêutico, cozinhar pode ser terapêutico, assim como tomar cogumelo também pode ser”, defende a cozinheira e apresentadora do Saia Justa.

Bela, a gente tá conversando no dia seguinte ao Dia das Mães e eu não queria perder a oportunidade de te perguntar como é que você faz para a maternidade parecer tão fácil, segundo diz a sua própria filha. É claro que tem o recorte de classe, que obviamente facilita, mas eu sei que não é só isso.

É importante a questão da classe, da gente poder ter uma rede de apoio grande. Mas eu sou uma mãe que me coloco muito presente na vida dos meus filhos e acho que isso faz muita diferença. Diferença no sentido de que, quanto mais perto a gente tá, mais simples as coisas ficam. O diálogo fica mais simples, o cuidado, o respeito e a proximidade facilitam muita coisa. Parece paradoxal, mas eu acho que não. Tem aquele ditado “de perto ninguém é normal”, mas eu acho que na maternidade o estar perto, se fazer presente, tornam tudo mais fácil e mais normal mesmo. É importante compartilhar os perrengues, as alegrias. Essa proximidade faz com que ela entenda que é vida real e uma maternidade muito real. Eu não sou completamente blindada e nem blindo ela completamente. A gente tem essa conexão, e eu acho que é isso que ela quis dizer. Ela acha simples, mas sabe que não é, porque eu torno o nosso diálogo, a nossa relação muito gostosa, muito simples, e ela sabe o corre que é para dar conta disso tudo. Eu acredito muito nisso. 

Com a sua mãe tenha acontecido algo parecido. Já com o seu pai, imagino que tenha sido diferente, até pela rotina dele, as viagens, os shows. Mas, ao mesmo tempo, sinto que ele também conseguiu construir esse vínculo com os filhos, talvez de uma outra forma. 

Eu acho que isso tem a ver com a gente entender o papel de cada um nas nossas vidas. Não tem uma fórmula certa para a maternidade, para a paternidade. Quando a gente entende e aceita que a mãe é a mãe possível, que o pai é o pai possível, que são pessoas com questões, com angústias, com desejos, com muita coisa. Quando a gente entende o papel de cada um nas nossas vidas, isso facilita. Com o meu pai tenho muito um lugar da literatura, da leitura, da conversa, da filosofia, das filosofias orientais principalmente. É um lugar onde a gente se encontra muito. A forma que eu entendo que ele dá amor, carinho, atenção e tudo mais é quando ele vem com um livro, por exemplo, que dialoga completamente com o momento que eu tô vivendo. Isso é uma linguagem do amor. Com a minha mãe é a mesma coisa. Minha mãe é uma pessoa que cuida muito, é muito cuidadosa. Nunca vai ser tudo perfeito do jeito que a gente imagina, do jeito que a gente deseja. Mas quando a gente dá um passinho para trás e entende a realidade e aceita as pessoas do jeito que elas são, não no sentido alienado da expressão, quando a gente aceita e fala: é por esse caminho aqui que eu vou cultivar. Isso é bom para os dois lados. Acho que é nesse lugar.

Há pouco mais de um mês você fez um post no Instagram falando sobre psicodélicos e, mais especificamente, sobre a psilocibina, que surpreendeu muita gente. Como rolou essa sua aproximação com o assunto?

Sou uma pessoa que experimenta e gosta de compartilhar as experiências, sou muito curiosa, então pesquiso. As coisas que acho interessantes de serem compartilhadas, eu compartilho. Mas não me vejo como uma autoridade no assunto. Sou uma curiosa. Eu gosto desse caminho dos psicodélicos, acho que é realmente um caminho de evolução e de paz para a humanidade. Outro dia eu tava vendo uma reportagem sobre um estudo que fizeram administrando MDMA para o polvo. O polvo é um animal muito antissocial, meio agressivo, super antipático. E aí, sob o efeito do MD, se tornou muito amigável, abraçando outros polvos e tal. E aí você vê como o DNA genético do polvo é muito parecido com o do humano, no que diz respeito ao cérebro. O cérebro do polvo e do humano têm mecanismos parecidos. E aí alguém comentou “gente, pelo amor de Deus, alguém dá um MD pro Trump”. Eu falei, sempre pensei nisso, sempre achei que líderes de comunidades, de nações, de coletivos, pessoas que falam em nome de muita gente, que representam muita gente, deveriam ter esse cuidado de parar um momento e pensar: será que eu tomo uma macrodose de cogumelo? Será que eu tomo um MD? Não vejo uma mesa de negociação onde a galera que tomou um MD fala “tá bom, agora vamos jogar uma bomba em escola de crianças”, como aconteceu no Irã. Não acho que ninguém sob o efeito de MDMA vai tomar uma decisão dessas. Falo de uma pessoa comum, não de um sociopata, não de um psicopata. Então a gente tem todas as ferramentas e mecanismos para seguir para uma ordem mais harmônica e pacífica da sociedade, da civilização. A gente tem essas substâncias que são maravilhosas. E todo estudo de saúde mental, de comportamento, tá avançando bastante. A gente tem que instaurar isso: se você quer ser um líder, vamos fazer um teste psiquiátrico e ver se pode ou não pode. O Trump é um psicopata, Bolsonaro é um psicopata. Isso deveria ser uma exigência. 

Você já tinha chegado antes nos psicodélicos ou é uma coisa nova na sua vida?

Eu já experimentei muitas coisas, gosto desse assunto e leio sobre isso há muitos anos, desde os meus 18, 19 anos. Porque eu comecei na yoga, aí a yoga me levou para uma curiosidade sobre a transcendência. O que é transcender? Quais são os mecanismos para isso? Comecei a praticar yoga ferrenhamente, depois meditação, e aí eu conheci os psicodélicos: DMT, LSD, psilocibina, MD e ayahuasca. São experiências que te levam para um lugar que você fala “uau”. Eu não sei explicar. A palavra é essa, é o uau. Não tem uma descrição precisa, até porque cada experiência, o uau de cada experiência é muito diferente. Resumindo, a palavra é uau (risos). Pode ser um uau pro bom, pro ruim, ou pra “caraca, não sabia que eu ia chegar nesse assunto”, ou “caraca, consegui resolver uma coisa da minha vida em pouquíssimo tempo, consegui tomar uma decisão que tava pesando nas minhas costas”. São muitos casos, e cada substância também te leva para um caso diferente. Desde os meus 18, 19 anos, por causa dessa vontade de entender o mistério da vida, o mistério da morte, me sentir um pouco mais confortável nesse mundo, me apegar à ideia de que pode ser mais fácil, mais leve, mais gostoso. Porque quando a gente tá nessa onda, é uma explosão de amor, e você fala “caraca, se o mundo fosse assim, se a gente pudesse viver assim, como seria?” Então traz um alívio para a angústia do dia a dia da vida.

Fiquei curiosa sobre o DMT. Foi um uau bom, um uau tranquilo ou um uau “morri e voltei”? E não que isso seja ruim…

É bom. A minha experiência foi muito harmônica. Dizem que é muito rápido, algo em torno de 5 a 10 minutos que você fica completamente imerso na onda. A minha demorou uns 45 minutos até eu voltar, até eu conseguir entender quem eu era, onde eu tava, quem eu sou. E foi muito… eu descrevo essa sensação desde o dia que eu fiz, e ela tá muito presente em mim até hoje. Não sei se você medita, mas acho que quem medita consegue talvez se aproximar um pouco dessa descrição. Quando você tá meditando, você tem um objetivo de chegar num ponto de relaxamento, de união com o cosmos, com o universo. Pra mim, a experiência com DMT foi uma meditação reversa. É como se você atingisse o nirvana imediatamente. Você tomou ali e pum, cheguei no nirvana. É uma sensação de paz, de união, de integração com tudo, e você não sabe mais quem você é. Aí você vai regredindo, respirando, tomando consciência das coisas, sentindo “putz, tem um corpo aqui”, entendendo o contorno que o corpo te dá para essa consciência, e aí você vai voltando. Chega uma hora que você abre o olho e fala “ah, tá bom, voltei”.

Você chegou a encontrar os seres que dizem que o DMT te leva a encontrar? É muito comum você encontrar seres que podem ser desde Jesus até extraterrestres das mais variadas formas.

Não, não encontrei nada. Só uma sensação de dissolução completa e total do ego, de me sentir sem saber quem eu era mais. Era uma coisa tipo perder a consciência por uns minutos, digamos assim. Parece estranho, mas é porque eu não pensava em nada. Era só sentimento, era só sensação maravilhosa.

Quando eu vi você falando dos cogumelos, eu pensei: será que a Bela tomou psilocibina para lidar com a morte da Preta? Teve alguma coisa nesse sentido também?

Não. Eu tomei antes. Os cogumelos na minha vida vêm antes disso. Mas com certeza eu acho que ajuda. Uma das grandes lições que os psicodélicos me trouxeram foi o fato de perder o medo da morte. Outro dia eu ouvi um monge dizendo: “Se você tem medo da morte, eu tenho uma coisa para te dizer. Você vai ser bem-sucedido para morrer. Todo mundo consegue morrer, não tenha medo.” Quando você enxerga isso como um fechamento bem-sucedido para a vida, fica assim, faz sentido. Só que é muito difícil a gente se desapegar da pessoa. O desapego eu acho que é uma das coisas mais difíceis da vida, e com certeza os psicotrópicos ajudam nesse processo. Mas acho que foram essas práticas, essas experiências, que me ajudaram a lidar com a perda, com o entendimento do fechamento de ciclo e da contribuição dela nesse plano terreno. Não só os psicotrópicos, mas muita leitura, muita meditação, muito entendimento. Ouvi outras filosofias que enxergam a morte de outra forma. É muito interessante. Eu herdei isso um pouco do meu pai também, que entende isso há muito tempo, pesquisa, é curioso, pratica há muito tempo, e também teve fases muito difíceis na vida. Acho que ele me ajudou bastante nesse lugar.

Qual é a sua compreensão do pós-morte? O que acontece? Você tem uma ideia? Não que a gente consiga comprovar, claro, mas que você sinta?

Eu posso ter uma ideia, porque é muito difícil a gente fincar uma certeza. Sou muito incrédula e ao mesmo tempo muito crente, o que parece doido, mas é verdade. Depende do meu humor, do meu dia. Acho que é uma coisa do ego, de se apegar ao que mais te conforta naquele momento. Não tenho uma crença absurda em nada, sou muito adaptável nesse lugar (risos). A minha ideia do que pode acontecer depois, nesse momento, eu vejo como uma gotinha caindo no mar e se dissolvendo. A gente perde o corpo, a matéria, mas a consciência tá ali. Eu acho que ela fica lá. Não acredito que se desfaça, não. A gente perde o corpo, mas a consciência continua. É como se a consciência fosse uma gota etérea se esvaindo no espaço. É essa a impressão que eu tenho.

Mas aí tem o reencontro com seus pais, com os seus filhos?

Não sei. Eu acho que não. Agora eu acho que não… mas não sei, pode ser (risos).

Me conta um pouco sobre as suas experiências com ayahuasca, psilocibina, MD. Quais são os usos que você melhor encontra para cada uma delas?

Eu acho que todos os psicodélicos podem ser super terapêuticos. A ciência já mostra isso. Temos muitos estudos e principalmente avanços em situações clínicas mesmo. Quando a galera toma alguma dessas substâncias sob supervisão, com um terapeuta, um psiquiatra, um instrutor responsável pela experiência, conduzindo de uma maneira propícia para aquilo que a pessoa tá buscando, isso é maravilhoso. Acho que é muito bom, é uma forma de lidar com muitas crises e muitas questões. Eu vejo que os problemas que a gente tem coletivamente, da nossa civilização, são muito espelho do indivíduo. A gente tá nessa crise global porque as pessoas estão mal. Então, a gente consegue de certa forma pensar que pode curar o indivíduo e, com isso, pensar numa cura coletiva que será bem importante para a nossa sociedade. Diria que todas as substâncias psicodélicas são propícias para essa imersão no ser, para você se conhecer, entender suas dores, entender suas angústias, ficar mais em paz consigo mesma, conseguir cortar padrões e hábitos que já não fazem mais sentido na sua vida. Pela musculatura cerebral mesmo, é muito mais difícil sem os psicotrópicos, porque eles te ajudam a abrir uma janela de novos caminhos de conexões neurais que te ajudam a se transformar mesmo. Então, quando você vai para uma sessão dessas com intenção e com boa supervisão, e não só durante, mas depois também, ter esse cuidado e esse acompanhamento, as chances de a transformação que você busca na sua vida acontecer são muito altas. É aquela máxima que os profissionais de saúde mental falam e que Michael Pollan cunhou muito bem naquele livro dele, “Como Mudar a Mente”, o set and setting. A forma como você se coloca mentalmente e o ambiente em que você tá, na hora que você tá usando essas substâncias, vai dizer muito da experiência que você vai ter. Tô falando por experiência própria, não tenho dados, mas a mente, na minha opinião, influencia mais do que a substância na experiência que você vai ter. Se você tá feliz, despreocupado, confortável, seguro, isso vai te levar para uma experiência. Mas se você tá com medo, com raiva, com uma vibração mais baixa e preocupações, podem te dar uma outra experiência. Também não significa que estar um pouquinho mal não te permita melhorar. A ideia é sempre essa. Mas acredito muito em como a gente está se sentindo no momento. E o ambiente influencia muito. Você tá em casa com a pessoa que você ama, ou você tá numa aldeia com pessoas muito experientes, você tá num consultório, numa clínica com um profissional te guiando, isso também faz muita diferença. A forma e o contexto são fundamentais.

Eu tô vendo aqui nos comentários desse post sobre a psilocibina um que diz assim: “Uso recreativo é medicinal, mas não se enquadra em contexto terapêutico”. Eu vi que você concordou e bateu palmas pra esse comentário. Como você enxerga o uso recreativo e como ele se difere do uso medicinal?

O que difere é a intenção. Se você tem a intenção só de brincar, é uma coisa. Pode ser terapêutico em outros âmbitos, mas, quando você faz com a intenção de algo, por exemplo, naquele post eu falei sobre como usar psilocibina para parar de fumar, então você vai para a sessão com uma certa intenção. A intenção é tudo. Porque se você tem uma intenção, você tem um objetivo, e a psilocibina vai te ajudar a traçar esse caminho para chegar a esse objetivo de uma maneira muito eficiente. A outra questão é que a recreação é terapêutica. A gente nasceu para brincar, para se mexer, para socializar. Mesmo recreativo, qualquer coisa pode ser terapêutica. Dançar é terapêutico, não substitui terapia, mas é terapêutico. Cozinhar pode ser terapêutico. Assim como tomar cogumelo pode ser terapêutico. Mas a intenção é o que muda tudo.

E sobre a cannabis, Bela, como é que você usa dessa planta? Você fuma, toma gotinhas?

Não, eu não uso. Não sou muito da cannabis. Não me pega, não me pegou. Então eu prefiro, acho que eu já tenho uma onda meio canábica (risos), é algo de que não preciso.

Então você é mais psicodélica?

Totalmente.

E mais para brincar, ou você também vai buscando esse autotrabalho consciente?

Sim, tudo. Tem todos os gostos, todos os momentos, os psicodélicos são algo que veio para ficar na minha vida. Desde cedo. São substâncias mágicas mesmo, num lugar de, sabendo usar, tendo respeito, tendo consciência, é maravilhoso. Por isso fico muito feliz de ver essa onda voltando, da literatura, da academia, da ciência, tentando entender e pesquisando. Acho que é fundamental. A gente tem muitas respostas para as nossas questões coletivas e individuais, nesse momento de civilização em que a gente vive, nos psicotrópicos e psicodélicos. Fico muito feliz de ver isso deixando de ser tabu, se tornando uma disciplina, um campo de estudo mesmo. É fundamental, é muito lindo de ver. Porque quando as pessoas falam sobre liberar, descriminalizar as drogas, a maconha, por exemplo, a gente fala de duas substâncias, o THC, o CBD, mas tem muitas outras substâncias que influenciam, que impactam a nossa vida de tantas maneiras, com um potencial enorme e maravilhoso. Então, quando a gente estuda mais alguma coisa, quando a gente se abre para aquilo, tudo fica mais seguro, tudo fica mais fácil do que deixar no proibido, no crime, no clandestino. A chance de dar ruim, a chance de alguém se dar mal, a chance de consumir um produto adulterado, a chance de não ser bem guiado, a chance de dar merda é muito alta. Quando a gente tá dentro da legalidade, a responsabilidade é muito maior, dos fabricantes, dos distribuidores, dos consumidores. A responsabilidade aumenta, e, com isso, a segurança aumenta também. A minha visão é essa: que a gente enxergue essas medicinas como aliadas da nossa sociedade, que a gente possa cada vez mais pesquisar para trazer segurança e conforto para quem precisa usar ou para quem quer usar. Não precisar ficar se escondendo, não deixar de procurar ajuda por medo de ir para um hospital. É muito triste colocar algo que pode ser tão benéfico numa gaveta da obscuridade. É muito triste.

E dá para a gente esperar que você traga cada vez mais esse tema aos seus espaços, ao seu Instagram, ao Saia Justa? 

Quando eu comecei essa entrevista falando sobre a minha relação com essas substâncias, é uma relação muito de curiosidade e experimentação. Se no Saia Justa as pessoas conseguirem enxergar as minhas colocações como “ela tá trazendo o ponto de vista dela sobre aquele assunto”, e não como “ela falou, tá escrito em pedra, tá certo ou errado”, isso pode ajudar o diálogo. Isso pode ajudar a gente a começar a falar sobre essas coisas. Mas eu não sei, eu tenho dúvidas. Fazendo essa divisão entre Bela pessoa física e Bela pessoa jurídica, tem muitas coisas na minha vida, principalmente nesses últimos anos, em que minha vida deu uma grande reviravolta. Muitas coisas mudaram, muitos interesses mudaram, eu mudei, minha família mudou, minha casa mudou, minha cidade mudou, tudo mudou, porque eu mudei também. Então estou mais criteriosa em relação ao que guardo para mim e o que divido, pelo simples fato do contexto civilizatório em que a gente tá, muito agressivo, muito intolerante, muito impaciente, muito burro às vezes, pelo simples fato de não querer se aprofundar, de não querer ler, de não querer ouvir, de não querer saber. Então tenho me preocupado mais com o que vou falar e como vou colocar, quando são assuntos que dizem muito mais respeito à minha evolução pessoal. A mesma coisa aconteceu, na verdade, com a alimentação. Eu experimentei muito antes de ir para a televisão falar. Eu sou uma pessoa que gosta de experimentar no escuro. Gosto de experimentar sozinha, para mim, e depois eu trago. Então acho que essa conversa é muito embrionária no sentido de como e até onde eu vou compartilhando essas coisas. Eu acho que posso no futuro falar muito mais sobre isso, assim como posso pensar “tá bom, não, essa é uma experiência puramente minha, é algo que quero para mim e para os que estão ao meu redor”. Essa avaliação em relação ao meu comprometimento em compartilhar vai se dar naturalmente, conforme eu vou entendendo o mundo. Respondendo mais objetivamente (risos): não sei dizer. Mas acredito que sim, porque sempre gostei de compartilhar o que me fez bem, o que eu acredito que faça bem, não só para mim, mas para o coletivo. Mas o meu momento é esse, muito de experimentação e muito de respeito. Um respeito a mim mesma, à minha privacidade. Porque quando a gente se expõe muito nesse lugar, eu não quero me sentir travada em nenhum momento. E eu faço isso há muitos anos. Uso tudo isso há muitos anos, não é algo de hype. Mas mesmo assim, eu acho que tem experiências que são só nossas, e tudo bem. No mundo onde tudo e qualquer coisa se torna produto, uma conversa com uma criança, a imagem de qualquer coisa, hoje em dia qualquer coisa da sua vida privada ou profissional pode se tornar conteúdo. Na minha vida, eu tenho selecionado o que vira e o que não vira conteúdo, e isso tem me feito muito bem. Não sei o quanto irei me abrir para isso agora, mas provavelmente sim. Sou uma super usuária e simpatizante, e vou defender tudo o que vier para fazer com que essas substâncias se tornem cada vez mais seguras e acessíveis. Nesse lugar eu me sinto muito bem.